domingo, 22 de outubro de 2017

Meia volta



Aos oito anos, acordaram entre si que se casariam tão logo completassem vinte anos. Bem, dezoito, na verdade. Se possível, com dezesseis seria uma idade mais razoável. Ora, esperar doze, dez anos, não seria viável, mas oito, era um tempo relativamente curto. Encantados, não atentavam para a matemática e não se importavam com o fato de que teriam que viver exatos mais uma vida até a data de se unirem pra sempre.  

Enamorados, trocavam bilhetes, regalos, sorrisos... Era como se aquele amor inocente fosse durar pra sempre. Tinha a escola que os juntava por quatro horas diariamente. Durante as tardes, se viam às três pra um refrigerante na casa de um ou de outro. Nos finais de semana iam à igreja e por assim iam...  
Até para os pais de ambos,  parecia mesmo que iriam permanecer juntos pra sempre. Já  tinham chegado ao ponto até de  adquirir certa semelhança física um com o outro, tamanha era convivência. O que mais se ouvia na cidade era que eles formavam um casal perfeito.   

À medida que o tempo ia passando, como era de se esperar,  a menina se desenvolvia mais rápido. Aos dez anos, todos já a chamavam de mocinha. Ele, no entanto, permanecia com as mesmas feições de quando tinha oito anos. Ela completou onze, doze, lhe surgiram curvas de mulher, seios, e ele, coitado, com exceção de uns centímetros na estatura, não havia mudado em nada. Então, no processo de desenvolvimento, aos poucos eles foram naturalmente se afastando, ao ponto de sem conversar sem nada, de não  andarem mais juntos, nem se falarem. Ela não queria ser vista com uma criança. E ele entendeu isso depois de ser ignorado e humilhado umas cento e oitenta e três vezes, no mínimo.   

Ainda sim,  quanto mais ela crescia, mas o pobre menino morria de amores. Ele foi obrigado acompanhar, embora de longe, os rapazes mais velhos assoviarem, elogiarem, tocarem e beijarem a sua amada sem poder mover um dedo.  Era de matar.

Mas como o tempo não para, aos catorze anos, o garoto deu aquela esticada típica de todo adolescente. Mas não ganhou corpo, era somente um adolescente espinhento de pernas finas e alto.  E como era de se esperar, se antes ela não queria andar com uma criança, com um moleque feio que todas as meninas tiravam sarro, era que não seria possível.

Até que chegaram aos dezesseis. Ainda se viam, mas sempre que se esbarravam, sentiam qualquer coisa  embaraçosa, pois se lembravam da promessa feita enquanto criança. Ainda mais aquele ano que seria o ano do casamento. Mas ela havia se tornado uma linda mulher, cobiçada por toda a cidade, não iria nunca mais olhar pra ele. E nesta de achar que tinha o mundo masculino aos seus pés, ela foi se dando ao mundo como quem se joga num travesseiro de pena de ganso.  

Aos dezoito, o adolescente magricelo, agora mais arrumado, foi pra faculdade.  A moça bonita de quadris largos e seios fartos, no entanto, por ser muito cobiçada, não lhe faltava convites pra festas, casas de praias e assim, seguiram cada um pro seu lado.

O tempo foi passando. Atingiram os vinte e cinco, vinte e seis.  Ele ainda se lembrava dela uma vez ou outra, talvez até ainda resguardasse alguma centelha daquele amor da infância e adolescência, mas era coisa do passado, amor que dá e passa; sentimento passageiro que ele sentia de segundo em segundo.      

Aos trinta e oito, ele professor universitário, solteiro e atraente, na sua melhor forma, não tinha interesse em se amarrar a ninguém. Parecia que aquele amor do passado iria mantê-lo sozinho pra sempre. Até que um dia, ao retornar a sua cidade natal, ele resolveu saber do paradeiro dela. E certo que a encontrou facilmente na varanda da sua antiga casa numa tarde de sexta.


Ao vê-la de longe ele sentiu uma raiva estranha. Escondeu-se, passou a observa-la: ela ainda mantinha certas características do passado, embora adicionado uns bons quilos aquele corpão de quando tinha vinte anos. Na verdade só os  olhos eram os mesmos. Então, antes que ela o visse, ele deu meia volta e foi-se embora contente em ser testemunha das voltas que o mundo dá.      

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O JARDINEIRO



Planando o último metro quadrado de areia branca por entre as rosas, aquele jardineiro magricelo de cabelos lisos iria passar duas horas apreciando o trabalho que desenvolvera com maestria no intuito de atingir a certeza que não era um fracassado total.

Após concluir e começar vislumbrar o fruto do seu labor, ele constata que a areia branca trazida diretamente da Grécia por seus senhores para preencher os espaços entre as roseiras e os arbustos, em prática, lhe pareceu uma ideia mais acertada do que ele jamais supusera, pois o verde escuro das folhas, as rosas vermelhas, em contraste com a areia cintilante sob o sol das nove da manhã, era de uma beleza magnânima.

A jardinagem era o que ainda lhe proporcionava um pouco de prazer uma vez que a pintura, a sua verdadeira paixão, a sua vida, era uma atividade em que ele ainda não se julgava suficientemente bom pra que fosse ovacionado como ele sempre desejou.
Ele tinha como certo que um dia, quando ele finalmente pintasse o seu primeiro e único quadro até o fim, o mundo se curvaria aos seus pés. 
Embora ele não fizesse ideia do que iria preencher aquela tela, tinha como certo que não iria encontrar inspiração na racionalidade, ou no mundo que os homens criaram no intuito de enganarem a si mesmos que estão no controle dos seus destinos. 
Desde os onze anos, ele adquirira a obsessão pela busca da perfeição; o único quadro que concluiria, seria pintado tal qual Deus pintou o Jardim do Éden e, se assim não fosse, morreria tentando. E naquela jornada pra atingir a divindade, aquele exímio jardineiro jamais manteve vivo por mais de cinco minutos nenhum dos muitos quadros que pintara ao longo da vida, pois sempre que se aproximava de concluir uma obra, julgava humana e racional demais, logo, não era o que ele almejava. Ele sabia que era preciso ser menos gente pra atingir a divindade e, por conseguinte, pintar o quadro perfeito; o quadro que proporcionasse a quem tivesse a honra de apreciá-lo o mais puro terror em conjunto com o contentamento proporcionado pela beleza da dor selvagem e instintiva. 

Uma vez que ele ansiava pela sincronia com a mão de Deus, qualquer coisa que ele julgasse humano não era de seu interesse. Não mantinha relação alguma com seus semelhantes; nunca proferia uma palavra sequer ou olhava diretamente nos olhos de quem quer que fosse. 
Os patrões somente lhe direcionavam a palavra para alguma ordem sem graça, que ele nunca seguia a risca, pois tinha o seu jeito próprio de dar vida aquele jardim, que era se privando da sua própria. 
Desde que assumira o jardim, tudo ali era de uma beleza nunca vista em outro lugar no mundo, de modo que os patrões, mesmo notando a excentricidade daquele jardineiro, jamais o demitiriam, pois se habituaram aos elogios de seus conhecidos com relação ao seu jardim cheio de vida. Nem mesmo o fato da figura daquele homem magricelo chocar os poucos que o viam, embora raramente alguém se deparasse com ele, e se acontecesse, ele fugia como o diabo da cruz, não era motivo para demiti-lo. Ou mesmo seus hábitos pouco ortodoxos cujos assustavam até mesmo a mente mais perturbada, não lhe eram motivo pra que dispensassem seus serviços, embora suas verdadeiras loucuras, ele tomasse precauções pra que ninguém visse. 

Certa vez, no auge do frio do inverno, aquele fantasma do jardim, resolveu cavar um buraco na terra úmida de mais ou menos sessenta centímetros por detrás de uns arbustos na parte dos fundos da mansão. Ao concluir, se despiu, deitou seu corpo flácido e trêmulo de frio naquele que ele julgava não um buraco, uma cova, mas um portal para uni-lo em definitivo com a natureza instintiva, se enterrou com as próprias mãos deixando somente a boca e as narinas para captação de ar - e lá ficou por dois dias inteiros sem que ninguém o encontrasse, somente bebendo o orvalho que lhe caia a boca. 
Há que se lembrar de que tal empreitada quase o matou. Aquele ato era mais uma de suas tentativas pra atingir a inspiração pra “esculpir” o seu quadro divino. Ele tinha como certo que sob a terra úmida, vivendo junto, e, como um verme, ele se uniria a natureza selvagem e se desvencilharia de todo e qualquer sentimento humano, logo, ele poderia pincelar o seu quadro da mais pura beleza selvagem, como o seu Deus Pollock. 

Depois de chegar ao seu limite, de ouvir o pulsar da terra, de sentir que sua carne e a terra haviam se tornado somente um, ele reuniu o que lhe restava de forças, levantou-se evitando ao máximo que a terra que lhe pregara no corpo voltasse ao seu lugar justo, se direcionou até seu minúsculo quarto nos fundos do jardim, e lá, começou pintar o que seria o seu quadro destituído de qualquer humanidade. Mas depois de duas horas pintando, ele retorna a si, olha para a tela e se depara com a figura de um homem com uma corda no pescoço se equilibrando nas pontas dos pés sobre uma maçã pobre para evitar a morte. Os olhos daquele homem extramente assustados devido o medo da morte, provocaram pena ao jardineiro, sentimento humano menos nobre que ele já conhecera, então irritado, ele simplesmente se joga em cima do cavalete e rasga no dente aquele quadro mixuruca. 

Até aquela manhã, aquele homem sem vida já havia desenvolvido as mais excêntricas estratégias de modo a inspirar-se para seu único quadro, mas todas haviam se demonstrado inúteis. 
Certa vez, ele chegou a cortar os pelos dos cílios a fim de não mais dormir no intuito de despertar pelo sofrimento o seus instintos mais selvagens. Mas depois de seis dias, ele somente conseguiu pintar uma moça espanhola pastoreando ratos no alto de uma colina. Não era a pintura sublime que ele buscava, nem era pintada com a arte que ele almejava alcançar, então, mais uma vez se desfez do quadro. 

Mas naquela manhã, havia qualquer coisa de diferente, embora ele não soubesse o que era. Apreciando a areia branca, ele refletia sobre o fato que talvez jamais conseguisse atingir seus objetivos. Tais ideias começaram reverberar no que ainda lhe restava de humano e sentindo-se um fracassado de merda, ele profere um grito tão alto e diferente que arrepiaria até os mais indiferentes corações. Em um ato intuitivo, descalça suas botas que já ostentavam quatorze anos, e gritando tudo que ele havia guardado para si a vida toda, começa correr sobre a areia branca deixando suas pegadas como evidência do seu descontentamento com tudo. 
Ele corria feito um lobo faminto em direção a uma presa que sabia que jamais alcançaria. Até que, em meio às roseiras, bem no centro do jardim, um espinho lhe perfura o braço, fazendo com que o sangue caísse na areia branca. Sem se dá conta da dor, aquele homem corria deixando uma trilha vermelha por onde passava. Quando ele finalmente sente o líquido quente deslizando por seu braço, ele para, ignora o ferimento, olha para trás e se depara com os rastros de sangue. Ali ele entendeu que tudo que ele passara durante a vida, toda dor, resignação, conspiravam pra que ele chegasse aquele momento. Finalmente tudo fazia sentindo. 
Sem pensar, ele se despe e torna a correr totalmente nu, mas agora em direção as roseiras. Ele se lança aos espinhos como um touro feroz aos chifres de um rival. A sua pele frágil, jamais exposta ao sol, é dilacerada pelos espinhos derramando a sua vida por onde passava. Ele corria e a trilha deixada formava linhas instintivas totalmente destituídas de vontade. Apreciando o seu próprio espetáculo, em euforia, ele ignorava a dor, os homens e a vida. 

Os cortes deixados pelos espinhos das rosas não eram suficientes para que ele finalmente concluísse o seu quadro magnânimo, então ele lança-se aos cactos se provocando assim cortes mais profundos mas que pouco importavam, já que lhe rendiam a tinta que precisava. Ele era senhor de si mesmo, pintando o quadro da sua vida, o quadro que qualquer um que visse, apesar da dor, da aversão ao sangue, não conteria o contentamento em apreciar tão divino espetáculo. 

De repente, ele para em frente a uma gota do seu próprio sangue, acocora-se, e nota uma formiga numa tentativa infrutífera de se livrar do sangue coagulado, mas já perdia as forças. Eis que, pela primeira vez na vida, aquele jardineiro excêntrico ensaia um sorriso. Após a formiga perder totalmente os movimentos, ele se levanta e continua... Ele não podia parar! Finalmente iria concluir a pintura da sua vida. Logo, sem escolhas, ele se lançou mais e mais vezes sobre os cactos. E continuava a correr sem direção. Até que, depois de mais de uma hora, ele para, gira em torno de si mesmo bem no centro do jardim, e vislumbrando finalmente a sua obra perfeita, desfalece de braços abertos na areia grega agora vermelha. Ali deitado, ofegante, ele conclui que aquela pintura, o quadro da sua vida, só poderia ter sido pintada por alguém caminhando no vale da sombra da morte. Eis que, ele profere o último suspiro ciente de que tinha finalmente atingido seu objetivo maior. 

Alguns segundos depois, um rouxinol pousa compassadamente no ombro sem vida daquele Jardineiro embebido em seu próprio sangue, e inicia cantarolar o canto dos deuses, conferindo som aquela pintura que já tinha cor, aroma e dor. 





Samuel Ivani

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O afinador de pianos



Horácio faleceu as quinze horas enquanto afinava o piano de Anastácia Vespato pela enésima vez nos últimos quatro anos. Por razões que ambos conheciam, aquele piano tinha o dom de desafinar ainda que ninguém o tocasse de dois em dois dias. 
Anastácia ostentava setenta e três anos e Horácio poderia ter completado oitenta e um senão fosse aquela natural fatalidade enquanto ele pressionava repetidamente o dó do piano aquela tarde. 

Anastácia preparava um chá na cozinha para que tomassem depois que Horácio constatasse que o piano se encontrava tão afinado quanto dois dias antes. 
Ambos sentariam na varanda, Anastácia lhe serviria o chá, lhe ofereceria biscoitos que ele recusaria com um gesto de negação. E passados exatos um minuto e meio em silêncio, Horácio perguntaria a quantas andava os planos da pintura da casa, e Anastácia responderia que ainda estava em dúvida sobre as cores, embora já tivesse assuntado com o pintor pra que ficasse atento que tão logo ela decidisse, iria chamá-lo. Horácio então sugeriria salmão. Anastácia responderia que não tinha um gosto acentuado por peixes. Horácio riria e diria que salmão era uma boa cor pras paredes da sala, e não estava a convidando pra um jantar regado a salmão. Anastácia, mesmo já tendo vivido a mesma situação diversas vezes, riria abertamente e diria que embora vivessem hibernando, não eram ursos pra comerem salmão. Ambos cairiam na gargalhada, pois Anastácia teria adicionado um fato novo aquela conversa, que eram os ursos. Horácio ficaria feliz, pois compreenderia que um dos dois tinha se preocupado em tornar aquela situação, para ambos prazerosa, mais atraente ainda. 

Anastácia lentamente corria no forno, verificava os biscoitos e absorta em seus próprios pensamentos, não percebia que as notas do piano não eram mais emitidas lá da sala. Ou talvez já tivesse notado, mas no seu subconsciente, Horácio só tinha demorado menos tempo fingindo que afinava o piano já afinadíssimo.
Como ela queria que ele em vez de tentar afinar, tocasse qualquer coisa, talvez Villas Lobo. Mas desde que se conheceram, nem ele nem ela, haviam tocado nada para o outro naquele piano que dadas as vezes que era afinado, talvez não houvesse em todo o mundo um piano que emitisse notas mais perfeitas. 

Já havia alguns dias que Anastácia treinava uma composição de Vangelis, um compositor pop, segundo a televisão, no intuito de tocar pra Horácio, pois não era justo que ele afinasse tanto o piano sem nunca ouvir música de verdade saindo de suas entranhas. 
Anastácia tinha tantos planos para aquela tarde. 
Tencionava até em pedir que Horácio ficasse para o jantar. Eram vizinhos e ambos solitários, então, não custava nada se proporcionarem um pouco mais da companhia um do outro. 

Depois do chá pronto exatamente na medida que Horácio apreciava, ela prepara a bandeja e sem saber como, repara nas flores pintadas nas bordas dos pires; eram cores tão vivas que a fizeram lembrar de sua mocidade quando corria pelos campos de flores sem intenção de chegar a lugar algum. Então lhe ocorreu a brilhante ideia de colocar uma rosa artificial que tinha no armário no centro da bandeja. Feito isto, ao vislumbrar aquela bandeja colorida, constatou que tinha sido uma ideia acertada. 
Depois de tudo pronto, Anastácia respira fundo e se direciona a sala com mais vida do que de costume. Ao caminhar, ela estranha o barulho dos seus pés arrastando-se no piso da casa, pois nos dias anteriores, o som do piano suprimia o barulho dos seus chinelos. Eis que ali, ela notou qualquer coisa de diferente. 

Ao chegar a sala, Anastácia vê Horácio sentado ao piano ainda pressionando a nota dó...

domingo, 15 de outubro de 2017

Diário de um escritor medíocre







DIA 1

Acordou às nove da manhã. Verificou que era sábado e que, por aquela razão, não teria que ir a faculdade. Pensando assim, ele refletiu uns cinco minutos se valia a pena tomar café, escovar os dentes, tomar banho, uma vez que não sentia fome nem iria ver ninguém. Ao menos não que estivesse nos seus planos. 

Ao abrir de fato os olhos, a realidade lhe cobriu de tudo que ele já conhecia bem. Era tudo tão igual que ele se irritou. Mas sem forças, manteve sua ira apenas mentalmente: “Um homem devia, pelo menos uma vez por semana, acordar em um ambiente que não conhecesse a disposição dos móveis, para assim, esbarrar com a canela na quina do criado mudo e aquela dor terrível lhe servir como aviso de que ele ainda estava vivo”. Ora, encontrar provas da própria existência numa rotina que todos os dias parecem segundas feiras não é simples. Como bem disse Sartre. 

Sentou-se na sua velha rede. Olhou seu quarto sem reboco. Verificou o telhado confeccionado de madeira mixuruca. A sua rede de dormir minúscula no meio daquele quarto enorme lhe pareceu uma cena tão solitária de dá dó. Ali, imaginou-se como se ele fosse uma câmera filmando aquela cena do alto: a tomada pegava um homem medíocre, de sonhos medíocres, sentado numa rede sem charme, e sem razão nenhuma pra levantar. 

Deitou-se novamente, acionou uma música no celular e tentou dormir mais uma vez. Desejou pular o final de semana, acordar somente na segunda, pois segunda feira sendo mesmo segunda feira era justo que fosse mesmo chata e sem graça. Não era justo que todos os dias fossem como eram. 

Não conseguindo voltar a dormir, ele levanta-se, escova os dentes, não toma café, pois sente que a fome lhe traria qualquer iluminação pra escrever um conto sublime, pois já fazia uma semana que não escrevia nada. As sensações do último texto já estavam se esvaindo e a abstinência travestida na descrença no seu talento já lhe corroia o estômago. Escrever para ele era simplesmente um vício como qualquer outro. Toma-se uma dose hoje, se alimenta daquela sensação por um tempo, mas depois surge novamente a necessidade de mais. E como ele nem lembrava mais o tema do seu último texto que ninguém leu, a sensação que ele não passava de um homem destinado a produzir carvão vegetal no quintal de casa o resto da vida, já lhe consumia aos poucos. Era preciso escrever. Mas como? Nada lhe ocorria. 

Após escovar os dentes, retornou pra rede, leu um pouco de Nelson Rodrigues: o escravo etíope. Ficou maravilhado com a vida como ela é. Refletiu que as pessoas hoje em dia estão sendo levadas a acreditarem numa vida fictícia, cheia de flores e balões o tempo todo, de modo que não mais aceitam a vida como ela é. Concluiu então que ele nunca seria lido mesmo. Não naquele novo mundo do positivismo barato e inútil. 

Num relance, lembrou-se que tinha que preparar um seminário de matemática pra apresentar na próxima quinta. Quis morrer. Fechou os olhos e desejou com força que ao reabri-los, em vez de mãos, ele veria belos cascos, umas patas malhadas, e tetas prontas para ordenha. Pelo menos, naquela nova forma, ele teria mais chances de ser abduzido pelos aliens. Como lhe custava às obrigações fúteis da vida. Se bem que o seminário era só quinta, ainda tinha muito tempo pra procrastinar. 

Após verificar com dor que não havia sido transformado numa vaca, foi obrigado a levantar pra ir até a cidade com a mãe pagar umas contas. Verificou o combustível da moto, se desse para a viagem, seria uma sorte tremenda. Sua mãe, ao verificar a sua cara de desesperança, diz com todas as letras que viviam tempos negros, época de vacas magras. Ele quis rir da ironia do destino, mas não encontrou motivos suficientes. 

Ao chegar ao posto de gasolina, foi taxativamente cobrado pelo dono, pois tinha lá uns vales que já datavam de quase dois meses. Quarenta reais no total. Ele tinha consciência do débito, mas não tinha pagado porque já fazia uns três meses que não via cor de dinheiro. Os trabalhos universitários que ele fazia a muito custo em troca de alguns trocados, aparentemente tinham ido repousar em pastos verdejantes, de modo que ele vivia realmente “tempos negros como dizia sua mãe”.

Embora aquele escritor medíocre estivesse acostumado às humilhações, aquela cobrança lhe doeu mais do que de costume. Talvez estivesse amadurecendo um pouco. Tomando vergonha na cara. No entanto, vergonha na cara não paga conta, então ele se obrigou a dizer a verdade sobre os fatos e recebeu de troco expressões de reprovação. Como adicional, ouviu a frase que mais parecia um mantra na sua vida: cara, tu é tão inteligente, porque não arranja um emprego? Ele respirou fundo e saiu. Não valia a pena tentar explicar. Seria como tentar explicar conceitos de arte para os analfabetos que confundiram uma apresentação no Museu de Arte Moderna de São Paulo com pedofilia. 

Naquele instante, ao ser cobrado, ele se viu na pele de Lucien de Rubempré e de Arturo Bandine, mas embora aquilo lhe fomentasse as humilhações, não se sentiu muito bem ao pensar que só estava trilhando o mesmo caminho de seus ídolos. Não como antes. Não havia nada de glamoroso na vergonha de ser cobrado. É! Talvez ele estivesse mesmo amadurecendo.

Não tendo realmente como quitar a dívida, e obrigando-se abastecer a moto mesmo assim, ele teve que engolir o pouco de orgulho que lhe restava, e pediu que completasse a nota de cinquenta reais no vale, prometendo que era a última vez e que pagaria no final do mês. Sabe-se lá se ele teria dinheiro para tanto, mas valeu-se da fé, já que era o que lhe restava. 

Diante daquela situação, ele se irritou profundamente ao notar-se aos 27 anos, um homem de barba, tendo que passar por aqueles perrengues unicamente por amor a sua arte. Quanto sacrifício faz por tua arte Samuel! Que coragem você possui! 

Depois de conseguir abastecer a moto, ele se direcionou até a casa lotérica pra pagar um boleto fazendo um favor pra seu irmão. Duzentos e vinte sete reais no total. Dos duzentos e cinquenta reais que o irmão lhe dera, restaria vinte e três, que ele poderia dá de AV nos vales do posto. Mas irritado, cansado de tudo, resolveu que iria tentar a sorte na Mega Sena. Ele tinha sofrido muitas humilhações aquele dia, talvez o universo lhe agraciasse com o prêmio pra que ele nunca mais passasse por tamanha ignomínia. Então convicto, fez três jogos no valor de dez e cinquenta, e o restante entregou a mãe pra completar a compra do almoço. 

Retornaram pra casa, e como era sábado, restava somente esperar o resultado da Mega sair quando chegasse a noite. 
Diante da náusea, das lembranças, do tempo, começou refletir sobre o que faria se ganhasse muito dinheiro de uma só vez, e chegou à conclusão que com certeza abandonaria o sonho de se tornar um grande escritor.
 Concluiu então que talvez não fosse uma boa ideia torna-se rico assim de repente. 
Porém pensou nas humilhações que já passara por conta da falta de dinheiro e resolveu deixar o universo decidir aquilo por ele. Embora lá no fundo, ele soubesse que não queria mesmo ganhar aquele prêmio. Não mesmo. 




quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Dia da criança em mim






"Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida"

Até meus sete anos eu vivia numa casa sem energia elétrica e ia dormir tão logo a noite trazia consigo a escuridão. Mas acordava às cinco da manhã tão feliz por ser dia, e com uma ânsia de viver, pois não pudia perder nenhum segundo da luz do sol.
Eu levantava cheio de energia, apesar, de muitas vezes ter apenas o café “churro” para tomar, como diz minha mãe. Eu adorava o cheiro da manhã, o ar frio em contraste com o sol forte das primeiras horas do dia, o barulho da colher no bule que evidenciava que tinha de fato o café. E não sinto que perdi nada com isto, pois sem luz e um mundo externo visível, só me restava imaginar - e como eu imaginei...

Também enquanto criança, lembro de ouvir boquiaberto um conto de fadas intitulado "a gata borralheira" na voz doce de uma vizinha que tinha uma habilidade louvável de contar a mesma estória de forma diferente inúmeras vezes. E como só vim a ler o primeiro livro com vinte e três anos, talvez tenha sido ela que me instigara o gosto pela literatura.

Minha infância tornou-me quem eu sou: todos os medos, todas as fantasias, a capacidade de criar, tudo fora desenvolvido enquanto criança. Eu não tinha livros, televisão, vídeo game, tinha apenas minha mente e mundo real a minha volta pra fugir da realidade.
Recordo-me de passar horas sentado próximo as plantinhas que cresciam no inverno a beira da estrada, sonhando acordado que eu tinha a habilidade de encolher, então os arbustos se tornavam florestas, as poças de água transformavam-se em rios, e eu era um soldado de guerra com a missão de salvar prisioneiros, como no filme do Chuck Norris que eu via na casa do vizinho.

Desde criança, sempre fui um apaixonado galante. Todo ano, invariavelmente, eu desenvolvia um amor daqueles dos cavaleiros da Távola redonda por alguma garota da escola. Eu sonhava salvando tais princesas de maus feitores tão comuns quanto eu. Somente eu via a nobreza das princesas, para todas as outras pessoas elas não passavam de plebeias que faziam cocô como todo mundo. Eu escolhia não acreditar e tudo era tão real e palpável.

Quando criança eu tinha medo de carro preto, de estrela cadente, de chupa cabra, do "assubiador", de ficar de vovó em brincadeiras de roda e muitos outros medos, mas hoje sou muito grato à cada um deles, pois me proporcionaram uma imaginação fértil cuja é a principal ferramenta do meu ofício.
Eu não cresci na era da tecnologia, da informação, da Pepa Pig, mas não me sinto superior por isso, nem inferior, me sinto apenas um privilegiado por talvez ter sido um dos últimos que teve a oportunidade de vivenciar experiências tão ricas.

"Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida"




Samuel Ivani

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Mente vazia, oficina do diabo




A pesquisadora carioca Suzana Herculano Houzel, a partir da contagem dos neurônios do cérebro humano e descobrir que temos oitenta milhões e não cem, como se pensava, desenvolveu a hipótese de que o quê permitiu que o nosso cérebro se desenvolvesse além dos outros animais, foi o hábito de cozinhar os alimentos.

O hábito de cozinhar se trata de uma pré-digestão fora do corpo, logo, ao ingerirmos alimentos cozidos o nosso organismo absorve uma quantidade de energia muito maior em um menor espaço de tempo, diferentemente do que se ingeríssemos somente alimentos crus.

Os gorilas, por exemplo, pra conseguirem a quantidade mínima de calorias necessitam se alimentar de folhas durante oito dez horas ininterruptas por dia. 
Assim sendo, o hábito de cozinhar nos proporcionou tempo livre que usamos pra desenvolver as capacidades cognitivas.

À medida que fomos desenvolvendo a racionalidade, foi surgindo a agricultura, agropecuária, supermercados, restaurantes, "I-food" e por aí em diante, de modo que, a cada dia que passa, nos sobra mais tempo. 
Como preencher este vazio? E se a cada dia ingerimos mais calorias cada vez com menos esforços pra consegui-las, pra onde direcionar toda esta energia? Qual será o próximo estágio da racionalidade?

Suponho que, além da obesidade, este vazio ocasiona problemas psicológicos sérios. Ora, já se sabe há muito tempo que mente vazia é oficina do diabo. Se adicionar esta mente vazia a solidão então, temos o inferno. "Não é bom que o homem viva só". 
Muitos adolescentes sedentários e solitários, ao se depararem com o vácuo de não saber pra onde canalizarem sua energia, e não fazendo nem mesmo esforços físicos pra liberarem a quantidade de serotonina necessária pra serem felizes, desenvolvem distúrbios como se cortar e etc. Basta uma fagulha, pra que ele se rebele e queria descarrilar a ordem. Não só adolescentes, mas a qualquer idade, mente vazia nos leva ao próximo estágio da racionalidade que é a loucura.

Que nos ocupemos; que busquemos canalizar nosso excesso de energia e o nosso tempo para algo útil, senão, nos surge as mais variadas insanidades como forma de preencher este vazio. 
Haja vista que quanto mais desenvolvido o país, mais ocorre tragédias em que indivíduos tiram a vida de muitos e depois a própria. Maldita hora que nos sobrou tempo pra questão do "Ser ou não Ser".

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Consequências




Desde que nasceu ele foi lançado ao Deus dará. O pai, jamais conhecera. A mãe, pouco centrada, o alimentava e vestia por obrigação. Gestos de carinho para com ele,  ela proferia somente na presença dos vizinhos numa tentativa infrutífera de manter uma boa imagem. Se lhe faltava dinheiro, ela descontava em forma de pancadas no filho; se brigava com o namorado, da mesma maneira. Sempre que se sentia infeliz com qualquer coisa, ela acabava por descarregar no filho de alguma forma. De modo que ele foi crescendo sozinho. E em meio à solidão, aquele garotinho foi cada vez mais se aprofundando em si mesmo. Não lhe foi permitido que ele construísse o seu leviatã, então os pensamentos selvagens foram encontrando terreno fértil para se expressarem. 

Ainda na mais tenra infância, ele passava horas no jardim tentando encontrar razões pra não fazer xixi nos formigueiros. Mas não encontrando, ele inundava cada um deles, e, instintivamente, sentia-se bem ao ver as formigas em fuga. Aquele gesto lhe parecia justo. 

Estranhamente, em suas noites solitárias, ele alimentava o desejo de encontrar um garotinho gordo na rua pra enchê-lo de beliscões até jorrar sangue daquele corpo macio. Mas das poucas vezes que teve chance de realizar tal ímpeto, não ficava sem consequências. Sempre o pai de alguém vinha reclamar com sua mãe e ele sempre apanhava mil vezes mais que os beliscões que ele dava no colega. Assim sendo, ele foi, aos poucos, entendo a diferença entre as formigas e os homens. Ora, tudo tinha consequências. Nenhum ato, por menor que fosse, era perdoado. A vida tinha uma ordem, que se não seguida, o convívio com as outras pessoas não era possível. E eram aquelas limitações que ele começava odiar. 

À medida que ele crescia, cada vez mais sozinho, não faltava tempo pra que pensasse sobre a vida, sobre a existência das coisas e de si mesmo, e sempre chegava a conclusão que tudo era uma causa perdida. 

Ao chegar a vida adulta, apesar de pouco sociável, ele precisou, como todo mundo, tornar-se alguém na vida. Embora no seu íntimo ele não suportasse aquelas obrigações fútil da vida comum, ele seguiu a ordem: estudou, trabalhou, conheceu alguém atraente, ao menos à primeira vista, e casou-se. 

O matrimônio não durou muito. Não por ele ser violento, ou qualquer coisa que o valha. Até que aquele garotinho selvagem tornou-se pacato até demais após a adolescência. Era que simplesmente o mistério que existia em relação a sua esposa desapareceu e levou consigo o “tesão” que ele sentia por ela. Ela era uma mulher comum, com problemas comuns e aquelas futilidades lhe pareciam pouco agradáveis. 

Depois do divórcio, ele retornou a sua solidão costumeira. Apenas alguns relacionamentos efêmeros, nada que o obrigasse a conviver mais que uma semana com a mesma pessoa. 

Depois de trinta anos trabalhando como professor do Estado ele se aposentou. Foi então que o vazio da infância lhe ocorreu novamente e daquela vez com maior intensidade, uma vez que daquela vez, ele não tinha mais obrigações reais para com ele nem para com outro alguém.

Sem filhos, sem ninguém que ele amasse ao ponto de lutar por suas existências, os pensamentos sombrios e o ódio pela ordem da sociedade foram tomando forma em sua mente cheia de inutilidades. Ele queria a liberdade de descarrilar a ordem sem que as consequências caíssem sobre ele, assim como inundava formigueiros no jardim enquanto criança. 

Eis que, dois anos depois de aposentado, numa manhã de setembro, ele tomou um ônibus na rua que ele sempre morou e passou a rodar a cidade com destino já traçado.

Numa rua reta do centro, ele levantou-se, se dispôs do lado do motorista, olhou para as poltronas atrás de si; eram tantos rostos comuns, tantas pessoas preocupadas com futilidades que ele não suportava. Tomou o revólver que trazia consigo, apontou para o motorista, porém, antes de apertar o gatilho, teve tempo pra se arrepender daquele plano idiota.

Mas o gesto já tinha sido proferido, as pessoas já tinham visto, se ele voltasse atrás, as consequências iriam cair sobre ele. Mas não daquela vez. Foi então que ele apertou o gatilho tirando a vida do motorista, tomou o volante e girou a toda pra direita levando o ônibus de encontro aos pedestres na calçada. Após alguns metros, o ônibus tombou.

Aquele aposentado, ao se notar ainda com vida, e já ouvindo os gritos das pessoas na rua, gritos que eram consequências da sua loucura, ele procurou o revólver de modo a concluir os seus planos de descarrilar a ordem e fugir das consequências, mas a arma tinha se perdido na confusão. Entrou ele em desespero, mas com uma perna quebrada, nada podia fazer.
Ele seria obrigado, mais uma vez, enfrentar as consequências dos seus atos.