domingo, 22 de outubro de 2017

Meia volta



Aos oito anos, acordaram entre si que se casariam tão logo completassem vinte anos. Bem, dezoito, na verdade. Se possível, com dezesseis seria uma idade mais razoável. Ora, esperar doze, dez anos, não seria viável, mas oito, era um tempo relativamente curto. Encantados, não atentavam para a matemática e não se importavam com o fato de que teriam que viver exatos mais uma vida até a data de se unirem pra sempre.  

Enamorados, trocavam bilhetes, regalos, sorrisos... Era como se aquele amor inocente fosse durar pra sempre. Tinha a escola que os juntava por quatro horas diariamente. Durante as tardes, se viam às três pra um refrigerante na casa de um ou de outro. Nos finais de semana iam à igreja e por assim iam...  
Até para os pais de ambos,  parecia mesmo que iriam permanecer juntos pra sempre. Já  tinham chegado ao ponto até de  adquirir certa semelhança física um com o outro, tamanha era convivência. O que mais se ouvia na cidade era que eles formavam um casal perfeito.   

À medida que o tempo ia passando, como era de se esperar,  a menina se desenvolvia mais rápido. Aos dez anos, todos já a chamavam de mocinha. Ele, no entanto, permanecia com as mesmas feições de quando tinha oito anos. Ela completou onze, doze, lhe surgiram curvas de mulher, seios, e ele, coitado, com exceção de uns centímetros na estatura, não havia mudado em nada. Então, no processo de desenvolvimento, aos poucos eles foram naturalmente se afastando, ao ponto de sem conversar sem nada, de não  andarem mais juntos, nem se falarem. Ela não queria ser vista com uma criança. E ele entendeu isso depois de ser ignorado e humilhado umas cento e oitenta e três vezes, no mínimo.   

Ainda sim,  quanto mais ela crescia, mas o pobre menino morria de amores. Ele foi obrigado acompanhar, embora de longe, os rapazes mais velhos assoviarem, elogiarem, tocarem e beijarem a sua amada sem poder mover um dedo.  Era de matar.

Mas como o tempo não para, aos catorze anos, o garoto deu aquela esticada típica de todo adolescente. Mas não ganhou corpo, era somente um adolescente espinhento de pernas finas e alto.  E como era de se esperar, se antes ela não queria andar com uma criança, com um moleque feio que todas as meninas tiravam sarro, era que não seria possível.

Até que chegaram aos dezesseis. Ainda se viam, mas sempre que se esbarravam, sentiam qualquer coisa  embaraçosa, pois se lembravam da promessa feita enquanto criança. Ainda mais aquele ano que seria o ano do casamento. Mas ela havia se tornado uma linda mulher, cobiçada por toda a cidade, não iria nunca mais olhar pra ele. E nesta de achar que tinha o mundo masculino aos seus pés, ela foi se dando ao mundo como quem se joga num travesseiro de pena de ganso.  

Aos dezoito, o adolescente magricelo, agora mais arrumado, foi pra faculdade.  A moça bonita de quadris largos e seios fartos, no entanto, por ser muito cobiçada, não lhe faltava convites pra festas, casas de praias e assim, seguiram cada um pro seu lado.

O tempo foi passando. Atingiram os vinte e cinco, vinte e seis.  Ele ainda se lembrava dela uma vez ou outra, talvez até ainda resguardasse alguma centelha daquele amor da infância e adolescência, mas era coisa do passado, amor que dá e passa; sentimento passageiro que ele sentia de segundo em segundo.      

Aos trinta e oito, ele professor universitário, solteiro e atraente, na sua melhor forma, não tinha interesse em se amarrar a ninguém. Parecia que aquele amor do passado iria mantê-lo sozinho pra sempre. Até que um dia, ao retornar a sua cidade natal, ele resolveu saber do paradeiro dela. E certo que a encontrou facilmente na varanda da sua antiga casa numa tarde de sexta.


Ao vê-la de longe ele sentiu uma raiva estranha. Escondeu-se, passou a observa-la: ela ainda mantinha certas características do passado, embora adicionado uns bons quilos aquele corpão de quando tinha vinte anos. Na verdade só os  olhos eram os mesmos. Então, antes que ela o visse, ele deu meia volta e foi-se embora contente em ser testemunha das voltas que o mundo dá.      

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O JARDINEIRO



Planando o último metro quadrado de areia branca por entre as rosas, aquele jardineiro magricelo de cabelos lisos iria passar duas horas apreciando o trabalho que desenvolvera com maestria no intuito de atingir a certeza que não era um fracassado total.

Após concluir e começar vislumbrar o fruto do seu labor, ele constata que a areia branca trazida diretamente da Grécia por seus senhores para preencher os espaços entre as roseiras e os arbustos, em prática, lhe pareceu uma ideia mais acertada do que ele jamais supusera, pois o verde escuro das folhas, as rosas vermelhas, em contraste com a areia cintilante sob o sol das nove da manhã, era de uma beleza magnânima.

A jardinagem era o que ainda lhe proporcionava um pouco de prazer uma vez que a pintura, a sua verdadeira paixão, a sua vida, era uma atividade em que ele ainda não se julgava suficientemente bom pra que fosse ovacionado como ele sempre desejou.
Ele tinha como certo que um dia, quando ele finalmente pintasse o seu primeiro e único quadro até o fim, o mundo se curvaria aos seus pés. 
Embora ele não fizesse ideia do que iria preencher aquela tela, tinha como certo que não iria encontrar inspiração na racionalidade, ou no mundo que os homens criaram no intuito de enganarem a si mesmos que estão no controle dos seus destinos. 
Desde os onze anos, ele adquirira a obsessão pela busca da perfeição; o único quadro que concluiria, seria pintado tal qual Deus pintou o Jardim do Éden e, se assim não fosse, morreria tentando. E naquela jornada pra atingir a divindade, aquele exímio jardineiro jamais manteve vivo por mais de cinco minutos nenhum dos muitos quadros que pintara ao longo da vida, pois sempre que se aproximava de concluir uma obra, julgava humana e racional demais, logo, não era o que ele almejava. Ele sabia que era preciso ser menos gente pra atingir a divindade e, por conseguinte, pintar o quadro perfeito; o quadro que proporcionasse a quem tivesse a honra de apreciá-lo o mais puro terror em conjunto com o contentamento proporcionado pela beleza da dor selvagem e instintiva. 

Uma vez que ele ansiava pela sincronia com a mão de Deus, qualquer coisa que ele julgasse humano não era de seu interesse. Não mantinha relação alguma com seus semelhantes; nunca proferia uma palavra sequer ou olhava diretamente nos olhos de quem quer que fosse. 
Os patrões somente lhe direcionavam a palavra para alguma ordem sem graça, que ele nunca seguia a risca, pois tinha o seu jeito próprio de dar vida aquele jardim, que era se privando da sua própria. 
Desde que assumira o jardim, tudo ali era de uma beleza nunca vista em outro lugar no mundo, de modo que os patrões, mesmo notando a excentricidade daquele jardineiro, jamais o demitiriam, pois se habituaram aos elogios de seus conhecidos com relação ao seu jardim cheio de vida. Nem mesmo o fato da figura daquele homem magricelo chocar os poucos que o viam, embora raramente alguém se deparasse com ele, e se acontecesse, ele fugia como o diabo da cruz, não era motivo para demiti-lo. Ou mesmo seus hábitos pouco ortodoxos cujos assustavam até mesmo a mente mais perturbada, não lhe eram motivo pra que dispensassem seus serviços, embora suas verdadeiras loucuras, ele tomasse precauções pra que ninguém visse. 

Certa vez, no auge do frio do inverno, aquele fantasma do jardim, resolveu cavar um buraco na terra úmida de mais ou menos sessenta centímetros por detrás de uns arbustos na parte dos fundos da mansão. Ao concluir, se despiu, deitou seu corpo flácido e trêmulo de frio naquele que ele julgava não um buraco, uma cova, mas um portal para uni-lo em definitivo com a natureza instintiva, se enterrou com as próprias mãos deixando somente a boca e as narinas para captação de ar - e lá ficou por dois dias inteiros sem que ninguém o encontrasse, somente bebendo o orvalho que lhe caia a boca. 
Há que se lembrar de que tal empreitada quase o matou. Aquele ato era mais uma de suas tentativas pra atingir a inspiração pra “esculpir” o seu quadro divino. Ele tinha como certo que sob a terra úmida, vivendo junto, e, como um verme, ele se uniria a natureza selvagem e se desvencilharia de todo e qualquer sentimento humano, logo, ele poderia pincelar o seu quadro da mais pura beleza selvagem, como o seu Deus Pollock. 

Depois de chegar ao seu limite, de ouvir o pulsar da terra, de sentir que sua carne e a terra haviam se tornado somente um, ele reuniu o que lhe restava de forças, levantou-se evitando ao máximo que a terra que lhe pregara no corpo voltasse ao seu lugar justo, se direcionou até seu minúsculo quarto nos fundos do jardim, e lá, começou pintar o que seria o seu quadro destituído de qualquer humanidade. Mas depois de duas horas pintando, ele retorna a si, olha para a tela e se depara com a figura de um homem com uma corda no pescoço se equilibrando nas pontas dos pés sobre uma maçã pobre para evitar a morte. Os olhos daquele homem extramente assustados devido o medo da morte, provocaram pena ao jardineiro, sentimento humano menos nobre que ele já conhecera, então irritado, ele simplesmente se joga em cima do cavalete e rasga no dente aquele quadro mixuruca. 

Até aquela manhã, aquele homem sem vida já havia desenvolvido as mais excêntricas estratégias de modo a inspirar-se para seu único quadro, mas todas haviam se demonstrado inúteis. 
Certa vez, ele chegou a cortar os pelos dos cílios a fim de não mais dormir no intuito de despertar pelo sofrimento o seus instintos mais selvagens. Mas depois de seis dias, ele somente conseguiu pintar uma moça espanhola pastoreando ratos no alto de uma colina. Não era a pintura sublime que ele buscava, nem era pintada com a arte que ele almejava alcançar, então, mais uma vez se desfez do quadro. 

Mas naquela manhã, havia qualquer coisa de diferente, embora ele não soubesse o que era. Apreciando a areia branca, ele refletia sobre o fato que talvez jamais conseguisse atingir seus objetivos. Tais ideias começaram reverberar no que ainda lhe restava de humano e sentindo-se um fracassado de merda, ele profere um grito tão alto e diferente que arrepiaria até os mais indiferentes corações. Em um ato intuitivo, descalça suas botas que já ostentavam quatorze anos, e gritando tudo que ele havia guardado para si a vida toda, começa correr sobre a areia branca deixando suas pegadas como evidência do seu descontentamento com tudo. 
Ele corria feito um lobo faminto em direção a uma presa que sabia que jamais alcançaria. Até que, em meio às roseiras, bem no centro do jardim, um espinho lhe perfura o braço, fazendo com que o sangue caísse na areia branca. Sem se dá conta da dor, aquele homem corria deixando uma trilha vermelha por onde passava. Quando ele finalmente sente o líquido quente deslizando por seu braço, ele para, ignora o ferimento, olha para trás e se depara com os rastros de sangue. Ali ele entendeu que tudo que ele passara durante a vida, toda dor, resignação, conspiravam pra que ele chegasse aquele momento. Finalmente tudo fazia sentindo. 
Sem pensar, ele se despe e torna a correr totalmente nu, mas agora em direção as roseiras. Ele se lança aos espinhos como um touro feroz aos chifres de um rival. A sua pele frágil, jamais exposta ao sol, é dilacerada pelos espinhos derramando a sua vida por onde passava. Ele corria e a trilha deixada formava linhas instintivas totalmente destituídas de vontade. Apreciando o seu próprio espetáculo, em euforia, ele ignorava a dor, os homens e a vida. 

Os cortes deixados pelos espinhos das rosas não eram suficientes para que ele finalmente concluísse o seu quadro magnânimo, então ele lança-se aos cactos se provocando assim cortes mais profundos mas que pouco importavam, já que lhe rendiam a tinta que precisava. Ele era senhor de si mesmo, pintando o quadro da sua vida, o quadro que qualquer um que visse, apesar da dor, da aversão ao sangue, não conteria o contentamento em apreciar tão divino espetáculo. 

De repente, ele para em frente a uma gota do seu próprio sangue, acocora-se, e nota uma formiga numa tentativa infrutífera de se livrar do sangue coagulado, mas já perdia as forças. Eis que, pela primeira vez na vida, aquele jardineiro excêntrico ensaia um sorriso. Após a formiga perder totalmente os movimentos, ele se levanta e continua... Ele não podia parar! Finalmente iria concluir a pintura da sua vida. Logo, sem escolhas, ele se lançou mais e mais vezes sobre os cactos. E continuava a correr sem direção. Até que, depois de mais de uma hora, ele para, gira em torno de si mesmo bem no centro do jardim, e vislumbrando finalmente a sua obra perfeita, desfalece de braços abertos na areia grega agora vermelha. Ali deitado, ofegante, ele conclui que aquela pintura, o quadro da sua vida, só poderia ter sido pintada por alguém caminhando no vale da sombra da morte. Eis que, ele profere o último suspiro ciente de que tinha finalmente atingido seu objetivo maior. 

Alguns segundos depois, um rouxinol pousa compassadamente no ombro sem vida daquele Jardineiro embebido em seu próprio sangue, e inicia cantarolar o canto dos deuses, conferindo som aquela pintura que já tinha cor, aroma e dor. 





Samuel Ivani

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O afinador de pianos



Horácio faleceu as quinze horas enquanto afinava o piano de Anastácia Vespato pela enésima vez nos últimos quatro anos. Por razões que ambos conheciam, aquele piano tinha o dom de desafinar ainda que ninguém o tocasse de dois em dois dias. 
Anastácia ostentava setenta e três anos e Horácio poderia ter completado oitenta e um senão fosse aquela natural fatalidade enquanto ele pressionava repetidamente o dó do piano aquela tarde. 

Anastácia preparava um chá na cozinha para que tomassem depois que Horácio constatasse que o piano se encontrava tão afinado quanto dois dias antes. 
Ambos sentariam na varanda, Anastácia lhe serviria o chá, lhe ofereceria biscoitos que ele recusaria com um gesto de negação. E passados exatos um minuto e meio em silêncio, Horácio perguntaria a quantas andava os planos da pintura da casa, e Anastácia responderia que ainda estava em dúvida sobre as cores, embora já tivesse assuntado com o pintor pra que ficasse atento que tão logo ela decidisse, iria chamá-lo. Horácio então sugeriria salmão. Anastácia responderia que não tinha um gosto acentuado por peixes. Horácio riria e diria que salmão era uma boa cor pras paredes da sala, e não estava a convidando pra um jantar regado a salmão. Anastácia, mesmo já tendo vivido a mesma situação diversas vezes, riria abertamente e diria que embora vivessem hibernando, não eram ursos pra comerem salmão. Ambos cairiam na gargalhada, pois Anastácia teria adicionado um fato novo aquela conversa, que eram os ursos. Horácio ficaria feliz, pois compreenderia que um dos dois tinha se preocupado em tornar aquela situação, para ambos prazerosa, mais atraente ainda. 

Anastácia lentamente corria no forno, verificava os biscoitos e absorta em seus próprios pensamentos, não percebia que as notas do piano não eram mais emitidas lá da sala. Ou talvez já tivesse notado, mas no seu subconsciente, Horácio só tinha demorado menos tempo fingindo que afinava o piano já afinadíssimo.
Como ela queria que ele em vez de tentar afinar, tocasse qualquer coisa, talvez Villas Lobo. Mas desde que se conheceram, nem ele nem ela, haviam tocado nada para o outro naquele piano que dadas as vezes que era afinado, talvez não houvesse em todo o mundo um piano que emitisse notas mais perfeitas. 

Já havia alguns dias que Anastácia treinava uma composição de Vangelis, um compositor pop, segundo a televisão, no intuito de tocar pra Horácio, pois não era justo que ele afinasse tanto o piano sem nunca ouvir música de verdade saindo de suas entranhas. 
Anastácia tinha tantos planos para aquela tarde. 
Tencionava até em pedir que Horácio ficasse para o jantar. Eram vizinhos e ambos solitários, então, não custava nada se proporcionarem um pouco mais da companhia um do outro. 

Depois do chá pronto exatamente na medida que Horácio apreciava, ela prepara a bandeja e sem saber como, repara nas flores pintadas nas bordas dos pires; eram cores tão vivas que a fizeram lembrar de sua mocidade quando corria pelos campos de flores sem intenção de chegar a lugar algum. Então lhe ocorreu a brilhante ideia de colocar uma rosa artificial que tinha no armário no centro da bandeja. Feito isto, ao vislumbrar aquela bandeja colorida, constatou que tinha sido uma ideia acertada. 
Depois de tudo pronto, Anastácia respira fundo e se direciona a sala com mais vida do que de costume. Ao caminhar, ela estranha o barulho dos seus pés arrastando-se no piso da casa, pois nos dias anteriores, o som do piano suprimia o barulho dos seus chinelos. Eis que ali, ela notou qualquer coisa de diferente. 

Ao chegar a sala, Anastácia vê Horácio sentado ao piano ainda pressionando a nota dó...

domingo, 15 de outubro de 2017

Diário de um escritor medíocre







DIA 1

Acordou às nove da manhã. Verificou que era sábado e que, por aquela razão, não teria que ir a faculdade. Pensando assim, ele refletiu uns cinco minutos se valia a pena tomar café, escovar os dentes, tomar banho, uma vez que não sentia fome nem iria ver ninguém. Ao menos não que estivesse nos seus planos. 

Ao abrir de fato os olhos, a realidade lhe cobriu de tudo que ele já conhecia bem. Era tudo tão igual que ele se irritou. Mas sem forças, manteve sua ira apenas mentalmente: “Um homem devia, pelo menos uma vez por semana, acordar em um ambiente que não conhecesse a disposição dos móveis, para assim, esbarrar com a canela na quina do criado mudo e aquela dor terrível lhe servir como aviso de que ele ainda estava vivo”. Ora, encontrar provas da própria existência numa rotina que todos os dias parecem segundas feiras não é simples. Como bem disse Sartre. 

Sentou-se na sua velha rede. Olhou seu quarto sem reboco. Verificou o telhado confeccionado de madeira mixuruca. A sua rede de dormir minúscula no meio daquele quarto enorme lhe pareceu uma cena tão solitária de dá dó. Ali, imaginou-se como se ele fosse uma câmera filmando aquela cena do alto: a tomada pegava um homem medíocre, de sonhos medíocres, sentado numa rede sem charme, e sem razão nenhuma pra levantar. 

Deitou-se novamente, acionou uma música no celular e tentou dormir mais uma vez. Desejou pular o final de semana, acordar somente na segunda, pois segunda feira sendo mesmo segunda feira era justo que fosse mesmo chata e sem graça. Não era justo que todos os dias fossem como eram. 

Não conseguindo voltar a dormir, ele levanta-se, escova os dentes, não toma café, pois sente que a fome lhe traria qualquer iluminação pra escrever um conto sublime, pois já fazia uma semana que não escrevia nada. As sensações do último texto já estavam se esvaindo e a abstinência travestida na descrença no seu talento já lhe corroia o estômago. Escrever para ele era simplesmente um vício como qualquer outro. Toma-se uma dose hoje, se alimenta daquela sensação por um tempo, mas depois surge novamente a necessidade de mais. E como ele nem lembrava mais o tema do seu último texto que ninguém leu, a sensação que ele não passava de um homem destinado a produzir carvão vegetal no quintal de casa o resto da vida, já lhe consumia aos poucos. Era preciso escrever. Mas como? Nada lhe ocorria. 

Após escovar os dentes, retornou pra rede, leu um pouco de Nelson Rodrigues: o escravo etíope. Ficou maravilhado com a vida como ela é. Refletiu que as pessoas hoje em dia estão sendo levadas a acreditarem numa vida fictícia, cheia de flores e balões o tempo todo, de modo que não mais aceitam a vida como ela é. Concluiu então que ele nunca seria lido mesmo. Não naquele novo mundo do positivismo barato e inútil. 

Num relance, lembrou-se que tinha que preparar um seminário de matemática pra apresentar na próxima quinta. Quis morrer. Fechou os olhos e desejou com força que ao reabri-los, em vez de mãos, ele veria belos cascos, umas patas malhadas, e tetas prontas para ordenha. Pelo menos, naquela nova forma, ele teria mais chances de ser abduzido pelos aliens. Como lhe custava às obrigações fúteis da vida. Se bem que o seminário era só quinta, ainda tinha muito tempo pra procrastinar. 

Após verificar com dor que não havia sido transformado numa vaca, foi obrigado a levantar pra ir até a cidade com a mãe pagar umas contas. Verificou o combustível da moto, se desse para a viagem, seria uma sorte tremenda. Sua mãe, ao verificar a sua cara de desesperança, diz com todas as letras que viviam tempos negros, época de vacas magras. Ele quis rir da ironia do destino, mas não encontrou motivos suficientes. 

Ao chegar ao posto de gasolina, foi taxativamente cobrado pelo dono, pois tinha lá uns vales que já datavam de quase dois meses. Quarenta reais no total. Ele tinha consciência do débito, mas não tinha pagado porque já fazia uns três meses que não via cor de dinheiro. Os trabalhos universitários que ele fazia a muito custo em troca de alguns trocados, aparentemente tinham ido repousar em pastos verdejantes, de modo que ele vivia realmente “tempos negros como dizia sua mãe”.

Embora aquele escritor medíocre estivesse acostumado às humilhações, aquela cobrança lhe doeu mais do que de costume. Talvez estivesse amadurecendo um pouco. Tomando vergonha na cara. No entanto, vergonha na cara não paga conta, então ele se obrigou a dizer a verdade sobre os fatos e recebeu de troco expressões de reprovação. Como adicional, ouviu a frase que mais parecia um mantra na sua vida: cara, tu é tão inteligente, porque não arranja um emprego? Ele respirou fundo e saiu. Não valia a pena tentar explicar. Seria como tentar explicar conceitos de arte para os analfabetos que confundiram uma apresentação no Museu de Arte Moderna de São Paulo com pedofilia. 

Naquele instante, ao ser cobrado, ele se viu na pele de Lucien de Rubempré e de Arturo Bandine, mas embora aquilo lhe fomentasse as humilhações, não se sentiu muito bem ao pensar que só estava trilhando o mesmo caminho de seus ídolos. Não como antes. Não havia nada de glamoroso na vergonha de ser cobrado. É! Talvez ele estivesse mesmo amadurecendo.

Não tendo realmente como quitar a dívida, e obrigando-se abastecer a moto mesmo assim, ele teve que engolir o pouco de orgulho que lhe restava, e pediu que completasse a nota de cinquenta reais no vale, prometendo que era a última vez e que pagaria no final do mês. Sabe-se lá se ele teria dinheiro para tanto, mas valeu-se da fé, já que era o que lhe restava. 

Diante daquela situação, ele se irritou profundamente ao notar-se aos 27 anos, um homem de barba, tendo que passar por aqueles perrengues unicamente por amor a sua arte. Quanto sacrifício faz por tua arte Samuel! Que coragem você possui! 

Depois de conseguir abastecer a moto, ele se direcionou até a casa lotérica pra pagar um boleto fazendo um favor pra seu irmão. Duzentos e vinte sete reais no total. Dos duzentos e cinquenta reais que o irmão lhe dera, restaria vinte e três, que ele poderia dá de AV nos vales do posto. Mas irritado, cansado de tudo, resolveu que iria tentar a sorte na Mega Sena. Ele tinha sofrido muitas humilhações aquele dia, talvez o universo lhe agraciasse com o prêmio pra que ele nunca mais passasse por tamanha ignomínia. Então convicto, fez três jogos no valor de dez e cinquenta, e o restante entregou a mãe pra completar a compra do almoço. 

Retornaram pra casa, e como era sábado, restava somente esperar o resultado da Mega sair quando chegasse a noite. 
Diante da náusea, das lembranças, do tempo, começou refletir sobre o que faria se ganhasse muito dinheiro de uma só vez, e chegou à conclusão que com certeza abandonaria o sonho de se tornar um grande escritor.
 Concluiu então que talvez não fosse uma boa ideia torna-se rico assim de repente. 
Porém pensou nas humilhações que já passara por conta da falta de dinheiro e resolveu deixar o universo decidir aquilo por ele. Embora lá no fundo, ele soubesse que não queria mesmo ganhar aquele prêmio. Não mesmo. 




quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Dia da criança em mim






"Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida"

Até meus sete anos eu vivia numa casa sem energia elétrica e ia dormir tão logo a noite trazia consigo a escuridão. Mas acordava às cinco da manhã tão feliz por ser dia, e com uma ânsia de viver, pois não pudia perder nenhum segundo da luz do sol.
Eu levantava cheio de energia, apesar, de muitas vezes ter apenas o café “churro” para tomar, como diz minha mãe. Eu adorava o cheiro da manhã, o ar frio em contraste com o sol forte das primeiras horas do dia, o barulho da colher no bule que evidenciava que tinha de fato o café. E não sinto que perdi nada com isto, pois sem luz e um mundo externo visível, só me restava imaginar - e como eu imaginei...

Também enquanto criança, lembro de ouvir boquiaberto um conto de fadas intitulado "a gata borralheira" na voz doce de uma vizinha que tinha uma habilidade louvável de contar a mesma estória de forma diferente inúmeras vezes. E como só vim a ler o primeiro livro com vinte e três anos, talvez tenha sido ela que me instigara o gosto pela literatura.

Minha infância tornou-me quem eu sou: todos os medos, todas as fantasias, a capacidade de criar, tudo fora desenvolvido enquanto criança. Eu não tinha livros, televisão, vídeo game, tinha apenas minha mente e mundo real a minha volta pra fugir da realidade.
Recordo-me de passar horas sentado próximo as plantinhas que cresciam no inverno a beira da estrada, sonhando acordado que eu tinha a habilidade de encolher, então os arbustos se tornavam florestas, as poças de água transformavam-se em rios, e eu era um soldado de guerra com a missão de salvar prisioneiros, como no filme do Chuck Norris que eu via na casa do vizinho.

Desde criança, sempre fui um apaixonado galante. Todo ano, invariavelmente, eu desenvolvia um amor daqueles dos cavaleiros da Távola redonda por alguma garota da escola. Eu sonhava salvando tais princesas de maus feitores tão comuns quanto eu. Somente eu via a nobreza das princesas, para todas as outras pessoas elas não passavam de plebeias que faziam cocô como todo mundo. Eu escolhia não acreditar e tudo era tão real e palpável.

Quando criança eu tinha medo de carro preto, de estrela cadente, de chupa cabra, do "assubiador", de ficar de vovó em brincadeiras de roda e muitos outros medos, mas hoje sou muito grato à cada um deles, pois me proporcionaram uma imaginação fértil cuja é a principal ferramenta do meu ofício.
Eu não cresci na era da tecnologia, da informação, da Pepa Pig, mas não me sinto superior por isso, nem inferior, me sinto apenas um privilegiado por talvez ter sido um dos últimos que teve a oportunidade de vivenciar experiências tão ricas.

"Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida"




Samuel Ivani

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Mente vazia, oficina do diabo




A pesquisadora carioca Suzana Herculano Houzel, a partir da contagem dos neurônios do cérebro humano e descobrir que temos oitenta milhões e não cem, como se pensava, desenvolveu a hipótese de que o quê permitiu que o nosso cérebro se desenvolvesse além dos outros animais, foi o hábito de cozinhar os alimentos.

O hábito de cozinhar se trata de uma pré-digestão fora do corpo, logo, ao ingerirmos alimentos cozidos o nosso organismo absorve uma quantidade de energia muito maior em um menor espaço de tempo, diferentemente do que se ingeríssemos somente alimentos crus.

Os gorilas, por exemplo, pra conseguirem a quantidade mínima de calorias necessitam se alimentar de folhas durante oito dez horas ininterruptas por dia. 
Assim sendo, o hábito de cozinhar nos proporcionou tempo livre que usamos pra desenvolver as capacidades cognitivas.

À medida que fomos desenvolvendo a racionalidade, foi surgindo a agricultura, agropecuária, supermercados, restaurantes, "I-food" e por aí em diante, de modo que, a cada dia que passa, nos sobra mais tempo. 
Como preencher este vazio? E se a cada dia ingerimos mais calorias cada vez com menos esforços pra consegui-las, pra onde direcionar toda esta energia? Qual será o próximo estágio da racionalidade?

Suponho que, além da obesidade, este vazio ocasiona problemas psicológicos sérios. Ora, já se sabe há muito tempo que mente vazia é oficina do diabo. Se adicionar esta mente vazia a solidão então, temos o inferno. "Não é bom que o homem viva só". 
Muitos adolescentes sedentários e solitários, ao se depararem com o vácuo de não saber pra onde canalizarem sua energia, e não fazendo nem mesmo esforços físicos pra liberarem a quantidade de serotonina necessária pra serem felizes, desenvolvem distúrbios como se cortar e etc. Basta uma fagulha, pra que ele se rebele e queria descarrilar a ordem. Não só adolescentes, mas a qualquer idade, mente vazia nos leva ao próximo estágio da racionalidade que é a loucura.

Que nos ocupemos; que busquemos canalizar nosso excesso de energia e o nosso tempo para algo útil, senão, nos surge as mais variadas insanidades como forma de preencher este vazio. 
Haja vista que quanto mais desenvolvido o país, mais ocorre tragédias em que indivíduos tiram a vida de muitos e depois a própria. Maldita hora que nos sobrou tempo pra questão do "Ser ou não Ser".

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Consequências




Desde que nasceu ele foi lançado ao Deus dará. O pai, jamais conhecera. A mãe, pouco centrada, o alimentava e vestia por obrigação. Gestos de carinho para com ele,  ela proferia somente na presença dos vizinhos numa tentativa infrutífera de manter uma boa imagem. Se lhe faltava dinheiro, ela descontava em forma de pancadas no filho; se brigava com o namorado, da mesma maneira. Sempre que se sentia infeliz com qualquer coisa, ela acabava por descarregar no filho de alguma forma. De modo que ele foi crescendo sozinho. E em meio à solidão, aquele garotinho foi cada vez mais se aprofundando em si mesmo. Não lhe foi permitido que ele construísse o seu leviatã, então os pensamentos selvagens foram encontrando terreno fértil para se expressarem. 

Ainda na mais tenra infância, ele passava horas no jardim tentando encontrar razões pra não fazer xixi nos formigueiros. Mas não encontrando, ele inundava cada um deles, e, instintivamente, sentia-se bem ao ver as formigas em fuga. Aquele gesto lhe parecia justo. 

Estranhamente, em suas noites solitárias, ele alimentava o desejo de encontrar um garotinho gordo na rua pra enchê-lo de beliscões até jorrar sangue daquele corpo macio. Mas das poucas vezes que teve chance de realizar tal ímpeto, não ficava sem consequências. Sempre o pai de alguém vinha reclamar com sua mãe e ele sempre apanhava mil vezes mais que os beliscões que ele dava no colega. Assim sendo, ele foi, aos poucos, entendo a diferença entre as formigas e os homens. Ora, tudo tinha consequências. Nenhum ato, por menor que fosse, era perdoado. A vida tinha uma ordem, que se não seguida, o convívio com as outras pessoas não era possível. E eram aquelas limitações que ele começava odiar. 

À medida que ele crescia, cada vez mais sozinho, não faltava tempo pra que pensasse sobre a vida, sobre a existência das coisas e de si mesmo, e sempre chegava a conclusão que tudo era uma causa perdida. 

Ao chegar a vida adulta, apesar de pouco sociável, ele precisou, como todo mundo, tornar-se alguém na vida. Embora no seu íntimo ele não suportasse aquelas obrigações fútil da vida comum, ele seguiu a ordem: estudou, trabalhou, conheceu alguém atraente, ao menos à primeira vista, e casou-se. 

O matrimônio não durou muito. Não por ele ser violento, ou qualquer coisa que o valha. Até que aquele garotinho selvagem tornou-se pacato até demais após a adolescência. Era que simplesmente o mistério que existia em relação a sua esposa desapareceu e levou consigo o “tesão” que ele sentia por ela. Ela era uma mulher comum, com problemas comuns e aquelas futilidades lhe pareciam pouco agradáveis. 

Depois do divórcio, ele retornou a sua solidão costumeira. Apenas alguns relacionamentos efêmeros, nada que o obrigasse a conviver mais que uma semana com a mesma pessoa. 

Depois de trinta anos trabalhando como professor do Estado ele se aposentou. Foi então que o vazio da infância lhe ocorreu novamente e daquela vez com maior intensidade, uma vez que daquela vez, ele não tinha mais obrigações reais para com ele nem para com outro alguém.

Sem filhos, sem ninguém que ele amasse ao ponto de lutar por suas existências, os pensamentos sombrios e o ódio pela ordem da sociedade foram tomando forma em sua mente cheia de inutilidades. Ele queria a liberdade de descarrilar a ordem sem que as consequências caíssem sobre ele, assim como inundava formigueiros no jardim enquanto criança. 

Eis que, dois anos depois de aposentado, numa manhã de setembro, ele tomou um ônibus na rua que ele sempre morou e passou a rodar a cidade com destino já traçado.

Numa rua reta do centro, ele levantou-se, se dispôs do lado do motorista, olhou para as poltronas atrás de si; eram tantos rostos comuns, tantas pessoas preocupadas com futilidades que ele não suportava. Tomou o revólver que trazia consigo, apontou para o motorista, porém, antes de apertar o gatilho, teve tempo pra se arrepender daquele plano idiota.

Mas o gesto já tinha sido proferido, as pessoas já tinham visto, se ele voltasse atrás, as consequências iriam cair sobre ele. Mas não daquela vez. Foi então que ele apertou o gatilho tirando a vida do motorista, tomou o volante e girou a toda pra direita levando o ônibus de encontro aos pedestres na calçada. Após alguns metros, o ônibus tombou.

Aquele aposentado, ao se notar ainda com vida, e já ouvindo os gritos das pessoas na rua, gritos que eram consequências da sua loucura, ele procurou o revólver de modo a concluir os seus planos de descarrilar a ordem e fugir das consequências, mas a arma tinha se perdido na confusão. Entrou ele em desespero, mas com uma perna quebrada, nada podia fazer.
Ele seria obrigado, mais uma vez, enfrentar as consequências dos seus atos.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O corpo nu nos iguala

Uma crítica a tentativa de censura ao MAN   



Não foi o pecado original que levou o homem a esconder suas "vergonhas". Tampouco foi por vergonha que a espécie humana desenvolveu a hábito de usar vestimentas. Tal característica surgiu unicamente da necessidade de proteção contra o frio, o calor, pra camuflagem e outras razões... Mas de forma alguma foi pra esconder os órgãos reprodutores. 

Em tribos em que todos os membros vivem nus, uma vez que as genitálias estão sempre amostra, são elas vistas como qualquer outra estrutura do corpo, sem conotação sexual.   
E convenhamos, o corpo humano comum, real, sem fotoshop, sem estar exposto numa revista que o individuo aprecia em um momento particular, não tem nada de sensual. Foi depois que o homem criou o hábito de usar roupas e consequentemente esconder os órgãos reprodutores, que se criou toda esta mistificação tola. 

No passado, por exemplo, era considerado indecoroso o hábito das mulheres mostrarem os calcanhares sem razão aparente, logo, os calcanhares eram considerados estruturas eróticas. Mas era o hábito de mostrá-los sem que houvesse uma poça de lama em conjunto com um olhar de soslaio, que indicava o cortejo, não os calcanhares em si.   

Sem contar que a genitália nunca foi característica preponderante na escolha de parceiros sexuais. 
Os  padrões de bons reprodutores são: quadris largos, seios proporcionais para as mulheres; ombros largos e braços fortes para os homens. E para que tais características tornem-se armas de sedução, é necessário todo um contexto, tanto mental, como fisiológico. Elas por si só apenas fazem parte da morfologia de todo ser humano. Quer negue quer não, somos todos iguais por fora e por dentro. 

O principal objetivo da arte pura, sempre foi revelar quem somos, como somos, sem enfeites, sem hipocrisia, ou seja, nos colocar no nosso lugar.  E o uso do corpo humano nu, pode nos revelar uma dura verdade que, em nosso egocentrismo, tendemos a negar "fervorosamente", que é que somos todos iguais.   
O corpo humano, sem estar coberto de roupas caras,  sem estar travestido de uma personagem que muitos usam para distribuir preconceitos contra aqueles que eles julgam inferiores exatamente porque não podem usar a mesma marca, comprar o mesmo carro, nos revela esta dura verdade inaceitável. Então a vergonha que as roupas cobrem, não são as nossas genitálias, e sim a realidade de que somos meros pedaços de carne ambulantes.  

Homens nus são uma fronta, pois nos iguala e é preciso ser mais que alguém sempre. Senão encontramos meios de nos diferenciamos, ou melhor, de nos distanciarmos uns dos outros, a vida perde a graça. "Ninguém pode tirar de mim esta prazerosa sensação de me comparar, e ainda que só comigo mesmo, me sentir melhor por ser mais rico, mais bem vestido, mais branco, mais cheio de joias do que este ou aquele."   

Então meus senhores, parem de censurar a arte; deixem que ela continue revelando quem somos, para que nunca esqueçamos que somos iguais e que findamos sempre no mesmo abismo.
E em vez de lutarem pela censura, revelem para as suas crianças quem somos, o que somos e para onde vamos. Não deixem que elas cresçam sustentando personagens hipócritas e preconceituosas a vossas imagens e semelhanças.  

Como bem disse Fernando Pessoa: "onde é que há gente neste mundo?"   





  

domingo, 24 de setembro de 2017

Believe



A razão nunca levou o homem ao impossível.
Se quiseres ir longe, destitui-se das sanidades,
reveste-se das loucuras, e que gritem, que caçoem,
que desacreditem, que lhe arranquem os cílios, os dentes,
no fim, tu ainda rirá de muita gente:
Ou porque conseguiu e pode olhar a todos de frente
Ou por pura loucura mesmo; louco rir de tudo abertamente.

Se tu desejas ir longe, desvia-te do caminho seguido por outros;
Constrói o teu próprio traçado; será mais árduo, mais louco,
mas tesouro de caminho repetido, já foi conquistado por outros;
Então caminhe sozinho, abra florestas, desenrole teu arco-íris,
e estejas ciente que, no final, não encontrarás o pote de ouro.
Tu tens que juntar pedra por pedra, semente por semente e,
findada a tua jornada, terás o teu tesouro e ele será constituído de gente.

Se desejas mesmo alcançar o teu impossível, não temas o ridículo;
incomode, irrite, chateie, seja quente e não morno.
Descabele-se em público, sangre, sue, tire a roupa;
a arte requer homens e não robôs treinados a moda da corte.

Lança fora as fórmulas, os manuais, os mapas...
Qualquer coisa pronta só te levará aos sonhos dos outros.
Tu és único e sabe que a fórmula é
ser louco o suficiente pra, apesar de tudo, sempre seguir...
No futuro, distante ou longe, vivo ou morto,
tu olharás para teus amigos e inimigos e dirá:
Eu consegui porque fui suficientemente louco pra nunca desistir.

E tu?





quinta-feira, 14 de setembro de 2017

5 filmes pra te inspirar enquanto escritor


Enquanto escritor eu busco assistir tudo relacionado a literatura, e como sou apaixonado pela sétima arte, busco  sempre filmes sobre escritores ou relacionados. Tais filmes me inspiram, fomentam meus sacrifícios e batalhas e me divertem. Faço aqui uma pequena lista dos filmes que eu julgo que são essenciais pra todo escritor assistir. Não me aterei as sinopses, contarei minhas experiências, pois indicação nenhuma supera a experiência própria com qualquer coisa.

O filme tá completo no Youtube 

Fome sult (1966)

Diretor: Henning Carlsen






Fome é um filme que retrata um escritor numa cidade estranha tentando ganhar fama e dinheiro. No entanto, como nunca é fácil, ele passa por inúmeras dificuldades. Embora sem pesquisa, acho que ele foi inspirado nas ilusões perdidas de Balzac.   Os filmes antigos são os melhores por conta que passam a humanidade na sua forma mais pura, mais realista, sem os enfeites dramáticos de hoje em dia. Fome não vai poupá-lo quanto a realidade da fome.   

O que me intrigou mais no filme e o que mais me inspirou, foi o fato do personagem conseguir dinheiro de outras formas que não com sua literatura, e ele não aceitar, como se aquele dinheiro não fosse justo. Relacionei isto com a minha vida e fez muito sentido. Como nunca ganhei dinheiro algum com a minha literatura, todo o dinheiro ganho por outros meios, eu não considero justo, portanto, gasto com futilidades. Dependendo do ponto de vista, o filme pode fomentar suas irresponsabilidades, ou fazê-lo se compreender enquanto pessoa. Eu ainda estou decidindo qual lição tirar dele. No mais, Fome me encantou demais e me fez compreender que todos passam por dificuldades.



Animais noturnos (2016) 

Diretor:Tom Ford 


Animais noturnos vai dar um nó na tua cabeça, mas um nó gostoso de desenrolar. Após o final eu fiquei uns três minutos refletindo pra entender. Mas depois que entendi, que sensação maravilhosa. 

Este filme, meus queridos, é um deleite, pois ele mostra como a literatura, muito mais do que um meio de entretenimento, você enquanto escritor pode usá-la pra atingir as pessoas, tanto para o bem como para o mal. Sempre usei minha literatura pra expurgar meus demônios, me vingar, mandar recados, então esse filme só me fez entender que eu não sou mal, sou somente um escritor. 
Julguei esse filme bem o estilo de Tarentino, só que sem o sangue. Vale muito a pena. 

O segredo dos seus olhos(2010) 

Diretor: Juan José Campanella



Que filme incrível! Já vi pelo menos umas dez vezes e não me canso. 
É um filme argentino que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro e com todo mérito. 
A primeira vez que assisti, fiquei somente ligado a história, depois que vi a segunda foi que comecei notar os detalhes técnicos. O filme é como se fosse inteiro um quadro no estilo cubista, pois os personagens nunca estão no centro do plano. Dá até um pouco de aflição, pois raramente você vê inteiramente as pessoas, só narizes, rostos cortados em diversos planos, o que é genial.

Ah, esse também vai fazer você ficar pensando alguns dias sobre o enrendo. Prepare-se pra sensações incríveis. Truman Capote se vivo, ficaria invejado de não ter contado essa história, se fosse ela real.
É um filme que é literatura pura.  





A Janela secreta(2004)

Direção: David Koepp





Inspirado  na obra de Stephen King e estrelado por Johnny Depp, Janela secreta narra a loucura que pode desencadear a sua obsessão por qualquer coisa. 

Eu gosto de literatura, vivo a literatura, mas apenas no plano surreal, embora ela acabe reverberando também no plano real, mas com as pessoas com que convivo eu não falo em nada relacionado a literatura. Na verdade quase ninguém sabe que sou escritor no meu mundo real.  

Agora no plano cibernético, transcendental, eu levo a sério mesmo e não tenho escrúpulos; uso mesmo as pessoas, mas faço questão que elas não saibam. Não mais. 
Eu cometi esse erro com meu primeiro livro publicado e acabei perdendo todos os meus amigos, logo, foi uma lição e tanto, então, embora escreva sobre as pessoas de meu convívio, faço questão que eles não saibam. Janela Secreta é um filme que todo escritor louco como eu e você, julga perfeitamente possível, portanto, que tomemos cuidado. Mas assistam, se você tem indícios de esquizofrenia como eu, mais uma vez, cuidado!  




Forrest Gump(1994)

Diretor: Robert Zemeckis


"Run Forrest! Run! Corre Forraest! Corre!" Essa frase reverbera na minha cabeça desde a primeira vez que assisti Forrest Gump.  
Como eu queria que tivesse alguém que gritasse bem alto pra que eu seguisse em frente todas as vezes que alguma dificuldade me surgisse. 

Oliver Cramwell disse que nenhum homem chega tão longe quanto aquele que ignora sua jornada. 
Ora, quem ignora o caminho até um objetivo, se livra daquela dura decepção ao notar o tanto de tempo que leva pra se alcançar o impossível, logo, quando conseguir, será sempre no tempo certo. Forest Gump é um exemplo maravilhoso dessa verdade. 

Além dessas lições, você pode extrair muitas outras desse filme incrível. Ele é um ótimo exemplo de uma narração fluída, leve, mesmo tratando de temas profundos e perturbadores. 
Ah! Como eu queria um dia conseguir escrever um livro que pelo menos chegasse perto de Forest Gump. 

Portanto, quer melhor filme pra reunir inspiração pra buscar melhorar enquanto escritor? 

Senão tiver visto, não perca tempo. 


sábado, 9 de setembro de 2017

A esquizofrenia dos androides

Jackson Pollock foi um pintor americano que tinha como técnica se desvencilhar dos próprios pensamentos humanos e deixar que sua natureza instintiva pintasse por ele.
Muitos, até hoje, tentam imitá-lo, mas alguém jamais conseguiu.
Foi o que tentei fazer escrevendo esse texto. Mas não foi fácil mesmo. Escrevi naquele intervalo entre o sono e o desperto, quando a gente não controla mais os pensamentos. O resultado tá ai. A arte meus caros, nunca vem fácil. É preciso sangue e carne pra alcançá-la.



Ela apeou-se de um cavalo no meio da nada.
Era deserto, meio dia, um pobre menino sujo apareceu e se lambuzaram de mel.
No dia seguinte, marcaram de se encontrar.
No parque, os pássaros azuis fervilhavam na água da fonte.
O sorvete, quase por terminado, uniu-os em um beijo.
Se era romântico, carnal, o sol quem ia dizer.
As palavras que saiam da boca dos dois eram chulas, sem requinte, mas eles se gostavam, e para os deuses bastava.
Depois de seis meses, resolveram que iam se casar.
Três dias depois, não restando muita coisa além de um namoro chato e conversas sobre coisas incomuns vindas lá das planícies do Himalaia, resolveram que iam terminar.
Eu não preciso dos desejos pra escrever; posso seguir em qualquer direção e minha carruagem esbarrar em vacas dos sertões - e os bifes que delas saírem me alimentarão daqui seiscentos anos.
Pensei agora na Ana, colega da faculdade, lembro dos grandes olhos dela - e o resto, pouco importa. Mas eu poderia sei lá, tentar qualquer coisa. Mas e o amor da minha vida?
Ela notou que sou doente, raquítico e estarei morto daqui seis meses.
Talvez eu nem me importasse com o embaraço, porque eu queria mesmo era conhecer alguém que tivesse como oficio cuidar de gatos siameses.
Isso nunca vai parar, não é? - Não.
O tempo é uma engrenagem que vai pra frente sempre.
Minha vida tá tão estagnada que dá pra pensar que eu vou explodir e meus restos não serão purpurina.
Ah, como se desvencilhar dos desejos?
Era preciso pensar em outra coisa e escrever outra.
Ora, o sol do meio dia mesmo sem saber pra onde vai, não se esconde mesmo assim?
Minhas esmolas nunca dadas, permanecerão aqui.
Meus guarda-chuvas pouparão joaninhas da saudade dos androides de 1982.
Procuro meu sorriso a cada manhã, mas ele ficou lá na curva asfaltada daquela viela.
Minha solidão, meus devaneios, se envaidecem com os olhos da menina de vestido verde que pouco sorrir, que pouco ama, mas que samba na Quatorze de janeiro.
Se eu pudesse inventar qualquer coisa, criaria os ventos pra que levassem os barcos a velas que desenhei no papel pra longe das aquarelas que não inventei.
Nem mesmo sei se a garota do vestido verde ainda samba, mas os seus olhos ainda me encantam.
Ah! Ela é  insensível como rosas de porcelana.
Eu sou poeta, rimo sem querer. Que maravilha!
A saudade é coisa que não se esconde em trincheiras.
A guerra, tema sublime pra romances, não se encontra em imãs de geladeiras.
Me soa pobre, mas eu nunca fui mesmo um grande cavalheiro.
Nunca juntei chapéus de teresinhas que foram a queda foram ao chão.
Vamos poeta, deixe que as palavras surjam sozinhas.
As rezinas dos cajueiros guardam insetos dos tempos dos dinossauros
e eu nem pra guardar os broches que seguraram minhas fraldas.
Eu só guardo lembranças e loucuras.
Na verdade, guardo também uma carta perfumada que tá lá na gaveta do criado mudo.
Se eu tivesse que ir pro mar, iria bêbado - e se voltasse, seria com as espinhas do peixe de Hemingway.
Se eu fosse a um baile de formatura, seria eu quem derramaria o sangue na Carrie.
Ou talvez eu fosse mesmo era o porco de que tiraram o sangue.
Sei lá, o casal, depois de uma semana, voltaram.
No futuro, eles terão três filhos rudes tanto quanto eles.
São burros feito pedras, mas é destino deles povoarem a terra.
Tudo rima, mesmo que eu não quisesse.
Que dom! Que dom meus velhos.
Ah! meus amigos, ah meus inimigos,
no futuro, quando aqui não mais estiveres
desenvolverão teses sobre tudo que fizeram,
mas será tarde, já estarão apagadas vossas velas.
"Ah! meus amigos, ah! meus inimigos"
aproveitem enquanto eu ainda brilho,
pois não durarei a noite inteira aqui de sentinela.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Sozinho


Numa tarde morna, sentado em um banco de praça de uma cidade que não era dele, aquele homem de quarenta um anos observava os transeuntes e verificava melancólico que ninguém daquela cidade era dele;  e ele também não era de ninguém.

Vazio, ele  refletia sobre toda a sua vida até ali; contabilizava que dos amigos do passado, das pessoas que lhe surgiram ao longo da sua existência, não restava mais um sequer ao seu lado. Nem mesmo recebia uma mensagem, um e-mail, sinal de fumaça que fosse como prova de que alguém ainda se lembrava dele.

Ele olhava para o horizonte constatando que falhara em tudo. Ainda que tivesse uma carreira sólida, um nome no campo da filosofia pra zelar, falhara em tudo porque não tinha montado o seu mundo de gente.  Chega certo ponto que, cães, gatos, peixes em aquários eletrônicos, não preenchem o vazio de pessoas que te ame verdadeiramente. Ou que o ame por obrigação ou por laços genéticos, pouco importa, mas todos precisamos de pessoas de modo a sentirmos que somos de alguém e que alguém é da gente.
Ali, ele sentia que todo o egoísmo de sua juventude fora um grande erro. Arrependido, se deu conta que não devia ter deixado escapar todos os amores da sua vida como fez. Devia ter lutado mais, nem que fosse pelo último amor eterno que imaginou que sentia. Como gotas de sal jogadas no seu coração ferido, a saudade lhe ardia por dentro. 

Eis que, pensando em desistir de tudo, ele sente uma pessoa se aproximar por trás e cobrir os seus olhos com suas mãos frias. Assustado, ele relembra daquela brincadeira infantil com uma doce nostalgia, mas ao constatar a sua idade, se enrubesce ao perceber o quão ridículo aquela cena parecia aos olhos dos jovens que passeavam na praça àquela hora. Ele toca as mãos por ora estranhas e nota a maciez e o cheiro de mãos de mulher. Minuciosamente, ele tocas  as unhas de todos os dedos constatando que eram curtas; o que evidenciavam uma vaidade pouco exacerbada de quem carregava aquelas mãos.
Porém, cansado das desilusões da vida real, ele resolve acabar com a brincadeira alegando que  fosse quem fosse não seria mesmo quem ele queria que fosse então era melhor que ela se relavasse, poupando assim os dois daquele embaraço.  Mas a pessoa o ignorou completamente e continuou. Ocorre naquele homem escaldado pela realidade que, já que não tinha jeito, era melhor  entrar na brincadeira e começar chutar nomes, assim, pelo menos, ele adiaria a decepção de não ser quem ele desejava.

Depois de citar dezessete nomes de pessoas do trabalho, ele passa realmente acreditar que talvez fosse alguém do seu passado. Um filme passava em sua cabeça enquanto o calor do seu desejo já aquecia aquelas mãos outrora frias.
“E se fosse aquele sorriso que eu tanto amei? E se fosse aquela voz grave  e suave ao mesmo tempo, como da âncora do jornal das sete? E se fosse aqueles olhos negros, acompanhado daqueles cabelos naturalmente lisos que eu tanto imaginei afastando uma mecha do rosto pra um beijo na testa? Ah se fosse..."     

O seu coração parecia que ia saltar pela boca, suas pernas tremiam e as indagações lhe surgiam:
“Se realmente for ela? O que eu vou dizer? Provavelmente nada. Sempre tive dificuldade de falar com ela. Talvez eu aperte aquele abraço nunca dado que até hoje guardo em meus braços.”  
Eis que, naquele momento, nitidamente o seu nervosismo transpareceu ao ponto que não lhe ocorreu mais nomes pra chutar e o silêncio prevaleceu. Diante do silêncio, aquelas mãos agora na temperatura do seu rosto, levemente começaram afrouxar libertando os seus olhos. À medida que ele voltava a ver a luz do dia, o seu nervosismo aumentava. “Tinha quer ser ela”. Repetia ele consigo mesmo essa frase incansavelmente, tal qual um mantra de meditação. 

Ao vislumbrar novamente a realidade a luz do dia, o medo, aquele companheiro que lhe acompanhou a vida toda e que fez com que ele afastasse, ou se afastasse de todas as pessoas que amou ao longo da vida, reapareceu das cinzas como a Fênix. Em silêncio, ele sentia a presença da pessoa ainda ali, mas ela também permanecia em silêncio. Certamente ela esperava que ele virasse  a cabeça e constatasse surpreso e feliz que de fato era aquela quem um dia ele amou. Mas passou-se um minuto, dois, três, nem ele, nem ela,  diziam uma palavra que fosse. Depois de mais ou menos cinco minutos, ele sente alguém se afastar vagarosamente até o ponto de sua presença não ser mais percebida. O seu pescoço não girou, suas mãos não se rebelaram em gesto algum, seus olhos, pobres coitados, lacrimejavam, mas de nada adiantava mais. Ela já tinha desaparecido no horizonte por trás dele.   

Naquela tarde, aquele homem escolheu viver com a certeza que a responsável por aquela brincadeira, era a morena que um dia ele amou. Ele viveria pra sempre sozinho, mas convicto do mundo que ele próprio criou pra si.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Toda filosofia antes de Darwin é inútil



Seguindo a tendência, resolvi contestar toda a filosofia de Kant tendo lido somente as três primeiras páginas do livro Fundamentação da metafisica dos costumes. Na verdade, toda filosofia já produzida desde os primórdios da humanidade. (Risos) 

Kant nos diz no livro, que se a felicidade dependesse do instinto, uma vez que a natureza inclina-se sempre ao bem estar do indivíduo, a razão se imiscuiria ao instinto e este, por sua vez, prevaleceria sobre a razão. Kant então conclui que o propósito da razão não é a felicidade em si, mas sim o discernimento para escolher atos de boa vontade, que no amplo sentindo, proporciona o bem estar e uma consequente felicidade ao homem. 
Pensando assim, com a razão suprimida pelo instinto, como diz Kant, todos seriam felizes somente por existir. A razão então seria algo sublime e elevado, e não levaria aos que a estudam a desenvolver até mesmo ódio por ela. Kant usa mesmo a palavra ódio, porque sabia que qualquer um que pensasse bem chegaria a conclusão que o livre arbítrio é um martírio. Ter que escolher, buscar entender o outro e a si, e diversas outros questionamentos oriundos da racionalidade não condiz com felicidade. 

Alguns pontos importantes levaram Kant e outros grandes filósofos a produzirem uma filosofia, por muitos vista como profunda, superficial demais e pouco pragmática. 
Primeiro ponto é que desconsideraram a origem da razão e a isolaram do instinto. A racionalidade surgiu daquele instinto de "antecipar o perigo" de modo a garantir a sobrevivência do indivíduo. Ou seja, a razão surgiu do medo. Aos poucos, os homens foram desenvolvendo a capacidade de antecipar o perigo cada vez mais a frente, e esta habilidade, como sendo favorável pra sobrevivência, foi sendo passada ao longo das gerações, ou pool genético, para os biólogos. 

Se deseja saber como elevamos essa habilidade que tantos outros animais possuem ao ponto de adquirirmos a consciência de nós mesmos, você precisa ler o artigo da pesquisadora Suzana Herculano Hoezel, em que ela conta os neurônios do ser humano e suas hipóteses a respeito de como chegamos a racionalidade. Ou veja no Youtube sua participação no programa TED.  

Conclui-se então que a racionalidade, nada mais é do que uma estratégia de sobrevivência como qualquer outra que, está sim, inteiramente ligada ao instinto. E se você parar pra "pensar" 99,9% dos homens seguem somente seus instintos naturais, se reproduzindo e povoando a terra, pensando somente em garantir o sustento da sua prole, sem se questionarem sobre a razão de qualquer coisa. E estes, pode-se dizer que são aqueles que são de fato felizes. 
Ou seja, a natureza escolheu sim o instinto em detrimento da razão. Se assim não fosse, o homem seria minoria na terra, porque quem pensa não se reproduz. Basta que você que está lendo e compreendendo isso, verifique quantos filhos tem. 
Logo, o único objetivo do homem e de qualquer ser vivo é a sobrevivência até o ponto de que o indivíduo passe os seus genes adiante, isto, independente da felicidade ou da consciência dela. E o propósito da razão é o mesmo que das demais estratégias: garantir que isso ocorra. Assim sendo, todo costume oriundo da razão, converge também para este mesmo fim. 

Para que se produza qualquer filosofia útil e que faça sentido, ela precisa de início, ser pautada no instinto, onde somos menos racionais. 

Se Kant, Hegel, tivesse se pautado no instinto e não no espirito, nós já teríamos uma compreensão maior de quem somos. O instinto, a vida, com seus objetivos inconscientes, é o início de tudo, inclusive dos costumes e de toda metafísica. Qualquer um que desconsiderar isso, vai somente produzir uma filosofia para poucos, ou como dizem, de difícil compreensão, simplesmente porque é falha. Quem chegou mais perto dessa compreensão foi Nietzsche, pois levou muito em consideração o trabalho de Darwim. Bem, não podemos culpar nenhum filosófico que viveu antes da publicação da Origem das especies por essa falha.  

A filosofia pensada assim, mais parece biologia, no entanto, a metafisica se pautada primeiro no instinto, nos levaria a uma compreensão real de quem somos. Mas não pense que nos compreender intimamente é algo bom e que vai nos proporcionar felicidade. Muito pelo contrário. Basta ver que este texto lhe provocou mais ódio e inquietação do que felicidade e bem estar. 

Não negues, não mintas, eu sinto! 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Víbora



14 anos, olhos grandes, cabelos negros e uma ganância feroz cuja lhe acompanha subentendida em cada sorriso, em cada piscar de olhos, em cada rebolado que desfere propositadamente nas faces dos bobos enquanto caminha. Não se sabe se esta ambição lhe é natural ou imposta, mas que ela quer se dar ao mundo e em troca quer receber o mundo de volta, isso ela quer... 

Inquieta, aquela aparente meiga menina nunca se dá por satisfeita em ficar onde quer que seja; quer é andar, conhecer, viver... É certo que todo adolescente necessita gastar as energias oriundas dos hormônios à flor da pele típicos da idade. São tal quais animais no cio que caminham horas a fio a procura de parceiros sexuais. 

Justificada pela ganância, várias outras malícias foi sendo aos poucos desenvolvida naquela garota inegavelmente bela e perigosa. Sem escrúpulos, ela pisa, suga e ilude aqueles coitados que se deixam levar por seus encantos. E como são tantos...  

Apesar de jovem, ela é mestre na arte da mentira. E como mente essa menina! Talvez exatamente por influência dos pais, ou porque a ensinaram mentir ou porque se deixam acreditar em suas falácias, lhe dando assim margem pra continuar no erro.
Se ontem ela foi pra uma missa numa cidade vizinha; hoje tem um aniversário da filha recém-nascida de uma amiga sabe-se lá onde; amanhã terá que inventar um batizado, um casamento, qualquer desculpa bem elaborada para os pais fingirem que se importa com suas saídas diárias. 
Talvez suas mentiras se devam as oportunidades, pois o que não faltam são homens pobres, ricos, novos, velhos, lhe ofertando praias, celulares, joias e jantares em troca de algumas horas de sua companhia, assim, não lhe falta opções de onde estar daqui algumas horas. 

Mas estes homens, por enquanto, só ganham mesmo seus sorrisos poucos sinceros, seus olhares de soslaio, suas cruzadas de pernas de minissaia, e nada mais. Ela sabe, ou lhe ensinaram que ela guarda um tesouro valioso, que a partir do momento que o primeiro vislumbrar, perderá gradativamente o valor. Assim sendo, ela o mantém a sete chaves, embora aos mesmos custos do vulcão ao tentar conter as lavas antes da erupção. 

Naquela vida, cedo ou mais cedo ainda, é sabido que o seu tesouro será corrompido, portanto, lhe é instruído que tome a precaução de pelo menos entregá-lo para alguém de posses. "É melhor que encontre uma árvore que te proporcione sombra". - Escuta ela essa frase dos pais quase que diariamente.  Não os julgo, é natural dos homens quererem garantir segurança e conforto as futuras gerações. 

Ela mata á unhas coloridas de flores, uns e outros, sempre fingindo não haver mais ninguém. Porém, sabendo esses outros que sempre existem outros, eles se matam de ciúmes e, por conseguinte, elevam seus esforços a estratosfera pra mantê-la por perto. E ela sabe disso e sorrir como quem tudo quer. Finge ciúmes de todos; ou talvez possessiva, nem precise fingir, o que a deixa a mais bela víbora do deserto.

Ora, astuta, ela sabe que tem todos nas mãos e que basta um piscar de olhos pra que eles lhe tragam refresco e uvas a boca. E ninguém, por mais bruto que seja, consegue pensar em feri-la, nem mesmo com golpes de vestidos de seda; Ah, ela tem o jeito natural, ou ensinado, de ganhar os homens e moldá-los a sua maneira. E como ela usa essas habilidades... 

Ah! Sorte ou azar daquele que estiver no momento que as lavas do seu tesouro entrar em erupção. Pois não importa as instruções, os sábios mantras, ela o entregará pra quem estiver por perto. 
Todos torcem, recorrem a simpatias, sacrificam cordeiros, rezam e imploram aos céus pra que sejam eles e não o outro. 
Porém, é mais provável que seja um colega da turma da escola que vai fazer um trabalho em sua casa ás nove da manhã em um dia que seus pais deixarem-na sozinha. 

Logo, não será você nem eu!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Torto





Amar a mim? Não aconselho!
Sou inconstante, temperamental,
Desvairado, volúvel;
Eu posso amar-te em segundos sem razão nenhuma,
E posso odiá-la horas,
Mesmo que me dê todas as razões para amá-la.
E sou daqueles egoístas cujos
se importam apenas com as próprias razões.

Amar a mim? Não, não devia.
Eu não sigo a ordem dos demais no espaço,
Tão pouco no tempo;
Posso entregar-te flores em datas comuns
E esquecer de propósito dias importantes.
Posso viver de futuro, de esperanças,
E morrer de presente, por mais belo que se apresente.

Não! Amar a mim, terrível ideia.
Não compreenderia;
Posso acordar para ouvir as cores dos pássaros
nas noites de lua.
Vê que loucura?
Posso querer correr na chuva em direção alguma.
Posso querer passar horas a vislumbrar
Joaninhas em um tronco qualquer
Pois elas me trazem lembranças
de momentos que não vivi.
Vê que loucura?

Amar a mim? Não, não devia mesmo.
Eu sou fraco, medroso,
Precisaria que tivesse coragem por dois.
E vivo de sonhos; sou um sonhador.
Crio o meu próprio mundo e o resto que se exploda!
Sem contar que carrego a pior das moléstias:
Sou um romântico demasiadamente racional.
E ainda há o mais grave: eu imagino.
Não queira amar alguém que imagina!




domingo, 3 de setembro de 2017

Revelação




Desde que se entendera por gente, aquele menino se deu conta de uma centelha azul que carregava no peito que lhe conferia uma certeza: ele havia nascido para algo grande. Não sabia o que era, mas tinha como certo que iria chegar tão longe quanto ele próprio jamais supusera.

De origem humilde, tudo que ele podia sonhar aos moldes de sua realidade era conseguir alguns metros de terra pra arar e manter um rebanho de cabras, isso, se sonhasse alto. Se tivesse mesmo que imaginar o impossível, ele poderia sonhar em ampliar o rebanho e comprar mais alguns alqueires de terra. Ora, saindo do nada, um homem que conseguisse tamanhas conquistas já seria grandioso.
Mas o problema era aquela bendita ou maldita centelha no seu peito que lhe repetia sem cessar:
"Tu nasceste para algo grande! Não se conforme com a ordem que a vida lhe conferiu!"

Apesar das certezas, tudo lhe parecia muito vago. Aquele sonhador procurava em si algum talento especial, uma habilidade física, uma afinidade para as contas, um timbre para ópera, ou mesmo mãos hábeis para a pintura, mas nada lhe ocorria além das dúvidas. E a vida pressionando o tempo todo pra que ele se entregasse a ordem e começasse lutar por aqueles sonhos que ele sabia que não eram dele.
Por um tempo, a miséria e as dores ao longo da vida o fizeram mesmo se entregar, ao menos pra manter as futilidades da juventude. E a centelha lá, no lugar de sempre - e no fundo - era ela que o mantinha de pé, que lhe dava forças pra continuar naqueles empregos que detestava, pois tinha como certo que não iria precisar ficar ali pra sempre, pois "grandes coisas estavam por vir". Pelo menos era o que ele acreditava. Era como viver segurando uma bomba relógio sem ter a chance de olhar o marcador.

Ele refletia que aquela centelha devesse ser um pouco mais clara e lhe mostrar logo qual era a sua grande habilidade que o levaria ao topo do mundo. No entanto, lhe ocorria que talvez seu talento fosse de atirador de elite, mas como jamais vira uma arma, ele poderia passar a vida sem se descobrir devido à falta das ferramentas certas. O seu talento poderia ser, na verdade, qualquer coisa, mas vivendo na roça, as chances dele se deparar com as ferramentas pra descobrir a si mesmo eram mínimas.

Sonhador irremediável, ele seguia conformado com a lama do seu presente se baseando nos louros do futuro. Ele sabia que tudo lhe seria revelado, como num passe de mágica mesmo: em um dia iluminado, sem que ele buscasse, um anjo do céu, um alien, um andarilho com a missão de lhe revelar a sua missão grandiosa, olharia nos seus olhos castanhos de tão comuns e diria: filho, tu nasceste com a missão especial de... Qualquer coisa que ele ainda não cogitava o que era.
Enquanto isso, o tempo passava sem parar e a vida lhe sacudindo pra onde bem entendesse. E ele suportando tudo calado. Até que, depois dos vinte anos, embora a centelha ainda estivesse lá em algum lugar, já perdia quase que completamente o brilho. Pensou ele que o combustível para manter aquela centelha azul acesa era os hormônios da adolescência, e o tempo estava naturalmente apagando ela. Por não ser mais tão jovem, ele já se dava conta que talvez não tivesse nascido mesmo pra nada grandioso.

Aquela altura, ele tinha largado os estudos pra trabalhar, mas descobriu com o tempo que, com certeza, a sua habilidade especial não era pra arar a terra, muito menos pra ordenhar cabras.
Ao lhe ser revelado isto, ele desistiu dos trabalhos manuais e resolveu voltar a estudar aos 21 anos. Nesta época, da antiga centelha só existia mais uma fina fumaça cuja evidenciava que um dia ela estivera acesa.

Eis que, enquanto concluía o ensino médio, numa aula qualquer, por impulso, aquele sonhador destratou uma professora de Português ao tal ponto que as lágrimas molharam as suas faces rosadas. Aquele jovem burro, porém, não suportou ser a razão das lágrimas de uma mulher. Era preciso se redimir. 
Em outra aula,  a mesma professora resolve delegar aos alunos a tarefa de escrever um texto com tema livre. Era a chance daquele sonhador de se redimir e mostrar que, no íntimo, ele não era o idiota do triste episódio anterior. Foi assim que, entusiasmado, ele descreveu o amor no papel pela primeira vez. Mas não na forma abstrata, ele se utilizou das características reais de uma moça que encontrou no corredor, de modo que foi até fácil.

Depois de uns dias, a professora retornou com o texto e lhe disse às palavras que mudaram a sua vida: "Eu não sabia que você era assim! Você demonstrou neste texto uma sensibilidade que não condiz com a personalidade que você emana para o mundo”.
Foi assim que ele concluiu:
- Então é isso! Eu sou escritor! 
Mas não pode ser?! Eu odeio ler!

Mesmo odiando a leitura e sem ter lido um único livro por completo até então, aquele jovem sonhador se descobriu escritor.

Agora só precisava escrever algo sublime e maravilhoso de modo a se tornar o grande escritor o qual ele acreditava estar destinado! Mas o quê?



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Vale da sombra




Eu nunca mais escrevi nada, talvez porque esteja vivendo demais e não me sobra tempo pra reflexões.
Só que nessa de viver tenho me sentido vazio também,
mas não aquele vazio existencialista que me inspirava no passado.
Agora é um oco comum, sem elegância, sem saudade, perspicácia, ou mesmo desejo de liberdade.
Só quero ir pra frente, sem objetivos grandiosos ou corridas incansáveis atrás de sonhos impossíveis.
Ora, os meus sonhos estão aí: os desenvolvi, criei as mais variadas estratégias pra buscá-los, mas parece que eles vão correr mais do que eu sempre.

Estou me tornando finalmente, feliz ou infelizmente, mais um daqueles que caminha pelos dias resolvendo um problema de cada vez a medida que eles surgem.
Ando me dedicando a faculdade e pensando no futuro de poucos dias a frente, sem perceber a pequeneza das coisas que me vem à mente.
Tenho pensado que me bastaria um emprego fixo, de professor, que seja; uma casa simples, uma boa esposa e nada pra trás.
Nem mesmo me importo se ficar com o grande amor da minha vida.
Hum, "amor da minha vida!" Isso é coisa de adolescente!
Não. Pode ser qualquer uma, desde que morena e que carregue um sorriso de primavera.
Nem isso! Pode ser uma fada dos confins da terra média.
Notem que esse texto é uma tentativa frustrada pra recuperar a fé no meu talento por ora enfraquecido.
Mas talvez eu seja como o violinista de Dostoiévski e criei a consciência da minha falta de talento pra justificar o meu fracasso.
A verdade é que eu já nem sei de muita coisa. Ando meio burro!
Ò céus, estarei eu caminhando no vale da sombra da normalidade e de tonto não percebo mal algum?
Ora, eu quis por força criar o meu próprio mundo e reneguei a vida como ela é inúmeras vezes.
A verdade é que eu falhei em tudo e talvez não me reste mais tempo pra me redimir antes que o galo entoe seu canto matinal.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"Síndrome" do Aspirante a escritor ou "síndrome" de Raskolnikov



Refiro-me a escritor neste texto, mas acredito que suas lições valem pra todas expressões artísticas


A arte da escrita, por ser uma atividade que requer apenas uma linguagem constituída de símbolos e objetos pra grafar o que se deseja dizer, é amplamente democrática e qualquer um dotado de inteligência pode desenvolvê-la facilmente, logo, o único pré-requisito pra ser escritor é acreditar que o é. 
Sendo assim, milhões e milhões todos os dias se descobrem escritores e começam produzir "exageradamente" a sua literatura que julgam sublime. É, sublime, pois a primeira certeza que surge na mente loroteira do aspirante a escritor é que ele vai se tornar, ou melhor, já é, "o maior literato que esse país, quiçá o mundo, jamais viu ou verá novamente, só precisa, porém, que ele seja visto e reconhecido - e dada a sua genialidade, será tão logo o sol surja no horizonte." (Entre aspas porque eu sei que você já repetiu essas palavras um milhão de vezes pra si mesmo, assim com eu). 
Chamo essa soberba de Síndrome do Aspirante a escritor ou síndrome de Raskolnikov. Raskolnikov é a personagem principal do romance Crime e castigo de Dostoiévski. Ele acredita ser dotado de uma inteligência única, então se coloca a cima de tudo e de todos, inclusive da lei, pois sendo ele um gênio da literatura, segundo suas convicções, não precisa se submeter aos mesmos deveres das pessoas comuns. Balzac retrata também essa síndrome de forma brilhante no maravilhoso romance as ilusões perdidas. Dostoiévski, Balzac e outros autores, embora tenham descrito a síndrome como uma característica de seus personagens, só passaram veracidade porque viveram intensamente ela.

Todo escritor, invariavelmente, carrega essa síndrome, quer negue, quer não. Senão, repense se de fato é um escritor. Essa síndrome, de início, em vez de levá-lo as alturas, se torna um empecilho, embora necessário, pois enquanto se acredita que é um gênio, único no mundo, qualquer bobagem escrita, aos seus olhos cegos pela certeza, lhe parece pérolas. Muitos passam a vida toda sem conseguir transpôr essa primeira barreira. 
Por sorte, somente você acredita ser um gênio, os demais não, então o feedback esperado; a fama, os autógrafos, o sucesso econômico, não surgem com os primeiros raios de sol e você vai tomando aquele primeiro choque de realidade que Fernando Sabino tanto fala em O encontro marcado: "Um dia você descobre que é só talentosinho." "Embora essa frase se aplique somente aos escritores comuns, não a você, que é melhor que Kafka e John Fante juntos." 
Esse primeiro choque, embora não cure a síndrome, faz com que você reformule os seus sonhos, principalmente em relação ao tempo das realizações.
Em termos simples, a síndrome poderia se descrita inicialmente como uma paixão, que com o tempo e as decepções, vai se transformando em um amor maduro e paciente.

Bem, com a bigorna da realidade lhe colocando no chão, você passa a entender que precisa ler muito mais do que escreve. E se for sábio, compreende que precisa beber de boas fontes se quiser melhorar sua escrita. Embora ainda inebriado pela soberba, lhe ocorre também que precisa rever sua gramática, ampliar seu vocabulário, que o mundo, uma hora ou outra notará a sua genialidade. Então, depois de rever seu trabalho e melhorar bastante sua escrita, ainda acreditando ser um prodígio da literatura, divulga mais e mais o que escreve, mas apesar do feedback positivo, vem o segundo choque de realidade: você compreende que precisa de muito trabalho e tempo pra ser visto, bem como pra que seus escritos atinjam o nível de obra de arte, como bem disse Fernando Sabino: "você escreve, mas pra atingir o nível de obra de arte, são outros quinhentos." São poucos que chegam nesta fase, muitos desistem no caminho ou se conformam com o "talentosinho". "A verdade é que, muitos são só talentosinhos mesmo. Mas você não! Você é um grande escritor! Ou não? Talvez você não passe de um merdinha de nada mesmo." 

Com as dúvidas, vem a fase última, que são as descrenças. Você passa a questionar se realmente vale a pena o suor gasto a troco dos louros do futuro que podem nunca vir acontecer. Passa a refletir se realmente tem talento, ou se vale mesmo a pena os sacrifícios, as privações, a falta de dinheiro, de filhos, de pessoas, tudo em prol de um sonho descabido cujo somente você acredita. 
Eis que aqui, a síndrome pode tomar três caminhos: ou desaparece de vez causando a morte do escritor que há na pessoa. Ou se mantém e ela continua acreditando nos seus sonhos, embora de forma mais sensata; sabendo que nunca é fácil, que vai precisar de muita garra e coragem pra conseguir um lugar ao sol. E por fim, a síndrome pode entrar no período assintomático, então, sem seus sintomas essenciais, você larga tudo e vai construir coisas reais. Então, depois de muito tempo, já aposentado, velho e decrépito, a síndrome retorna mais forte, tal qual o vírus do sarampo. Porém, muitas vezes, já não resta tempo nem energia para a luta.
Nesta última, surge a certeza mais cruel de todas, como bem disse Fernando Pessoa: "Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu passado. Este é o cadáver."

Portanto, lute com unhas e dentes! No fim, todo mundo compreende que desde o início devia ter visto dragões e não moinhos de vento.