quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993





Eu tinha doze anos, gostava de short-saia, chocolate do Fofão e da minha coleção de gibis da turma da Mônica, embora por vergonha não lesse mais. Eu sonhava em ser Paquita da Xuxa e era apaixonada pelo Fábio Júnior; não pelas músicas dele, era aquele jeito dele de mexer nos cabelos que me encantava. Eu tinha duas amigas de verdade; minha irmã, um ano mais velha que eu, e minha vizinha Tati de catorze anos. Passávamos tanto tempo juntas que a imagem de uma já estava atrelada a da outra. Aos fins de tarde, nos sentávamos na calçada de frente pra rua e imaginávamos que todos que vinham da esquerda eram namorados de Tati e os que vinham da direita eram namorados de minha irmã. Se fosse uma encruzilhada, talvez me sobrasse uns namorados também, mas eu não me importava. Quando surgia alguém feio, ríamos e caçoávamos uma da outra como se realmente o casamento com aqueles passantes fosse pra dali duas semanas. Era muito divertido! Se bem que se tinha uma coisa que fazíamos era gritar e rir por qualquer coisa. Menos quando uma das três amargava uma paixão platônica por um professor ou por um ator da novela das seis, aí chorávamos as três juntas. 

Dezessete de fevereiro de 1993, Tati tinha arranjado um paquera e precisava de ajuda pra um esquema que tinha marcado para às oito e meia da noite na discoteca da minha rua. Então usamos a desculpa máster, a desculpa infalível: Tati iria dormir na nossa casa pra fazermos juntas o dever de casa. Duvido que alguém tenha inventado, ou melhor, duvido que alguém invente algo mais divertido do que a melhor amiga dormir na casa da gente. A gente conversa a noite toda sobre amores eternos, garotos e..., é só sobre isso mesmo. Até que alguém cochila, e a outra pergunta, “já dormiu” e se ouve a resposta, “claro que não, pensando o quê". Viram o Jerfeson hoje? Tava um gato” e assim a noite se vai sem que a gente perceba. É experimentar o paraíso.  

Naquela noite jantamos juntas, nos maquiamos juntas, tiramos a maquiagem juntas, pois não podíamos sair na rua todas pintadas que nossos pais desconfiariam de qualquer coisa. Deixamos somente um batom vermelho nada discreto e saímos à surdina pra rua. Meus pais confiavam muito na gente, pois sabiam que nunca íamos longe e sabia que nunca, jamais, entraríamos na discoteca. Não tínhamos intenção mesmo de entrar, o esquema seria do lado de fora. Mas deu oito e meia e nada do paquera de Tati aparecer, nove horas, nove e meia, quase dez horas e nada dele chegar. Estávamos há poucos metros de casa e há poucos metros da discoteca; três magricelas de batom vermelho decepcionadas com o bolo que Tati tinha levado. Então um carro brilhante se aproximou e quatro jovens bonitos desceram e nos convidaram pra dá uma volta. Eu logo disse que não ia, minha irmã também relutou, mas Tati, com o coração partido, não pensou duas vezes e entrou no carro - e pra não deixá-la sozinha, também entramos. 

O carro saiu em disparada e Tati gritava feito uma louca, enquanto eu me mantinha apreensiva e pensando na surra que levaríamos quando voltássemos pra casa. Depois de um tempo, um rapaz muito alegre e de respiração ofegante, coloca uma cerveja gelada entre minhas pernas e começa fazer movimentos estranhos e repetitivos, até que me beija. Eu não tive reação, estava com estranhos e não podia sequer me mexer. O carro parou depois de mais ou menos meia hora, me levando a crer que aquele pesadelo tinha acabado. Mas ali não era a nossa rua; era um terreno baldio estranhamente distante de tudo que eu conhecia. Fiquei no carro com um dos jovens e minha irmã e Tati foram arrancadas a força e colocadas no capô pelos outros três. Não conseguíamos gritar nem se quiséssemos, embora eles dissessem a todo o momento que se gritássemos nos matariam.  

Depois de uma hora, duas, não sei bem, eu acordei talvez naquele mesmo terreno com os meus próprios cabelos na boca. Quando consegui abrir os olhos, notei Tati desfalecida sobre minhas pernas. Naquela momento meu mundo desabou pela décima vez aquela noite. Eu mexi em seus ombros, mas ela não reagia. Eu empurrei seu corpo com a força que me restava e consegui virá-la, então vi seu rosto desfigurado e seus olhos sem vida. Eu tentei chorar, mas já não tinha lágrimas. Eu tentei gritar, mas não tinha voz. Eu tentei ressuscitá-la, mas foi inútil. Olhei pro lado a fim de averiguar onde se encontrava minha irmã, então a vi; estava sem roupa sentada um pouco distante com a cabeça entre as pernas. Ela parecia chorar segurando o prendedor de cabelo da Tati na mão esquerda.

Continua no próximo capítulo 

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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo II




Duas vezes eu tentei levantar, mas não tive forças, na terceira tentativa eu consegui ficar de quatro e me movimentar aos poucos. Tudo em volta era um silêncio aterrador; eu podia ouvir o barulho das minhas articulações e da minha respiração a cada movimento que proferia. E podia sentir o gosto horrível de terra e sangue na boca misturado com qualquer coisa que desconhecia. A brisa da madrugada atravessava meus ferimentos e me provocava calafrios, mas não dor. Enquanto me arrastava em direção minha irmã, meus joelhos deram com uma poça de sangue coagulado, porém, optei por não desviar, foi ai que senti em meio ao sangue um objeto de textura diferente, dei a volta, remexi e logo encontrei; tomei o objeto na mão e apertei com a força que tinha assim como Carina apertava o prendedor de cabelo de Tati. A cada nova imagem que meus olhos se deparavam naquele cenário era como se construísse uma redoma ao redor de mim e a realidade se afunilasse. Quando consegui me aproximar de Carina, a última redoma se impôs, então eu compreendi que a realidade como conhecíamos não existia mais. Não sabendo o que fazer diante daquela situação, simplesmente me acomodei na mesma posição de minha irmã, baixei a cabeça e aceitei que era o fim. Cansada, eu desfaleci sentindo um embrulho estranho no estômago.  

Depois de algumas horas despertei, mesmo sem querer, devido sentir umas mãos tocando o meu rosto. Ao sentir a textura da pele de outra pessoa, eu gritei tão alto que as redomas em volta se desfizeram. Olhei em volta e revi sob a luz do sol aquele cenário maldito; então pude ver cada erva daninha deformada pelos nossos corpos, as pegadas que aqueles jovens bonitos e bem vestidos haviam deixado, o sangue, os pedaços de muro com letras de propagandas política, tudo aquilo ficaria pra sempre gravado na minha cabeça.   

Aquele homem me pegou nos braços e me levou pra uma ambulância onde já se encontrava minha irmã. Eis que, quando Carina me viu, começou gritar o nome de Tati, então pra acalmá-la disse que como ela estava muito machucada havia sido levada as pressas para o hospital. Por alguma razão eu passei também acreditar naquela minha mentira, mentira que teria que ter sido ela a me contar e não eu. No hospital, nosso pai já nos esperava. Ele acompanhou a gente todo o percurso até o quarto sem dizer uma única palavra. Eu também não queria falar, embora aquele silêncio me sufocasse. 

Eu não passei muito tempo no hospital, Carina, no entanto, como se encontrava com um corte profundo na cabeça, precisou ficar dois dias. No mesmo dia retornei pra casa e quando voltava, ao chegar próximo da discoteca, fechei os olhos pra não ver o último lugar que nos três tínhamos sorrido de verdade. Quando revi minha casa, senti que não era mais a mesma casa; aquele azul claro das paredes que tanto me lembrava do céu me provocou náuseas. Até mesmo minha mãe, não era mais a mesma; tinha uma preocupação excessiva que meu espírito independente não tava acostumado. Eu queria que ela me batesse que brigasse comigo, não que cuidasse de mim. Quando me direcionei ao meu quarto, logo avistei a mochila do Mickey em que Tati tinha trazido sua muda de roupa e a escova de dente; era a mesma mochila que ela odiava levar pra escola, pois sua mãe havia comprado pensando que o Mickey era a Minnie fazia uns quatro anos. Foi ali que percebi que nunca mais a veria, que nunca mais sentaríamos na calçada, que nunca mais brigaríamos por causa de “Bem Me Quer Mal Me Quer” e nem assistiríamos “Ghost: do outro lado da vida” juntas na sessão da tarde. As lágrimas então desabaram. Rever todos aqueles objetos ainda sentindo as sensações da noite anterior me corroía o estômago. Corri ao banheiro pra chorar e tentar arrancar com água e sabão o cheiro e o gosto daqueles jovens bonitos e bem vestidos que tanto me repugnava. Mas ao entrar no banheiro, quando afrouxei a mão direita pra ligar o chuveiro, senti um objeto quase se fundindo a minha pele, tamanha era a força que eu o segurava. Abri a mão devagar e vi que se tratava de uma pulseira de metal do Palmeiras com uma gravura na parte de trás: C. S & A. A. Deixei a pulseira na pia e tomei banho por três horas, até que desisti, pois descobri que aquele cheiro e aquele gosto só sairiam se eu arrancasse a própria pele. Deitei-me na cama ainda molhada e fiquei imaginando como eu iria enfrentar todas as pessoas que eu conhecia depois de tudo. Como eu ia enfrentar a escola, os meus amigos, a minha irmã e os meus pais, quando fosse possível tocar naquele assunto.  

Não nos despedimos de Tati, seus pais nem mesmo vieram pegar sua mochila e talvez fosse melhor assim. Toda vez que a realidade me vinha como uma lâmina afiada cortando os meus sonhos, eu sentia um vazio que me provocava dificuldade de respirar e um sentimento de culpa me assolava. Minha irmã, depois que retornou do hospital,  no entanto, parecia lidar com o acontecido de forma diferente; ela colocava música alta, cantava, corria e, às vezes chorava, mas sempre que eu tentava conversar, ela fingia que eu não existia.

Depois de duas semanas, fomos obrigadas ir à delegacia fazer reconhecimento de suspeitos. Enquanto esperávamos pra ficarmos cara a cara com os possíveis assassinos de Tati, um jovem trajando uma camisa do Palmeiras entrou na sala de espera e uma ira incompreensível se apoderou de mim; eu gritei e pulei no pescoço daquele homem e arranquei um pedaço da sua orelha com os dentes...

Continua...

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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo III



Foi um alvoroço, e também pudera; eu avancei como uma louca em cima daquele homem e mesmo que tentasse me conter não conseguiria. Carina, assim como era em casa em situações de estresse, simplesmente ficou aturdida, sem reação, mas parecia me entender. Fui prontamente imobilizada por um guarda barrigudo, senão, talvez tivesse arrancado bem mais que um pedaço daquela orelha suculenta. Infelizmente o rapaz bonito e bem vestido era filho do delegado, logo, me julgou maluca; o pai dele então, sem escolhas, diante dos fatos e do depoimento do filho, me julgou incapaz de conviver em harmonia com a sociedade e, no ato, expediu uma ordem pra que eu fosse mantida numa dessas instituições pra malucos. Meu pai, sem ter como explicar nada, apenas sentou na cadeira em frente o bebedouro e ficou olhando os pingos de água que caiam devido algum defeito na torneira. Não foi possível mais o reconhecimento dos suspeitos e talvez não precisasse. Algumas pessoas, depois que tomaram conhecimento da cena na delegacia, duvidaram se realmente nós tínhamos sido violentadas. Eu tive a honra de ouvir uma vizinha dizer: “quem sabe não foram elas mesmo que deram pra eles. Foram se meter com desconhecidos, deu no que deu”. Quis matá-la, mas me contive. Eu tinha quase treze anos, meu mundo tinha desmoronado e a vida comum parecia que não era mais possível pra mim, então, assim como sentei do lado de Carina naquela noite, eu sentei no piso frio da delegacia e aceitei meu destino.             

Passaram-se uns dias antes que eu fosse definitivamente praquele lugar que todos que eu conhecia chamavam de manicômio. Mas depois de um tempo eu realmente queria ir, pois minha mãe acreditou piamente que eu já não existia como antes, então alegava que tudo que eu fazia era culpa do meu problema. “Era culpa do meu problema”! Nada me doía mais do que aquilo. De tanto ouvir aquilo, eu tava á um ponto de me convencer que realmente era louca. Quando vieram me buscar pra reclusão, eu até fiquei contente em não precisar ver mais ninguém que desconfiava da minha loucura, lá, pelo menos todos teriam certeza. 

Eu passei dois anos reclusa, tempo que ninguém jamais previra. O problema era que a psicóloga queria por força que eu escondesse alguma coisa, que tivesse algo mais sombrio que eu não revelava pra proteger o meu cérebro de um trauma maior. Mas não tinha. Eu relatava tudo que me lembrava daquele dia, nos mínimos detalhes, mas ela nunca se dava por satisfeita. Sempre dizia: “procure se lembrar de algo, um detalhe que você ou sua irmã não queriam que seus pais soubessem; algo que a tortura, que lhe remete a culpa”. Mas não tinha. Eu tinha entrado em um carro com estranhos, eles nos levaram praquele terreno baldio e fizeram coisas horríveis e era só. Bem, o fato de eu ter me envolvido em dezenove brigas com os outros internos durante esses dois anos também não ajudou muito pra que eu recebesse alta. E também eu até gostava da solidão de lá e, desde que eu tivesse Bryan Adams pra escutar, o lugar que eu me encontrasse pouco importava.  

Nesses dois anos, meu pai ia me visitar, mas não conversava muito. Minha mãe me levava bolos, balas, remédios e fazia questão de dizer que as brigas não eram culpa minha, e sim do meu problema. Mas o que mais me indignava, era não ter como provar que não era louca, e não conseguindo, a única alternativa que me restava era agir como tal. Dei a todos o que eles queriam desde o início; que era ter certeza da minha loucura.
Eu não atrasei na escola por conta da casa de bobos como eu chamava; eu estudava lá e minhas notas eram altíssimas, pois as minhas distrações eram as brigas e nem sempre eu podia forçar uma. Sem contar que eu não tive que encarar nenhum colega de turma me perguntado sobre aquele dia, nem as fofocas. Também ali presa, eu tava livre de todos os problemas normais da adolescência: não me apaixonava, não sofria, embora também não me sentisse feliz, mas pouco me importava. Eu definitivamente achei que aquele manicômio era o meu lugar. Conclui o ensino fundamental lá e em novembro de 1994 eu recebi alta, pois havia conseguido a proeza de passar três meses sem conseguir forçar nenhuma briga. 

Ao retornar pra casa, eu descobri que simplesmente odiava tudo, mas não era tudo que me lembrava do verão de 93, era tudo mesmo naquela casa. Eu odiei o quadro da seleção brasileira na parede da sala agora pintada de amarelo. Odiei o toca fitas que substituíra a vitrola que eu tanto amava. Repugnei o relógio estupidamente redondo na parede. Odiei a toalha da mesa, os adesivos do Zé Carioca na geladeira que já ostentava uns vinte anos. Odiei o bolo de laranja servido em comemoração a minha chegada. A minha boneca ridiculamente vestida de Paquita da Xuxa me pareceu tão idiota que eu quis destroçá-la no dente. A coleção de gibis da turma da Mônica e a os discos do Bryan Adams eram as únicas coisas que eu ainda suportava naquela casa. Quis queimar todas aquelas minhas coisas rosa do passado. As novas eu odiava só porque adolescentes odeiam tudo mesmo.  

Minha irmã, mesmo depois de dois anos, não conseguia olhar nos meus olhos, nem ultrapassava o limite de duas palavras numa conversa. Nada me agradaria mais do que conversar com ela, não só sobre aquele fatídico dia, sobre tudo, mas ela parecia não compartilhar do mesmo sentimento. Pelo menos um abraço apertado que fosse, mas nem isso. 

Depois de alguns dias em casa, eu descobri que todos da cidade me chamavam de louca e que as crianças tinham mais medo de mim do que do bicho papão. Era uma cidade pequena, as pessoas tinham elevado tanto o acontecido na delegacia que a minha fama beirava a de Hannibal Lecter. Ouvi as estórias mais absurdas a respeito da noite de 93 e da minha estadia no manicômio que me faziam até rir. Corria boatos que eu tinha engravidado do agressor e abortado pouco tempo depois, que no manicômio eu tinha comido uma mão inteira de uma interna e muitas outras estórias. Se Carina conseguisse me encarar, se ela fosse a mesma de quando dividíamos o sorvete, se ela fosse a mesma de quando fazíamos tranças no cabelo uma da outra, certamente riríamos muito daqueles boatos insanos, mas não era. Só o que eu estranhei mesmo com meu retorno, fora o fato de que passados dois anos, numa cidade pequena como aquela, nunca tinham sequer encontrado pistas dos assassinos de Tati. Mas naquele momento eu me encontrava livre das paredes do manicômio e, uma coisa era certa, eu havia saído bem mais maluca do que tinha entrado. Livre, eu olhava praquela pulseira do Palmeiras que eu não havia perdido de vista um segundo que fosse depois que a encontrei e pensava aquelas típicas utopias de adolescente: aqueles bandidos de merda vão conhecer quem é Valquíria Deodato de Sousa. Sempre que pensava sobre isso, uma lágrima de sangue era expelida dos meus grandes olhos de quase quinze anos.

Continua...  
    


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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo IV





Eu tinha passado dois anos longe de todos que eu conhecia e se tinha uma coisa que eu gostaria era de explorar, rever tudo daquela minha cidade, embora odiasse. Eu precisava ver o mundo; era jovem e tinha ânsia por viver. Porém tinha “o meu problema”, minha mãe não permitia que eu me afastasse dos seus olhos. A verdade que ficar presa em casa não me ajudava em nada, pois tinha dias que, inevitavelmente as lembranças me surgiam e transcorria pelo meu corpo um desejo incontrolável em conjunto com pensamentos impuros, segundo minha concepção, - e aquilo não me fazia bem; não era como quando via um garoto bonito na escola e sentia qualquer coisa no estômago, era diferente. Quando essa sensação passava, era como se eu tivesse sido violentada há poucos minutos e por mim mesma. Então aquele maldito embrulho no estômago voltava e eu sentia vontade de arrancar a minha pele e correr em carne viva até onde não conseguisse mais, pra que o vento e o suor arrancassem aquelas depravações dos meus pensamentos e do meu corpo de uma vez. 

Um dia, aproveitando que minha mãe tirava a cesta da tarde, eu consegui fugir pra rua e vendo-me livre eu corri e corri; eu vi o dia, vi pessoas, vi o vendedor de algodão doce, vislumbrei três garotas que caminhavam aparentemente sem destino, somente caminhavam e aquilo me fez um bem danado. Eu precisava de mais daquela sensação, então corri o mais rápido que conseguia. Eu queria me desmanchar completamente em suor, simplesmente me diluir, pois não merecia o mundo com aqueles pensamentos povoando minha mente cristã. Eu corri tanto que chegou a noite e eu não percebi. Mas não corri o suficiente pra não saber onde tava, de modo que encontrar o caminho de volta foi fácil. Quando me aproximei da minha casa me deparei com o carro da polícia na porta. Eu não procurei me esconder, simplesmente entrei como se eu tivesse saído pra uma corrida normal. Minha mãe, no entanto, chorava inconsolada e me abraçou quando me viu, mas ficou embaraçada ao ver que tinha incomodado a polícia à toa.  

O policial que havia atendido o chamado desesperado de minha mãe, por razões que conhecemos bem, não tinha parte da orelha esquerda. Quando ele me viu me olhou com um olhar de espanto, mas não tive certeza se me reconheceu, pois em dois anos eu tinha mudado bastante. Mas depois pensei que qualquer mulher que arrancasse um pedaço de um homem como eu havia feito, ainda que ela tivesse oitenta anos, seria reconhecida por ele. Ele ficou um tempo sem falar nada, olhando pra minha barriga suada devido à corrida. Minha mãe estranhou, eu, no entanto, não estranhei nada. Mas eu também o olhava, mas não para os seus olhos lindos, nem praquela pose de superioridade dele, eu olhava para o nome bordado na sua farda: C. Salgado, A+. Na noite de 93 eu não tinha conseguido ver o rosto de nenhum dos rapazes, não ao ponto de formar uma imagem nítida, mas aquela pulseira e a minha ira incompreensível na delegacia, talvez não fosse completamente loucura. Sem contar que era tudo que eu tinha. Eu precisava me apegar a todas as possibilidades, isso se eu quisesse encontrar os desgraçados que fizeram aquela barbárie com a gente, já que a polícia não iria fazer nada. Ele até se encontrava irritado antes de eu chegar, ouvi-o dizendo que não incomodassem a polícia com bobagens, mas depois de me ver e aparentemente apreciar o quanto eu tava crescida, ele tornou-se simpático e prestativo, deixando seu número pessoal pra que ligássemos em caso de emergência. Eu confesso que estranhei qual era as intenções daquele rapaz, minha mãe, porém, instintiva como era, percebeu logo que ele tava flertando comigo, mas talvez ela tenha se enganado. Depois que o policial se foi, nem meu pai nem minha mãe brigaram comigo, nem mesmo citaram o meu problema. Eu juro que queria que eles tomassem um cinto e me desse umas boas chibatadas, mas minha mãe só me preparou um chá.  

O chá eu tomei só pra agradar minha mãe, sabendo que não surtiria efeito algum, mas aquela corrida tinha realmente me feito muito bem. Eu me sentia leve, livre, como se pudesse abraçar o mundo novamente, como qualquer adolescente. Depois de um banho me deitei, coloquei Bryan Adams, mas o som da fita cassete não me agradou, porém era Bryan Adams e pouco me importei. Com a tranquilidade que a música e a corrida me propiciava, as ideias começaram fluir e tudo começou fazer sentindo:  Pensei que se os rapazes da noite de 93 fossem policiais, e mesmo que não fossem e o filho do delegado fosse um dos quatro, o fato do crime nunca ter sido investigado estava completamente explicado. O pai daquele jovem que não podia mais usar brincos devia ser o poderoso chefão da polícia Civil e não iria deixar mesmo que o nome da sua família fosse manchado com um crime tão bárbaro. Ter lido bastante romances policiais no manicômio fomentou muito essas ideias, bem como alimentou o meu desejo de vingança que a cada dia crescia mais.       

O problema de todas aquelas ideias que surgiam na minha cabeça era exatamente “o meu problema”. Eu tinha sido convencida que era louca, logo, me surgiam às dúvidas: e se eu tivesse inventado toda aquela história? Se aquela pulseira não fosse de nenhum dos bandidos e sim de algum idiota qualquer? Mas as inicias não poderiam ser prova maiores, sem bem que o c na farda poderia ser de cabo Salgado e não Carlos Salgado como eu pensava. Talvez eu realmente estivesse me tornando paranoica e toda aquela trama tinha sido meu cérebro que havia criado pra que eu não sofresse tanto com a impunidade dos marginais. Aquelas ideias me torturavam em demasia e se eu fosse mais fraca, talvez elas houvessem realmente me levado à loucura total, se é que eu já não era. Sendo loucura ou não, eu precisava  investigar a fundo pra que não me restasse dúvida.
Mas ai, envolvida por Heaven na voz de veludo de Bryan Adams, eu me esquecia de tudo e até conseguia sorrir comigo mesmo e dormir tranquila. 
Apesar dos fatos expressarem que eu era uma adolescente depressiva, a verdade era que eu vivia muitos momentos felizes. Quando tinha que chorar eu chorava, mas quando tinha a oportunidade de sorrir, por menor que fosse eu agarrava com unhas e dentes e sorria com toda felicidade do mundo. A gente escolhe como viver e, às vezes, até escolhemos o que sentir, é só se conhecer.


Posto um capítulo por dia dessa história. Se você gostou, compartilhe e indique aos amigos 

Samuel Ivani 

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo V




Eu desenvolvia os planos mais mirabolantes e maquiavélicos pra fazer com que os rapazes bonitos e bem vestidos daquela noite pagassem pelo que tinham feito. Havia noites que eu simplesmente não dormia, apenas imaginando o que eu faria se caso conseguisse mantê-los amarrados em alguma masmorra da vida. Pensava que ia pisar tanto na cara deles, machucar os testículos até que se tornassem papas; às vezes até chorava, mas aquelas lágrimas me faziam bem. Talvez eu tivesse me tornando psicopata. Mas quem poderia me julgar depois de tudo que passei. Mas logo me vinha a ideia de que talvez eu já fosse mesmo um monstro antes, e aquela era apenas uma desculpa que eu encontrava pra justificar minha sede de sangue. Não importava o que eu fizesse, a culpa era minha companheira inseparável. Diante de uma violência como aquela a gente simplesmente se culpa pelo ato em si e por todos os pensamentos ruins que nos vem posteriormente. Se eu tivesse somente sofrido um assalto, uma violência física, talvez só quisesse esmagar os bandidos, mas eu não conseguia só desejar a morte deles, eu precisava de mais e aquilo me torturava. 

Mas os meus planos podiam até ser funcionais, mas esbarravam numa coisa besta que era o fato de que eu sequer podia sair de casa sem que minha mãe acionasse os bombeiros, o exército, até a mesmo o FBI. Então só me restava esperar a minha volta ao colégio, agora no ensino médio. Tantos planos que eu havia feito  pra quando finalmente fosse para o ensino médio; matar aula pra ir à lanchonete e paquerar com os garotos, namorar e namorar... Seria a liberdade que eu tanto esperava, mas como eu era a celebridade da cidade, nada daquilo talvez fosse possível. E aquela minha corrida aparentemente sem rumo não ajudou muito pra melhorar minha imagem, pois me promoveu de louca à maluca de pedra no falatório do povo. É muito difícil que as pessoas ditas normais entendam determinados atos da gente. Existe um manual pronto da sensatez, qualquer coisa que fuja das linhas inflexíveis desse manual é considerada loucura. Mas se eu fosse normal e todos é que fossem loucos? Como saber. 

Evolvida por aqueles pensamentos, eu não sentia vontade de ir à escola, pois teria que enfrentar os olhares e aqueles sussurros idiotas que as pessoas julgam que a gente não tá escutando: “olha a maluca!", "Essa ai é aquela doida que arrancou a orelha do filho do delegado!". Eu pensava em tudo de antemão, afinal, o que não me faltava era tempo pra pensar, uma vez que não fazia nada. Eu pensava: será que eu arranjaria amigos? Será que eu ainda tinha a capacidade de me apaixonar como antes? Será que eu realmente ia conseguir me adaptar a nova realidade? Como Carina fazia falta. Eu queria muito que ela me antecipasse como era estudar no ensino médio; se tinha meninos bonitos, se era realmente divertido como nós imaginávamos no passado, mas ela parecia ignorar minha existência. Como eu não me encontrava mais no manicômio uma vez ou outra me vinha essas preocupações normais de todo mundo e, com isso, sabe, eu me considerava como qualquer pessoa. Porém, minha mente era do inferno ao paraíso o tempo todo. Confesso que eu vivenciava bem mais o inferno.  

Bem, como o tempo não para, o natal passou, o ano passou e, eu fiquei em casa de mente cheia, porém alimentada pelo diabo, uma vez que sem ver o mundo externo eu não tinha a oportunidade de preenchê-la com pensamentos ditos comuns. 
Chegada a hora de ir à escola, eu revivi momentos do passado; fui tomar banho as onze e quarenta, pois Carina sempre tomava banho ao meio dia; vesti meu uniforme ridículo, calcei minhas congas ridículas e, munida com minha mochila ridícula, fui pra calçada esperar que Carina se arrumasse. Do lado de fora, era como se a Tati fosse chegar aos gritos a qualquer momento dizendo que estávamos atrasadas, mas o meu desejo que ela aparecesse não era suficiente.

Carina, mesmo sem querer, era obrigada a me acompanhar até a escola, pois segundo minha mãe ela era a mais velha e tinha mais juízo. E naquela tarde, enquanto a gente caminhava na estrada que conhecíamos bem, embora sem proferir uma única palavra, eu senti que finalmente estávamos fazendo algo juntas de novo. Juro que em dois anos, foi sob aquele sol escaldante que eu consegui respirar sem sentir aquele aperto no peito que sempre sentia. Caminhar com Carina pra o mesmo destino me proporcionou tanta felicidade que eu quis andar me equilibrando no meio fio, mas logo percebi que não era mais criança, então um sorriso bobo me veio, um sorriso tão sincero que culminou numa lágrima boba de felicidade que eu tive que me virar pra disfarçar. Eu quis pegar uma daquelas flores violetas a beira da estrada e colocar no cabelo dela e abraçá-la forte, mesmo que não disséssemos nada uma pra outra. Bem, só diria uma coisa: "senti tua falta sua égua!". O mais legal era que ela fizesse isso, assim, eu teria certeza que ela estava de volta. Mas era só um sonho. 

Depois de caminharmos uns dez minutos, um carro simplesmente quase nos atropela. Senão tivéssemos corrido e dado à volta no chafariz ali próximo, eu não estaria aqui pra contar essa história. Mas foi Carina que percebeu, eu me encontrava absorta em meus pensamentos de modo que a realidade pouco me importava, então ela segurou forte em meu braço e, mesmo eu não entendendo nada, me puxou e me salvou. Pode até ser que nossas mentes jovens tenham enaltecido o fato em demasia, mas Carina realmente ficou muito assustada com aquilo e não era pra menos; um carro preto, de modelo que eu jamais vou saber, saiu da estrada e nos forçou correr desesperadamente pra salvarmos nossa vida. Carina, apreensiva como nunca eu tinha visto antes, implorava desesperada que eu não contasse nada para os nossos pais. Eu jurei tão feliz que jamais contaria. Ora, estávamos finalmente sendo irmãs novamente...

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo VI

   

Ainda que tenha sido um susto e tanto aquele carro vindo em nossa direção, nos recompomos e continuamos caminhando. Meu coração estava aos pulos, não tanto pelo perrengue, mas pela possibilidade de reatar com Carina, afinal tínhamos um segredo, nada une mais duas irmãs do que os segredos. 

Quanto mais nos aproximávamos da escola, mais meu coração acelerava; enfrentar um carro "desgovernado" não era nada comparado a enfrentar os olhares de meus inquisidores e antigos conhecidos, e desconhecidos também. Juro que pensei em correr novamente, mas correr como um ato de covardia nunca foi uma opção. Correr tinha um sentindo filosófico mais profundo que eu nunca esperei que ninguém entendesse. 

Ao chegar ao portão do colégio, quando vi algumas meninas conversando alegremente enquanto se deliciavam com um pirulito, todas maquiadas e lindas, eu pensei: "o que eu tô fazendo aqui? Eu não pertenço a esse mundo!" O colégio parecia tão pequeno, diferente de quando passávamos em frente quando estudávamos no fundamental, que talvez eu nem coubesse lá. Baixei o olhar a fim de não olhar pra ninguém, assim não notaria todos os olhares me devorando como se eu fosse de outro mundo, mas pensei melhor e optei enfrentar de cabeça erguida. Carina, mal a gente se aproximou do colégio, se afastou de mim. Eu preferi não tentar entender suas razões, mas sabia que eram boas.   

Ao entrar pelo portão, pensei em ir rápido pra sala. Porém, da entrada do portão até a sala parecia ter mil léguas; cada olhar nos semblantes das pessoas representava uma légua a mais que eu tinha que percorrer. De início eu pensei que aqueles olhares fulminantes eram de desprezo, de medo, repulsa, mas depois de um tempo eu decifrei: eram olhares de expectativa. Todos não queriam nada mais nada menos que eu fizesse jus a minha fama. Podia suportar o desprezo, o medo, até mesmo o ódio, mas aqueles olhares implorando pra que eu cometesse algum ato de loucura, não. Até que uma garota magricela mastigando um chiclete deixou fluir o elogio que eu esperava: "é aquela louca!" Eu me enfureci e não tive escolhas, senão, dá a eles o espetáculo que tanto queriam. Se existe uma coisa que é difícil de evitar, é a vontade coletiva de uma multidão. Agarrei nos lindos cabelos lisos daquela magricela e esfreguei sua cara em um vaso disposto do lado de uma coluna no corredor principal. E como em todo bom espetáculo, houve gritos de incentivos e risos. Os olhares de todos mudaram rapidamente; passaram da apreensão da espera, pra satisfação de um desejo realizado. Senão fosse Carina que salvasse aquela pobre coitada de ser destruída, pouco dela tinha restado. enquanto me direcionava até a diretoria, Carina só me dizia que eu precisava pensar antes de agir e que eu não podia me deixar ser levada pelas calúnias dos invejosos daquela cidade. Mas eu sequer a ouvia, só conseguia lamentar a linda bromélia que eu havia destruído esfregando o rosto da magricela. Mas quando chegamos na diretoria, longe dos olhares dos alunos, Carina desabou. Ela começou repetir: “é culpa minha, é tudo culpa minha!” Então abraçou o armário de arquivos e começou bater a testa na quina de aço abrindo um pequeno corte em sua cabeça. Eu não pensei duas vezes e tentei segurá-la e acalmá-la, embora chorasse junto com ela. Carina tinha passado dois anos tentando levar uma vida normal, como se nada tivesse acontecido, mas a minha presença não permitiu que ela triunfasse eu seus intentos. Se eu não tivesse voltado a sua vida, tudo aquilo podia ter sido evitado. Então, em meu último ato, eu deslizei agarrada em suas pernas e me deixei chorar.  

Depois de um tempo, minha mãe foi chamada e tivemos que voltar pra casa, sem suspensão, ou qualquer coisa que o valha. Ao chegar a casa e presenciar aquele silêncio de sempre, como se tudo que fizéssemos fosse compreensível, eu percebi que Carina sofria mais do que eu com tudo aquilo e que eu precisava ser forte pra ajudá-la. Se antes ela não trocava mais que duas palavras comigo, depois do acontecido, ela simplesmente evitou que ocupássemos o mesmo cômodo ao mesmo tempo, talvez seguindo as leis da física que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo.

A verdade é que também colocar culpa de tudo que acontecia comigo somente na noite de 93, não ajudava em nada. Em casa e calma, eu comecei refletir que se eu resumisse toda a minha vida aquela noite traumática, eu era quase nada; eu não passava das cinzas do incêndio do verão de 93. Foi com esse pensamento que eu passei a ignorar a sádica vontade coletiva e compreender que eu existia em minha particularidade. Não vou dizer que foi fácil chegar àquela conclusão. Demorei dois anos brigando no manicômio, com uma ânsia por querer quebrar tudo, tentando descarregar meu ódio em alguma coisa ou alguém, antes de entender que eu precisava seguir os meus próprios desejos em detrimento das aspirações alheias que talvez nem existissem, eu que inventava. Conclui que eu não precisava ser o que sobrara de uma experiência traumática, eu era alguém e tinha a chance de construir uma nova realidade em que eu me encaixasse. Um único dia no mundo externo, vendo pessoas ditas normais, mudou completamente meu discernimento do que era a vida. Eu só precisava de sol e vida - e foi o que aquele dia me propiciou. Embora constatar que Carina amargava uma dor maior que a minha, tenha me forçado também a ser mais forte.  Não digo que essas convicções puderam ser sustentadas o tempo todo, mas elas me ajudaram a manter certa normalidade aceitável e pude conviver com as outras pessoas sem representar risco a suas integridades físicas. 


Só retomamos pra escola na semana seguinte, mas confesso que aqueles dias de reflexões me ajudaram muito. No entanto, depois que retornei às aulas, eu tive a maior prova do “meu problema”, quando percebi que nenhuma instrução ou advertência foram repassadas a mim, pois julgaram que eu não seria capaz de compreender; em vez disso, havia sido organizada uma reunião com todos os alunos pra que eles não me importunassem nem a Carina, pois éramos diferentes ou coisa do tipo. 

Depois de um mês, eu me sentindo horrível por ser diferente, tudo foi aos poucos mudando. Nada como enfrentar a vida. Adolescentes esquecem rápido das coisas, e como eu tinha conseguido manter minhas convicções e não tinha arranjado confusão, eu fui sendo aos poucos esquecida. Eu não baixava a cabeça diante dos meus colegas, então os olhares de pena, de medo, foram sendo substituídos por aquela ignorância normal de que, eu existia, mas a minha existência não influía na existência de ninguém, de modo que em pouco tempo eu já me camuflava na multidão, embora ainda fosse lembrada uma vez ou outra pelos meus feitos. E a verdade era que eu precisava daquela ignorância, de não existir tanto ao ponto de que todos dessem por minha falta. 

Depois de uns dias calmos, eu me encontrava em casa ouvindo e cantarolando junto com Leandro no toca fitas (“é deserto, onde atravessei ninguém me viu passar, estranho e só”), Carina entra no meu quarto aos prantos, embora disfarçando pra que nossos pais não ouvissem ou percebessem movimentação estranha, e diz: 

- Eu preciso te contar tudo sobre aquela noite. Tudo foi culpa minha!

Eu deixei a música tocando, como sempre fazíamos no passado, pra que ninguém ouvisse nossa conversa.  

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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo VII






- Você precisa saber que nós te usamos. - Disse Carina com um semblante irreconhecível. - O paquera de Tati não deu bolo nela àquela noite. Sempre foram eles. Na verdade, no dia vieram mais dois desconhecidos que não contávamos, mas não importa. 
Tínhamos conhecido eles há poucos dias e havíamos marcado de dá uma volta de carro. Tati tava apaixonada por um deles e me implorou pra que eu a acompanhasse, mas eu disse que eu só poderia ir se você fosse junto, pois nossos pais não permitia que eu saísse sozinha à noite. Julgamos que não teria problema, desde que não lhe contasse com antecedência os nossos planos. Nós fizemos isso diversas vezes, você como irmã mais nova, nunca soube de muita coisa. A verdade é que a maioria das lembranças que você tem daquela noite foi sua mente que criou. Eram realmente quatro rapazes, mas pouco tempo depois, o mais bonito dos quatro deixou três deles em suas casas, prometendo que ia nos trazer de volta, só que não foi isso que ele fez. O desgraçado nos drogou com uma bebida batizada e a partir dali, eu também não lembro mais de nada. Tudo foi culpa minha que concordei com aquela ideia absurda. 

Ao ouvir aquela confissão, eu compreendi que poderia ter sido eu a ter morrido aquela noite. Diante da possibilidade real da morte, não sei por que, pensei em um besouro de tamanho médio revolvendo a terra úmida abaixo da minha mão cadavérica fazendo com que meu dedo indicador reagisse como se eu tentasse voltar à vida, mas era só uma ilusão. De repente a imagem repulsiva de moscas entrando e saindo da minha boca ignorando totalmente quem um dia eu fui, não saía mais da minha cabeça. Aquela ideia me causou calafrios, mas voltei a mim e questionei:    

- Então você conhece quem é o desgraçado? E por que você não contou depois pra polícia, ou mesmo pra os outros três? Talvez eles ajudassem! 

- Eu não conhecia, tinha visto ele também a primeira vez aquela noite. Eu tinha intenção de contar tudo pra polícia naquele dia que fomos à delegacia, mas aí, não sei como, você reconheceu o desgraçado na sala de espera e arrancou um pedaço da orelha dele. Talvez ele tenha ido lá exatamente pra verificar se nós o reconhecíamos ou mesmo pra nos amedrontar. Mas diante do alvoroço eu não tive coragem de contar e também porque descobrimos que ele era filho do delegado, seria complicado demais. Mesmo assim, ainda pensava em contar tudo, mas ele passou a me ameaçar que se caso eu contasse, nos mataria como fez com Tati. Eu não suportaria ser responsável pela morte de minha irmã. Eu disse pra ele diversas vezes, mesmo depois que ele se tornou policial, que você não se lembrava de nada e que naquele dia você tinha tido um flash de memória, mas nada concreto. Ele se acamou por um tempo. Sem contar que ele sabendo que com sua estadia no manicômio, ninguém acreditaria caso você o denunciasse. Ali, ele matou dois coelhos com uma cajadada só. Mas ai, no dia que você fugiu, por azar, foi ele quem atendeu o chamado de emergência de minha mãe, então viu essa maldita pulseira que você não larga, então percebeu que você tinha provas contra ele, ou coisa parecida. Creio que ele deixou o telefone justamente pra quando você fugisse de novo, ele fosse ao seu encalço pra cometer mais um assassinato. Você entende Val, que se eu contasse toda a nossa família estaria em perigo? Sem contar que ele poderia alegar que estávamos loucas, e com certeza, o pai dele acreditaria. E mesmo que não, não iria prender o próprio filho, mal encarado como é aquele desgraçado. 

- Mas Carina, você não tem culpa de nada. Nós éramos apenas crianças, ainda somos. Vocês foram enganadas por aqueles rapazes bonitos. Você devia ter me contado, eu teria entendido. Eu senti tanto sua falta. Eu queria tanto que você conversasse comigo. A gente poderia ter enfrentado juntas, tinha sido tudo mais fácil. 

- Eu tive medo que você surtasse e fizesse alguma besteira quando descobrisse que fizemos tudo aquilo de caso pensado, sem contar que eu estava sendo constantemente ameaçada. Sabe aquele carro que tentou nos atropelar? Tenho certeza que foi o desgraçado tentado mais uma vez a queima de arquivos. Quando ele percebeu que você não iria fugir mais, ele não suportou a pressão e quis acabar com tudo. Ele queria me obrigar a tomar a pulseira de você e entregá-lo, mas você não larga ela por nada nesse mundo. No entanto, quando presenciei de perto o que todos estavam fazendo com você no colégio, a sua briga, eu não consegui suportar a dor de vê-la sofrendo tanto por conta de um erro meu. Você tem noção o quão duro tem sido pra mim a culpa pela morte de Tati. Sim, a culpa é minha, pois eu devia ter impedido. Mas a verdade é que eu também queria muito passear de carro e isso me tortura desde então. Tati era tão cheia de vida, só era inconsequente, mas nós também éramos. 

- Não se culpe tanto! – Eu tentava consolar Carina, embora chorasse mais que ela. - A culpa é toda daquele desgraçado. Mas juntas nós podemos impedir que ele nunca mais destrua a vida de ninguém. Sem contar que ele precisa pagar e você sabe disso.  

- Mas como faremos isso? O desgraçado é protegido pelo pai, pelo sistema, já que ele é que é a lei. Estamos de mãos atadas e te contar isso talvez tenha nos condenado de vez, portanto, não faça nada. 

- Não! Você está subestimando a capacidade de duas irmãs trabalhando juntas. Ele pensa que pode usar a loucura contra nós, mas nós podemos virar o jogo e usar o nosso “problema” contra ele. Assim como planejávamos fugas simples no passado, nós vamos pensar em algo pra esmagar os ovos daquele miserável. Enquanto eu dizia aquilo, Carina chorava desconsolada, mas eu sei que ela tirara um peso das costas. Eu, no entanto, não senti que tinha tirado uma tonelada das costas, senti que ela ainda descia vagarosamente usando como degrau cada vértebra, cada ponto do meu corpo a cada nova palavra que Carina proferia. Aquele peso maldito descia do meu corpo rumo às profundezas arrancando consigo a véu negro que eu amargava no olhar, nas minhas artérias e veias, na minha carne. Foi com dor, óbvio, mas eu precisava sentir aquela dor. 

O alívio daquela conversa com Carina não é possível que eu descreva com maestria, pois transcende o campo real e vai além, naquela ponte viva que se constrói entre duas pessoas que crescem juntas. Mas alivio de verdade eu senti ao perceber que aquela trama que minha cabeça havia criado era plausível. Então eu me dei conta que eu não tinha nada de doida e que eu nunca tinha agido com mais sensatez do que quando havia arrancado a orelha daquele desgraçado. Eu, que tinha me sentindo "tantas vezes reles, tantas vezes vil," senti que finalmente existia. 
Depois do acontecido, eu nunca mais tinha experimentado a sensação de ter razão, pois o mundo a minha volta não permitia, mas com as confissões de Carina, eu senti que ainda tinha chance. Compreendi que meus atos de loucura, não eram, senão, sensatos. Nem todos, claro, não posso também me justificar por tudo. Havia vezes que eu me aproveitava do "meu problema" pra esmurrar alguém que eu sempre tivera vontade, como quando eu esfreguei a cara daquela magricela no vaso estragando uma linda bromélia. Afinal, o problema era meu, logo, eu podia muito bem tirar a vantagem que bem entendesse dele.  

Nós viramos a noite conversando, colocando o papo em dia, sendo irmãs, sendo cúmplices, sendo gente. Nunca nos faltava assunto, nem antes da noite de 93, e naquela noite eu descobri que nem depois. Óbvio que ainda tinha muitas lacunas que precisavam ser preenchidas, mas optamos por conversar sobre coisas boas e normais e esquecer um pouco das coisas ruins. Carina me contou até que tinha um namorado, eu fiquei bem feliz, embora nossos pais não pudessem ficar sabendo, jamais...