sexta-feira, 20 de abril de 2018

Um homem de sorte





Como carregara a certeza que havia nascido pra algo grande à vida inteira, aquele homem já aos vinte e nove anos, finalmente se dava conta que talvez não tivesse nascido era pra nada. Nada mesmo. Ele era vazio como Macabéia de Clarice Lispector, a diferença era que se achava tão cheio quanto Dostoievski. Também, ele escolhera a literatura, que era um ramo difícil pra se destacar e ser grande como ele sonhava. Na literatura, pela sua vivência na luta, ele entendeu que talvez não se conseguisse vencer somente com luta. Ou talvez ele que lutasse pouco. Não se sabe. Ora, a escrita, por ser amplamente democrática, pra se destacar no que vai além do comum, é preciso qualquer coisa que ele não tinha e não sabia onde buscar.   E talvez a escrita, diferentemente do que ele pregava ao mundo, não passasse da forma que ele tinha escolhido pra vencer na vida, ou melhor, ganhar dinheiro, pra consequentemente ser respeitado como gente, pois até então era como merda n’água boiando ao sabor das correntes.  Talvez no fundo, pouco importava os meios como ele iria conseguir dinheiro pra possuir coisas e existir, o que importava mesmo era que conseguisse. Certo que depois dos cinquenta talvez ele se desse conta que existir era muito mais que possuir isto ou aquilo. Mas por enquanto, naquela ânsia por casar-se, construir família, ter filhos, ele precisava mesmo era de dinheiro, toda a metafísica relacionada a existir que se explodisse.

Nesta ânsia, ele tinha uma ideia de dinheiro muito além da sua realidade, pois se ele não tinha dinheiro algum, justo que se contentasse com pouco. Mas não. Ele queria muito, mas muito mesmo. Queria o suficiente pra não precisar mais de dinheiro. Tipo: ter dinheiro pra conseguir comprar o que quisesse tão somente lhe surgisse o desejo.  Mas por osmose ele não conseguiria, trabalhando também não. O jeito era se tornar um grande escritor, ou ganhar na loteria. E como ele tentava... Tanto apostando nos jogos quanto no sonho de ser o primeiro escritor brasileiro a ganhar um prêmio Nobel. Mas parecia que vencer no ramo literário era mais difícil que ganhar na loteria. Embora ele jogasse também só pra manter suas esperanças vivas, pois ele sabia que no Brasil, com o nível de corrupção enraizado em tudo, talvez os jogos da caixa econômica fosse somente outra forma dos políticos roubarem de forma mais direta os cidadãos.

À medida que o tempo passava, ele já perdia as esperanças em ambos os sonhos, uma vez que a crença e o pensamento positivo não eram suficientes pra que ele os realizasse, diferentemente do que pregava a autoajuda e os palestrantes Coach.   No entanto, toda semana, ele fazia mais um jogo na loteria, ainda que sem esperanças reais. Esperanças reais ele não tinha, mas ainda ficava fazendo planos do que iria fazer com o dinheiro do prêmio caso ganhasse. Iria fingir que era pobre ainda por um bom tempo pra que ninguém desconfiasse que ele fosse milionário, isso era pra evitar ambições e não pôr em risco a sua família. Ele tinha a ideia que só ter a certeza de que tinha o dinheiro na conta bastaria; que não iria ter a necessidade de extravagâncias, como carros de luxo, mansões, essas coisas que faria com que todos soubessem que tinha sido ele a ganhar o prêmio. O importante era que nunca mais ele iria ter que se privar, por exemplo, de ir um jantar com os amigos por falta de uns trocados. Nunca mais ele iria deixar de ir a um encontro por falta de dinheiro pra pagar um lanche pra companheira. Nunca mais faltaria dinheiro pra um açaí aos fins de tarde. Isto seria maravilhoso.  A única coisa que ele compraria seria um vídeo game de última geração pra conseguir frear o desejo de sair de casa e gastar seus milhões as vistas de Deus e o mundo. Pois vontade ele teria, lógico, mas logo descobririam que ele era o ganhador do prêmio e cairiam pra cima pedindo, ou assaltando, ou matando. O que não faltavam era notícias de pobres coitados que ganharam grandes fortunas e foram assassinados brutalmente nos noticiários.        
  
Numa semana despretensiosa, ele havia mais uma vez repetido um jogo que fizera na semana anterior  e foi conferir o resultado na internet. Quão grande não foi sua surpresa ao ver que os números coincidiam. Ele não quis acreditar. Soltou o comprovante no chão do seu quarto sem piso, foi até a geladeira, tomou um copo com água - e ofegante retornou ao quarto sem ainda cair à ficha. Como o quarto nunca tivera luz, a escuridão impedia que ele conseguisse reencontrar de primeira o comprovante da aposta, fato que fez com ele entrasse em desespero por bobagens que lhe surgiam a mente: e se alguém tivesse  entrado no quarto enquanto ele havia ido  tomar água e sua fortuna antes mesmo dele a ter de fato?  Movido por esses pensamentos loucos, com a lanterna do celular ele iluminava o quarto até que conseguiu encontrar o comprovante. Ele olha novamente os números, o coração a mil, constata que de fato havia ganhado 23 milhões de reais.

Atordoado, deita-se na sua rede antiga, cheira seu lençol que talvez já datasse de mais de sete anos, e tenta ficar parado, mas não consegue. Ele olha pra sala, nota sua mãe em frente à televisão vendo suas novelas e pensa em correr, abraça-la e contar que todas as privações, toda dor dela em relação à falta de dinheiro acabara ali, pois ele havia finalmente ganhado na loteria. Porém não o fez. Ele queria guardar só pra si aquela alegria um pouco mais. Sem contar que ele já tinha repetido mentalmente aquele momento milhares de vezes. Ele não iria contar pra sua mãe de cara. Só contaria quando finalmente tivesse com o dinheiro em mãos e não seria assim, de cara, contando que havia ganhado na loteria. Primeiro ele iria comprar carnes todos os dias, fato que faria com que ela estranhasse da onde ela tirava o dinheiro, ele responderia que não se preocupasse com isso. Depois compraria cerâmica pra colocar na casa toda, pois era um dos sonhos da sua mãe. Mandaria arrumar a casa toda, da maneira que sua mãe sempre sonhara. Sem dizer que estava rico iria realizar todos os sonhos dela. Talvez nunca contasse de fato, ela não iria aguentar sem contar ao mundo que estava rica. E seria muito justo que contasse ante todas as humilhações que ela passara a vida toda por ser pobre, por não ser ninguém. 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Estação


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Casou-se Eulália. 
Amigou-se Amanda.
Arranjou-se Florisbel.
Perdeu-se Selena ninguém sabe onde. 
E assim, foram partindo todas...
Era como se ele estivesse sentado junto a uma estação,
e aquelas mulheres fossem trens que paravam, ficavam quinze minutos 
e logo partiam sem que ele tomasse coragem pra seguir viagem também.

Talvez ele esperasse na estação, não os trens, mas uma guerra, um terremoto, um tesouro roubado de uma francesa dona de bordel, só pra que um dia, um daqueles trens escolhesse ficar, ou não tivesse escolha, senão, ficar.
Aquela foi à forma que ele encontrou de transferir para o mundo a culpa por ser um péssimo pescador de pessoas.
Embora se sentisse o homem mais inteligente, mais amável, o homem dos amores de cinema, ele não soube transcender além daquela imaginação um amor que fosse.
E depois de um tempo ele foi se acostumando à arte de perder amores.
Culpou-se a vida toda por sua covardia, mas se acostumou...

sábado, 31 de março de 2018

Sacrifício




- Você é um bom Cachorro Rino. Não acredite em ninguém que lhe disser o contrário. Certo que abocanhou a cadela da advogada, mas convenhamos Amigo, aquela cachorra de apartamento não aguentava nem um sopro forte. Muito mimada, com roupinhas ridículas, de nariz empinado, se achando a dona do bairro. 
E também eu concordo com você; cães são cães, não se deve humanizá-los colocando roupinhas e laços... Vocês ficam ridículos e perdem as características caninas. Quem é que gosta de perder a própria identidade, não é? Lógico que nada justifica a violência. 
É. Eu sei, ela ficava mesmo ridícula com aquelas roupinhas rosas! "Hum!" A gente rir, mas a situação é séria. Mas lógico que tudo era culpa da dona. Tenho certeza que se aquela cadela tivesse escolha, não usaria aqueles adereços. 

É. Somos responsáveis por nossos cães, logo, eu sei que é culpa minha que você nunca tenha saído dos limites desses muros. Eu quis protegê-lo do mundo feroz e acabou que você não aprendeu conviver em harmonia com os outros cães. Não aprendeu dividir território, a respeitar o espaço dos outros, a compreender que não se deve usar de violência só porque o outro é diferente, ou mora em outro bairro, em outra casa. Eu devia tê-lo levado pra passear além dos muros, mostrado o mundo, mostrado que existem outros cães e eles não representavam perigo a sua liberdade de existir e nem iriam comer o alimento destinado a você. Foi tudo culpa minha. Não só por ter descuidado do portão e você ter fugido e avançado na cachorra da advogada, mas por tudo, desde que você nascera. 

Porque cargas d'água aquela cachorra tinha que ser tão pequena? Ela devia ter resistido a sua investida. Mas nem ela, nem você, tem culpa da genética ter lhe proporcionado tanta massa corpórea e a ela nenhuma. 
Mas aquela advogada devia ter ponderado um pouco mais, um processo foi tempestade em um copo d'água, não acha?
Ora, mas quem é que vai ter a presunção de mensurar o amor de alguém pelo seu cão, não é? Vai saber a importância que aquela cachorra tinha pra ela. 
Talvez ela preenchesse com a cadelinha o vazio de nunca ter tido filhos. 
Mas ela também devia ter pensado no apreço que eu tenho por você. 
Ela devia ter pensando o quanto me vale o fato de você sempre me receber com alegria quando chego em casa. Ela devia ter pensado na segurança que você me proporciona. No carinho que eu tenho em alimentá-lo. Ela devia ter cogitado a possibilidade que o amor que ela tem pela sua cadela, é o mesmo que eu tenho por você. Mas os seres humanos são egoístas Rino, só pensam em si mesmos, diferentemente dos cães. 
Não, não, amigo. Você não é um assassino! Foi uma fatalidade, só isso. Se há aqui um grande culpado sou só eu. 

É. Mas agora a gente tem que ir. Se quiser pode dá mais uma corrida até o fundo do quintal. 
Você deve achar que o único mundo que existe é este quintal, não é?
De qualquer forma é seu lar, é justo que passe as vistas mais uma vez no lugar que sempre viveu. Não sei se esse seria o seu último desejo. 
Não Brother, não precisa chorar. A vida é mesmo uma dor, senão tá doendo, quer dizer que a gente não tá vivendo. Maldita filosofia barata não é mesmo Rino? Foda-se! 

Bem que eu queria ser humano o suficiente pra eu mesmo abraçá-lo forte até que deixasse de respirar, como no filme Eu sou a lenda. Mas eu não consigo. Tantas vezes te abracei com carinho, não poderia, nem em um milhão de anos. 
Mas aquela advogada tinha que exigir que sacrificassem você! Que filha da pu...! 
Eu devia levá-lo pra longe, dá-lo a outra pessoa, mas o juiz julgou que você é feroz demais, exigiu sacrifício assistido. É outro filho da pu...! 
Pelo menos não vai doer. E quem vai aplacar a minha dor? Mas quem aplacou a dor da advogada ao perder sua cadelinha? É tudo tão complicado! 
Mas ela devia ser mais sensata e entender que matá-lo não vai mudar nada na vida dela. 
Eu sei. Eu sei que ela quer comprar outra cachorra e não quer correr o risco de perdê-la também. 
Já vai substituir a cadelinha que, segundo ela, tanto amava. Grande amor o dela! 
Eu não vou substituí-lo. Eu prometo. 

A clínica é esta. Eu sei, também estou com um pouco de dificuldade de respirar. 
Não me olha assim, com esses olhos grandes, parecendo que me pergunta o por que de um fim tão cruel! Eu também não sei explicar a razão da vida ser tão injusta! 
O mundo é uma puta selva! Amigo! 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Manhã




Eu ouvia de meu avô que o sol não deve apanhar ninguém honesto dormindo.
Meu avô, viúvo ainda muito jovem, acordava sempre às três da manhã.
Ele mesmo passava o café, tomava, e saia pra trabalhar sempre antes do sol surgir no horizonte.
Ao sair, deixava a porta da frente aberta pra que leiteiro entrasse, e tomasse sua xícara de café.
Era como um ritual diário.
Recordo-me de sempre ouvir a voz do leiteiro elogiando o café de meu avô pra si mesmo.
Ele sabia que tinha gente na casa ainda dormindo, pra que não se assustassem, ele elogiava o café pra que reconhecessem sua voz.
Toda gente da casa se abtuara as pisadas do leiteiro, a voz...
E sabiam, com o arrastar dos chinelos do leiteiro, que ao levantarem, teriam café e leite fresco pronto.
Era sempre bom acordar na casa de meu avô.
As manhãs tinham cara de vontade, de responsabilidade, mas não minha, e sim dos outros para comigo.

sábado, 24 de março de 2018

O senhor do tempo




Numa madrugada, aquele homem já próximo dos trinta anos se flagrou refletindo sobre todas as pessoas que ele aprendera a amar ao longo da vida e que seguiram rumos que àquela altura ele ignorava. Naquela melancolia, recordando com saudade de tudo, sem poder voltar no tempo, ele decidiu que não iria mais permitir que o tempo girasse sem parar e fosse o obrigando a se adaptar as mudanças, a novas pessoas, a um novo mundo, todo mês, todo ano, todo dia,  isso, sem perguntar se ele estava de acordo ou não.   
      
Se vendo sem habilidade pra manter as pessoas próximas, nem de controlá-las pra que juntas pudessem parar no tempo, lhe ocorreu que a única maneira seria ignorar a todos e se manter sozinho no seu mundo. Ele próprio iria parar no seu próprio tempo, ainda que o tempo dos outros continuasse girando. Ao menos no seu mundo particular, a mão cruel do tempo não iria mais lhe arrancar as pessoas e obrigá-lo a se reinventar quase que todo dia pra conquistar novas amizades, novos amores, fato que, na sua idade, lhe custava muito. E foi o que ele fez.  

Exercendo o papel do homem mais sozinho do mundo, ele passou, sem muito sacrifício, a seguir a mesma rotina todos os dias. Levantava-se às nove da manhã. Fazia alguns abdominais para esquentar o corpo. Tomava um café preto. Lia as notícias na internet, refletia por dez minutos sobre a situação política do país sem chegar à conclusão alguma. Depois, cheio de vontade, preparava o almoço; sempre o mesmo bife e o mesmo feijão. Após o almoço, demorava quatorze minutos no banho, onde usava sempre a mesma marca de shampoo e de sabonete. Depois de renovado pelos cheiros do banho, saia de casa sempre faltando dez minutos do horário de começar o trabalho de secretário numa escola primária. Às dezessete horas retornava pra casa, tomava um novo banho e então se dirigia pra faculdade. Retornava às onze, jantava, escovava os dentes, deitava-se - e lá ficava deslizando o dedo no feed de notícias de suas redes sociais sem achar graça em nada até que surgisse o sono. Quando o sono lhe vinha, deixava reproduzindo uma série ou música no Youtube pra ficar somente ouvindo, pois tinha medo do silêncio, cujo dava asas para seus pensamentos mais sombrios, fato que lhe causava pesadelos. 
Obstinado, ele repetia durante o seu dia tudo que conseguia. Mandou confeccionar várias roupas iguais, pra usar pra sempre as mesmas. Produtos consumíveis como alimento e de higiene pessoal, ele comprava sempre da mesma marca e na mesma quantidade. Senão encontrasse, esperava até que chegasse, mas não aceitava o novo. Sentia uma raiva profunda quando alguma marca mudava a embalagem sem necessidade. Dormia sempre do mesmo lado da cama. Andava sempre do mesmo lado da rua, sempre olhando os próprios pés, evitando ao máximo que qualquer coisa diferente se apresentasse em frente os seus olhos. Não se permitiu conhecer mais ninguém desde que tomara aquela decisão; se alguém tentasse se aproximar, ele já repelia com um silêncio perturbador que embaraçava qualquer um, de modo que depois de um tempo, simplesmente ninguém mais tentou puxar assunto com ele que não fosse relacionado a trabalho, fato que facilitou muito a sua vida. 

Passaram-se meses, e ele sempre repetindo na medida do possível tudo. Era como se repetindo aquela rotina, aquelas roupas, ele revivesse todos os dias versões amenizadas do dia anterior, logo, ele economizava uma grande quantidade de energia, pois se tudo era sempre igual, ele não precisava tomar decisões, se reinventar, improvisar; era tudo no automático. 

No início, muitos estranharam, questionaram, mas ele não se dava o trabalho de explicar, então, foram gradualmente deixando-o em paz. Pra ele, bastava suas convicções. O mundo em volta podia seguir em frente da maneira que bem entendesse. Ele não. Ele iria permanecer ali, revivendo mentalmente o seu dia dourado pra sempre, doesse a quem doesse.
Certo que se ele fosse mais jovem,  tal empreitada não seria possível, mas ele descobriu que depois dos trinta, os dias simplesmente se repetem. A única diferença entre ele e a maioria era que alguns trocavam de roupa. "Trinta anos é uma idade tão morna que a gente respira fundo a fim de sentir o gosto da vida, mas não consegue sentir nada, porque já gastamos todo o nosso paladar nos anos anteriores". 

Depois de um tempo, o novo não lhe atraía mais em nada, de modo que, segundo seu ponto de vista, aquela ideia fora a mais acertada da sua vida. Ora, ele não se apaixonava, não sentia ciúmes, saudade, raiva. Nada. Não sentia alegria, mas também não sentia tristeza, rancor ou decepção, de modo que era simplesmente muito cômoda e agradável a vida pra ele. Mentalmente ele se alimentava das lembranças do passado e, sempre que se recordava o quanto doloroso era aprender a amar alguém e ter que vê-la partir, mais se convencia que jamais iria deixar que um novo dia surgisse no seu horizonte. 

Depois de um ano, sempre se repetindo e ignorando os outros, ele criou uma aversão profunda pelas mudanças e pela humanidade. "As pessoas são egoístas, falsas, traiçoeiras, e anseiam utopicamente que todo dia seja um novo dia, sem perceberem que há muito não há nada de novo sob o céu".    

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O ouvidor



Vigilante da empresa há onze anos, Noberto seguia a mesma rotina religiosamente; todos os dias, no intervalo depois do almoço, se dispunha no corredor que dava para o banheiro feminino e lá ficava por quanto tempo lhe fosse permitido. No início, uma outra funcionária questionava o porque da escolha do ambiente, ele respondia apenas que preferia ficar sozinho, ali pelo menos ninguém o incomodava. Depois de alguns meses, de fato ninguém mais o incomodou; ele já parecia fazer parte da paisagem naquele horário, e se caso lá não estivesse, as pessoas até estranhavam.
Depois de onze anos exercendo as suas funções, Noberto jamais demostrara um gesto indecoroso ou de má índole, de modo que ele era respeitado por todos da empresa, embora ninguém soubesse da sua vida pessoal, pois além de seu posto na entrada do prédio, a vida social que dele conheciam era sua insistência em se manter naquele corredor diariamente.
Numa quinta feira de março, uma funcionária adentrou o corredor pra ir ao toalete e surpreendeu Noberto com o ouvido pregado a porta do banheiro e com as mãos aparentemente nas partes íntimas.
Foi um alvoroço que só vendo. A mulher gritou de fora: "um tarado! Um pervertido! Santo Deus!" A moça que se encontrava na parte de dentro do banheiro, saiu assustada ainda fechando o zíper da calça, sem entender muito bem, mas ao ver a outra apontado pra Noberto, logo acompanhou ela na gritaria, uma vez que ele não conseguia tirar o olho do seu zíper. Com o escândalo, foram todos parar no RH.
Com onze anos de casa, diferentemente das funcionárias, Noberto obteve o direito de se explicar, embora aquele gesto tivesse sido muito claro pra todos.
Sentado próximo das moças, Noberto, ainda que calmo, não conseguia levantar o campo de visão, mantendo-o sempre da cintura pra baixo de todos que olhava.
Ele não era de falar muito, mas naquele momento, começou tagarelar sem parar e revelar a razão daquele ato, bem como o porquê de ficar sempre naquele corredor, fato que fez com que estranhassem mais ainda tudo aquilo.
Assustadoramente ciente de que não cometera nenhum crime, Noberto revelava com convicção que o que o mantinha no corredor era o som que as mulheres faziam no banheiro. "Mas só! Jamais tocaria em nenhuma delas, nem que passasse mil anos." Dizia rápido e com voz firme: "Primeiro, sem nunca olhar para o rosto das mulheres, eu observo o modelo da calça, saia, ou qualquer vestimenta que elas estiver vestindo enquanto se direcionam para o banheiro. Imaginar é que é a graça da coisa "
A cada nova revelação, as moças demonstravam mais asco daquele homem solitário e estranho. Ouviram Noberto confessar que gostava de ouvir o barulho do zíper sendo aberto, o som do tecido deslizando a pele, o som do xixi batendo na água do vazo, pois isto o fazia imaginar o cheiro das partes íntimas das mulheres, o que lhe provocava prazer. Mas nunca tinha ido tão longe como aquele dia, sempre ficava distante.
Ao ouvirem tão estranha confissão, as mulheres ficaram horrorizadas, imaginando quantas vezes elas usaram aquele banheiro e passaram em frente a Noberto e, como todas, simplesmente ignoraram sua presença, sem imaginar o que se passava em sua mente doentia escondia.
Noberto, embora convicto de sua inocência, fora demitido por justa causa, mesmo com o grande pesar do patrão que sempre julgara ele era um funcionário exemplar.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O poeta na fila do emprego



Aquele poeta na fila do emprego, se vendo aos trinta anos sozinho, sem ter construído sequer um castelo de areia, um jardim de flores, uma caixa de correio ou qualquer coisa concreta, tomou a decisão de largar todos os sonhos do mundo e buscar qualquer coisa que pra ele, homem de sonhos, não era real.

Aquele poeta trajando vestes quase em decomposição, se deu conta, não se sabe se há tempo, que as letras por ele agrupadas em palavras, não alimentaram um canário faminto, não abrigaram as andorinhas no inverno, nem sorriu pra um homem triste na iminência do inferno, logo, foram inúteis como o som do mar numa ilha deserta.

Aquele poeta triste, apesar de fingir bem, não sabe mais o que deseja. Tem ciência somente que já não suporta as palavras, castigo saboroso da alma que por inúmeras vezes lhe proporcionou vida ainda que descrevendo a morte. Sabe que já não suporta as vírgulas, as rimas, as estrofes, nem a busca pelo sentindo dos versos. Ele quer somente viver como um homem comum, comprando bens no crediário, sorrindo hipocritamente para os patrões, um visível tronco oco levado pelo rio.

Aquele poeta na fila do emprego, que não decide se põe as mãos nos bolsos ou cruza os braços, busca o respeito dos homens por algo real que há de construir, pois seus poemas, suas palavras, foram tal qual ouro em pó jogado para os cisnes nos lagos da terra dos sonhos, e estes, sabiamente escolheram se alimentar das algas vermelhas que enchiam mais. Não podemos julgá-los.

Aquele poeta, na iminência de largar a poesia, busca manter em sua boina surrada um resquício da sensibilidade, da habilidade em apreciar a vida em vez de vivê-la que acumulou ao longo dos anos pra que, no futuro, se algum dia ele puder comprar o tempo pra ser poeta, ele retirar a boina do baú das lembranças e voltar a existir sem se importar com o vento lá fora.