sábado, 31 de dezembro de 2016

Estatísticas



A pessoa mais amada por todos, sempre vai acabar sozinha.
A mais verdadeira, também.
A pessoa mais linda do mundo, sempre estará presa à  própria beleza,
pois estará condicionada somente ao seu único encanto finito.
A pessoa mas feliz do mundo, por ser abrigada a ser feliz sempre,
sempre acabará triste e mal amada.
A pessoa mais triste do mundo, vai acabar descobrindo,
que sempre há alguém mais triste e que, de vez em quando,
com muito pouco, ela pode ser a pessoa mais feliz do mundo.
A pessoa mais rica do mundo, um dia descobre que,
tem coisas que valem mais apena que o dinheiro.
A pessoa mais pobre do mundo, passa a vida imaginando
que se fosse mais rica, talvez fosse mais feliz, e quem vai saber se não.
A pessoa mais feia do mundo, descobre com o tempo,
que sempre sobra um sapato velho pra um pé sujo.
A pessoa mais meiga do mundo um dia explode e machuca bastante.
A pessoa mais amarga do mundo, sabe os momentos certos de ser doce.
A pessoa mais doce do mundo, dá até nojo.
A pessoa mais irritante do mundo, esconde em si, o desejo de ser a pessoa mais amada do mundo.
A pessoa mais amada do mundo, sempre vai acabar sozinha.
A mais verdadeira, também.
A pessoa mais silenciosa do mundo...
A pessoa mais barulhenta do mundo, não leva desaforo pra casa, logo,
termina o dia sempre em paz.
A pessoa que se acha a pessoa mais amada do mundo, também é a mais tola.
A pessoa mais normal do mundo, também é a mais encantadora.
Quem se acha a melhor pessoa do mundo, é a pior...
A melhor pessoa do mundo, vai ser sempre aquela que te faz sorrir
sem que haja uma razão aparente.
É aquela pessoa que nos proporciona a maior felicidade do mundo com o simples fato de existir.
A melhor pessoa do mundo é você!



quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Uma estranha forma de lidar com a dor


Ele não sabia se pertencia á algum lugar, mas aquele em que vivia, sabia que não era. Também, não tinha certeza se existia algum lugar no universo que ele se encaixasse; um lugar que era o seu lugar.
Sentia que nada ali era dele. A própria saliva não era  sua, era uma extensão estranha de um universo que não pertencia ao seu corpo. Seus olhos, sua visão, tudo não passava de extensões de alguém que não era ele.  A barba, aqueles espinhos estranhos na sua face, não era parte do seu corpo, tampouco da pessoa que era, de modo que sendo ela uma extensão alienígena pregada ao seu rosto, ele adquirira o transtorno compulsivo de ficar tocando, puxando repetidamente, até que ele tivesse espasmos musculares ou entrasse em convulsão. Quando percebia essa loucura, descansava dois segundos e em seguida, em um ato involuntário, estava fazendo de novo. Com certeza, no futuro, adquirirá uma lesão por esforço repetitivo devido aquela barba forasteira que mantinha à pouco custo no seu rosto. 
  
Certa vez, sem entender como, nem por que, ele começou observar os narizes. É! Narizes, aquelas coisas estranhas e sem graça bem no meio dos rostos das pessoas. Passou a prestar atenção em demasia as narinas abertas, os formatos, as cores, os cravos - e em pouco tempo concluiu que os narizes deixavam as pessoas engraçadas e estranhas e que aquela estrutura não podia pertencer a anatomia humana. Julgava-os diferentes demais.     
Isso o intrigou tanto, que ele passou seis meses sem conseguir olhar diretamente no rosto das pessoas sem cair na gargalhada; aqueles narizes grandes, assimétricos e brilhantes, todos diferentes, mas de mesma estrutura, causavam-lhe certo asco chocoso. Ele não conseguia aceitar aqueles oleosos narigões com seus buracos duplos inalando oxigênio sem parar. Nesta loucura, se convenceu que não seria sensato que ele tivesse nariz como todo mundo e resolveu imaginar que realmente não tinha.

Ele sabia que um nariz não lhe faria tanta falta. Seu próprio pai não tinha nariz e quase nem sentia falta. Na verdade, seu pai perdera quase todo o rosto pro câncer de pele: os lábios superiores, o nariz, as bochechas, o olho esquerdo, e boa parte do direito. Amarga dores intermináveis, mas quando questionado se sente falta, responde: "muito pouco, sinto falta do lábio superior, pois sem ele, não posso fumar meu cigarro como se deve." Além da visão, ele tinha curiosidade se seu pai, havia perdido também a capacidade de sentir cheiro junto com o nariz - mas não tinha coragem de perguntar.

Algumas pessoas, conhecidos, na verdade, como uma forma de consolo pra si mesmas, ante a todo aquele sofrimento, repetiam para seu pai na cara dura: "cada um paga seus pecados aqui na terra."
Particularmente, ele nem acreditava em pecado, erros têm consequências e só. Sem contar que se existisse um pecado que merecesse aquele castigo, seria um que o próprio Deus não teve coragem de citar na bíblia. Logo, tal pecado seria apenas uma ação sem nome e que só depois de praticada o praticante adquiriria consciência do seu feito sem nome.  Mas no fundo ele sabia que não era castigo ou punição por algum erro do passado,  apenas ele tinha negligenciado sua própria saúde quando ainda podia fazer alguma coisa.  Aquele câncer, na verdade, era devido o sol que seu pai tomara por longos anos trabalhando na lavoura no litoral do nordeste.

A dor que o nosso estranho sentia com o sofrimento do pai, como todas as outras coisas citadas, inclusive os narizes, não passava de uma extensão alienígena de algum universo que ele conhecia bem mas que não o pertencia.
Nosso herói então, fascinado com os narizes abdicou do direito de possuir um; aquela estrutura estranha e sem serventia. Ele estava fadado pelo sangue a ter o mesmo fim que seu pai.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Amantes do crime



No instante, éramos desconhecidos,
Logo depois, amantes inveterados,
Éramos dois loucos exagerados
Rabiscando a capa de um livro,
Pousando e editando fotos nas ruas,
Éramos nós, de mentes nuas,
Gritando e sonhando despercebidos.

Saímos à noite,
Cometemos um crime a dois,
Jogamos uma pedra na vitrine,
Fugimos de uns cachorros,
Amamos um certo filme,
Éramos finos, íntimos,
Rindo de qualquer coisa.

Andamos de costas um quarteirão,   
Nadamos pelados sem intenções,  
Éramos loucos por direito,
Inteiros em nossas verdades,
Correndo pela cidade, sem dar às mãos.

Que importa o que pensam os outros,
se nos amamos ou não, se damos certo ou não;  
Somos fera e fome, santos e loucos,
Na verdade, somos só uns amantes de regime,
Ou melhor, somos uns amantes do crime 
vivendo um amor  que não se restringe 
em meio a um mudo de frouxos.       






sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Lar doce Lar



Ele abria os olhos todos os dias às cinco da manhã. Sempre cheio de disposição, não havia necessidade que a mãe o chamasse aos gritos, ou que lhe jogasse água no rosto pra que ele acordasse de seus sonhos, embora quase sempre os céus tomasse para si  essa tarefa, mesmo não havendo necessidade. No levantar das pálpebras toda manhã, aquele menino invariavelmente apreciava a mesma cena; a massa cinzenta acima, as marcas de água, as goteiras, os transeuntes sob os primeiros raios de sol, ou sob as nuvens também cinzas. Seus ouvidos ouviam sempre os mesmos ruídos; as buzinas, os passos, os anseios, os gritos e indignações sem sentindo dos que com ele viviam naquele local.  Tudo se repetia, dia após dia, quase sem alterações.        

Aquele menino jamais soubera o que era sair ou voltar pra casa.  A sua casa tinha quilômetros e quilômetros e ele nem percebia. Ele
nascera naquele local e ali vivia há quase cinco anos, embora na sua imaginação de criança, não passasse de dois dias. Porém, ele convivia com todos os elementos daquele seu lar há tanto tempo que já até adquirira afeto por eles. Tinha uma caixa de papelão que ele apelidara de Fita, tinha uma ratazana grande e bem alimentada que ele chamara de Maria Juana. Vai saber por quê? Maria Juana, como que num gesto automático, sempre que o garotinho deixava sua caixa, ela se aproximava pra buscar restos de alimento. De certa forma, naquele mundo, todo carinho que ele conhecia era de Maria Juana, quando no meio da noite, não aguentando esperar que ele saísse,  ela vinha se enroscando em suas pernas sujas, ao certo com fome, e era nesse gesto, que aquele pobre menino experimentava vestígios de tranquilidade; naquele simplório e efêmero momento,  ele sentia a sensação de está protegido, de modo que se ajeitava em sua caixa como se estivesse em casa e, proferia aquele sorrisinho que, inconscientemente, toma forma em nosso rosto enquanto dormimos sob o olhar dos pais.  Certa vez Maria Juana até tivera filhotes, mas por alguma razão, o nosso garotinho, numa ira incompreensível, matou todos e os enterrou do outro lado da parede cinza, sem sentir remorso algum.     

Sabe, até que ele era feliz, mesmo morando embaixo do viaduto, carregava sempre um sorriso largo e uns olhos grandes cheios de vida.  Todos na rua o amavam; ele sempre tinha o que dizer e era de uma simpatia digna de ser explorada, e sua mãe bem sabia disso. Todos os dias, ele tinha que sair, mesmo que continuasse em casa, pra pedir coisas às pessoas que  carregavam consigo a singela graça de retornar pra algum lugar. Ele era carismático demais e sujo, de modo que ninguém conseguia continuar sua jornada sem que lhe agraciasse com algumas moedas. A mãe dele bem sabia disso.    

Certa vez, em um dia iluminado, ele acordara à hora de sempre, levara alguns tapas, pois ele se negou a sair pedindo coisas nas ruas sob o argumento que não era justo, pois ele mesmo jamais pudera comprar um brinquedo sequer com o dinheiro que conseguia.  Porém, não conseguindo resistir as pancadas, foi mesmo assim. Ao chegar ao local estratégico, ele vira um garoto bem vestido, com uniforme limpo e brasões importantes bordado no peito.  O menino se encontrava sozinho e parecia mais perdido que ele, nosso menino se aproximou e, do nada,  iniciou seu monólogo:    

- Como é sua casa? Deve ser bonita. Deve ter tapetes vermelhos como daquela loja grande do outro lado da rua. Sabe, eu também tenho uma casa muito grande, com tudo que eu preciso; quartos, paredes, teto e ratos.  Você gosta de ratos? Não deve gostar de ratos, os ricos acham  eles nojentos. Mas eles são bem legais e tem pelo macio.  Maria Juana é minha amiga, mas você não deve querer ouvir falar dela. O nosso herói tinha resposta pra todas as suas perguntas, logo, o garotinho limpo e cheiroso não tinha que falar nada e ele considerava isso o paraíso.    

- Quer conhecer a minha casa? Eu sei que quer! – O segurou pela mão e saiu em direção a sua casa.   - Que mão macia- pensou ele.                                                                                                    
Ao chegarem, começou ele mostrar ao garotinho limpo  o que era o seu lar:

- Aqui é a sala, tem esse sofá, não se pode sentar nele, mas minha mãe usa pra esconder coisas da polícia, não sei bem o quê. Ali tem o fogão, não é um grande fogão, eu sei,  e também serve mais pra esquentar o frio que sempre faz a noite, ninguém cozinha nele. A gente costuma ganhar a comida já pronta. Minha mãe não gosta das pessoas que dão comida, mas eu gosto.  Tá, é um tambor velho, eu sei.  
- Ali, é onde os homens dormem, tem alguns cobertores bem velhos, a gente sempre ganha cobertores novos, mas minha mãe sempre troca pela mesma coisa que esconde da polícia. - Seu pai esconde coisas da polícia? Não deve esconder. 

- Ali é onde minha mãe deveria dormir, fica do lado do meu quarto, mas ela quase nunca tá aqui, sempre sai com uns caras estranhos que aparecem.   

- Venha, vamos conhecer meu quarto. – Aonde vai? Você não tem poderes pra atravessar paredes, tem? Os ricos têm superpoderes? Devem ter. Você tem que me  seguir, aqui é cheio de paredes invisíveis, se você não prestar atenção acaba batendo em uma e pode se machucar.   

- Veja, aqui é meu quarto.  Esta é minha cama, eu chamo  ela de fita, é uma palavra que minha mãe sempre usa.  Tem teto e tudo e quando deito nela, pode até chover, que eu quase nem sinto. Eu me sinto tão protegido com cheiro de papelão. 
- Cuidado! Não levante ela, Maria Juana deve tá ai dentro e você pode se assustar. 

Mas Maria Juana não se encontrava lá. Os dois garotinhos então, entraram embaixo da caixa de fogão Esmaltec e lá brincaram por horas. Mas depois de um tempo, a polícia veio buscar o garotinho limpo. Após aquele dia, a sua mãe também jamais retornara, vai saber por quê!
Pensou ele conformado: "ela deve ter realmente muito que esconder da polícia."



     

    

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Moça de Barcelona



Não, eu não sou real.
Sou um sonho despercebido de uma noite quente,  
Um boxeador que tantas vezes foi à lona; 
Um louco que se encanta, que ver, aqui do chão,
os sorrisos de Barcelona.  
Sou um sonhador com as bochechas na fronha, 
Com os olhos no mundo e os pés no outono; 
Um bobo que viu nos teus olhos a certeza; 
Um sensato que viu na tua boca
que dois dedos de prosa contigo 
valem mais que uma conversa com o mundo inteiro. 
Tens a cor da pele mais cheirosa, um mundo, 
um mapa, tatuado às costas. 
Tens um sorriso que dispensa amostras. 
Quem dera eu sorrisse assim tão cheio! 
Moça dos cabelos caramelos, dos olhos de céu,
Parece que tu enxergas o mundo com arte e a visão 
de uma deusa do deserto.
Parece que teu mundo é um riso sereno,
daqueles que se ouve ecoando na abóboda de uma catedral medieval.
Teu coração, terra selvagem, floresce a cada canto, a cada pensamento.
Moça de Barcelona,
nesse teu corpo moreno, a arte de viver parece repousar calma,
e tu'alma preenche todo o espaço real e dos sonhos.
Teus olhos de outono se desmancham em cachoeiras que desaguam ali
E o mar se encanta a cada gota de sorriso que recebe de ti.
Quem dera eu sorrisse assim tão cheio!
Moça, daqui a pouco é janeiro, é outro ano...





domingo, 18 de dezembro de 2016

Impulso


 Ah que saudade de um beijo,
daqueles bem melados,
daqueles consentido com vontade,
Daqueles que o calor da língua
remete à uma introdução na carne abusiva
de um sonho safado.

Ah como eu queria um beijo salivado
em uns lábios bem carnudos.
Um beijo daqueles largos e sem escrúpulos
em que os lábios se entrelaçam em desejo,
e dura uma tarde inteira.
Um beijo tão intenso e sem freios
que, a partir dali,
a lembrança da melhor tarde de nossas vidas
não poderia ser resumida, senão em beijos.

Ah como eu queria o gosto de um beijo,
daqueles idealizados por um mês,
nos seus mínimos detalhes:
a posição das mãos, as mordidas,
as puxadas nos longos cabelos,
aquelas olhadas fixas pra somar o desejo;
Aquele carinho sinuoso enquanto se diz "minha querida"
e aquela resposta sussurrando: isso é brega pra caralho.
Sabe aqueles beijos previamente pensados,    
mas que depois de beijado a gente 
verifica, encantado, que tudo foi melhor que o desejado?  
Ah como eu queria esse beijo que é teu pra mim guardado.  





sábado, 17 de dezembro de 2016

Imortal





Aos quatorze anos eu já tinha vivido tudo e, desde então, venho apenas me repetindo:
Todas as minhas emoções são, na verdade, versões amenizadas das coisas que já vivi.
Não há nada de novo.
Há muito tempo, quando mal despontava minha existência
eu já tinha sentindo tudo que tinha pra sentir,
de modo que agora, treze anos depois, sinto
que já vivi séculos e séculos e me é insuportável esta imortalidade.
Pode um homem suportar a imortalidade?
Embora meu corpo tenha vivido poucos anos, noto que
minha mente, coração e meus olhos, cujos fazem parte das lágrimas e
não do meu corpo, já viveram até demais.
E tendo eu vivido quase três séculos,
Tenho me repetido tanto que sinto-me saturado de mim mesmo.
Tenho amado intensamente incontáveis vezes e esquecido poucas;
Não se esquece na mesma proporção que se ama, logo,
guardo comigo todos os sentimentos sentidos ao longo de anos e anos
e não sei bem se tem valido a pena.
Tendo eu vivido séculos e séculos, descobri que, muito além de sentir,
é preciso também despertar sentimentos, isto, se quiser, além de viver, existir.
De uns tempos pra cá tenho sentindo uma necessidade incontrolável de
despertar sorrisos que me alimente;
De arrancar à mordidas, amores impossíveis de moças normais;
De despertar romances em quer que seja, só pra me sentir vivo.
Eu não passo de um canalha.
Eu sou um sonhador de araque incapaz de viver de mim mesmo,
logo, preciso de amor, atenção, veneração de alheios pra me sentir vivo.
Eu sigo o mesmo princípio dos vampiros, mas não sei se compensa,
pois tenho como certo que, quando eu chegar à meio milênio,
terei enlouquecido completamente.
Ora, pode um homem suportar todas as emoções existentes?
Pode um homem suportar todos os sentimentos humanos?
Pois quis as minhas escolhas e o meu modo de vida que eu
não me resguardasse a sentir só as emoções a mim conferidas.
Não, eu tinha que sentir todas os sentimentos e, desta feita, experimentar
todas as dores, embora experimente também, em menor frequência,
as alegrias, mas ainda não sei bem se compensa.
Por que eu tinha que sentir a dor da criança que chora com fome!?
Ou o fio da navalha que corta a garganta de um prisioneiro no oriente médio!?
Por que eu tenho que sentir a tristeza de um cão sem dono nas vielas do Pelourinho, ou a decepção de mocinhas cujos laços se desfizeram na ponte do rio Sena?!
Ora, eu devia apenas sofrer e sorrir por meus sentimentos, mas  de um universo inteiro,
não é justo.
E como o tempo me parece ser relativo a intensidade que se vive
eu  tenho existido demais e não sei bem se bem!    






quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Texto publicado no Jornal O povo: Quem ama em demasia não deixa espaço pra ser amado



Veja no Jornal o Povo, clicando nesse link

Para ele, o amor, mais do que qualquer outra coisa, quase sempre fora um fardo. Um fardo que ele fora acumulando ao longo de anos amando exageradamente a tudo. Na medida em que o tempo passava, cada paixonite que sentia, acrescentava uns mil por cento no volume que ele carregava consigo a duras penas. De cada pessoa que amava, por amar demasiadamente, sempre sobrava um tanto de sentimentos que ele não conseguia descarregar, de modo que, mesmo sufocando a pessoa amada, ainda assim, era preciso que ele proferisse umas juras de amor aos ventos, ou que dissesse coisas que outrora pensara para a pessoa amada para desconhecidos nas ruas, apenas para que não se afogasse em seus próprios sentimentos.  

Quando ele, por qualquer que fosse o motivo, ficava sem ter a quem transferir o seu infinito amor, ficava insuportavelmente ridículo. Não podia ver uns olhos, uns cabelos ou qualquer que fosse a qualidade cuja de alguma forma era uma característica que um dia amara em alguém, que simplesmente, de uma única vez, depositava nessa pessoa todo aquele amor acumulado ao longo de anos amando em demasia a tudo e a todos a sua volta.
Deste modo, a pessoa privilegiada, com toda razão, em poucos segundos já sentia-se amada eternamente por ele e logo percebia que não necessitava amá-lo também para ser amada, assim, não necessitava gastar energia o conquistando de qualquer forma. 
A vida tem dessas de equilibrar tudo e, por julgar que seria sentimento demais envolvido e um gasto de energia excessivo, já que ele amava por dois por três, ou mais, a outra pessoa não precisava amá-lo também para obter aquelas vantagens de quem ama. 

Um dia, depois de amar tanto, depois de cometer todos os erros imagináveis proporcionados por àqueles que amam demais, ele mais uma vez, por pura casualidade, encontrou novamente uma pessoa que ele julgou ser amável. E de súbito, sem reflexões, como sempre acontece com quem ama em demasia, à amou tanto, que ele próprio não sentia-se bem com todo aquele sentimento que ele amargava a si e a todos a sua volta.

A pessoa amada também não suportou ser tão amada, ser bajulada, colocada em castelos de diamantes que nem de longe existiam na realidade.  Depois de ter cometido ignomínias ao montes, de ter sido ridículo sem perceber, de ter sido motivo de chacota de seus amigos e conhecidos, ele resolveu que era hora de por fim a todo aquele amor que o sufocava. 

Fechou-se ele em seu próprio mundo e, resolveu que não iria mais descarregar seu amor insuportável a ninguém. Era de fato um bom plano, porém, conheceu ele uma garota com grandes olhos negros e não conseguiu levar adiante o que pensara enquanto não amava ninguém. Era ele, sem sombra de dúvida, alguém que nascera para amar. Ser amado, bem, isso talvez das poucas vezes que conseguira tal proeza, não fora ele sábio suficiente para notar a tempo, só depois que já não mais adiantava nada. Ser amado, seu amor em demasia não lho permitia. Estava ele fadado a este duro destino. 

Numa noite, puxou o gatilho de sua pistola Walther disparando contra sua imagem no espelho. Aquela pistola era a única herança que seu pai lhe deixara. Ela cabia perfeitamente em sua mão e se encaixava como uma luva ao seu coração. Pensou ele que pela primeira vez na vida amava algo que por pura intensidade não se autoanulava. Aquela pistola era uma dama negra brilhante e charmosa, e como se não bastasse, dizia que o amava mais que tudo enquanto piscava de soslaio com seu brilho refletindo a luz da lua. 
Toda a vida até ali, ele não amara nada que não piscasse intencionalmente o olho enquanto sorria, embora não fosse aquele gesto direcionado a ele. Ele segurou aquela bela dama negra contra o coração e, lacrimejando, resolveu que iria destruir aquele cujo impedia de ser um idiota normal que amava pouco ou nada. 
Aquela pistola que ele amara, não diferente de todas as outras vezes que despejou seu amor sem economia a todos e aos ventos, o destruiu. Males de quem ama em demasia.




Filha

Pai e filha Gustave Caillebott


Aonde vai? Senta-te!
É preciso que tu compreendas que o amor,
Essa coisa que nos tira as necessidades,
Ele se repete um milhão de vezes na nossa vida,
ou reaparece, não importa. 
Não tenha medo de amar: 
Ame exageradamente, tenha cautela apenas em receber amor.
Nem sempre o que o nosso amor julga como sendo amor, é verdadeiro.
O coração tem dessas artimanhas.
Julgue amor aquele sentimento sem cobranças,
que suporta a ausência, que ama a presença e,

principalmente, que não te faz ser outra pessoa.
Quando um sentimento a fizer agir diferente de quem tu és, afaste-se.
Senão, muito tarde, notarás que o outro  amou uma personagem de ti e
tudo acabará em infelicidade.
Mas escute bem, não existe conselho que sirva para o amor.
Ame, mas sejas sábia, não para fazer uma boa escolha,
Mas para construir um amor que suporte.
Qualquer coisa que for além de tuas forças, julgue insanidade.
Bobagem! Tudo bobagem, eu sei! 


Senta-te que ainda não terminei!
Nesse teu início, pensas tu que sabes o que é melhor para ti, é natural.
A gente pensa que se temos asas, temos mais é que usá-las,
Não importa se não sabemos pra onde vamos.
Deixa eu te dizer que, às vezes,
o fato de podermos ir para todas as direções
demonstra apenas que não temos critérios ao escolher.
Logo, qualquer caminho que escolhermos, será árduo.
É melhor esperar!
Nem sempre abraçar todas as oportunidades é bom.
Não chore! O tempo afunilará as opções.

Acalma-te, ainda há muito que falar, mas não agora.
 Apenas saiba, que quando necessitares de um abraço,
o encontrará nesse velho rabugento que te deu asas

e nunca precisou te ensinar a voar. 
Apenas tenha como certo que, após a última corrente de vento,
ainda há tantas por passar.
Amo-te!   





terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Uma última carta ao amor




Iniciou ele a sua última carta ao amor:  

Olá!


Espero que estejas bem! 

Não entendo porque se foi... 

Ah amor! Julgava-me, sem sombra de dúvidas, a pessoa da qual mantinha uma relação intensa contigo e, tinha como certo, que jamais nos afastaríamos a tal ponto que desvencilhasse de mim todo e qualquer sentimento. Mas sinto-me vazio. Enganei-me contigo. Tanto que te ovacionei, tanto que fiz de ti todas as razões que achava que tinha. 
E veja, olhe bem, não carrego mais aquele brilho nos olhos. Não torno mais qualquer música trilha sonora de uma vida a dois. Sinto-me só. Bem. Sozinho eu sempre estive, porém agora, sinto-me solitário. Tu se foste, talvez como uma forma de me castigar pelo fato de nunca ter aprendido a viver os amores que senti. 

Não! Não venha culpar-me por algo que foste tu o responsável. Quem mandou manter uma relação tão intensa comigo que fazia de qualquer fagulha de sentimento um amor típico dos romances utópicos da idade média. Bem devias saber tu, que nesta época que vivo, não há mais cervos para que eu saia numa caçada heroica, tampouco, leões, que possam atacar os cervos. Muito menos, se encontra em qualquer esquina princesas indefesas, para que eu pudesse salvá-las dos cervos e dos leões e me tornasse para sempre a razão de suas vidas. O mundo real é bem mais simples, embora seja também mais sem graça. 

Tu falhaste comigo. Deveria ter se mantido a uma distância razoável de modo que não impedisse a razão de dar palpites nos meus sentimentos de vez e quase sempre. Vejo-te como um egoísta. Que custava deixar a razão no controle e tu surgisse apenas em momentos estratégicos, assim como acontece com a maioria das pessoas? Não, tu tinhas que me tornar um sonhador, um Don Juan de Araque, que via em todo sentimentozinho mesquinho à chance de viver um amor de cinema. Amores de cinema não existem! O amor real e possível de ser vivido é muito simples e tu bem sabias disso. 

O amor real é assim: duas pessoas se conhecem, aprendem a se gostar ao ponto de julgar que a companhia um do outro seja indispensável, então resolvem tornar isso realidade e juntam as escovas. Tudo isso impulsionado por tuas flechadas. Passam a viver juntos, e com o passar do tempo, se acostumam, então, tu amor, vais embora sorrateiramente. Porém, muitos acostumados com a rotina, nem percebem que tu se foi. Mas bem sei que tu sempre vais embora mais cedo ou mais tarde, embora retorne uma vez ou outra, mas eu bem sei que tu não ficas eternamente. Só ficas no início, depois que fisga os tolos de vez, se vai. Tu és um maldito cúpido traiçoeiro. 

Agora eu espero sinceramente que depois de tamanhos disparates que cometeste durante a nossa relação, tu não me apareças disfarçado de um sorriso qualquer, ou na forma de uns cabelos longos deslizando sobre uns ombros sem graça, ou camuflado de um olhar de carência, desejando ficar. Não, comigo não. Eu cansei desse amor que em mim viveu todo esse tempo. Ora, de nada me serviu. Que fiques bem distante, e não retornes disfarçado noutro amor mesquinho, pois julguei que embora sinta falta, às vezes, vivo melhor sem ti.  

Espera! 
Embora me pareça que essa carta seja, na verdade, um pedido desesperado para que retorne. Ou pior, tu que nunca se foi, me impulsiona a escrevê-la.
Desgraçado! Quão sorrateiro tu és! Mas não me renderei. Fique bem longe, ai mesmo, para onde eu penso que fugiu. 


Passar bem! 




domingo, 11 de dezembro de 2016

Capacidade



Sinto-me perfeitamente capaz,
Tal qual uma varejeira sobre a carne putrefata
de algum animal que ainda vive.
Sinto-me capaz e espero feito um tonto um milagre,
como quem espera um presente de alguma figura mística;
E, com isso, contento-me com a lama do meu presente
devido esta esperança, sem sentido, que
algum anjo me trará em um pote de ouro
a solução para a falta de problemas da minha vida.
Quão bobo eu sou!
Sinto-me capaz de conquistar o universo e
tolamente, contento-me com casebres, cadafalsos,
ou que sejam castelos, todos de festim que surgem em minha mente.
Maldito inútil eu sou.
Haveria espaço nesses tempos para homens de ideias?
O mundo deseja ações.
Eu, como inútil, sigo tarjado de insignificante,
Embora me sinta capaz de conquistar o universo.
mas penso que seja um universo de tempos remotos,
donde os pensamentos tinham alguma valia.
Hoje, pensar tornou-se inútil.
os homens querem mais usufruir das benesses de suas máquinas,
essas que dão a vida já pronta.
O que será do homem que não se constrói?
- Desconstruir-se-á por aquilo que constroem os poucos que pensam.
Sinto-me capaz,  tal qual um sonho que
se desfaz no inconsciente de uma noite bem dormida.
Mas de nada serve toda essa capacidade, se esta, 
é subjugada pelo universo que me cerca.
Malditos sejam aqueles que enxergam com os
 olhos mágicos que não os carrega consigo.
Benditos sejam aqueles que enxergam apenas o
 seu próprio nariz, destes, partem a verdade absoluta.
Eu sou perfeitamente inútil de ser capaz.



sábado, 10 de dezembro de 2016

Dos pés à cabeça



Caminham meus sapatos comuns.
Meus cadarços comuns apertam uns pés comuns.
Meus passos, tão banais, por enquanto, não chegaram a lugar algum.
Minhas calças comuns de tão azuis,
movimentam umas pernas comuns e uns
bolsos tristes de tão vazios;
ambos, voarão repetidamente por rios comuns...
Meu cinto comum envolto de uma cintura fina e sem graça
segura uma honra pequena e disfarçadamente comum.
Meu umbigo, símbolo maior da existência de Deus
é igual o de todo mundo;
menos do de Adão, que não tinha um.
Minha camisa salmão, tão comum de dá raiva,
cobre um peitoral seco, e este, por sua vez, reveste um coração comum,
e que, no entanto, ama de forma incomum, logo, todo dia, coitado,
morre por não ter amor nenhum.
Meu relógio comum, sem corda, me avisa as horas comuns.
E senão movimento meus braços comuns, de repente,
morro de doenças comuns.
Minha boca comum, sempre me envergonha com bobagens comuns,
porém, não creio que eu seja diferente de nenhum.
Meus olhos comuns, veem corvos comuns.
Meus cérebro comum, no fim do meu mundo,
se acabará com o resto do meu corpo comum.
E baseado no senso comum, eu sei que, o céu acima de mim,
jamais me tornará um serafim.
Eu sou comum, tudo a minha volta é comum...
Não posso querer uma vida incomum.

Samuel Ivani

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Eu não sou poeta



Eu não sou poeta
E como sê n-lo, se não sei dizer coisas bonitas?
Só esbravejo escárnios, impropérios...
Mas como falar daquilo que não se conhece?
Eu não conheço o trigo, os campos de centeio cujos são fermentos
de beleza pra qualquer poesia;
Conheço o arroz, que em natura, subsidia a seca em minha terra.
Que beleza há nisto?
Também não conheço os pêssegos, as tâmaras, que tanto enfeitam
as almas dos poetas;
conheço o caju, com seu cheiro que entranha, com seu suco que mancha.
Que poesia há nisto?
E como dizer coisas bonitas, se não conheço os vinhedos,
as curvas de Compostela;
só conheço a roça e quantos grãos de feijão se deve jogar na terra
nos dias de inverno.
Isso não me soa belo.
Eu não conheço o barulho das ondas,
só o vento e o sol que queima.
Não conheço a felicidade das cores dos jardins de camélias,
só conheço as flores brancas que, de tempos em tempos, enfeitam sentinelas.
Que beleza há nisto?
Não sou um poeta; um poeta sabe, conhece, vive coisas bonitas;
Eu morro e vivo em mim, sozinho, sem ver nem entender as primaveras.
Nem mesmo sou bom com metáforas ou rimas;
pra mim, tudo é o que é, e o que resta, é só o que resta.
Eu não sou um poeta senão digo coisas belas.
Como serei amado pelas mulheres?
Como mocinhas irão se derreter ao ouvirem minhas poesias?
Como jovens apaixonados irão recitar meus poemas às suas amadas,
se tudo que digo são bobagens deselegantes e sem méritos?
Está dito, não sou o poeta, nunca chegarei a sê-lo senão digo coisas belas.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Ciúmes



Eu vi tu e o outro aqui
Oh deuses e anjos do inferno
Estiveste tu e o outro aqui
E aquelas flores de primavera que cantam a florir?
E aquelas flores de primavera que se vão a sorrir?
Daqui, meus olhos te olham, fixos,
não cansam,
se envergonham, mas de ti não cansam.
E quando se foram, em silêncio, me perdi
Quem dera, outrora, por fora, não visse.
Se tu fores justa, nunca mais aparece.
Deixa-me em paz, nesse rubro inferno;
Mas sei que minha tortura te divertes.

Queria, tu o sabe, transformar essa dor em flor
mas toda dor em mim é dor e
o que sobra é um tanto de amor
e ele não vive, sufoca, provoca e desfalece,
quando em meio aos espinhos da espera
te ver com o outro sempre em primavera.
Quem dera eu...

Quem dera o outro e tu aqui ainda estivesse.
Que maldita indecisão!
Oh amor de outro e não meu,
se tens que ir vá, mas deixe meu coração que sem ti não vive.
Oh! Maldita decisão: ficas, não desaparece.

Quem dera eu te ver mais uma vez,
nem que fosse pra dizer pro meu coração que ele
anda meio triste sem razão,
E que esse amor, trouxa, não passa de desfaçatez
de um coração bobo e bonachão.

Quando eu te ver mais uma vez
guardarei pra sempre o balanço da saia,
os grãos de praia que colorem em tuas pernas
e em mim ficarem.
Ah! Meu pequeno canto, se ouves, não te esqueces:
meu coração ainda por ti se envaidece e,
inocente, implora que assim seja, só não me esquece.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Quando eu partir



Quando eu me for e eu irei,
e pensares tu em trazer-me flores onde pensas que eu fiquei,
Não perca seu tempo, lá não estarei.
Em vez disso, me leia, relembre que aqui estive;
Relembre dos sorrisos que despertei
e deixe que floresça milhões de flores em teu coração,
que é onde de fato sempre permanecerei.

Quando eu me for e eu irei
e pensares tu em derramar lágrimas porque cá não estarei;
perca seu tempo, relembre, me faça importante,
Isso prova que um dia por ti também me importei;
Prova que um dia te amei, que te importei para
o meu coração e contigo sonhei.
Isso também prova que eu nunca desisti,
embora a vida tenha me imposto
realidade em demasia, cuja dela mesmo nunca precisei.
E se derramares lágrimas que nunca seja por remorso
pelo fato de que poderia ter feito mais;
Digo-te que fizeste o que eu mereci...

Quando eu me for e eu irei
e pensares que cá não mais estarei,
lembra que,
se sentes minha falta, é porque daí nunca partirei.
Lembra dos sorrisos que contigo partilhei,
das loucuras, das frases toscas, dos conselhos inteligentes,
dos momentos clichês que com mais ninguém viveste,
dos abraços eternos em que eu te apertei,
dos desejos dos beijos!
Não sejas tola, é contigo que eu sempre estarei!

Quando eu me for e eu irei,
recorda-te das vezes que em ti me inspirei,
Das letras que por ti agrupei cá nesses textos em que lacrimejei ao escrever-te.
Lembra-te que fui feliz, que te fiz feliz,
que fomos felizes, tal qual faisões e perdizes,
estes, nunca capturados pelo Cúpido.

Quando eu me for e eu irei,
plantem-me junto com milhares de frutos do tamarineiro,
azedos e prazerosos, tal qual os sentimentos que sempre despertei.
Lá, juntos com as sementes eu renascerei,
se assim, eu for regado pelas lembranças
daqueles que eu um dia amei.
Quando eu me for e eu irei,
lembra quem fui, não esquece de quem fui eu.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Poema sobras





Sobras

Eu sobrei! Triste afirmação, eu sei.
Sobrei porque me enchi demais de mim numa tola tentativa de me encontrar.
Quem dera eu tivesse faltado;
Eu era um grãozinho simples, destinado a pouco ou nada,
Vi-me, no entanto, uma safra farta de grãos.
Pensei ter terras que me fosse possível germinar,
Mas, em vez disso, funguei.
Triste afirmação, eu sei. 
Sobrei! Não há lugar mais que eu caiba.
Todo cantinho de que me servia no passado,
Hoje, cheio de mim, não me encaixo.
Eu devia ter de inicio me contentado,
Esperado ganhar espaço, para só então, me elevar às alturas desejadas.
Mas não, quis me impor, assim, enorme em mundo pequeno - e sobrei.
Soberbo, eu sei.
E hoje não sou nada por conta de quis um mundo de gente e
esperando um futuro diferente, destinei-me a não ser nada no presente.
Quem me dera tivesse um cantinho que não fosse de espaço,
que eu coubesse assim, enorme, do jeito que me faço;
Porque o que me sobra não sãos os ossos, os olhos
a pele... Sobram-me visões, uma triste história do passado, o tempo, e
uma imensidão de ideias.
Mas esse mundo que eu vivo e que não caibo
Necessita de uns braços, umas pernas, um fabricador de espaço.
Eu, em minha mente, crio um universo,
Mas ele sobra nesse mundo burro e concreto.
Eu sobrei meus caros! 
Triste afirmação, eu sei.
Resta-me a dura decisão de me faltar,
De incumbir à ação que fará o mundo perceber que
não terá mais nada de mim.
Só então verão os santos que me rodeiam
Que mesmo sobrando hoje, depois de um tempo,
faltou um pouco de mim no passado e que, no presente, eu sou indispensável.



     

domingo, 4 de dezembro de 2016

Poesia em homenagem ao poeta Ferreira Gullar: A arte existe


A arte existe 

Poderia chorar a exaustão
gastar tudo que tenho pra chorar
razão eu tenho, morreu o poeta Ferreira Gullar
Mas um homem só chora tudo que tem pra chorar no último suspiro
quando não houver mais linhas pra ser
preenchidas na história da sua vida.
Não chorarei o que tenho pra chorar hoje
Acumulo pra amanhã, depois, semana que vem...
Ninguém precisa de tristeza 
nem mesmo o poeta  
No futuro, terei novas razões, 
novos amores, 
poesias que ainda não li
Por hoje, sorrirei o que tenho 
embora com a certeza que nunca sorrirei tudo que 
tenho pra sorrir nessa vida rápida 
afinal, a arte existe porque a vida não basta pra todo sorriso que nos cabe.

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sábado, 3 de dezembro de 2016

Um conto para bobos



- Marchem homens, levantem aquele coração de gelo e averíguem se aquele amor matreiro não se escondeu por lá. Se lá estiver, podemos presumir que tal criatura da natureza é um tanto tola de se esconder por detrás de um coração frio e apertado. Garanto que os dissabores do esconderijo não se equivalem aos probleminhas do amor vivido abertamente.  

- Sim senhor, aqui se encontra um amor, mas não se parece com o que procuramos. É inseguro demais e treme feito vara verde. Não é ele com certeza. 

- Não percamos tempo então, vamos continuar a busca.
Procurem por detrás daqueles olhos de águia, daqueles cabelos de sereia. Tão bela criatura deve esconder, não só um, mas diversos amores. Verifiquem se o nosso se perdeu também naqueles encantos. 

- De fato senhor, aqui se encontra diversos corações perdidos, mas garanto que não o que procuramos. Veja, parece que todos caíram numa armadilha e agora naufragam no superficial da beleza, da estética, e agora não sabem se vão ou ficam. Descartemos todos esses, com certeza não é quem procuramos.  

- Marchem homens, que a procura não deve cessar. 
Vejam, fucem àquela  criatura solitária, deve estar por lá.  Não desistam! A deixem de cabeça pra baixa, virem-na do avesso, mas não a deixem em paz enquanto não encontrarem um amor por lá, nem que não seja o nosso. 

- Senhor, apesar da descrença, não foi difícil encontrar. Parece-me que por aqui há amor de sobra. Veja, tem aquele da infância que por determinação não pôde ser vivido. Tem aquele da adolescência, que também por determinação não pôde ser vivido. São todos tristes, é fato. Olha só esse, o amor da faculdade, inteligente, sensato, sonhador; era o momento certo pra viver um amor, mas o medo e os pensamentos também o impediram de ser vivido. Trágico!  
Opa, mais um amor aqui senhor!

 - Vamos, descreva-me. Talvez seja o nosso!

- É soberbo senhor, tem a cara fechada e parece que não tá nem ai pra gente. Não parece que quer ser resgatado, pelo menos, não por nós.  

- É o nosso, tragam-no. 

- Mas, não me parece que vai dá certo. Senhor, é preciso que eu diga: ocorreu-me que vais cometer o mesmo erro de outrora em que escolhera um amor parecido. O senhor está se tornando essa mesma criatura que guarda todos esses amores, porque escolhe demais e quando finalmente toma uma decisão, não é o amor certo e, assim, vai acumulando amores não vividos. É só um conselho.  

- Não sejas tolo soldado! O amor tem dessas de escolher as pessoas erradas mesmo, e não importa as experiências, em matéria de amar, não se aprende nunca. Tragam-no, é preciso tentar, mesmo contra tudo. Tragam-no, é uma ordem, meu coração precisa ser preenchido. E também talvez eu que não seja o amor certo pra alguém e, por esta razão, a procura sempre se demonstra inútil. Paremos com essa busca, senão for esse, uma dia aparece outro.
- Marchem! 

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Escravo




Livre, filho das águias, digo que preferia ser escravo, pois
não sei lidar com a liberdade.
Só a uso em prol de minha ruína.
Parece-me que nasci pra lama do meu presente.
Quem dera que os grilhões da vergonha me atassem aos
troncos do bom viver.  
Que os açoites da vida comum me
pusessem no meu lugar, assim sendo,
as farsas que sou, cairiam por terra.
Pois eu não sou esse cara risonho,
não sou essa mente externa.
Cá dentro morre um homem,
Cá dentro estrebucha um louco que
sabe pra onde ir e que não sai do lugar.

Sou ignóbil, escória da humanidade.
Minha carne apodrece, pois não sou digno dessa terra...
Eu devia construir não me canso de repetir, eu devia construir.
Aceita essa tua insignificância.
Sejas o que és! 
Ser artista, pra quê?
Somos meros pedaços de merda a fim de exalar um odor que não seja de merda.
Vejam: estraguei...
Estraguei o poema
Aceita, tu não tens talento nem pra envergar a haste de uma flor ranzinza
dirá, um coração fresco de menina.

Privem-me da liberdade de ir e vir
Que eu fique aqui onde estou e aceite que nunca serei nada além do
mourão donde amarram as rédeas dos cavalos.
um cabide: suporte pros chapéus de homens bem mais ridículos que eu.
Duvido que sejam mais ridículos!
Escuta teu coração, escuta teu coração!
Ah finito... Finito homem a fim de torna-se eterno
Não sejas tão ridículo!

Não sejas tão ridículo!

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Saudade de sentir


Tenho saudade de momentos que se passaram apenas em minha mente. Mas quem haveria de dizer que não foram reais. Tenho saudades dos sorrisos que provoquei, dos sorrisos que deixei disfarçados em dores. Tenho saudade das pessoas importantes que passaram, e que, ironicamente ainda continuam... 

Somos o mundo ao nosso redor, somos as pessoas ao nosso redor, pois ninguém pode SER sozinho. Logo, eu fui em algum momento aqueles castelos dourados que as pessoas a minha volta construíam em mim. Agora, como tanta gente se foi, ou eu que fugi delas, pouco importa, denomino-me ruínas de uma construção antiga, onde amores; guerras, alegrias, dores, por ali passaram e poucos vestígios restaram. Hoje, nem amor, nem dor, nem nada, só essa saudade seca, que nem chega a ser triste. Eu só pedi que não me roubassem às emoções de sentir qualquer coisa. Não era pedir muito, era?  

Eu preciso daqueles sorrisos, daqueles desejos bobos de querer, a todo custo, chamar a atenção de alguém com uma aparente infantilidade. Sinto falta de arrancar uma ira, assim, de propósito, só pra ter o prazer de pedir desculpa depois. Tenho saudade de fazer um elogio cheio de segundas, terceiras, infinitas intenções. Tenho saudade de, com antecedência, bolar os mais tolos diálogos, só pra inserir no contexto as minhas piadas bobas e sem graça, que fazem qualquer pessoa rir, exatamente por serem toscas. E aquele desdém, de propósito, para que o outro sinta que não se importa, só pra que ele implore a sua atenção? Essas aparentes bobagens é o que vale a pena na vida. Eu tenho saudade da felicidade que proporciona as bobagens previamente pensadas, típicas de quem ama. 

domingo, 27 de novembro de 2016

6 livros praqueles momentos de descrença no sonho de ser escritor

Só quem sonha em ser escritor sabe que nunca é fácil. O mercado editorial é cruel. Pra alguém se destacar no Brasil tem que ser especialista, jornalista ou famoso em outra área, uma vez que autores nacionais, em sua grande maioria, só vendem livros técnicos e biografias.  

Bem, um autor iniciante precisa investir na sua carreira e, mesmo assim, não é tão simples. Pra que o autor atinja o patamar de viver de seus devaneios, pra que chegue naquele tão sonhado nível em que seu nome aparece maior que o título na capa do livro, não é nada simples e pode demorar uma vida toda e é, nesse meio termo, que muitos desistem, principalmente nesses novos tempos de ansiedade em que queremos que tudo aconteça no piscar de olhos. Só que na literatura, querendo ou não, a realidade há de se encarregar de lhe colocar no chão.  

Bem, por inúmeras vezes o sentimento de descrença na minha literatura e no meu talento fora abalada, e sempre que esse sentimento me assolava o acaso me trouxe livros cujos serviram de incentivo pra eu continuar acreditando. E como o principal requisito para um bom escritor é beber de boas fontes,  faço aqui uma pequena lista de alguns desses livros que me ajudaram e ajudam a não desistir dessa quase utopia de me tornar um escritor reconhecido. A lista se encontra na ordem em que li e não me aterei as sinopses dos livros, apenas contarei minha experiência.   

O apanhador no campo de centeio J.D Salinger 



O apanhador no campo de centeio, na verdade, é um livro que me ajudou no momento que, embora eu soubesse que queria ser escritor, eu não tinha certeza de nada. É um livro que trata dos anseios de um jovem que não sabe ainda o que quer, que odeia tudo e a todos e fuma; esse maravilhoso livro de estilo único me fez compreender que não ter um espaço aparente no mundo é normal. E que aquela angustia oriunda da pressão de ser alguém na vida, na verdade só nos torna infelizes e que, se queremos chegar a velhice e não ter a sensação de que vivemos a vida de outros, é preciso coragem pra se despir das vestes que a sociedade nos impõe.  Super recomendo para aquele momento de crise existencial. Em relação a ser escritor, lê-lo me trouxe paciência, pois me fez compreender que o fato de eu não existir ainda, é normal e que só preciso de tempo

O encontro Marcado Fernando Sabino 

Esse livro, meu caro, é mais uma daqueles que narra a busca por seu eu interior.  Como o livro trata de uma garoto que sempre busca seu espaço, me ajudou demais no momento em que o talento, segundo minha percepção, tinha se esvaído ou nunca existido em minha pessoa.
Uma vez vendo uma entrevista a Fernando Sabino, entrevista essa que me fez conhecer o autor (vejo todas as entrevistas com escritores que posso, isso me ajuda a conhecer a vida, os anseios e mazelas de um escritor, deixo essa dica aqui também) eu descobri uma filosofia linda,  que é também o ponto forte do livro o encontro marcado, filosofia esta que até hoje carrego comigo: é a ideia que as soluções de nossos problemas sempre surgem quando precisamos. Ele diz até que, sempre quando realmente precisava de dinheiro, bastava baixar o olhar que ele encontrava na rua. É maravilhoso e, apesar da descrença, sempre funciona.
Bem, voltando ao assunto, o livro trata de um garoto que se aventura pela escrita, então pra quem deseja ser escritor, nos faz imaginar uma vida sendo um escritor reconhecido, logo faz com que aquela centelha que existe no peito de todo sonhador  não se apague. Não deixe de ler, caso já não tenha lido. É simplesmente maravilhoso.

Uma confraria de tolos, J.K Toole 


Puta que pariu! Essa é a frase que me vem à mente quando penso nesse livro.
Uma confraria de tolos é praquela parte da sua sua vida enquanto artista em que os parentes e conhecidos lhe aporrinham pelo fato da arte ser inglória e não render louros, ou melhor, dinheiro. Esse livro é, "simplesmente" (sentindo de tudo) a terapia que você precisa para quando sua mãe chegar pra você e disser: "vai arranjar um emprego seu vagabundo, não vou te sustentar a vida toda." Sabe, além de uma obra genial que te arranca risos e lágrimas, a maioria das vezes ao mesmo tempo, também lhe serve para suportar os dissabores enquanto luta por sua arte, por seus sonhos mesmo quando todos desacreditam e dizem pra você desistir.  Essa obra me ajudou a aceitar a lama do meu presente, com o argumento que tais provações, na verdade, me tornam cada vez mais forte.  Esse livro mudou toda minha concepção de vida. Talvez mude a sua também. Ironicamente eu descobri esse livro lendo uma lista dos livros que as pessoas começam e não terminam de ler. Talvez a maior injustiça que alguém tenha cometido na literatura. Toole, o autor, tirou a própria vida logo depois de terminar essa obra prima e foi sua mãe quem levou o manuscrito para uma editora. Mas espera, como alguém que tirou a própria vida pode inspirar a vida? Simples: quem mais entende da vida é quem não a suporta. Enfim, é simplesmente um livro tragicômico genial. O sofrimento é o tempero da arte. Guarde isso com você!  


Crime e castigo de Dostoiévski 


Não podia deixar de lado Dostoiévski, meu escritor favorito; Sabe aquele autor que conhece você mais do que você mesmo? Pois é, Dostoiévski em relação a minha pessoa! 
Se tratando de crime e castigo então, fico cheio de palavras pra explicar. 
Bem, todo escritor tem uma personalidade forte de modo que presunção e soberba no início da carreira parece um carma que todos carregam, chamo isso da síndrome de Raskolnikov, ou, síndrome de aspirante a escritor. Não estou aqui criticando, essa soberba é fundamental. E foi exatamente essa soberba que crime e castigo fomentou na minha jornada como escritor e me ajudou continuar acreditando, mesmo quando os resultados e a fama que eu esperava não me surgiu como num passe de mágica como imaginava. Lógico que não chego ao extremo da personagem do livro em achar que me encontro acima da lei, mas essa soberba me é tão evidente que seria justo que existisse um funcionário da corte com a única função sussurrar ao meu ouvido que eu não passo de um merdinha de nada, assim colocando meus pés no chão. Quer livro mais essencial para um escritor? Todo escritor que se prese, não querendo menosprezar ninguém, precisa ler crime e castigo. Só acho...     

Pergunte ao pó de John Fante


Nenhum livro me emocionou tanto e me fez acreditar que eu era capaz como Pergunte ao pó de John Fante; simplesmente o li quase sem respirar, pois me identifiquei demais. Foi mais um livro que li naquela hora em que eu sofria a pressão da sociedade pra ser alguém na vida. Como ainda sofro. Maldita pressão! Todos me aporrinhando o tempo todo pra que eu arranje um emprego numa churrascaria, já que não tenho talento pra nada e não posso viver sem dinheiro. Como fazê-los acreditar que se eu arranjo um emprego não tenho tempo pra minha literatura e deixo de viver. É difícil entender? Só quem passa por essa pressão diariamente sabe como é ruim viver no limiar  da subsistência. Depois que li pergunte ao pó, uma frase tornou-se um mantra na minha vida e não sei bem como que seria minha sobrevivência senão fosse ela: 

"Oh Bandini, falando com o reflexo no espelho da penteadeira, quantos sacrifícios você faz por sua arte! Podia ser um capitão de indústria, um comerciante rico, um jogador de beisebol da grande liga, o arremessador líder com uma média de 415; mas não! Aqui está você, arrastando-se ao longo dos dias, um gênio passando fome, fiel à sua sagrada vocação. Que coragem você possui!"

Ainda sou um "zé ninguém passando fome" só que não no deserto californiano, e sim, no calor do litoral cearense.  Agora, gênio? haha, coitado de mim! E é só... Foda-se! Pausa pra reflexão... Vamos pro ultimo livro, Quer sentir que nem sempre são flores, leiam Pergunte ao pó.  


As ilusões perdidas de Balzac 


As ilusões perdidas; o título já diz tudo. Essa obra está sendo útil pra eu me entender enquanto pessoa e escritor. Vem me ajudando a compreender que todo escritor é egoísta e invejoso, que o sistema não ajuda e tudo mais. Embora o livro descreva o mercado editorial francês do século XIX com um estilo próprio de Balzac, duvido muito que o mercado editorial contemporâneo seja muito diferente do narrado no livro, afinal, pessoas são pessoas. O livro narra a jornada de um sonhador que também se acha um gênio da literatura, só que sofre as mais trágicas privações para conquistar um lugar ao sol e tem seus sonhos jogados por terra inúmeras vezes. Assim como eu e talvez você!  Eu considero as ilusões perdidas, outro livro essencial pra todos que se aventuram pela arte da escrita. Na verdade os seis livros da lista são essenciais.

Concluindo: esses livros têm em comum uma lição crucial para qualquer escritor que é: "o bagulho é louco e o processo é lento."

Samuel Ivani 







sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Vídeo: texto o menino da corte

O MENINO DA CORTE




A quem ver! Não ver. Se ver. Não atenta:
um garotinho sujo, descalço, a esperar atento, migalhas da mesa
que caem salivadas dos reis e madames enfeitadas;   
esmeraldas, rubis e mais rubis e corações vermelhos.
O garoto faminto, logo à cima dele, à mesa; risos e
carnes nas barbas dos reis e no colo das enfeitadas.
Há sujeira aqui em baixo; pouco importa a fome não ver.
Gargalhadas, pisadas, gritos, o que haveria logo acima?
O garoto, a fome, os olhos, as vazias entranhas desejam ver.
O Invisível garoto levanta e ver o bobo de pernas pra cima,
como em uma rinha.  
Todos riem do bobo desajeitado.
Bobo da corte. Seria mesmo ele bobo?
O bobo, todos veem! 
Mas a maquiagem, as vestes estranhas...
Na verdade ninguém o ver!
Haveria por trás das vestes um sujo menino?
Todos riem do bobo e lambuzam suas barbas de gordura.
No bobo da corte um sorriso.
Seria dele aquele sorriso ou obra da maquiagem que força as alegrias?
Seria o bobo apenas um quadro em uma moldura?
Quadro sem vida, vida tinha quem o pintou.
Quem pinta o bobo? Não seria o próprio bobo?
O menino ainda faminto olha o bobo e não vê graça.
A fome não deixa seus risos fluírem.
Mas os reis, os reis e madames,
Esses sim, enchem-se de leitões, vinhos e risos.
O bobo menino, o menino bobo, não se sabe,
Levanta-se e agarra uma coxa suculenta.
Agora quem rir do bobo, do bobo menino?
Ninguém! Desse bobo que come. Ninguém! 
O bobo da corte (bom seria se fosse à corte do bobo) 
Estraçalha ferozmente a coxa e seu pescoço.
Os reis e madames assustados murmuram: "que graça há neste tolo?"
O menino sujo e faminto fora levado à forca.
Sem maquiagem não era o bobo.
Todos riam, não do bobo da corte, mas do menino faminto e tolo.
As madames e reis todos maquiados e enfeitados para
presenciar o último riso proporcionado, por aquele que,
antes bobo da corte, agora menino bobo. 

Que forca? Que tortura? A forca seria o fim!
Mas para aquele bobo menino não sobrava ar,
então, melhor seria não respirar. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Banal



"Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!"
Esbraveje! Grite!
Eu te amo!
Gastemos, gastemos essa bela frase, pois ela é inesgotável,
Introduza na goela dos tontos!
É uma frase tão banal, proferida as árvores, aos mares,
ao álcool, ao som da luz profunda,
aos peitos fartos de putas sem categoria.
Vamos! Grite aos quatro ventos!
"Eu te amooooo!"
Ora, frase tantas vezes usada por poetas e ébrios,
não há de ser gasta por completa nunca.
Vamos, deite essa suposta pesada frase sobre todas as adolescentes que mal conheceu.
Ora! Vejam só: já repetiu tanta vezes que de pesada,
passou a não significar mais nada, não foi?
Não foi por falta de aviso!
Imbecil! Saiu desperdiçando a toa!
Devia ter si dado conta quando a tua mente dizia:
"Será que essas três palavrinhas mixurucas já não estão gastas demais?"
Foi ouvir o coração traiçoeiro... bem feito, se fodeu!

Já foi... Não adianta chorar agora!
Não se tocou que cada homem tem no coração uma cota dessa bendita frase e, que se gastar com quem mal sabe a diferença entre vida e idas ao cabeleireiro,
jogará fora a chance de proferir um "eu te amo" verdadeiro entoado pelo canto dos anjos celestes.
Agora tai o tonto, que de tanto achar que amou,
hoje, sem estoque de "eu te amos" não ama ninguém e acha que não mais amará.
É um castigo justo pra um imbecil que
esbanjou o pouco que tinha.
Ahh!
Eu te amo! Eu te amo!
Vamos, grite! Esbraveje! Agora sim, é justo!







sábado, 19 de novembro de 2016

Lírios do campo



Não houve ou haverá alguém no mundo
mais amargo do que eu!
Eu, não me comovo com o sacrifício alheio
Não me importo com os espelhos que refletem o meu eu.
Tampouco, com o que pensam os tolos.
E os sábios, esses, apenas acham que pensam.
Amargo sou e, as poesias de amor, perseguem-me
como formigas ao açucareiro.
Tolas! Assim, como os campos floridos cujos
sempre me aparecem, desavisados, coitados, que dentre os lírios,
não há quem exale odor mais fétido do que eu. 
- As formigas que se alimentem de outro doce!
Eu, sempre fel, sempre egoísta, não acalento coração que arde.
E de que me serviu uma vida de amores?
De nada! De nada!
Sou intragável! Amargo!
Não há quem tire isso de mim.
Até os deuses já me rotularam:
Blasfemador dos amores, Demônio de cetim.
Não me importo!
Pois de que me serviu uma vida inteira de amores?
De nada, de nada!
Que castelos eu levantei?
Que princesas eu salvei?
Fui apenas o veneno que fechou suas pálpebras.
Se hei de ser vilão, e nada,
Que assim seja:
Que eu espreite o rebanho, e, de vez e sempre furte um beijo de amor
que me alimente.

E retorne, até que não haja mais amor.  

Sem óculos ficamos burros

Imagine você que perdi os meus óculos. E com esse pequeno fato, juntamente com a ferramenta que me conferia nitidez ao mundo a minha volta, perdi também a inteligência. Me sinto muito burro... e surdo. Por que se você não sabe, quem usa óculos, quando os perde, além da pouca visão, também perde boa parte da audição, bem como a inteligência.  


Imagine você que, vendo uma entrevista a Fernanda Montenegro no programa do Jô, onde o principal assunto foi o teatro...(o célebre teatro do passado) eu não consegui entrar no universo de minha mente e sentir saudade daquele tempo que foi relatado, como sempre acontece quando estou munido de bons óculos ao meu gral, embora não tenha vivido àquela época.  
Me sinto destituído de discernimento. Que triste! Imagine você que, enquanto  a atriz falava de Nelson Rodrigues, personagem principal do teatro brasileiro, não achei que poderia conseguir um feito igual, como sempre acontece quando ouço ou leio relatos biográficos a respeito de alguém que se destacou no meio literário e se encontra sobre meu nariz os meus óculos. Embora, quando ela disse que de certa forma Nelson Rodrigues era um apaixonado pela sua pátria, eu também tenha sentindo o mesmo sentimento: "Eu sou um brasileiro feroz! Sou da minha pátria, sou da minha língua, sou da minha rua" Essa frase poderia ter sido eu a tê-la criado, uma vez que carrego comigo o mesmo sentimento em relação ao meu país e uma soberba digna da forca. Ninguém reclama...  Ninguém ouve os meus gritos! Agora sem óculos, nem mesmo eu.  

Imagine você que, falando ela de  Millôr Fernandes, a quem posso me gabar de que conheço relativamente mal, mas lembro de uma frase dele dita numa entrevista que dizia assim: "eu não quero ser conhecido por todo crioulo da torcida do flamengo", e esta frase tenha me intrigado demais e jamais a esqueci, por uma razão que conheço bem, pois ela dizia algo sobre mim: Não quero ser conhecido por todos. Eu quero ser conhecido por aqueles que me compreendem, pois me sinto erudito e pouco popular. No entanto, o fato de me encontrar SEM os meus óculos, fez com que eu perdesse a coragem e a força de vontade que encontrava nessa frase.  Perdi aquela soberba, ou aquele alento que sente um aspirante a escritor quando encontra algo que fomente a sua insignificância; mesmo alento que encontrei nos livros, uma confraria de tolos, o apanhador no campo de centeio, as ilusões perdidas de Balzac... e outros que não vou citar pois estou sem os meus óculos e refletir sobre eles sem minha inteligência costumeira me tirarão todas as esperanças. Como veem: sem os óculos me tornei burro e mais soberbo. Acho que é normal.  

Oh droga! E se aquela frase de Jhon Fante em pergunte ao pó também se esvair e deixar de me dá forças pra continuar acreditando que serei um grande escritor. Não pensa nela, você está sem óculos, não pensa; pensei. Merda!   

"Oh Bandini, falando com o reflexo no espelho da penteadeira, quantos sacrifícios você faz por sua arte! Podia ser um capitão de indústria, um comerciante rico, um jogador de beisebol da grande liga, o arremessador líder com uma média de 415; mas não! Aqui está você, arrastando-se ao longo dos dias, um gênio passando fome, fiel à sua sagrada vocação. Que coragem você possui!"

Eis o que fiz: morri. Agora não tenho mais razões pra continuar. Oh, maldita seja a hora que fui perder os meus óculos
Se bem que, em vez de gênio, eu sou um merdinha de nada mesmo, a fome me é justa

A falta dos óculos me deixou realista, essa é que é a grande verdade.