domingo, 20 de maio de 2018

Construção


No futuro, me violentarão, arrancarão minha pele,
 minha língua, meus sentidos, me esgotarão,
e eu não estarei aqui nem pra apreciar, nem pra desmentir que
eu nunca fui nada do que pregam.
Eu não existirei.
 Meus sonhos já terão morrido,
 minhas carnes já estarão nas entranhas de alguns vermes
- poucos, para o bem da verdade- e me tratarão como rei.
Mas já não me servirá a majestade.
De que me adiantará a nobreza depois que já não puder desfrutar das mulheres,
 dos choferes, das regalias dos hotéis?
Já não me servirá os jantares, os brindes, os artigos escritos pra desdizer o que eu nunca disse.
Já não me preencherá o estomago as citações do futuro..., e hoje sinto que morro de sede e fome.
Hão de usar meus versos para ganharem corações de mocinhas frágeis, pra justificarem suas crueldades e seus vícios em relação seus semelhantes.
Irão usar meus versos para ganharem fortunas, enquanto eu, morri de fome.
A vida nunca foi justa, bem sei, e nunca será.
Me coroarão nos salões reais, usarão discursos que escrevi pra outras ocasiões,
 no entanto, já não poderei protestar contra o erros.
 Já estarei impedido de me corrigir, de me desconstruir,
talvez por isso, é que finalmente verão minhas auréolas de ouro
e eu não poderei dizer que, na verdade, são elas chifres de demônios.
Me julgarão um deus depois de terem me condenado ao inferno.
Não os culpo, eu que me fiz assim, eu que me joguei ao abismo e não tive forças pra me reerguer.
Não culpo-os, eu que me construí assim... 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Guerra



Ironias a parte







O tempo é propenso as adversidades...
Que continue assim...
Que ninguém se entenda, que disseminem o ódio;
Que a violência prevaleça sobre bom senso e o sangue
dos inocentes jorre das veias até encher os vasos dos reis.
Que se matem por ideias que eles não tiveram,
 mas que carregam como se fossem filhos das próprias entranhas.
Que as vísceras daqueles que discordam sejam usadas como tapetes para os nobres
desfilarem nos salões reais.
Ah, o tempo é propenso as exceções.
Que continue assim...
Que nos roubem o petróleo, as águas,
as plantas, que nos deixem nus, como viemos ao mundo.
E que ninguém dissemine as dúvidas, afinal guerras nascem de certezas.
É preciso mais e mais certezas cegas...
E distribuí-las nas barracas das esquinas, nos bares,
nas redes sociais, na tevê, em toda parte, assim, todos cheios de certezas
não sobra espaço pra ouvirem o outro e o caos prevalece.
E que continuem assim...
Manipulados pelo Coronel Venceslau Pietro Pietra.
Que se matem pelas diferenças, pelas convergências, pela moral, pela família,
por qualquer coisa, só não se entendam, senão a guerra não arrebenta.
Não me juguem, não me julguem, eu sou um artista, preciso de guerras,
de miséria, de ditadura para a minha obra florir.
Rosas cultivadas em canteiros não são belas, é preciso que elas nasçam do sangue em meio aos entulhos da guerra para ter sentido o vermelho de suas pétalas.
Grandes obras somente nascem da dor.
Não me julguem! Não me julguem! Eu sou só um artista!

sábado, 28 de abril de 2018

Bondade




Mal se aproximasse de alguém, aquele velho homem surrado pelo tempo se dispunha a fazer o bem, não importava a quem. O problema é que, já com pouca expectativa de vida, ele não via muita gente e nem tinha tanta mobilidade de modo a disseminar a sua bondade ainda em botão. O mais longe que ele ia era na calçada de casa onde ficava nos fins de tarde vendo os moleques brincar na rua.

Todo mês, ele comprava uma ruma de balas pra presentear as crianças do bairro. Estas, já sabedoras, sempre brincavam em frente a casa dele pra receber os doces, porém, eram ativas e inocentes demais, não tinham tempo nem discernimento pra sequer ajudá-lo a atravessar a rua quando ele ia à mercearia. Mas ele gostava de olhar os meninos cheios de energia, suados, sem preocupações; parecia que eles transferiam um pouco de mocidade para aquele velho solitário que mal conseguia ir ao banheiro sozinho. 

Ele tinha ânsia e urgência pra praticar o bem, como se quisesse recuperar um tempo perdido. 
O entrave era que, ao longo da vida, ele nunca tinha tido paciência pra manter relações com as pessoas, nem mesmos os filhos que conviviam com ele na mesma casa, então ninguém aparecia para visitá-lo, nem os parentes próximos, nem distantes, nem mesmo desconhecidos a fim de um bolo de milho numa manhã de chuva.  Só a esposa ainda o aturava. Aturava, porque amá-lo mesmo, talvez ela nunca tenha amado de fato.  

Os filhos vinham visitá-lo, mas estes já carregavam toda uma bagagem do passado duro; indiferenças, maus tratos, dores proporcionadas pela violência, pela falta de diálogo, de conselhos, pela falta de destreza ou de boa vontade  em ter sido um bom pai. Não havia como ele apagar toda uma vida em poucos dias. Mesmo assim, filhos são filhos...

Aquela altura, ele insistia em tentar ser o que não fora a vida inteira talvez porque já se equilibrava na linha tênue entre a vida e a morte e não encontrava ninguém que fizesse algo por ele que fosse por carinho genuíno ou por amor. Os que ainda moviam algumas palhas em prol do seu bem estar era por obrigação moral, quer fosse por carregar o mesmo sangue, quer por instituições como o casamento ou qualquer outra.  

A vida toda, aquele homem calado, não se dispôs ou não atentou que as forças que temos na mocidade e na vida adulta somente nos servem para investirmos em pessoas a fim de construirmos o nosso mundo de gente pra que, no futuro, estas tenham disposição e carinho pra estarem ao nosso lado nos momentos difíceis. 
Quer neguemos quer não, a vida se baseia na troca de energias. Gastemos a nossa energia amando as pessoas, porque ao final do arco-íris o pote de ouro que conquistamos são as pessoas que cativamos ao longo da caminhada. 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Estação


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Casou-se Eulália. 
Amigou-se Amanda.
Arranjou-se Florisbel.
Perdeu-se Selena ninguém sabe onde. 
E assim, foram partindo todas...
Era como se ele estivesse sentado junto a uma estação,
e aquelas mulheres fossem trens que paravam, ficavam quinze minutos 
e logo partiam sem que ele tomasse coragem pra seguir viagem também.

Talvez ele esperasse na estação, não os trens, mas uma guerra, um terremoto, um tesouro roubado de uma francesa dona de bordel, só pra que um dia, um daqueles trens escolhesse ficar, ou não tivesse escolha, senão, ficar.
Aquela foi à forma que ele encontrou de transferir para o mundo a culpa por ser um péssimo pescador de pessoas.
Embora se sentisse o homem mais inteligente, mais amável, o homem dos amores de cinema, ele não soube transcender além daquela imaginação um amor que fosse.
E depois de um tempo ele foi se acostumando à arte de perder amores.
Culpou-se a vida toda por sua covardia, mas se acostumou...

sábado, 31 de março de 2018

Sacrifício




- Você é um bom Cachorro Rino. Não acredite em ninguém que lhe disser o contrário. Certo que abocanhou a cadela da advogada, mas convenhamos Amigo, aquela cachorra de apartamento não aguentava nem um sopro forte. Muito mimada, com roupinhas ridículas, de nariz empinado, se achando a dona do bairro. 
E também eu concordo com você; cães são cães, não se deve humanizá-los colocando roupinhas e laços... Vocês ficam ridículos e perdem as características caninas. Quem é que gosta de perder a própria identidade, não é? Lógico que nada justifica a violência. 
É. Eu sei, ela ficava mesmo ridícula com aquelas roupinhas rosas! "Hum!" A gente rir, mas a situação é séria. Mas lógico que tudo era culpa da dona. Tenho certeza que se aquela cadela tivesse escolha, não usaria aqueles adereços. 

É. Somos responsáveis por nossos cães, logo, eu sei que é culpa minha que você nunca tenha saído dos limites desses muros. Eu quis protegê-lo do mundo feroz e acabou que você não aprendeu conviver em harmonia com os outros cães. Não aprendeu dividir território, a respeitar o espaço dos outros, a compreender que não se deve usar de violência só porque o outro é diferente, ou mora em outro bairro, em outra casa. Eu devia tê-lo levado pra passear além dos muros, mostrado o mundo, mostrado que existem outros cães e eles não representavam perigo a sua liberdade de existir e nem iriam comer o alimento destinado a você. Foi tudo culpa minha. Não só por ter descuidado do portão e você ter fugido e avançado na cachorra da advogada, mas por tudo, desde que você nascera. 

Porque cargas d'água aquela cachorra tinha que ser tão pequena? Ela devia ter resistido a sua investida. Mas nem ela, nem você, tem culpa da genética ter lhe proporcionado tanta massa corpórea e a ela nenhuma. 
Mas aquela advogada devia ter ponderado um pouco mais, um processo foi tempestade em um copo d'água, não acha?
Ora, mas quem é que vai ter a presunção de mensurar o amor de alguém pelo seu cão, não é? Vai saber a importância que aquela cachorra tinha pra ela. 
Talvez ela preenchesse com a cadelinha o vazio de nunca ter tido filhos. 
Mas ela também devia ter pensado no apreço que eu tenho por você. 
Ela devia ter pensando o quanto me vale o fato de você sempre me receber com alegria quando chego em casa. Ela devia ter pensado na segurança que você me proporciona. No carinho que eu tenho em alimentá-lo. Ela devia ter cogitado a possibilidade que o amor que ela tem pela sua cadela, é o mesmo que eu tenho por você. Mas os seres humanos são egoístas Rino, só pensam em si mesmos, diferentemente dos cães. 
Não, não, amigo. Você não é um assassino! Foi uma fatalidade, só isso. Se há aqui um grande culpado sou só eu. 

É. Mas agora a gente tem que ir. Se quiser pode dá mais uma corrida até o fundo do quintal. 
Você deve achar que o único mundo que existe é este quintal, não é?
De qualquer forma é seu lar, é justo que passe as vistas mais uma vez no lugar que sempre viveu. Não sei se esse seria o seu último desejo. 
Não Brother, não precisa chorar. A vida é mesmo uma dor, senão tá doendo, quer dizer que a gente não tá vivendo. Maldita filosofia barata não é mesmo Rino? Foda-se! 

Bem que eu queria ser humano o suficiente pra eu mesmo abraçá-lo forte até que deixasse de respirar, como no filme Eu sou a lenda. Mas eu não consigo. Tantas vezes te abracei com carinho, não poderia, nem em um milhão de anos. 
Mas aquela advogada tinha que exigir que sacrificassem você! Que filha da pu...! 
Eu devia levá-lo pra longe, dá-lo a outra pessoa, mas o juiz julgou que você é feroz demais, exigiu sacrifício assistido. É outro filho da pu...! 
Pelo menos não vai doer. E quem vai aplacar a minha dor? Mas quem aplacou a dor da advogada ao perder sua cadelinha? É tudo tão complicado! 
Mas ela devia ser mais sensata e entender que matá-lo não vai mudar nada na vida dela. 
Eu sei. Eu sei que ela quer comprar outra cachorra e não quer correr o risco de perdê-la também. 
Já vai substituir a cadelinha que, segundo ela, tanto amava. Grande amor o dela! 
Eu não vou substituí-lo. Eu prometo. 

A clínica é esta. Eu sei, também estou com um pouco de dificuldade de respirar. 
Não me olha assim, com esses olhos grandes, parecendo que me pergunta o por que de um fim tão cruel! Eu também não sei explicar a razão da vida ser tão injusta! 
O mundo é uma puta selva! Amigo! 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Manhã




Eu ouvia de meu avô que o sol não deve apanhar ninguém honesto dormindo.
Meu avô, viúvo ainda muito jovem, acordava sempre às três da manhã.
Ele mesmo passava o café, tomava, e saia pra trabalhar sempre antes do sol surgir no horizonte.
Ao sair, deixava a porta da frente aberta pra que leiteiro entrasse, e tomasse sua xícara de café.
Era como um ritual diário.
Recordo-me de sempre ouvir a voz do leiteiro elogiando o café de meu avô pra si mesmo.
Ele sabia que tinha gente na casa ainda dormindo, pra que não se assustassem, ele elogiava o café pra que reconhecessem sua voz.
Toda gente da casa se abtuara as pisadas do leiteiro, a voz...
E sabiam, com o arrastar dos chinelos do leiteiro, que ao levantarem, teriam café e leite fresco pronto.
Era sempre bom acordar na casa de meu avô.
As manhãs tinham cara de vontade, de responsabilidade, mas não minha, e sim dos outros para comigo.

sábado, 24 de março de 2018

O senhor do tempo




Numa madrugada, aquele homem já próximo dos trinta anos se flagrou refletindo sobre todas as pessoas que ele aprendera a amar ao longo da vida e que seguiram rumos que àquela altura ele ignorava. Naquela melancolia, recordando com saudade de tudo, sem poder voltar no tempo, ele decidiu que não iria mais permitir que o tempo girasse sem parar e fosse o obrigando a se adaptar as mudanças, a novas pessoas, a um novo mundo, todo mês, todo ano, todo dia,  isso, sem perguntar se ele estava de acordo ou não.   
      
Se vendo sem habilidade pra manter as pessoas próximas, nem de controlá-las pra que juntas pudessem parar no tempo, lhe ocorreu que a única maneira seria ignorar a todos e se manter sozinho no seu mundo. Ele próprio iria parar no seu próprio tempo, ainda que o tempo dos outros continuasse girando. Ao menos no seu mundo particular, a mão cruel do tempo não iria mais lhe arrancar as pessoas e obrigá-lo a se reinventar quase que todo dia pra conquistar novas amizades, novos amores, fato que, na sua idade, lhe custava muito. E foi o que ele fez.  

Exercendo o papel do homem mais sozinho do mundo, ele passou, sem muito sacrifício, a seguir a mesma rotina todos os dias. Levantava-se às nove da manhã. Fazia alguns abdominais para esquentar o corpo. Tomava um café preto. Lia as notícias na internet, refletia por dez minutos sobre a situação política do país sem chegar à conclusão alguma. Depois, cheio de vontade, preparava o almoço; sempre o mesmo bife e o mesmo feijão. Após o almoço, demorava quatorze minutos no banho, onde usava sempre a mesma marca de shampoo e de sabonete. Depois de renovado pelos cheiros do banho, saia de casa sempre faltando dez minutos do horário de começar o trabalho de secretário numa escola primária. Às dezessete horas retornava pra casa, tomava um novo banho e então se dirigia pra faculdade. Retornava às onze, jantava, escovava os dentes, deitava-se - e lá ficava deslizando o dedo no feed de notícias de suas redes sociais sem achar graça em nada até que surgisse o sono. Quando o sono lhe vinha, deixava reproduzindo uma série ou música no Youtube pra ficar somente ouvindo, pois tinha medo do silêncio, cujo dava asas para seus pensamentos mais sombrios, fato que lhe causava pesadelos. 
Obstinado, ele repetia durante o seu dia tudo que conseguia. Mandou confeccionar várias roupas iguais, pra usar pra sempre as mesmas. Produtos consumíveis como alimento e de higiene pessoal, ele comprava sempre da mesma marca e na mesma quantidade. Senão encontrasse, esperava até que chegasse, mas não aceitava o novo. Sentia uma raiva profunda quando alguma marca mudava a embalagem sem necessidade. Dormia sempre do mesmo lado da cama. Andava sempre do mesmo lado da rua, sempre olhando os próprios pés, evitando ao máximo que qualquer coisa diferente se apresentasse em frente os seus olhos. Não se permitiu conhecer mais ninguém desde que tomara aquela decisão; se alguém tentasse se aproximar, ele já repelia com um silêncio perturbador que embaraçava qualquer um, de modo que depois de um tempo, simplesmente ninguém mais tentou puxar assunto com ele que não fosse relacionado a trabalho, fato que facilitou muito a sua vida. 

Passaram-se meses, e ele sempre repetindo na medida do possível tudo. Era como se repetindo aquela rotina, aquelas roupas, ele revivesse todos os dias versões amenizadas do dia anterior, logo, ele economizava uma grande quantidade de energia, pois se tudo era sempre igual, ele não precisava tomar decisões, se reinventar, improvisar; era tudo no automático. 

No início, muitos estranharam, questionaram, mas ele não se dava o trabalho de explicar, então, foram gradualmente deixando-o em paz. Pra ele, bastava suas convicções. O mundo em volta podia seguir em frente da maneira que bem entendesse. Ele não. Ele iria permanecer ali, revivendo mentalmente o seu dia dourado pra sempre, doesse a quem doesse.
Certo que se ele fosse mais jovem,  tal empreitada não seria possível, mas ele descobriu que depois dos trinta, os dias simplesmente se repetem. A única diferença entre ele e a maioria era que alguns trocavam de roupa. "Trinta anos é uma idade tão morna que a gente respira fundo a fim de sentir o gosto da vida, mas não consegue sentir nada, porque já gastamos todo o nosso paladar nos anos anteriores". 

Depois de um tempo, o novo não lhe atraía mais em nada, de modo que, segundo seu ponto de vista, aquela ideia fora a mais acertada da sua vida. Ora, ele não se apaixonava, não sentia ciúmes, saudade, raiva. Nada. Não sentia alegria, mas também não sentia tristeza, rancor ou decepção, de modo que era simplesmente muito cômoda e agradável a vida pra ele. Mentalmente ele se alimentava das lembranças do passado e, sempre que se recordava o quanto doloroso era aprender a amar alguém e ter que vê-la partir, mais se convencia que jamais iria deixar que um novo dia surgisse no seu horizonte. 

Depois de um ano, sempre se repetindo e ignorando os outros, ele criou uma aversão profunda pelas mudanças e pela humanidade. "As pessoas são egoístas, falsas, traiçoeiras, e anseiam utopicamente que todo dia seja um novo dia, sem perceberem que há muito não há nada de novo sob o céu".