domingo, 3 de dezembro de 2017

Futuro escritor







Aos sessenta e dois anos eu serei um velho frustrado carregando a certeza que não me tornei o grande escritor que poderia ter sido porque lutei pouco. E ainda que o mundo a minha volta evidencie que tal realidade se construiu devido a minha falta de talento, eu teimarei em não acreditar, pois assim mantenho a fé que ainda posso conseguir, crente que o que me faltou foram oportunidades, não talento.

É provável que eu culpe também a ordem social que me obrigou a buscar relacionamentos duradouros, a usar roupas de marcas, a manter um maldito padrão aceitável pra que eu tivesse amigos, pra que eu mantivesse a possibilidade de me reproduzir, embora nunca o tenha conseguido de fato. E esta tal ordem também me obrigou a empregos que eu nunca quis, a suportar gente intragável, a ser quem eu nunca suportei ser, tudo pra não ser excluído de uma sociedade do TER em detrimento do SER. Assim, o tempo que eu poderia ter gasto aperfeiçoando minha literatura, eu gastei não sendo Eu. E mais uma vez fujo da dura realidade que o que nunca tive foi talento.

Culparei também o déficit educacional brasileiro que não incentivou a leitura. Gritarei pro meu gato preto, único companheiro que terei aquela altura, bordões como: o Brasil é um país que não lê; a maioria é constituída de analfabetos funcionais; os brasileiros só leem livros de Youtubers.
Ora, como é que eu posso querer ser lido em país de burros se meus textos são profundos, cheios de mensagens subliminares e ironia? É como jogar pérolas aos porcos.
Com esta estratégia, em vez de admitir minha falta de talento, minto pra mim mesmo que o que tive foi talento demais, e o público consumidor raso é que não foi capaz de compreender a profundidade dos meus escritos.

Vejam que, aos sessenta e dois anos, eu ainda não passarei de um adolescente sonhador que tem como principal talento negar a realidade. Nem mesmo um pouco sábio eu serei, porque se fosse, eu teria compreendido, sei lá, aos cinquenta anos, que nunca tive talento pra literatura, que seria melhor ter ido vender cheiro verde de porta em porta como aconselhou tantas vezes minha mãe em vez de sonhar ser escritor.
Mas eu sei, com toda certeza, que mesmo que eu dure oitenta anos, ainda encontrarei desculpas pra me enganar que eu tenho sim talento como Dostoiévski, Balzac e outros grandes da literatura. E sabe por quê? Porque eu não sou nem obrigado a aceitar a realidade. Prefiro viver dos meus sonhos irrealizáveis. E que a sociedade me jogue pra onde ela bem entender, que eu finja ser um professor meia boca, um garçom frustrado, cortador de lenha, um bosta em tudo, em minha mente eu ainda serei o maior escritor que este país já viu ou verá. Quer aceitem, quer não. Há quem tenha nascido pra morrer de sonhar.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O GRANDE HOMEM SEM QUALIDADE





Aquele homem sem qualidades seguia rumo ao horizonte do tempo sem conquistar absolutamente nada. Ao que parecia, ele era inútil como botões na era do touch screen. Porém ele tinha como certo que possuía grandes habilidades. Habilidades estas suprimidas pela normalidade da vida e que somente seriam externadas em situações de exceção; uma guerra, uma grande ditadura, enfim, qualquer coisa de extraordinária pra que ele se tornasse aquilo que interiormente sentia que estava pré-destinado. Enquanto isto, ele não movia uma palha de um lugar para outro, pois suas mãos supremas, sagradas, não poderiam ser utilizadas em afazeres comuns, em empregos normais; não seria ele que se enveredaria no curso da vida comum, não, carregando a certeza que possuía talento pra maioria das coisas.

Baseando-se sabe-se lá em quê, talvez na esquizofrenia, ele sentia que possuía dentre outras, as características de Napoleão, de Alexandre O grande, logo, poderia sim, se tornar um grande líder e conquistar grandes territórios. Mas aquelas competências seriam desperdiçadas se ele se utilizasse delas na sua vida pacata e comum, então as resguardava só para si.
Talvez se ele se perdesse numa floresta com um grupo de colegas, sem comunicação, sem alimento, seu espírito de liderança e de sobrevivência em situações adversas afloraria, assim sua jornada de sucesso e glória teria início, mas algo assim não aconteceria assim facilmente.

Ou, pensando no possível, talvez se um presidente louco, ou mesmo tão esquizofrênico quanto ele, cheio de bordões, discursos extremos e intolerância, assumisse a presidência do país e liberasse o porte de armas, diminuindo preços e a burocracia para que o cidadão comum pudesse possuir diversas armas facilmente, aliando isto a seus discursos intolerantes, uma guerra civil vagarosamente se iniciasse, uma vez que o Brasil não possui maturidade cidadã nem estrutura como os Estados Unidos para o extremismo. Se isto ocorresse, seria o momento do seu espírito revolucionário entrar em ação e tentar mudar o curso das coisas ou morrer lutando.

Por alguma razão ele sentia que possuía mesmo a honra de um grande soldado, daqueles que prefere morrer em batalha do que levar uma vida comum. Mas na sua vidinha de interior, o máximo que acontecia era levantes de formigas contra escorpiões no quintal de casa. Como ele iria se tornar grande levando uma vidinha de fascista disfarçado no sofá de casa? Como ele iria liberá sua selvageria? Como ele iria ser visto, senão houvesse lutas entre seus iguais de modo que ele pudesse se utilizar de sua habilidade verbal pra que todos se convencessem de que o que desejam é o que realmente precisam?
Aquele homem aparentemente sem qualidades estava mesmo destinado a não ser nada.

sábado, 28 de outubro de 2017

O psicopata comum de cada dia


Arlindo era um homem super comum; casado há mais de vinte anos, três filhos e aparentemente levava uma vida pacata ao extremo. Rotineiro, ele fumava onze cigarros por dia, tomava três cafezinhos durante o trabalho e penteava o cabelo de meia em meia hora sempre pro mesmo lado com um pente que já o acompanhava há trinta anos. Além de metódico, ele era um homem acomodado em tudo. Fazia vinte e sete anos que trabalhava como ascensorista de elevador e não galgava nada além. Pra ele, qualquer ato de mudança não era visto com bons olhos.  

Imagine que antes de se casar, lhe foi instruído pelos pais que ao ir morar sozinho com a esposa,  ele evitasse construir uma rotina pra que ela nunca  soubesse os horários que ele  voltaria pra casa, assim, evitaria traições. Mas como ascensorista e sistemático, ele tinha seu horário fixo: saía às sete e meia em ponto e sempre retornava às três da tarde, sem nenhum minuto de atraso ou adiantado.  Então há vinte anos ele carregava a certeza que era traído, mesmo que não fosse.       

Mas Arlindo era pacato na rua e no trabalho, dentro de casa tratava a esposa como escrava e batia nela frequentemente, embora negasse que cometia tais atrocidades. Sempre que a esposa dizia que ele era violento, ele repetia com frases feitas: “eu nunca encostei a mão em ti. Nunca deixei nenhuma mancha roxa ou hematomas. Então me diz quando eu te bati?”  Era assustadora a certeza  com que ele repetia aquelas frases. Pra ele, os motivos das surras eram tão justos que elas eram exceções e não a regra. Ele simplesmente se isentava da culpa e transferia tudo pra esposa, logo, não carregava um pingo de peso na consciência.  Mas fazia isso inconscientemente, realmente ele tinha certeza que nunca havia encostado a mão nela. 

No aniversário da esposa de trinta e sete anos, Arlindo resolveu seguir o conselho dos pais e sair da rotina e pegar a vagabunda no flagra. Abandono8u o elevador e retornou pra casa às dez da manhã. Enquanto retornava, já se enchia de ódio, pois em sua cabeça já era certo que ele teria que matar a mulher e seu amante. Era incrível a habilidade que ele tinha de criar certezas baseadas em suas desconfianças.

Ao chegar a casa, não encontrou ninguém na sala, então se direcionou a cozinha pra pegar o rolo de macarrão já planejando como não ir parar na cadeia depois de um duplo homicídio. De arma em punho, ele caminhou vagarosamente em direção ao quarto do casal. Ao abrir a porta, o quarto também estava vazio, mas era totalmente vazio mesmo. Dos móveis só restava um grande espelho com uma frase escrita a batom: fui embora seu babaca! Ao se deparar com aquela nova realidade, aquele mestre em criar certezas ficou decepcionado, mas não com o fato de a esposa o ter abandonado, e sim porque nunca tinha passado em sua cabeça que ela seria capaz de um ato tão corajoso.   

domingo, 22 de outubro de 2017

Meia volta



Aos oito anos, acordaram entre si que se casariam tão logo completassem vinte anos. Bem, dezoito, na verdade. Se possível, com dezesseis seria uma idade mais razoável. Ora, esperar doze, dez anos, não seria viável, mas oito, era um tempo relativamente curto. Encantados, não atentavam para a matemática e não se importavam com o fato de que teriam que viver exatos mais uma vida até a data de se unirem pra sempre.  

Enamorados, trocavam bilhetes, regalos, sorrisos... Era como se aquele amor inocente fosse durar pra sempre. Tinha a escola que os juntava por quatro horas diariamente. Durante as tardes, se viam às três pra um refrigerante na casa de um ou de outro. Nos finais de semana iam à igreja e por assim iam...  
Até para os pais de ambos,  parecia mesmo que iriam permanecer juntos pra sempre. Já  tinham chegado ao ponto até de  adquirir certa semelhança física um com o outro, tamanha era convivência. O que mais se ouvia na cidade era que eles formavam um casal perfeito.   

À medida que o tempo ia passando, como era de se esperar,  a menina se desenvolvia mais rápido. Aos dez anos, todos já a chamavam de mocinha. Ele, no entanto, permanecia com as mesmas feições de quando tinha oito anos. Ela completou onze, doze, lhe surgiram curvas de mulher, seios, e ele, coitado, com exceção de uns centímetros na estatura, não havia mudado em nada. Então, no processo de desenvolvimento, aos poucos eles foram naturalmente se afastando, ao ponto de sem conversar sem nada, de não  andarem mais juntos, nem se falarem. Ela não queria ser vista com uma criança. E ele entendeu isso depois de ser ignorado e humilhado umas cento e oitenta e três vezes, no mínimo.   

Ainda sim,  quanto mais ela crescia, mas o pobre menino morria de amores. Ele foi obrigado acompanhar, embora de longe, os rapazes mais velhos assoviarem, elogiarem, tocarem e beijarem a sua amada sem poder mover um dedo.  Era de matar.

Mas como o tempo não para, aos catorze anos, o garoto deu aquela esticada típica de todo adolescente. Mas não ganhou corpo, era somente um adolescente espinhento de pernas finas e alto.  E como era de se esperar, se antes ela não queria andar com uma criança, com um moleque feio que todas as meninas tiravam sarro, era que não seria possível.

Até que chegaram aos dezesseis. Ainda se viam, mas sempre que se esbarravam, sentiam qualquer coisa  embaraçosa, pois se lembravam da promessa feita enquanto criança. Ainda mais aquele ano que seria o ano do casamento. Mas ela havia se tornado uma linda mulher, cobiçada por toda a cidade, não iria nunca mais olhar pra ele. E nesta de achar que tinha o mundo masculino aos seus pés, ela foi se dando ao mundo como quem se joga num travesseiro de pena de ganso.  

Aos dezoito, o adolescente magricelo, agora mais arrumado, foi pra faculdade.  A moça bonita de quadris largos e seios fartos, no entanto, por ser muito cobiçada, não lhe faltava convites pra festas, casas de praias e assim, seguiram cada um pro seu lado.

O tempo foi passando. Atingiram os vinte e cinco, vinte e seis.  Ele ainda se lembrava dela uma vez ou outra, talvez até ainda resguardasse alguma centelha daquele amor da infância e adolescência, mas era coisa do passado, amor que dá e passa; sentimento passageiro que ele sentia de segundo em segundo.      

Aos trinta e oito, ele professor universitário, solteiro e atraente, na sua melhor forma, não tinha interesse em se amarrar a ninguém. Parecia que aquele amor do passado iria mantê-lo sozinho pra sempre. Até que um dia, ao retornar a sua cidade natal, ele resolveu saber do paradeiro dela. E certo que a encontrou facilmente na varanda da sua antiga casa numa tarde de sexta.


Ao vê-la de longe ele sentiu uma raiva estranha. Escondeu-se, passou a observa-la: ela ainda mantinha certas características do passado, embora adicionado uns bons quilos aquele corpão de quando tinha vinte anos. Na verdade só os  olhos eram os mesmos. Então, antes que ela o visse, ele deu meia volta e foi-se embora contente em ser testemunha das voltas que o mundo dá.      

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O JARDINEIRO



Planando o último metro quadrado de areia branca por entre as rosas, aquele jardineiro magricelo de cabelos lisos iria passar duas horas apreciando o trabalho que desenvolvera com maestria no intuito de atingir a certeza que não era um fracassado total.

Após concluir e começar vislumbrar o fruto do seu labor, ele constata que a areia branca trazida diretamente da Grécia por seus senhores para preencher os espaços entre as roseiras e os arbustos, em prática, lhe pareceu uma ideia mais acertada do que ele jamais supusera, pois o verde escuro das folhas, as rosas vermelhas, em contraste com a areia cintilante sob o sol das nove da manhã, era de uma beleza magnânima.

A jardinagem era o que ainda lhe proporcionava um pouco de prazer uma vez que a pintura, a sua verdadeira paixão, a sua vida, era uma atividade em que ele ainda não se julgava suficientemente bom pra que fosse ovacionado como ele sempre desejou.
Ele tinha como certo que um dia, quando ele finalmente pintasse o seu primeiro e único quadro até o fim, o mundo se curvaria aos seus pés. 
Embora ele não fizesse ideia do que iria preencher aquela tela, tinha como certo que não iria encontrar inspiração na racionalidade, ou no mundo que os homens criaram no intuito de enganarem a si mesmos que estão no controle dos seus destinos. 
Desde os onze anos, ele adquirira a obsessão pela busca da perfeição; o único quadro que concluiria, seria pintado tal qual Deus pintou o Jardim do Éden e, se assim não fosse, morreria tentando. E naquela jornada pra atingir a divindade, aquele exímio jardineiro jamais manteve vivo por mais de cinco minutos nenhum dos muitos quadros que pintara ao longo da vida, pois sempre que se aproximava de concluir uma obra, julgava humana e racional demais, logo, não era o que ele almejava. Ele sabia que era preciso ser menos gente pra atingir a divindade e, por conseguinte, pintar o quadro perfeito; o quadro que proporcionasse a quem tivesse a honra de apreciá-lo o mais puro terror em conjunto com o contentamento proporcionado pela beleza da dor selvagem e instintiva. 

Uma vez que ele ansiava pela sincronia com a mão de Deus, qualquer coisa que ele julgasse humano não era de seu interesse. Não mantinha relação alguma com seus semelhantes; nunca proferia uma palavra sequer ou olhava diretamente nos olhos de quem quer que fosse. 
Os patrões somente lhe direcionavam a palavra para alguma ordem sem graça, que ele nunca seguia a risca, pois tinha o seu jeito próprio de dar vida aquele jardim, que era se privando da sua própria. 
Desde que assumira o jardim, tudo ali era de uma beleza nunca vista em outro lugar no mundo, de modo que os patrões, mesmo notando a excentricidade daquele jardineiro, jamais o demitiriam, pois se habituaram aos elogios de seus conhecidos com relação ao seu jardim cheio de vida. Nem mesmo o fato da figura daquele homem magricelo chocar os poucos que o viam, embora raramente alguém se deparasse com ele, e se acontecesse, ele fugia como o diabo da cruz, não era motivo para demiti-lo. Ou mesmo seus hábitos pouco ortodoxos cujos assustavam até mesmo a mente mais perturbada, não lhe eram motivo pra que dispensassem seus serviços, embora suas verdadeiras loucuras, ele tomasse precauções pra que ninguém visse. 

Certa vez, no auge do frio do inverno, aquele fantasma do jardim, resolveu cavar um buraco na terra úmida de mais ou menos sessenta centímetros por detrás de uns arbustos na parte dos fundos da mansão. Ao concluir, se despiu, deitou seu corpo flácido e trêmulo de frio naquele que ele julgava não um buraco, uma cova, mas um portal para uni-lo em definitivo com a natureza instintiva, se enterrou com as próprias mãos deixando somente a boca e as narinas para captação de ar - e lá ficou por dois dias inteiros sem que ninguém o encontrasse, somente bebendo o orvalho que lhe caia a boca. 
Há que se lembrar de que tal empreitada quase o matou. Aquele ato era mais uma de suas tentativas pra atingir a inspiração pra “esculpir” o seu quadro divino. Ele tinha como certo que sob a terra úmida, vivendo junto, e, como um verme, ele se uniria a natureza selvagem e se desvencilharia de todo e qualquer sentimento humano, logo, ele poderia pincelar o seu quadro da mais pura beleza selvagem, como o seu Deus Pollock. 

Depois de chegar ao seu limite, de ouvir o pulsar da terra, de sentir que sua carne e a terra haviam se tornado somente um, ele reuniu o que lhe restava de forças, levantou-se evitando ao máximo que a terra que lhe pregara no corpo voltasse ao seu lugar justo, se direcionou até seu minúsculo quarto nos fundos do jardim, e lá, começou pintar o que seria o seu quadro destituído de qualquer humanidade. Mas depois de duas horas pintando, ele retorna a si, olha para a tela e se depara com a figura de um homem com uma corda no pescoço se equilibrando nas pontas dos pés sobre uma maçã pobre para evitar a morte. Os olhos daquele homem extramente assustados devido o medo da morte, provocaram pena ao jardineiro, sentimento humano menos nobre que ele já conhecera, então irritado, ele simplesmente se joga em cima do cavalete e rasga no dente aquele quadro mixuruca. 

Até aquela manhã, aquele homem sem vida já havia desenvolvido as mais excêntricas estratégias de modo a inspirar-se para seu único quadro, mas todas haviam se demonstrado inúteis. 
Certa vez, ele chegou a cortar os pelos dos cílios a fim de não mais dormir no intuito de despertar pelo sofrimento o seus instintos mais selvagens. Mas depois de seis dias, ele somente conseguiu pintar uma moça espanhola pastoreando ratos no alto de uma colina. Não era a pintura sublime que ele buscava, nem era pintada com a arte que ele almejava alcançar, então, mais uma vez se desfez do quadro. 

Mas naquela manhã, havia qualquer coisa de diferente, embora ele não soubesse o que era. Apreciando a areia branca, ele refletia sobre o fato que talvez jamais conseguisse atingir seus objetivos. Tais ideias começaram reverberar no que ainda lhe restava de humano e sentindo-se um fracassado de merda, ele profere um grito tão alto e diferente que arrepiaria até os mais indiferentes corações. Em um ato intuitivo, descalça suas botas que já ostentavam quatorze anos, e gritando tudo que ele havia guardado para si a vida toda, começa correr sobre a areia branca deixando suas pegadas como evidência do seu descontentamento com tudo. 
Ele corria feito um lobo faminto em direção a uma presa que sabia que jamais alcançaria. Até que, em meio às roseiras, bem no centro do jardim, um espinho lhe perfura o braço, fazendo com que o sangue caísse na areia branca. Sem se dá conta da dor, aquele homem corria deixando uma trilha vermelha por onde passava. Quando ele finalmente sente o líquido quente deslizando por seu braço, ele para, ignora o ferimento, olha para trás e se depara com os rastros de sangue. Ali ele entendeu que tudo que ele passara durante a vida, toda dor, resignação, conspiravam pra que ele chegasse aquele momento. Finalmente tudo fazia sentindo. 
Sem pensar, ele se despe e torna a correr totalmente nu, mas agora em direção as roseiras. Ele se lança aos espinhos como um touro feroz aos chifres de um rival. A sua pele frágil, jamais exposta ao sol, é dilacerada pelos espinhos derramando a sua vida por onde passava. Ele corria e a trilha deixada formava linhas instintivas totalmente destituídas de vontade. Apreciando o seu próprio espetáculo, em euforia, ele ignorava a dor, os homens e a vida. 

Os cortes deixados pelos espinhos das rosas não eram suficientes para que ele finalmente concluísse o seu quadro magnânimo, então ele lança-se aos cactos se provocando assim cortes mais profundos mas que pouco importavam, já que lhe rendiam a tinta que precisava. Ele era senhor de si mesmo, pintando o quadro da sua vida, o quadro que qualquer um que visse, apesar da dor, da aversão ao sangue, não conteria o contentamento em apreciar tão divino espetáculo. 

De repente, ele para em frente a uma gota do seu próprio sangue, acocora-se, e nota uma formiga numa tentativa infrutífera de se livrar do sangue coagulado, mas já perdia as forças. Eis que, pela primeira vez na vida, aquele jardineiro excêntrico ensaia um sorriso. Após a formiga perder totalmente os movimentos, ele se levanta e continua... Ele não podia parar! Finalmente iria concluir a pintura da sua vida. Logo, sem escolhas, ele se lançou mais e mais vezes sobre os cactos. E continuava a correr sem direção. Até que, depois de mais de uma hora, ele para, gira em torno de si mesmo bem no centro do jardim, e vislumbrando finalmente a sua obra perfeita, desfalece de braços abertos na areia grega agora vermelha. Ali deitado, ofegante, ele conclui que aquela pintura, o quadro da sua vida, só poderia ter sido pintada por alguém caminhando no vale da sombra da morte. Eis que, ele profere o último suspiro ciente de que tinha finalmente atingido seu objetivo maior. 

Alguns segundos depois, um rouxinol pousa compassadamente no ombro sem vida daquele Jardineiro embebido em seu próprio sangue, e inicia cantarolar o canto dos deuses, conferindo som aquela pintura que já tinha cor, aroma e dor. 





Samuel Ivani

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O afinador de pianos



Horácio faleceu as quinze horas enquanto afinava o piano de Anastácia Vespato pela enésima vez nos últimos quatro anos. Por razões que ambos conheciam, aquele piano tinha o dom de desafinar ainda que ninguém o tocasse de dois em dois dias. 
Anastácia ostentava setenta e três anos e Horácio poderia ter completado oitenta e um senão fosse aquela natural fatalidade enquanto ele pressionava repetidamente o dó do piano aquela tarde. 

Anastácia preparava um chá na cozinha para que tomassem depois que Horácio constatasse que o piano se encontrava tão afinado quanto dois dias antes. 
Ambos sentariam na varanda, Anastácia lhe serviria o chá, lhe ofereceria biscoitos que ele recusaria com um gesto de negação. E passados exatos um minuto e meio em silêncio, Horácio perguntaria a quantas andava os planos da pintura da casa, e Anastácia responderia que ainda estava em dúvida sobre as cores, embora já tivesse assuntado com o pintor pra que ficasse atento que tão logo ela decidisse, iria chamá-lo. Horácio então sugeriria salmão. Anastácia responderia que não tinha um gosto acentuado por peixes. Horácio riria e diria que salmão era uma boa cor pras paredes da sala, e não estava a convidando pra um jantar regado a salmão. Anastácia, mesmo já tendo vivido a mesma situação diversas vezes, riria abertamente e diria que embora vivessem hibernando, não eram ursos pra comerem salmão. Ambos cairiam na gargalhada, pois Anastácia teria adicionado um fato novo aquela conversa, que eram os ursos. Horácio ficaria feliz, pois compreenderia que um dos dois tinha se preocupado em tornar aquela situação, para ambos prazerosa, mais atraente ainda. 

Anastácia lentamente corria no forno, verificava os biscoitos e absorta em seus próprios pensamentos, não percebia que as notas do piano não eram mais emitidas lá da sala. Ou talvez já tivesse notado, mas no seu subconsciente, Horácio só tinha demorado menos tempo fingindo que afinava o piano já afinadíssimo.
Como ela queria que ele em vez de tentar afinar, tocasse qualquer coisa, talvez Villas Lobo. Mas desde que se conheceram, nem ele nem ela, haviam tocado nada para o outro naquele piano que dadas as vezes que era afinado, talvez não houvesse em todo o mundo um piano que emitisse notas mais perfeitas. 

Já havia alguns dias que Anastácia treinava uma composição de Vangelis, um compositor pop, segundo a televisão, no intuito de tocar pra Horácio, pois não era justo que ele afinasse tanto o piano sem nunca ouvir música de verdade saindo de suas entranhas. 
Anastácia tinha tantos planos para aquela tarde. 
Tencionava até em pedir que Horácio ficasse para o jantar. Eram vizinhos e ambos solitários, então, não custava nada se proporcionarem um pouco mais da companhia um do outro. 

Depois do chá pronto exatamente na medida que Horácio apreciava, ela prepara a bandeja e sem saber como, repara nas flores pintadas nas bordas dos pires; eram cores tão vivas que a fizeram lembrar de sua mocidade quando corria pelos campos de flores sem intenção de chegar a lugar algum. Então lhe ocorreu a brilhante ideia de colocar uma rosa artificial que tinha no armário no centro da bandeja. Feito isto, ao vislumbrar aquela bandeja colorida, constatou que tinha sido uma ideia acertada. 
Depois de tudo pronto, Anastácia respira fundo e se direciona a sala com mais vida do que de costume. Ao caminhar, ela estranha o barulho dos seus pés arrastando-se no piso da casa, pois nos dias anteriores, o som do piano suprimia o barulho dos seus chinelos. Eis que ali, ela notou qualquer coisa de diferente. 

Ao chegar a sala, Anastácia vê Horácio sentado ao piano ainda pressionando a nota dó...

domingo, 15 de outubro de 2017

Diário de um escritor medíocre







DIA 1

Acordou às nove da manhã. Verificou que era sábado e que, por aquela razão, não teria que ir a faculdade. Pensando assim, ele refletiu uns cinco minutos se valia a pena tomar café, escovar os dentes, tomar banho, uma vez que não sentia fome nem iria ver ninguém. Ao menos não que estivesse nos seus planos. 

Ao abrir de fato os olhos, a realidade lhe cobriu de tudo que ele já conhecia bem. Era tudo tão igual que ele se irritou. Mas sem forças, manteve sua ira apenas mentalmente: “Um homem devia, pelo menos uma vez por semana, acordar em um ambiente que não conhecesse a disposição dos móveis, para assim, esbarrar com a canela na quina do criado mudo e aquela dor terrível lhe servir como aviso de que ele ainda estava vivo”. Ora, encontrar provas da própria existência numa rotina que todos os dias parecem segundas feiras não é simples. Como bem disse Sartre. 

Sentou-se na sua velha rede. Olhou seu quarto sem reboco. Verificou o telhado confeccionado de madeira mixuruca. A sua rede de dormir minúscula no meio daquele quarto enorme lhe pareceu uma cena tão solitária de dá dó. Ali, imaginou-se como se ele fosse uma câmera filmando aquela cena do alto: a tomada pegava um homem medíocre, de sonhos medíocres, sentado numa rede sem charme, e sem razão nenhuma pra levantar. 

Deitou-se novamente, acionou uma música no celular e tentou dormir mais uma vez. Desejou pular o final de semana, acordar somente na segunda, pois segunda feira sendo mesmo segunda feira era justo que fosse mesmo chata e sem graça. Não era justo que todos os dias fossem como eram. 

Não conseguindo voltar a dormir, ele levanta-se, escova os dentes, não toma café, pois sente que a fome lhe traria qualquer iluminação pra escrever um conto sublime, pois já fazia uma semana que não escrevia nada. As sensações do último texto já estavam se esvaindo e a abstinência travestida na descrença no seu talento já lhe corroia o estômago. Escrever para ele era simplesmente um vício como qualquer outro. Toma-se uma dose hoje, se alimenta daquela sensação por um tempo, mas depois surge novamente a necessidade de mais. E como ele nem lembrava mais o tema do seu último texto que ninguém leu, a sensação que ele não passava de um homem destinado a produzir carvão vegetal no quintal de casa o resto da vida, já lhe consumia aos poucos. Era preciso escrever. Mas como? Nada lhe ocorria. 

Após escovar os dentes, retornou pra rede, leu um pouco de Nelson Rodrigues: o escravo etíope. Ficou maravilhado com a vida como ela é. Refletiu que as pessoas hoje em dia estão sendo levadas a acreditarem numa vida fictícia, cheia de flores e balões o tempo todo, de modo que não mais aceitam a vida como ela é. Concluiu então que ele nunca seria lido mesmo. Não naquele novo mundo do positivismo barato e inútil. 

Num relance, lembrou-se que tinha que preparar um seminário de matemática pra apresentar na próxima quinta. Quis morrer. Fechou os olhos e desejou com força que ao reabri-los, em vez de mãos, ele veria belos cascos, umas patas malhadas, e tetas prontas para ordenha. Pelo menos, naquela nova forma, ele teria mais chances de ser abduzido pelos aliens. Como lhe custava às obrigações fúteis da vida. Se bem que o seminário era só quinta, ainda tinha muito tempo pra procrastinar. 

Após verificar com dor que não havia sido transformado numa vaca, foi obrigado a levantar pra ir até a cidade com a mãe pagar umas contas. Verificou o combustível da moto, se desse para a viagem, seria uma sorte tremenda. Sua mãe, ao verificar a sua cara de desesperança, diz com todas as letras que viviam tempos negros, época de vacas magras. Ele quis rir da ironia do destino, mas não encontrou motivos suficientes. 

Ao chegar ao posto de gasolina, foi taxativamente cobrado pelo dono, pois tinha lá uns vales que já datavam de quase dois meses. Quarenta reais no total. Ele tinha consciência do débito, mas não tinha pagado porque já fazia uns três meses que não via cor de dinheiro. Os trabalhos universitários que ele fazia a muito custo em troca de alguns trocados, aparentemente tinham ido repousar em pastos verdejantes, de modo que ele vivia realmente “tempos negros como dizia sua mãe”.

Embora aquele escritor medíocre estivesse acostumado às humilhações, aquela cobrança lhe doeu mais do que de costume. Talvez estivesse amadurecendo um pouco. Tomando vergonha na cara. No entanto, vergonha na cara não paga conta, então ele se obrigou a dizer a verdade sobre os fatos e recebeu de troco expressões de reprovação. Como adicional, ouviu a frase que mais parecia um mantra na sua vida: cara, tu é tão inteligente, porque não arranja um emprego? Ele respirou fundo e saiu. Não valia a pena tentar explicar. Seria como tentar explicar conceitos de arte para os analfabetos que confundiram uma apresentação no Museu de Arte Moderna de São Paulo com pedofilia. 

Naquele instante, ao ser cobrado, ele se viu na pele de Lucien de Rubempré e de Arturo Bandine, mas embora aquilo lhe fomentasse as humilhações, não se sentiu muito bem ao pensar que só estava trilhando o mesmo caminho de seus ídolos. Não como antes. Não havia nada de glamoroso na vergonha de ser cobrado. É! Talvez ele estivesse mesmo amadurecendo.

Não tendo realmente como quitar a dívida, e obrigando-se abastecer a moto mesmo assim, ele teve que engolir o pouco de orgulho que lhe restava, e pediu que completasse a nota de cinquenta reais no vale, prometendo que era a última vez e que pagaria no final do mês. Sabe-se lá se ele teria dinheiro para tanto, mas valeu-se da fé, já que era o que lhe restava. 

Diante daquela situação, ele se irritou profundamente ao notar-se aos 27 anos, um homem de barba, tendo que passar por aqueles perrengues unicamente por amor a sua arte. Quanto sacrifício faz por tua arte Samuel! Que coragem você possui! 

Depois de conseguir abastecer a moto, ele se direcionou até a casa lotérica pra pagar um boleto fazendo um favor pra seu irmão. Duzentos e vinte sete reais no total. Dos duzentos e cinquenta reais que o irmão lhe dera, restaria vinte e três, que ele poderia dá de AV nos vales do posto. Mas irritado, cansado de tudo, resolveu que iria tentar a sorte na Mega Sena. Ele tinha sofrido muitas humilhações aquele dia, talvez o universo lhe agraciasse com o prêmio pra que ele nunca mais passasse por tamanha ignomínia. Então convicto, fez três jogos no valor de dez e cinquenta, e o restante entregou a mãe pra completar a compra do almoço. 

Retornaram pra casa, e como era sábado, restava somente esperar o resultado da Mega sair quando chegasse a noite. 
Diante da náusea, das lembranças, do tempo, começou refletir sobre o que faria se ganhasse muito dinheiro de uma só vez, e chegou à conclusão que com certeza abandonaria o sonho de se tornar um grande escritor.
 Concluiu então que talvez não fosse uma boa ideia torna-se rico assim de repente. 
Porém pensou nas humilhações que já passara por conta da falta de dinheiro e resolveu deixar o universo decidir aquilo por ele. Embora lá no fundo, ele soubesse que não queria mesmo ganhar aquele prêmio. Não mesmo.