quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Andorinha




De uns tempos pra cá todas as minhas ações tem me parecido ridículas ao extremo.
Tenho magoado as pessoas ao meu redor gratuitamente. 
Tenho, embora a contra gosto, rido de coisas sérias e levado a sério coisas fúteis. 
Já não me sinto interessante ou cativante; 
é como se eu fosse uma maldita piada tantas vezes repetida que já perdi a graça. 
Ando tendo uma dificuldade enorme pra tomar decisões; 
Sinto-me como um beija-flor, que na abundância de flores na primavera, não consegue escolher
uma pra se deliciar com o néctar, e por esta razão, sucumbe sem nunca fazer verão. 
A verdade é que todos os verões se fizeram sem mim. 
Sinto-me estagnado e tão inútil quanto asas em melancias; 
tão inútil quanto saudade em corações de pedra. 

Até mesmo minha existência física me parece ridícula; 
já não gosto do meu sorriso, dos meus braços, minhas pernas então, tão ridículas que parecem não merecer chegar a lugar algum. 
Minhas palavras então, nem se fala, ou melhor, se fala, mas só bobagens obscenas e sem inteligência que não fazem parte da minha índole verdadeira. 
É como se eu estivesse tentando me reafirmar o tempo todo como alguém comum, que fala coisas comuns, mas nem isso tenho conseguido mais com a mesma destreza de antigamente.
Já não sei amar ou desamar; parece que fiquei preso à um passado que nunca foi passado, porque nunca existiu de fato. 
Sinto-me encarcerado pelos amores dos meus primeiros anos, dos meus primeiros versos - e já não experimento nada de novo faz tanto tempo que parece que o sol não voltou tem anos. 
E confesso que olho para o horizonte, horizonte este que só vai a oito quilômetros de onde habita meu corpo - e não vejo solução aparente: amanhã será igual a ontem e 
o hoje se perdeu no meio do ontem e do amanhã que já nem sabe mais se realmente existiu ou foi só um sonho de uma noite quente. 
Ah, se qualquer coisa acontecesse de modo a mudar isso; ou mesmo que eu pudesse mudar completamente pra que tudo isso fosse diferente a partir de amanhã, mas não será! 
Amanhã o vazio ainda estará aqui e o meu abismo vai continuar se construindo ao redor de mim até o ponto que não vai mais restar pedra que me sustente de pé por mais um dia.


sábado, 12 de agosto de 2017

Quando prostituíram a minha literatura



A título de esclarecimento as minhas leitoras, eu preciso contar um fato horrível que aconteceu comigo enquanto escritor, que caso não faça, minha vida não tem como continuar.
Todos sabem que eu gosto de tratar bem meus leitores e amo todos, pois são vocês que me encorajam a continuar escrevendo ainda que este trabalho não me proporcione dinheiro. 
Bem, uma senhora, dizendo-se minha fã, (não é nenhuma de vocês que curtiram a minha página, não se preocupem) me chamou pra uma conversa inbox no meu perfil. 
Fato foi que a tratei com educação, agradeci seus elogios, ela sendo muito inteligente, a conversa era sempre agradável. 
Depois de uns poucos dias, esta senhora propôs me pagar pra que eu escrevesse um texto especialmente pra ela. Aceitei, afinal, se faço de graça com maior gosto, por puro amor a minha arte, seria legal ganhar um dinheiro. 
Escrevi o texto O Jardineiro do link abaixo a pleno pulmões, focando simplesmente na arte, na literatura: https://letraseopiniao.blogspot.com.br/2017/07/o-jardineiro.html

A enviei o texto, ela ficou extasiada e me mandou mensagens apaixonadas.
Eu, inocente, achei que ela tinha ficado grata pelo meu empenho em impressioná-la, mas na verdade, desde o primeiro contato, ela julgou que por eu ser um escritor de mente aberta, sensível, compreensível, a amaria perdidamente de forma romântica. 
Eu sou tudo isso gente, mas amor não se implora, não se toma a força, muito menos se compra. Ela queria que eu correspondesse as suas mensagens apaixonadas de forma romântica, mas eu expliquei que se caso eu fizesse, eu não estaria sendo romântico e sim hipócrita, uma vez que romantismo se utiliza com alguém que se ama de forma romântica e meu carinho por ela era de amizade. Isso é óbvio pra qualquer pessoa. 
Então, quando ela foi me pagar, disse-me que se sentia pagando um GAROTO DE PROGRAMA. Em Caixa alta mesmo pra ficar claro! 
Eu fiquei muito assustado e triste, com um embrulho no estômago, uma sensação ruim que eu juro que não passou até agora. 
Fato foi que depois disso eu não consegui ser mais o mesmo, pois ela profanou a minha arte que pra mim sempre foi sagrada. Desde o início, apesar de gostar da minha escrita, ela não estava interessada no meu trabalho e sim em comprar o meu coração - e pior, achou que seria a preço de banana, pois sendo eu um escritor sensível, de mente aberta, romântico, me conquistar seria muito fácil. 
Eu sou mesmo romântico, quem me conhece bem o sabe, mas não sou falso, hipócrita a ponto de fingir amar alguém que não amo. 
E os meus textos dizem isso o tempo inteiro: eu não sei amar pela metade, ou amo, ou sou imparcial, não odeio ninguém, nem ela por isso. 
Eu expliquei todas as razões pelas quais eu não me apaixonaria por ela, isto a magoou, mas duvido que tenha sido na mesma intensidade que ela fez comigo. 
Esta senhora, pode ter destruído minha carreira literária, pois é desde então que uma dor funda sem remédio corre atrás de mim sem me matar. Eu não consigo mais escrever com a mesma habilidade de antigamente. 
Que Deus abençoe e perdoe esta mulher, porque eu, por enquanto, não sou capaz.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Moinho



Aos 24 anos, ela se julgava sonhadora e feliz, embora tivesse como certo que o mundo não correspondia aos sentimentos do seu coração.
Todas as noites, apreciando o silêncio agridoce da solidão, ela se punha a pensar em tudo que fizera durante o dia pra expurgar os demônios que inevitavelmente se apoderavam do seu corpo sempre aberto a todas as dores do mundo. Depois, propositadamente, se enchia de pensamentos bonitos esquecendo do mundo lá fora - e assim, refazia seu sorriso, seu coração, sua pele, e todo o resto de modo a suportar o dia seguinte sem definhar de vez.
Ela adorava seus pensamentos desconexos e precisava deles pra se regenerar de um dia inteiro no mundo exterior para ela cruel e mortal.

Na manhã daquele dia, ela saíra como sempre as sete e quarenta carregando um sorriso largo nos lábios, um emaranhado de sonhos nos olhos, liberdade nos cabelos e tamanha vontade no coração que achava que poderia abraçar o mundo de uma só vez. Caminhando, abraçou inocentemente o cara fantasiado de hot dog na esquina, mas sentiu uma mão apertar suas nádegas, estranhou, mas preferiu ignorar e continuou, embora parte de si mesma estivesse ficado ali naquela calçada.

Ao atravessar a rua, ainda feliz e saltitante, ela ouviu piadas de mau gosto dos homens que limpavam as janelas do primeiro andar do prédio mais feliz da cidade, mas só respirou fundo e continuou, ainda que outras partes de si tivessem se deterioradas ali.
Mais a frente comprou pipoca do seu Omar, o homem de sorriso eterno, e ofereceu a um menino que vendia balas no sinal, mas ele rejeitou questionando se ela não tinha dinheiro. E assim, pouco a pouco, o mundo a sua volta arrancava a beleza que ela ganhara de si mesma na noite anterior.

Enquanto seguia, pensava que ainda lhe restava o sonoro "bom dia" acompanhado do sorriso Coréga da dona da loja de artesanato, mas ao se aproximar, se depara com um recado escrito na porta: "Fechada por motivo de luto." Ela retraiu o sorriso, pensou sobre a vida e a morte: "num instante se está vivo, noutro se está morto." Diante daquela frase, mais algumas partes de si se desfarelaram ao chão, como uma estátua se decompondo devido as intempéries do tempo.

Continuo em frente, agora a passos marcados e metódicos, como se ela fosse um robô programado pra chegar à algum lugar que já estivera incontáveis vezes.
Ao tentar atravessar a faixa de pedestres, um carro freia bruscamente mas ainda toca suas pernas. Ela sente o calor do motor e olha o rosto irritado do motorista ofendendo verbalmente os seus antepassados e futuras gerações. Eis que ali, seu coração desidrata e torna-se pedra. Até pensa em se rebaixar ao nível do motorista, porém somente baixa a cabeça e continua.
Finalmente chega ao trabalho, deixa seu casaco, amarra o cabelo, senta-se em seu computador onde ficaria sete horas ouvindo reclamações de clientes mal educados insatisfeitos com os serviços da empresa e assim, ela perderia o restante do brilho que lhe restava.

Em face da rotina, o dia passava vagarosamente, mas como o tempo não para, aquele dia passou mais uma vez. Aliviada,  ela se despede dos colegas burros e malhados e refaz o caminho de volta.
Em frente a sinagoga, ela presencia um bandido bem vestido assaltar uma idosa, fica indignada, mas ante a impotência se entristece e passa a pensar que sorte que não fora com ela.
Aquela altura, já não lhe restava sonhos, sorrisos, nem alma.
"O mundo era mesmo um moinho." - Pensou ela cabisbaixa.  
Ao chegar ao seu casulo, tomou banho, deitou-se, leu dez páginas de um livro interminável, cobriu-se de si mesma e começou seu ritual diário de regeneração.
Depois de uma hora, lhe surge um pensamento besta: "quem sabe amanhã seja o dia que eu encontro o amor da minha vida!"

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sono



Virou-se e notou a mulher amada do lado em um sono profundo. Sustentou a cabeça com a mão esquerda e passou a observá-la enquanto milhões de ideias lhe surgiam à mente como formigas fugindo de um formigueiro alagado: 

- Ah, ela parece tão adormecida que se eu não a conhecesse, diria que comeu da maçã da bruxa má e só vai acordar daqui cem anos e eu já estarei morto, logo, não poderei despertá-la com um beijo. Mas que ideia boba que acabei de pensar?! O que será que ela pensaria de mim se soubesse que de vez em quando ainda vivo uns contos de fadas comigo mesmo como na infância? Certamente me amaria menos, ou nem me amaria, sei lá! 

Poxa, esse travesseiro e esses lençóis rosa combinam perfeitamente com o tom de pele dela. Certamente, se eu tivesse tido escolha, teria escolhido outros, mas se tivesse feito, esse momento teria outras cores que talvez me proporcionassem um pouco menos de magia, e eu não sei o que seria da minha vida sem experimentar essas sensações tão mágicas de agora. Ela realmente fez uma escolha acertada na roupa de cama. Mas bem que poderiam ser verdes!    

Agora, por que será que é tão bom observar alguém que a gente ama dormir? Ah, deve ser devido à confiança. Durante o sono ficamos completamente vulneráveis, se alguém adormece profundamente do lado da gente, isso quer dizer que ela confia plenamente que  jamais lhe faríamos mal. Deve ser isso mesmo! Vê-la assim tão frágil, dá até vontade de cuidar mais dela, dar mais carinho e beliscões. Que diabo foi que beliscão veio fazer nesses pensamentos? Sou louco! Completamente louco!
Sabe, deve ser por algo parecido que gostamos tanto de barulho de chuva. Durante a chuva, a gente tem certeza que o mundo inteiro tá se molhando lá fora enquanto estamos aquecidos e protegidos dentro de casa.  Duvido que seja tão prazeroso ouvir o barulho de chuva em um telhado que a gente não se encontra debaixo. Mendigos talvez não ame barulho de chuva. Que triste! Bem que podia chover agora! Seria mais incrível ainda!

Ah velho, como é bom ver os movimentos dela ao respirar; as suas maçãs do rosto mais parecem duas dunas do deserto do Saara. E esses  cabelos negros tão revoltos sobre o travesseiro, parecem tão cheios de vida, deve ser por isso que só de está encostando-me a eles me sinto tão bem. Ela é tão linda enquanto dorme! Acordada também, mas enquanto dorme parece ser diferente. Se eu fosse um psicopata poderia cortá-la a machadadas agora mesmo. Nossa, que pensamento mais idiota! Pensa em outra coisa, pensa em outra coisa.    

Será que se eu encostar a ponta do pé nos dedos dela, ela acordaria? Acho que não, e vai me fazer um bem danado sentir o calor dela... E se entrasse um ladrão aqui agora e acordasse ela substituindo essa meiguice tão cativante no seu semblante por horror?  Certamente eu o mataria com um golpe ninja. Mas eu não sei nenhum golpe ninja! Meu Deus! Será que ainda dá tempo de entrar no sonho do Jack Chan e pedir que ele me ensine um golpe mortal? Nossa! Essa foi a bobagem mais tosca que já pensei hoje! Caraca,  o que será que ela pensaria de mim se ela ouvisse tudo que se passa na minha cabeça? Com certeza pediria pra eu me tratar. 
“Esquece isso! Pensa em coisa boa, pensa em coisa boa!”  

Brother! É muito bom vê-la aqui do meu lado - e por livre espontânea vontade; eu não a forcei a nada. Acredita? Isso é muito poderoso! E amanhã, ela ainda estará aqui: acordaremos juntos, tomaremos café juntos, e se tudo der certo, isso pode se repetir mesmo vinte anos depois. Renato Russo era um gênio. Não sei de onde me surgiu essa ideia, mas ele era mesmo um gênio. Bem que eu poderia beijá-la agora, mais isso a acordaria - e eu quero observá-la mais assim, tão linda, tão morena. 

E se ela também estiver acordada, mas percebendo o meu contentamento em vê-la, finge que dorme? Se estiver, ela é mais, mais... Sei lá o quê; qualquer coisa boa que ainda não inventaram, mas ela é mais do que essa coisa ainda! E se eu fosse um ciclope, será que eu a amaria só pela metade? E se ela roncasse, será que vê-la dormir seria tão bom como é agora?  

Nossa, mas pareço o Chaves do que um homem apaixonado. Já chegaram os discos do Iron Maiden! O sol parece ter gosto de pão francês! Ahhhh! Que sono... Que sono...   

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Só mais um texto sobre a minha luta









Carrego o sonho de ser escritor comigo tal qual uma criança que na falta de dinheiro pra comprar um brinquedo da moda, confecciona com pouca destreza um modelo pouco parecido com as próprias mãos, mas que brinca somente dentro de casa, pois tem receio de levá-lo pra rua e sofrer enxovalhos dos outros meninos do bairro com seus bonecos industriais e coloridos. 
É certo que aqueles que brincam exibindo os seus brinquedos reais e que me enchem de inveja, em pouco tempo os gastarão devido a falta de qualidade e o pouco esforço que tiveram pra consegui-los - e talvez eu me divirta mais sozinho com o meu brinquedo do que o contrário, mas o mundo não sabe disso, nem muito menos eu, então a dor de não ter um igual ao deles me é insuportável.

Também é certo que se eu, depois de todos eles gastarem os seus brinquedos mesquinhos que eu daria a vida pra ter um parecido, decido sair a rua com o meu boneco, cheio de confiança devido a falta de comparação, algum moleque mimado e cheio de grana choraria rios e rios pra que sua mãe me comprasse a minha obra de arte. Então eu, comparando o brinquedo mixuruca que eu havia feito com os industriais, venderia a preço de banana ciente de que se eu juntasse minhas economias e o dinheiro do meu boneco, daria pra comprar um industrial agora fora de moda, mas o importante é que eu teria um maldito boneco igual a todos os outros meninos da rua.
E o mais triste de tudo é que, o moleque mimado que compraria o meu sonho, só queria mesmo tirá-lo de mim, depois de alguma horas, ele jogaria na lareira da sala da sua mãe sem pensar no esforço, nem em tudo que eu tinha passado pra construí-lo.
Então eu, em pouco tempo perceberia que aquele meu novo boneco fora construído em série aos milhões pra preencher os sonhos de uma grande maioria que não sabe construir sonhos próprios. Logo, ao me sentir só mais um na multidão, abandonaria aquele boneco colorido no canto e voltaria a construir um com a minha cara, com a minha coragem, pois se tem uma coisa que eu descobri é que sempre vou ter a capacidade de criar e sonhar.
O mundo pode demorar pra perceber isso, mas eu jamais vou permitir que o sol se ponha sobre o meu sangue, não enquanto me restar forças pra lutar. 

domingo, 23 de julho de 2017

Ninguém



Lembro-me bem da primeira vez que Ninguém bateu a nossa porta. Era uma e quinze da tarde, pediu água, lhe foi oferecido, mas o copo por ele bebido fora descartado para o lixo imediatamente ele dobrou a esquina. Ninguém poderia carregar qualquer doença contagiosa que adicionada ao nosso asco, poderia ser mortal. “ Mas, Dai de beber a quem tem sede.” 
Desde então, ele sempre que passava na estrada, pedia água e depois de beber se ia para algum lugar que certamente há tempos que já devia ter chegado. 
Passadas algumas vezes em que ele sempre repetia o mesmo gesto, ele retorna novamente a nossa porta e como previsto, pediu novamente um copo com água, mas antes que “Alguém” trouxesse, Ninguém retira do bolso seis reais em notas de dois e começa contar e ajeitar as cédulas de inúmeras maneiras sem nunca se dá por satisfeito. Até que água chega, ele pega o copo com a mesma mão que se encontrava as notas, mas depois troca o copo de mão, e finalmente recoloca as notas no bolso. Enquanto bebia, Ninguém abre os olhos e nota o copo da mesma cor das outras vezes, fica em silêncio por alguns segundos, mas nem Ninguém, nem nós admitiríamos o fato que jamais beberíamos da mesma água, ainda que tal ato fosse contrário a nossa fé pregada os quatros ventos. Depois daquela pausa, ele torna a engolir o líquido, mas via-se de longe que mais parecia que ele engolia areia em vez de água. 
Dada à frequência com que ele pedia água, já havia sido separado um copo de plástico barato com o objetivo de que ele sempre bebesse nele, de modo a não contaminar o restante dos copos da casa. 
Depois de beber, Ninguém entrega o copo um tanto cabisbaixo, como se não tivesse matado completamente a sede e sem olhar nos olhos dos supostos “Alguéns”, retira novamente as cédulas do bolso, mas logo recoloca, sem contar ou reorganizá-las como antes. Eis que, diante daquela cena, Ninguém deixa sair da sua boca as palavras mais tristes que outro Ninguém poderia ouvir: Eu nasci sem sorte, sabe? Eu nasci sem sorte. 

Ninguém quis lhe passar uma lição com esse texto.

sábado, 22 de julho de 2017

O vendedor de abraços


#CrônicaDeDomigo 

Um homem se dispôs na esquina mais movimentada da cidade pra onde se mudara a pouco tempo no intuito de vender abraços. 
Vestido "fofamente" de cão de pelúcia, ele tinha como certo que ganharia a "vida" desenvolvendo tal atividade, pois todo mundo precisa de abraços e de carinho. Porém, ele tinha aprendido desde muito cedo que carinho não se oferta gratuitamente; o outro precisa conquistar a muito custo, e muito além, se manter sempre cativante de modo sempre merecer gestos de carinhos futuros, então vendê-los era a decisão mais acertada que ele já tomara na vida.  E também ele concluiu que abraços sinceros estavam cada vez mais raros, ou seja, a demanda era maior que a oferta e o sucesso do seu negócio estava garantido.
De antemão, escreveu uma placa com os seguintes dizeres:
"Vendo abraços! Pergunte-me o preço!"
Nas primeiras três horas em que ele dançava e fazia piruetas de modo atrair clientes para o seu negócio, os transeuntes simplesmente desviavam dele como se ele fosse um hidrante comum de tão vermelho, o levando a crer, por vezes, que ele era invisível, apesar da roupa, da placa e tudo mais.
Há certa altura, já descontente com toda a humanidade, ele se deu conta que talvez as pessoas não estivessem dispostas a pagar por algo que poderiam receber gratuitamente das pessoas que amavam - e que certamente dispensavam todos os dias. E mesmo, os abraços nunca dados só são percebidos depois que já não são possíveis de serem apertados. 
Triste, ele sentou no caixote que trouxera previamente pensado no caso de precisar de suporte pra abraçar algum cliente bem mais alto que ele, sustentou o queixo com as próprias mãos, respirou fundo, desesperançado e convicto que, diante do fracasso, não retornaria no domingo seguinte. 
Eis que, assim como a borboleta toca a flor, ele sente uma mão no seu ombro fofo. Ele vira-se, nota uma moça linda, de sorriso largo e olhos brilhantes trazendo consigo uns livros e duas rosas. Ela pergunta o preço do abraço - ele sorrindo, responde: "é outro abraço! Nada mais triste do que abraçar o outro sozinho, não é?"
Ela achou o preço muito justo. Largou os livros no caixote e se abraçaram por 30 segundos. Ao se afastarem, ela sentiu que talvez precisasse de mais, e resolveu que iria gastar mais um abraço dos seus. O homem, como bom empresário que era, nunca recusava cliente, então vendeu mais um abraço apertado.
Aquele era de fato um negócio promissor, pois os índices de inadimplência eram zero, uma vez que ao comprar um abraço, o serviço já era pago no ato do recebimento do produto, sem opções de parcelamento nem prazos, de modo que era perfeito. E se, tivesse um único cliente por dia, já era mais que suficiente pra mantê-lo por uma semana ou mais sem se sentir tão sozinho longe das pessoas que ele deixara em sua cidade natal. 
Aquela moça linda, como forma de agradecimento por aquele empreendedor tão ousado ofertar um negócio tão útil à cidade, lhe entrega uma das rosas que trazia consigo.
Diante daquele ato, ele simplesmente fica em silêncio e desconcertado, pois ela estava pagando mais do que o justo.
Ela percebendo o seu desconcerto, diz com aqueles olhos de quem via o mundo de uma ótica única: "Sempre que você oferta carinho verdadeiro, as recompensas são sempre em dobro."
Com aquele gesto, ele concluiu que aquele negócio era mais promissor do que ele jamais supusera. Ele só não entendia, porém, era o fato de o mundo ainda não ter se dado conta de uma verdade tão óbvia.

O JARDINEIRO



Planando o último metro quadrado de areia branca por entre as rosas, aquele jardineiro magricelo de cabelos lisos iria passar duas horas apreciando o trabalho que desenvolvera com maestria no intuito de atingir a certeza que não era um fracassado total.
Após concluir e começar vislumbrar o fruto do seu labor, ele constata que a  areia branca trazida diretamente da Grécia por seus senhores para preencher os espaços entre as roseiras e os arbustos, em prática, lhe pareceu uma ideia mais acertada do que ele jamais supusera, pois o verde escuro das folhas, as rosas vermelhas, em contraste com a areia cintilante sob o sol das nove da manhã, era de uma beleza magnânima.

A jardinagem era o que ainda lhe proporcionava um pouco de prazer uma vez que a pintura, a sua verdadeira paixão, a sua vida, era uma atividade  em que ele ainda não se julgava suficientemente bom pra que fosse ovacionado como ele sempre desejou.
Ele tinha como certo que um dia, quando ele finalmente pintasse o seu primeiro e único quadro até o fim, o mundo se curvaria aos seus pés. 
Embora ele não fizesse ideia do que iria preencher aquela tela, tinha como certo que não iria encontrar inspiração na racionalidade, ou no mundo que os homens criaram no intuito de enganarem a si mesmos que estão no controle dos seus destinos. 
Desde os onze anos, ele adquirira a obsessão pela busca da perfeição; o único quadro que concluiria, seria pintado tal qual Deus pintou o Jardim do Éden e, se assim não fosse, morreria tentando. E naquela jornada pra atingir a divindade, aquele exímio jardineiro jamais manteve vivo por mais de cinco minutos nenhum dos muitos quadros que pintara ao longo da vida, pois sempre que se aproximava de concluir uma obra, julgava humana e racional demais, logo, não era o que ele almejava. Ele sabia que era preciso ser menos gente pra atingir a divindade e, por conseguinte, pintar o quadro perfeito; o quadro que proporcionasse a quem tivesse a honra de apreciá-lo o mais puro terror em conjunto com o contentamento proporcionado pela beleza da dor selvagem e instintiva.  

Uma vez que ele ansiava pela sincronia com a mão de Deus, qualquer coisa que ele julgasse humano não era de seu interesse. Não mantinha relação alguma com seus semelhantes; nunca proferia uma palavra sequer ou olhava diretamente nos olhos de quem quer que fosse. 
Os patrões somente lhe direcionavam a palavra para alguma ordem sem graça, que ele nunca seguia a risca, pois tinha o seu jeito próprio de dar vida aquele jardim, que era se privando da sua própria. 
Desde que assumira o jardim, tudo ali era de uma beleza nunca vista em outro lugar no mundo, de modo que os patrões, mesmo notando a excentricidade daquele jardineiro, jamais o demitiriam, pois se habituaram aos elogios de seus conhecidos com relação ao seu jardim cheio de vida. Nem mesmo o fato  da figura daquele homem magricelo chocar os poucos que o viam, embora raramente alguém se deparasse com ele, e se acontecesse, ele fugia como o diabo da cruz, não era motivo para demiti-lo. Ou mesmo seus hábitos pouco ortodoxos cujos assustavam até mesmo a mente mais perturbada, não lhe eram motivo pra que dispensassem seus serviços, embora suas verdadeiras loucuras, ele tomasse precauções pra que ninguém visse.     

Certa vez, no auge do frio do inverno, aquele fantasma do jardim, resolveu cavar um buraco na terra úmida de mais ou menos sessenta centímetros por detrás de uns arbustos na parte dos fundos da mansão. Ao concluir, se despiu, deitou seu corpo flácido e trêmulo de frio naquele que ele julgava não um buraco, uma cova, mas um portal para uni-lo em definitivo com a natureza instintiva, se enterrou com as próprias mãos deixando somente a boca e as narinas para captação de ar - e lá ficou por dois dias inteiros sem que ninguém o encontrasse, somente bebendo o orvalho que lhe caia a boca.  
Há que se lembrar de que tal empreitada quase o matou. Aquele ato era mais uma de suas tentativas pra atingir a inspiração pra “esculpir” o seu quadro divino. Ele tinha como certo que sob a terra úmida, vivendo junto, e, como um verme, ele se uniria a natureza selvagem e se desvencilharia de todo e qualquer sentimento humano, logo, ele poderia pincelar o seu quadro da mais pura beleza selvagem, como o seu Deus Pollack.  
Depois de chegar ao seu limite, de ouvir o pulsar da terra, de sentir que sua carne e a terra haviam se tornado somente uma, ele reuniu o que lhe restava de forças, levantou-se evitando ao máximo que a terra que lhe pregara no corpo voltasse ao seu lugar justo, se direcionou até seu minúsculo quarto nos fundos do jardim e lá, começou pintar o que seria o seu quadro destituído de qualquer humanidade. Mas depois de duas horas pintando, ele retorna a si, olha para a tela e se  depara com a figura de um homem com uma corda no pescoço se equilibrando nas pontas dos pés numa maçã pobre para evitar a morte. Os olhos daquele homem extramente assustados devido o medo da morte,  provocaram pena ao jardineiro, sentimento humano menos nobre que ele já conhecera,  então irritado, ele simplesmente se joga em cima do cavalete e rasga no dente aquele quadro mixuruca.  

Até aquela manhã, aquele homem sem vida já havia desenvolvido as mais excêntricas estratégias de modo a inspirar-se para seu único quadro, mas todas haviam se demonstrado inúteis. 
Certa vez, ele chegou a cortar os pelos dos cílios a fim de não mais dormir no intuito de despertar pelo sofrimento o seus instintos mais selvagens. Mas depois de seis dias, ele somente conseguiu pintar uma moça espanhola pastoreando ratos no alto de uma colina. Não era a pintura sublime que ele buscava, nem era pintada com a arte que ele almejava alcançar, então,  mais uma vez se desfez do quadro. 
Mas naquela manhã, havia qualquer coisa de diferente, embora ele não soubesse o que era. Apreciando a areia branca, ele refletia sobre o fato que talvez jamais conseguisse atingir seus objetivos. Tais ideias começaram reverberar no que ainda lhe restava de humano e sentindo-se um fracassado de merda, ele profere um grito tão alto e diferente que arrepiaria até os mais indiferentes corações- e em um ato intuitivo, descalça suas botas que já ostentavam quatorze anos, e gritando tudo que ele havia guardado para si a vida toda, começa correr sobre a areia branca deixando suas pegadas como evidência do seu descontentamento com tudo. 
Ele corria feito um lobo faminto em direção a uma presa que sabia que jamais alcançaria. Até que, em meio às roseiras, bem no centro do jardim, um espinho lhe perfura o braço deixando um corte profundo fazendo com que o sangue caísse na areia branca. Sem se dá conta da dor, aquele homem corria deixando uma trilha vermelha por onde passava. Quando ele finalmente sente o líquido quente deslizando por seu braço, ele para, ignora o ferimento, olha para trás e se depara com os rastros de sangue. Ali ele entendeu que tudo que ele passara durante a vida,  toda dor, resignação, conspiravam pra que ele chegasse aquele momento. Finalmente tudo fazia sentindo. Sem pensar, ele se despe e torna a correr totalmente nu, mas agora em direção as roseiras.   Ele se lança aos espinhos como um touro feroz aos chifres de um rival. A sua pele frágil, jamais exposta ao sol, é dilacerada pelos espinhos derramando a sua vida por onde passava. Ele corria e a trilha deixada formava linhas instintivas totalmente destituídas de vontade. Apreciando o seu próprio espetáculo, em euforia, ele ignorava a dor, os homens e a vida. 

Os cortes deixados pelos espinhos das rosas não eram suficientes para que ele finalmente concluísse o seu quadro magnânimo, então ele lança-se aos cactos se provocando assim cortes mais profundos mas que pouco importavam já que lhe rendiam a tinta que precisava. Ele era senhor de si mesmo, pintando o quadro da sua vida, o quadro que qualquer um que visse, apesar da dor, da aversão ao sangue, não conteria o contentamento em apreciar tão divino espetáculo. 

De repente, ele para em frente a uma gota do seu próprio sangue, acocora-se, e nota uma formiga numa tentativa infrutífera de se livrar do sangue coagulado, mas já perdia as forças, eis que, pela primeira vez na vida, aquele jardineiro excêntrico ensaia um sorriso. Após a formiga perder totalmente os movimentos, ele se levanta e continua...  Ele não podia parar! Finalmente iria concluir a pintura da sua vida, logo, sem escolhas, ele se lançou mais e mais vezes sobre os cactos. E continuava a correr sem direção.  Até que, depois de mais de uma hora, ele para, gira em torno de si mesmo bem no centro do jardim e vislumbrando finalmente a sua obra perfeita, desfalece de braços abertos na areia grega agora vermelha. Ali deitado, ofegante, ele  conclui que aquela pintura, o quadro da sua vida, só poderia ter sido pintada por alguém caminhando no vale da sombra da morte. Eis que, ele profere o último suspiro ciente de que tinha finalmente atingido seu objetivo maior. 

Alguns segundos depois, um rouxinol pousa compassadamente no ombro sem vida daquele Jardineiro embebido em seu próprio sangue - e inicia cantarolar o canto dos deuses, conferindo então som aquela pintura que já tinha cor, aroma e dor.      

Samuel Ivani   

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Paraíso



Mas que lugarzinho mais sem charme, hein!
Onde é que esconderam a poesia daqui?
Em que calabouços acorrentaram os sentimentos nobres?
Onde incineraram a arte, a honra, a embriaguez de saudade?
As pessoas aqui bebem sem sabedoria,
se amam sem vontade, casam-se por ironia,
se acorrentam fartos da liberdade,
vivem de respirar e morrem de vontade...
Mas que lugarzinho, hein!
Ninguém aprecia Strauss, nunca ouviram falar de Neruda.
Vagueiam uns enovelando-se nos outros sem se entenderem,
Embora todos carreguem a sabedoria dos frades, do Papa, e até de Buda.  
E os pecadores, onde os deixaram?
As vezes penso que já me encontro no paraíso,
Pois todos são santos "batendo com a bengala da moral na cabeça do vizinho
mas nunca em si mesmos."
Todos reconhecem as próprias chagas, mas  só apontam as feridas alheias.
E amor? Em que calabouço sujo e imundo o abandonaram?
Até parece que aqui, ninguém ama,
Tampouco confiam no amor do próximo.
São cobras engolindo cobras; lambendo-se e se mordendo
a fim de não perderam o espaço miserável  do qual estão destinados.
Hei de procurar o amor nas terras onde ele deve repousar a minha espera.
Aqui, só desprezo, incompreensão e dedos apontando os meus defeitos e
ignorando minhas qualidades, se é que possuo alguma.
Hei de encontrar o amor ao virar uma esquina charmosa
de uma rua estreita, cheia de casas no estilo colonial.
Não aqui, nesse lugar sem curvas em que todos são retos aos olhos de Deus.
Aqui não me sobra espaço.
Mas onde será que é o meu lugar?
Onde será que se esconde o meu mundo de gente?
Mas que lugarzinho foram me nascer, meu Deus!


quarta-feira, 19 de julho de 2017

O FIM



Lembrara-se do passado em que todos os dias, há primeira hora, ela apreciava o sorriso murcho do companheiro e ouvia, ainda que julgasse não merecer, um elogio previamente pensado  e clichê do tipo: “você  é a única mulher do universo que acorda linda!” Tal gesto tão singelo, representava uma filosofia de vida e mudava totalmente o seu dia, tanto dela quanto daquele que jurara passar a vida toda do seu lado. Toda manhã ela levantava com vontade; a vida parecia que podia ser apertada com força,  tal qual se abraça em um dia frio o urso de pelúcia gigante ganhado no aniversário de dezessete anos. Agora ela acorda, reluta em se mover, parece que nada vale a pena. Ao ouvir o som dos anjos do inferno entoando o barulho do despertador do celular, ela se dá conta o quão triste é aquele som. O despertador do celular, antes sem utilidade, agora era programado pra despertá-la quatro vezes em intervalos de cinco minutos - e mesmo assim, depois da última, ela levantava, mas só abria os olhos na porta do banheiro,  relutando em encarar a realidade.

Naquela manhã, ela abre os olhos fitando os pés, sem vontade alguma de erguer a cabeça, então nota as pernas por depilar, as unhas por fazer.  Ela respira fundo, apoia-se na parede, começa movimentar os dedos sentindo a textura do tapete em forma de joaninha que agora achava de um tremendo mau gosto. Eis que lhe ocorre uma vontade louca de gritar, mas descobre que já não tem voz. Sem vontade, ela entra no banheiro, liga o chuveiro, mas não toma banho, deixa apenas que à água deslize por seu corpo como se ela fosse uma rocha em que o rio passa em direção ao mar ignorando totalmente sua existência.  Até mesmo o barulho do chuveiro cujo antes lhe impulsionava a cantarolar qualquer coisa de manhã, agora lhe representava qualquer coisa melancólica e só lhe ocorria a vontade de chorar. Às vezes ela chorava mesmo.  

Depois do banho, como em outros dias antes deste, ela passa trinta segundos em frente ao closet, tentando ganhar forças, pois sabe que imediatamente ao abrir a porta, sem questionar, o cheiro dele iria adentrar suas narinas como um touro feroz seguindo em frente sem intenção de chegar. Sem opções, ela respira fundo, abre à porta, o aroma previsto lhe cobre de lembranças felizes: as flores, a noites de prazer, os planos para o futuro, a grama verde, o pomar... Tudo sem a presença dele era abstrato; era como tentar agarrar a neblina e sentir somente o frio lhe cortando a alma. Ela escolhe uma roupa aleatória, pois sabendo que não receberia elogios de quem era importante, pouco importava. Põe um batom sem gosto, os sapatos lhe apertam os pés e, a dor, ainda que suportável, não lhe parecia justa; era como se o custo da beleza já não tivesse sentindo. 

Já próxima do trabalho cujo ia a contra gosto, ela ouve aquele som de mensagem que mais parecia um anjo tocando sax numa carruagem de ouro; era uma mensagem de voz do marido que havia viajado a trabalho pedindo desculpas por estar sem sinal, logo, não teve como lhe enviar aquela mensagem de bom dia, assim como em todos os dias anteriores. Fatalista e trágica como ela era, já tinha imaginado que ele estava lhe traindo e nunca mais iria voltar. Mas diante da nova realidade, ela esquece o aperto nos sapatos, os seus cabelos, antes sem graça, agora lhe pareciam tão cheios de vida e poder que ela era capaz de derrubar centenas de inimigas de um giro só.     

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Jardim dos animais


#CrônicaDeSegunda 


Era 1999, o mundo era outro, o universo era outro, logo, aquele garotinho era levado a ser outro também. Em 1999 ele se descobriu amante da música clássica, talvez influenciado pelas novelas que assistia nas casas dos vizinhos e os desenhos do Tom e Jerry. Independente de como, ele só queria saber de cantar e como cantava... Mesmo sem técnica, sem saber a letra, ele entoava a única música que conhecia, Sole mio, até à exaustão. O quintal de casa era o seu palco, Deus, o mundo e sua mãe, eram a platéia. Sua mãe ria abertamente e elogiava - meu grande tenor.

A música para aquele menino era mais que notas, sons proferidos a plenos pulmões no alto dos cajueiros. A música era a sua válvula de escape, a forma que ele encontrara pra expressar os resquícios de felicidade e de arte que conseguia manter no mais profundo recôndito de sua alma.

No entanto, uma música era pouco, ele tinha necessidade de mais, então contraiu um sonho descabido: possuir uma fita cassete dos Três tenores. Porém, sua mãe não tinha dinheiro nem pras necessidades básicas, quanto mais pra futilidades como a música. Mal sabia ela que aquele garotinho não podia viver sem música.

Não tendo como comprar e, a necessidade de ouvir Plácido Domingo sendo maior do que ele, resolveu que seria vantajoso trocar todo o seu material escolar por uma fita cassete dos três tenores.
O fanfarrão do seu colega lhe garantira que a fita era dos dois terrores, ou coisa parecida, logo, pra ele seria o negócio da sua vida. Na hora marcada, lá estava ele com seu caderno do Zé Carioca, o lápis e a borracha, material que teria, sem questionamentos, de durar o ano inteiro, mas ele só queria ouvir mais de José Carreras e Pavarotti. Efetuada a troca, ele correu como o vento à sua casa. Tremendo e em silêncio, adiando o prazer, pôs a fita no toca fitas devagar. Quão grande não foi a sua decepção quando o que ouvira sair dos alto falantes do antigo rádio não foi sole mio, e sim, a frase, "amanhece na luz da campina". Ali, seu coração anoiteceu. Sentou-se e chorou. Não teve forças pra desligar o som, então a música continuou desenrolando-se. Eis que, a maior surra de sua vida teve como trilha sonora Raimundo Fagner: "fazer amor, fazer amor, no paraíso, fazer a luz do teu sorriso é natural."

Depois desse trágico episódio ele descobriu que gostava mesmo era de música, e como a única fita que tinha era de Raimundo Fagner, não tinha escolha, senão, ouvir à exaustão. Raimundo Fagner era o Pavorotti do sertão e Jardim dos animais foi a trilha sonara da sua infância. Aquela música lhe proporcionou muitas alegrias. 

Pra que essa história continue, é preciso que imaginemos um relógio grande e dourado no alto de uma torre barroca. Juntos, eu e você, tomemos os nossos dedos magros, gordos, amarelos, de qualquer cor, e giremos o ponteiro desse relógio até alguns anos depois. Pronto?
A história daquele menino com aquela música teria um novo capítulo.

Já crescido, aquele sonhador resolveu ouvir novamente à música que lhe proporcionara tantas experiências e alegrias no passado. Buscando no youtube, ele descobriu que a música tinha um clipe, bem simples, porém, muito bonito, em que um rapaz corre, literalmente, atrás do seu amor; uma morena linda, de olhos semicerrados, cabelos soltos, boca carnuda, e sorriso que mais parece um dia de sol no inverno nordestino... Aquela garota era o ideal do que seria a mulher perfeita segundos os atributos físicos para aquele sonhador irremediável. Buscou descobrir o nome da garota, ou mesmo a cidade em que fora gravado o clipe na internet, porém, a busca se demonstrou inútil. Então, depois de ver tantas vezes o clipe, resolveu que ia em busca da garota do clipe. Tal qual o negócio da fita enquanto criança, sem refletir, ele tomou sua mochila e saiu, sem rumo, sem saber pra onde, nem onde ia parar. Ele só precisava de imaginação, não de informação, ninguém precisa. 

Tinha em mente a cidade de Óros, por alguma razão, sentia que lá encontraria pistas da garota do clipe.
Caminhando na estrada sob o sol escaldante, o vapor quente do asfalto preto lhe subia as faces, queimando, mais uma vez, os seus sonhos. Depois de caminhar alguns metros, parou, verificou o quanto já tinha caminhado, olhou o horizonte à frente calculando mentalmente o quanto teria ainda que caminhar até chegar próximo de ser quem de fato ele era. 
Então sentou-se no acostamento e chorou enquanto ouvia jardim dos animais no celular. Passou a refletir que já tinha se passado dezessete anos desde o lançamento do clipe e o mundo era outro, o universo era outro, logo, ele e aquela garota foram levados a ser outros também. Ali ele concluiu que era o homem mais mutilado do mundo, pois não era um órgão, um membro que lhe faltava, era a coragem pra ir em busca dos seus sonhos. Levantou-se e retornou pra casa o merdinha de nada de sempre. De que adiantava ele ter tantos sonhos, senão tinha capacidade pra ser louco? Peter Pan tinha toda razão. 

domingo, 16 de julho de 2017

O amor é ridículo


Sem amor se vê a vida com mais arte.  Ao amar tu deixas de sentir as coisas com sensibilidade pelo que elas são e passa a ver beleza apenas naquelas coisas que consegue relacionar a pessoa amada e, enquanto se ama, tudo tem a ver com a pessoa amada. O amor apequena as coisas: o universo se torna um sorriso especifico ou "um bom dia" as onze da manhã. Uma simples conversa sem razões de como foi o dia de cada um, é motivo da felicidade de um dia inteiro, de um mês inteiro, de uma vida toda. O amor transforma o cotiano banal numa novela extraordinária, pois te arranca alegria no simples fato de ouvir que quem tu amas acordou cedo pra andar de bicicleta. Vê que triste?! Coitados dos apaixonados! Sem amor se consegue apreciar a letra de uma música sem pensar em momentos vividos, ou que sonha em vivê-los com alguém. O amor é besteira! De que outra forma se conseguiria apreciar a harmonia das notas de uma música sem pensar nos olhos de alguém, ou nas maçãs do rosto avermelhadas enquanto sorrir de uma linda moça ali?
Que lindo sorriso! Esqueçamos isto.

O amor é uma grande bobagem! Sem amor tu consegues ler um livro friamente, vendo a profundidade dos escritos, consegues analisar a técnica do autor, o seu estilo; se é parnasianista ou expressionista, e não fica imaginando como se cada cena do romance fosse sendo vivida entre tu e quem tu amas. O amor é de fato uma perca de tempo. Enquanto não se ama, pode-se olhar o pôr do sol como se aprecia um quadro de Edward Hooper, analisando a harmonia das cores, a  técnica das pinceladas, a nitidez das figuras, e não fica perdendo tempo suspirando pensando o quanto seria bom se a pessoa amada estivesse apreciando aquele lindo espetáculo contigo. Vê o quanto mesquinho seria?

Sem amor, por exemplo, tu podes passar em frente uma floricultura e observar as rosas vermelhas e analisar friamente apenas o esforço das plantas para formar aquela linda rosa, isto, com o intuito de apenas atrair um inseto que, enganado, iria polinizar outra rosa para que a vida de ambos pudesse continuar, e não ficar perdendo tempo imaginando na  alegria de alguém ao receber, de surpresa, um buquê daquelas rosas!  Notas o quanto o amor tira a beleza das coisas?!   Esse texto mesmo, escrito cheio de amor, ficou uma merda! Grande bosta é o amor! 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O homem que se derretia





Em tempos de guerra, talvez ele fosse um herói, salvasse moças indefesas, construísse abrigos e assaltasse trens carregados de ouro, mas diante da normalidade do seu cotidiano, ele não passava de um pobre homem que, aos sábados, a fim de fugir de qualquer coisa que ele não sabia bem o que era se direcionava ao parque da cidade pra ver o sol. Por alguma razão, ele sentia que tinha vindo de outro mundo, pois era ele um ser demasiadamente sensível às dores alheias, no entanto, tinha como certo que toda dor do mundo lhe era justa. Não podia ver uma abelha se afogando numa poça d’água, que ele tomava para si a responsabilidade de salvá-la, ainda que esta o agradecesse deixando-lhe o ferrão preso no seu dedão. Se notasse na rua uma mãe segurando a mão de um filho maltrapilho, as lágrimas lhe vinham com a vazão de uma cachoeira. Talvez suas roupas não fossem tão melhores que a do garotinho, mas sentia que, ele sim, merecia não trajar mais que trapos, mas aquele garotinho, não havia feito nada pra merecer tão pouco. Se por ventura se deparasse com uma senhora a jogar migalhas de pães aos pombos, ele constatava que precisava, por força, se metamorfosear em um pombo, pois eles sequer agradeciam o gesto - e se pudessem ainda defecariam na cabeça da doce senhora. Em suma, ele tomava para si a dura empreitada de concertar o mundo. 

Numa tarde, se dirigindo ao parque, ele notou uma garota com o andar estranhamente lindo. Ele tinha o costume de observar o jeito de andar das pessoas, principalmente das mulheres. Segundo sua teoria, podia-se se descobrir muito pelo jeito de andar de uma mulher; se era calma, sensata, estourada, inteligente, se era prática ou teoria, se era sonhos ou realidade. Podia supor a idade, se era filha de mãe solteira, se tinha uma família estruturada ou conturbada, se namorava ou não - e tudo com uma margem de erro bem baixa. Segundo ele, as pessoas seguem padrões, logo, basta um pouco de sensibilidade pra percebê-los.

Chegando ao parque, a garota de andar estranhamente lindo sentou-se em banco próximo de qualquer coisa bela. Nosso herói acomodou-se noutro banco imediatamente em frente, tomou o livro do dia, começou ler, mas depois da terceira linha não resistiu e passou a observar a garota notando nela qualquer coisa de arte. Os raios de sol de quase cinco da tarde lhe conferia uma cor só vista por ele antes nas pinturas de Edward Hooper. Uma abelha, aproveitando a baixa temperatura, polinizava as flores do lado dela, a moça sem nome de pele clara e cabelos negros. Se ele pudesse parar o tempo só para ele e para ela, deixaria que as gramas crescessem em volta do banco juntamente com as flores de modo que a natureza rústica envolvesse a garota lhe deixando selvagemente bela. Definitivamente vemos o mundo como somos e não como ele é.

Depois de 19 minutos em que ele vivia uma pintura desenhada pelos deuses do sol, aproxima-se um jovem vistoso, beija a garota - e de mãos dadas se vão pra qualquer lugar pra longe do sol.
Aquele jovem, decepcionado, se depara com uma certeza dilacerante: suas teorias sobre tudo estavam tão certas quanto a terra era quadrada.
Irritado, ele volta-se para o seu livro e se dá conta que merecia a decepção, pois ele tinha construído um mundo só dele, justo que os outros o destruísse mesmo.
A abelha, que de nada tinha a ver com seus dramas, pousa numa pequena poça de água disposta bem a frente do jovem e enquanto se refrescava, coitada, sente o peso da bota do nosso herói, perdendo assim a capacidade de levantar voo novamente. Sem remorso algum, ele proferiu um foda-se a plenos pulmões e como já estava escurecendo, retornou pra casa não sentindo nada, só aquele vazio costumeiro que todos amargam ao se deparar com as futilidades da vida. 

Surdez




Ah! Se eu pudesse, como Florbela Espanca, condensar o mundo em um só grito.
Se ao menos eu pudesse expressar com palavras
o grito em mim guardado por um sentinela morto de fome.
Se eu pudesse voar num pescoço de um Cisne até Pasárgada.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Grite seu merdinha!
- Estou cansado de tudo isto!
Nada de interessante acontece nesta merda.
Aqui, agora mesmo,
uma formiga, coitada, desconhecendo sua própria força, tenta carregar um pedaço de pizza centenas de vezes maior que ela.
Sendo eu, comeria até encher minha pança, voltaria feliz o e o restante do formigueiro que se explodisse.
Falta nos homens a honra das formigas.
Minha mãe, conhecendo a vida bem mais que eu,
fofoca com meu irmão sobre os relacionamentos dos vizinhos e o dinheiro que eles dão as mocinhas pra conseguir sexo fácil.
"Umas rapariguinhas daquelas! A Madalena, obrigou a filha deixar um homem rico, que lhe dava tudo - e agora namora o próprio tio. Pobre coitada!" 
Juro que essas palavras saem da boca dela enquanto escrevo isto. Eu não quero ouvir, mas sou obrigado!
Se eu pudesse proferir um grito que me tornasse surdo,
Se eu pudesse condensar o universo em um só urro.
Ah, seu eu fosse um leão na África eu deixaria as hienas comer metade dos alces do mundo.
Se eu fosse um tigre, eu correria até a Sibéria só pra morrer de frio.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Se eu pudesse morar num poço sujo e imundo e ninguém me chamasse de louco, juro que iria.
Estou cansado desta merda toda!
Vão tomar no cu, eu não tô ouvindo não! 
Perdi os ouvidos. Diga homi, diga?

terça-feira, 11 de julho de 2017

A morte






Ontem, como em tantas outras noites semelhantes, a morte me apareceu. Diferente do que se apresenta no imaginário das pessoas, ela não é uma dama charmosa com um vestido preto e uma ceifadeira brilhante. Também não ostenta um olhar dissimulado e uma voz sensual que te sussurra poesias ao pé da orelha. Tão pouco é um monstro com mãos gigantes e um olhar penetrante. Não. Ela não é nada disso. A morte é uma mulher gorda trajando unicamente um lençol de cetim. E em vez de uma ceifadeira, ela carrega uma pena de ouro e uma placa de marfim onde esculpe sem destreza as agonias dos últimos suspiros daqueles que têm que ir – e sem entender joças de literatura, julga serem estes relatos a mais fina poesia. 
Ela não tem classe alguma; muito pelo contrário, é estabanada, não consegue chegar de mansinho; já chega fazendo um alvoroço, quebrando os móveis, os vasos de flores, os espelhos. E come o tempo inteiro; seu principal pecado é o da gula. Enquanto ela permanece na poltrona que você batalhou a duras penas pra comprar, se vangloriando da dor que te proporciona; ela se lambuza com os seus sonhos não realizados, com os seus amores não vividos, com os seus sentimentos guardados somente para si, com suas palavras não ditas e tudo o mais que você possa se arrepender. Ela é tão descarada que ainda rir de tudo. E se por acaso, durante este banquete dos deuses, cai uma migalha no assoalho, fato que ocorre sempre, ela, sem o mínimo de compaixão te oferece de volta, tal qual uma criança matreira que oferece um doce ao amigo sem intenção nenhuma de dar. Ela então rir e pergunta: olha esse amor que guardou a vida toda só para si? É uma delícia, mas como você pode saber se nunca lutou por ele. Quer outra oportunidade de vivê-lo, quer? – Então com a gargalhada de um palhaço sem talento, ela responde a própria pergunta. - Não meu querido, já não te resta tempo. Cá estou eu me alimentando da vida que você desperdiçou, e sabe o que eu acho de tudo isso: nada, só estou fazendo o meu trabalho. Então ela levanta-se e deixa que você sinta o cheiro dos abraços nunca dados, dos beijos nunca beijados – e diz como o carrasco que é, que nada nos pertence mais. 
Nos raros momentos que ela não está se alimentando, ela assovia as músicas que ouvíamos na infância somente pra que desenhemos na memória as cores do passado irremediável. 

Talvez sua aparência comum, seu jeito simples sem charme e requinte seja mais uma de suas estratégias pra que se intensifiquem nossas dores ao constatarmos que, apesar do sentimento de eternidade que sempre carregamos, ela seja o que de fato temos em comum uns com os outros. Talvez se eu fosse capaz de decifrar seus enigmas, ela já não tivesse necessidade de voltar quase toda noite. Mas prefiro assim, que ela sempre volte pra eu entender que preciso demais vida. Eu conclui, depois de tantas visitas, que ela se diverte comigo. Talvez já até tenhamos construído certa intimidade uma vez que somos muito parecidos. 

- Ah! Lá está ela de novo usando a minha poltrona do tempo. 

domingo, 2 de julho de 2017

A fuga



A FUGA

Cinco e trinta de uma tarde laranja, um menino de sete anos se direcionava rumo ao horizonte repetindo pra si mesmo que, daquela vez, nunca mais voltaria. Enquanto apreciava o céu, lembrava que um dia lhe disseram que às vezes o céu ficava laranja e vermelho devido à poluição nas grandes cidades. Ele passou então a crer que a poluição talvez não fosse assim tão ruim, porque o céu ficava tão mais bonito colorido. Porém, a beleza das nuvens não era suficiente pra que ele se esquecesse de suas convicções, pois sua mãe, diante de mais uma das suas objeções ao banho, lhe deu alguns puxões de orelha que não lhe doeram o suficiente, de modo que ele resolveu fugir de casa pra nunca mais voltar. Sentir raiva da mãe ele não conseguia, então a única solução era mesmo fugir pra puni-la com sua eterna ausência.

Caminhando, ele alternava o olhar entre o céu e os pés sujos; sentia-se grudento, mas calculava que as vantagens do banho não se equivalia ao sacrifício de se molhar. Chegando ao pé de murici, local onde era o "pra sempre" das suas fugas, ele subiu e se dispôs no galho que mais parecia que tinha sido criado pra sua silhueta, pois encaixava perfeitamente seu corpo franzino deitado. Aquele galho e o chilrear dos grilos ao fim de tarde eram danado pra pô-lo pra refletir: passou a pensar que ele podia encontrar a lâmpada do Aladim e o gênio lhe concedesse o seu maior desejo que era ser adulto, alto e forte. A reação da sua mãe quando o visse adulto seria incrível: "talvez ela nem me reconhecesse". Queria também que os unicórnios existissem, ele montaria em um e ia pra uma grande cidade cheia de poluição, talvez o céu de lá fosse um arco-íris de tão colorido, ele "venceria na vida" então retornaria anos depois rico, assim poderia ajudar sua mãe a realizar alguns sonhos que, embora pequenos, pra ela era tudo; como um piso de cerâmica e uma casa rodeada de muros. Definitivamente ele não conseguia alimentar sentimentos ruins por sua mãe, mas daquela vez, ele estava convicto que realmente não voltaria.

O sol se ia e a escuridão lhe conferia um pouco de realidade, fato que fazia com que os seus sonhos fossem sendo substituídos pelo medo, mas ainda pensava em ficar pra sempre ali, até que o último raio de sol se foi e ele se viu inteiramente sozinho. Já estava demorando demais até que sua mãe gritasse por ele como das outras vezes. Até já sentia fome e suas convicções se desvaneciam com a noite, então se lembrou que no dia anterior ele tinha quatro balas que certamente enganariam a fome naquele momento de adversidade; pôs a mão no bolso e sentiu apenas uma embalagem que certamente era de uma das balas de outrora, então resolveu que iria retirá-la do bolso vagarosamente, pois enquanto ele não concluísse que era só uma embalagem, ele teria no bolso um doce delicioso. Passou a pensar também que talvez se desejasse profundamente, aquela embalagem pudesse voltar no tempo e novamente tornar a ter uma bala dentro: ele fechou os olhos com força retirou a embalagem do bolso, mas ao abrir os olhos lhe foi inevitável à decepção ao se deparar com a embalagem vazia, porém ainda cheio de esperança, pensou que talvez aquele plástico resguardasse um pouco do doce do passado, mas ao colocar na boca, constatou decepcionado que só tinha mesmo gosto de plástico. Triste, ele concluiu que definitivamente a vida não era um conto de fadas. Nisto, ele ouviu a voz da mãe lhe chamando pra jantar, fato que o fez experimentar o que poderia se chamar de a mágica felicidade de ter pra onde voltar. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Das vantagens de ser um sonhador



DAS VANTAGENS DE SER UM SONHADOR

Existem dois tipos de pessoas: os práticos e os sonhadores. Os práticos são realistas, só almejam algo ao se depararem com a possibilidade real do objeto desejado; já os sonhadores, sentem como se possuíssem o objeto do sonho mesmo há anos luz da possibilidade de alcançá-lo. Enquanto um luta pra alcançar, o outro batalha pra que o mundo reflita o que ele sempre foi.
Ambos têm a possibilidade de chegar muito longe, mas os práticos jamais experimentarão a sensação de ter chegado tão longe quanto jamais alguém imaginou que eles chegariam, mas também não se depararão com a possibilidade de não alcançarem aquilo que aprenderam a desejar. Já o sonhador, no entanto, uma vez ou outra se depara com um muro de concreto que o impediria de seguir em frente, porém, ele precisa de muito pouco pra continuar lutando; basta uma fagulha pra que ele transforme o seu muro de concreto em grãos de areia que em vez de obstruírem o caminho, amortecem os seus passos - e sempre, sempre, essa pequena centelha parte de si mesmo.

Um se deleita com palestras motivacionais, pois lhe dá foco e proporciona o que ele não é capaz de fazê-lo sozinho que é mirar nas estrelas sem antes se deparar com o brilho do sol. O sonhador, no entanto, mira tão alto que os práticos olham e logo concluem que é impossível ir tão longe, pois não conseguem imaginar um caminho palpável até a luz no fim do túnel, logo, o sonhador é sempre desacreditado, sempre tarjado de louco, fato que torna a sua caminhada tão árdua que a todo o momento um ou outro sonhador fraco está se convertendo em prático, pois o mundo é um moinho de sonhadores parciais.
O prático, a partir da luta é que passa a acreditar, entretanto, se eventualmente durante a caminhada ele nota um atalho, ainda que este o desvie daquilo que desejou, ainda que este seja somente um disfarce pra sua derrota, ele segue sem remorso algum e passa o resto da vida fingido pra si mesmo não ter desistido.
Já o sonhador, jamais abandona a guerra independente das derrotas, afinal, ele tem dentro de si uma certeza baseada na coragem que utopias são irrealizáveis até o momento que alguém vá lá e torne possível. Somente os sonhadores são capazes de realizar o impossível.

domingo, 25 de junho de 2017

Destino


Um jovem comum, de pele comum, seguindo a ordem que a vida o destinou, encontraria em um dia comum, uma moça linda de 14 anos com quem iniciaria um namoro sem rédeas. 
Depois de dois meses, impulsionados pelos hormônios típicos da adolescência, a moça engravidaria. Então, ele, sem opções, seria obrigado a largar os estudos pra trabalhar fosse no que fosse pra ao menos fingir que poderia sustentar o filho e a garota. Depois de um tempo, conseguiria levantar o que poderia se chamar de moradia de dois cômodos nos fundos do terreno dos pais da companheira, e lá viveram até que, os 16 anos, a natureza os agraciaria com mais um filho. 

Mais tarde, ele perceberia a grande bosta que a vida havia se tornado. O quanto tudo aquilo não fazia sentido. O quanto ainda era jovem e poderia está aproveitando mais a vida.   Então, munido destas convicções, vendo que não era justo que a única diversão da sua vida fosse dez minutos de fornicamento diários com uma garota com os couros do bucho mole devido os dois filhos que tivera, entrega-se ao álcool em demasia como uma forma de fazer justiça em relação à vida. 

Aos sábados, invariavelmente, como que numa promessa, depois de trabalhar a semana inteira na lavoura e de ter economizado, a duras penas, todo o dinheiro da semana, ele sai com a desculpa que iria comprar o jantar no intuito  de passar naquele bar ridículo onde trabalha uma puta aposentada por tempo de contribuição mas que não conseguiu largar completamente o ramo. Mais de sessenta anos e ela ainda tinha cheiro de puta e ainda ostentava aquele trejeito natural pra arrancar até o último centavo dos poucos que ainda cometiam o erro de parar lá. Pensava ele que talvez pudesse ir ao um cabaré de qualidade, porém, sabia que o dinheiro era pouco. Poderia ir algum lugar que não tivesse putas e, sim, ninfetinhas da sua idade, no entanto, sempre que ele se olhava no espelho, via o quanto às longas jornadas de trabalho diário haviam o tornado ridículo; magro, com a pela massacrada pelo sol, olhos fundos; ele era o perfeito retrato de um caboclo de quarenta anos. Então via que o único local que poderia ser tratado como gente era naquele bar ridículo.  Como ele era o único cliente da puta aposentada, ao menos lá,   o álcool e as carícias das mãos ásperas da velha dama da noite o  faziam se sentir importante.       
E em um desses sábados, não diferente de tantos outros, depois de gastar todo o dinheiro, e não mais receber  o mesmo tratamento naquele digno estabelecimento, ele se dirige pra casa sem conseguir nada além de torrar todo o suado fruto do seu trabalho. Alcoolizado, sente que tudo aquilo fora um grande erro, que deveria mesmo era ter comprado o jantar, pois também sentia fome. Ao chegar a sua casa, ver a garota que pensou que ia ter sempre a pele lisa, os couros firmes, sentada na velha cadeira com os peitos caído tentando amamentar o filho mais jovem enquanto o mais velho pergunta pelo jantar.  Ele ver aquela cena e sente um profundo ódio de si mesmo. A sua pobre e calejada esposa, cansada daquela rotina toda semana, apenas o fita com um olhar de desprezo. Ele então, não aceita aquele olhar. Ele queria que ela gritasse com ele, que o colocasse no seu devido lugar porque ele era um merda. Ele tinha consciência que merecia sim, uma surra, mas quem seria capaz de dar essa surra nele? 

Irritado com toda aquela falta de ação da pobre moça, ele, sem dizer uma palavra, chega até as poucas panelas sobre o velho banco improvisado como uma prateleira para os poucos alumínios que tinham e o vira contra a parede provocando um estouro enorme, desencadeando o choro dos dois filhos e da sua companheira. A pobre moça, sem opções, apenas pede pelo o amor de Deus que ele se acalme.  O jovem então, enojado mais ainda com sua atitude sem sentido e vendo o quanto estava fazendo sofrer sua companheira e seus filhos, sente que merece morrer. Mesmo assim, sua companheira, pobre coitada,  pra proteger sua vida e  sua prole, enquanto chora, diz que o ama e que não se importa com as suas bebedeiras. O jovem, cada vez mais se sentindo um lixo por aquelas palavras que não merecia, dispara uma bofetada contra o rosto da esposa.  E sentindo-se indigno de viver, percebendo que aquilo não acabaria bem, sai de casa com a certeza que se ficasse, mataria alguém pelo simples fato de que ele, era quem merecia morrer.

Ele dorme ao relento, como de fato merecia - e retorna na manhã seguinte como se nada tivesse acontecido. O velho banco já se encontrava no lugar de sempre, o olho da sua companheira se encontrava roxo, mas demonstrando querer esquecer, ela sorria enquanto preparava o café preto para ser bebido em mais um dia como qualquer outro. Ele toma o café churro, sente-se fraco, mas para não demonstrar sai novamente pra mais um dia comum de domingo em que retornaria bêbado pra casa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Mil versões de mim







Já imaginei milhões de versões de mim, milhões de disfarces, roupagens, novas personalidades que eu posso adquirir permanentemente ou por fases, porém, nenhuma delas me agrada tanto quanto quem eu sou hoje.
Já sou a minha melhor versão de mim.
Ora, já me imaginei com um milhão e não seria uma pessoa melhor do que sou hoje.
Já me imaginei famoso e acho que seria arrogante, chato, incompreensível.
Me imaginei uma árvore, mas conclui que não serviria de sombra pra um viajante solitário; minhas folhas não curariam a dor de um coração angustiado; meus galhos finos nem mesmo serviriam de lenha pra lareira de uma senhora e seu gato em um dia de inverno.
Já me imaginei namorando, casado, mas penso que esqueceria datas importantes; até levaria flores no início, mas depois sentiria a necessidade de um novo desafio, uma nova conquista, então fugiria com a ruiva do caixa três da farmácia.
Já me imaginei em idade senil - e descobri que antes disto me mataria.
Já me imaginei com coragem - e descobri que findaria numa caixa de papelão numa rua fétida sem entender a razão da minha existência.
Já me imaginei um herói e talvez até salvasse a mocinha de algum mal feitor, mas quem a salvaria de mim?
Já me imaginei bandido e conclui que seria baleado no peito enquanto ainda planejava o crime.
Já me imaginei um deus, fiquei aterrorizado com a possibilidade, pois era certo que a maioria acreditaria.
Já me imaginei um demônio e descobri que não passaria da desculpa pra selvageria humana que todos carregam.
Já me imaginei uma rosa, mas seria aquela flor posta no buquê na falta de outra mais frondosa.
Eu poderia escrever milhões de páginas sobre todas as versões que imaginei de mim, mas em nenhuma delas eu seria melhor do que quem sou hoje.
Sou a minha melhor versão de mim simplesmente porque tenho milhões de possibilidades de ser quem me der na telha.
Deus me livre do castigo de ser só um.

sábado, 10 de junho de 2017

Delírio






Um homem magricelo, cabelos negros, de pele branca daquelas que se vê as artérias e veias pulsando em azul anil sob a pele frágil devido a falta de melanina, caminha numa rua estreita rumo ao carvalho gigante no centro da cidade. Febril, ele não percebe a vida ao seu redor. Uma sacola plástica de supermercado voa livremente um pouco a frente de sua insignificante existência e ele não se dá conta que, assim como aquela sacola, ele também era levado ao sabor dos ventos daquele dia quente. Os seus passos não pareciam ser influência da sua vontade, pelo menos não daquela vontade que se sente com a certeza que se caminha em direção ao correto. Toda a sua vida era um erro maldito. Nem mesmo se lhe perguntassem as horas naquele momento, ele não podia responder com precisão, pois o ponteiro dos segundos do seu relógio de má qualidade se desprendera e agora girava de acordo com o movimento do seu braço. 

Em transe, ele via o mundo de uma ótica mística, como se ele se encontrasse em um aquário sob o sol do meio dia e os reflexos na água e no vidro fossem o véu pelo qual ele via o seu mundo. Nada era o que era. Ele existia, mas apenas em planos surreais da sua própria mente perturbada. Por vezes, ele batia ombro a ombro com os passantes, mas era como se ele atravessasse a existência pequena daquelas pessoas reais; naquele instante ele era quase um Deus, existindo aqui e ali por frações de segundos de acordo com as crenças de homens comuns. E se o mundo era um espelho d'água, seus pensamentos se dissolviam sem nexo, sem coerência: "o sol brilha há milhões de quilômetros de mim, mesmo assim, posso sentir na pele o seu calor como se ele fosse uma cabeça gigante que me sopra ar quente a fim de de que eu não esqueça que ele sempre esteve lá, mas sua empreitada é inútil até que chegue ao extremo de queimar a plantação de alguém. Como cheguei nesta ideia? "O universo é imenso, eu sou pequeno demais: um átomo que existe e não existe. Então por que vou me preocupar em procriar se há muitas outras pessoas que existem o tempo todo e podem fazê-lo com maiores chances de obterem êxito? Eu sou um pensamento, uma ideia, uma miragem de deserto, não posso passar minha existência pela metade para as futuras gerações. Machado de Assis tinha toda razão." 
Arrastando-se pelas paredes e calçadas, o homem chega até o carvalho gigante bem no centro da cidade, então sob a sombra da árvore real, ele retira seu violino da mochila - e ainda olhando pra si mesmo inicia a tocar as notas celestiais, não para os homens ali, mas para os anjos do seu mundo cor de água e céu. 
Se lhe jogam moedas, ele entende que são elas recompensas pelo fato de, embora por pouco tempo, ele existir plenamente.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Abismo


Sabe no que eu estou pensando? Eu lhe digo, afinal nunca fui de guardar sentimentos: eu estou pensando na minha existência fatalista. Estou refletindo sobre o fato de que eu sou tão intenso que seria capaz de trocar anos por segundos, se estes me proporcionarem qualquer coisa além do comum. Parece que viver pra mim é escorregar em um abismo cujo no final me esperam lanças afiadas e ávidas por meu sangue. E eu sinto, com toda sinceridade, que nesta jornada, existem inúmeros pontos que eu posso me agarrar, diversas escolhas que eu posso tomar pra deixar de cair tão rápido, mas é como se fosse o meu destino esse escorregar intenso.
Talvez eu opte por continuar caindo porque sei que é melhor poucos segundos sentindo o vento da descida e vivenciando a emoção da queda, do que uma vida morna e estagnada em um ponto neutro. Não, eu prefiro ir, sabe, talvez assim eu chegue mais longe do que imaginei.
Se eu opto por me agarrar, por evitar a queda, viverei muito, é certo, mas serei só mais um agarrado as coisas vazias da vida, que eu sei que valem muito mais do que toda metafísica, mas a questão é que eu sou assim. Portanto, deixem-me cair, talvez uma hora ou outra o abismo vire e, por uma questão simples de percepção, eu passe então a ser erguido aos mais altos patamares onde me esperam flores e tapetes vermelhos.
Então você que antes assistia contente a minha queda, vislumbrará lá de baixo os meus pés ornados em ouro e pedras cintilantes, ainda que estes estejam cheios de cicatrizes deixadas pelas lanças que eu mesmo coloquei no final do meu abismo.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A caça







Com os pés descalços, aquele garotinho loiro, de pernas finas e abdômen sinuoso, corria pelo quintal de cajueiros com a certeza que uma hora ou outra aprenderia a usar o estilingue que sua mãe lhe comprara aos custos dos olhos e balearia um pássaro qualquer, cujo este lhe serviria de janta ou coisa parecida, mas apesar das tentativas, parecia que ele não tinha nascido com o dom pra caça, não de pássaros. Talvez se ele fosse mais longe obtivesse mais êxito, pois os pássaros não se aproximavam da casa, salvo os pequenos que não serviam de alimento e, por conseguinte, também era mais difícil acertá-los, porém ele tinha medo de tudo; de troncos de árvores secas, de carros pretos, de gringos que roubavam criancinhas pra fazer sabão e mais um infinidade de coisas... Se ele tomava certa distância de modo que não visse mais a mãe a lavar a louça do almoço na pia ao ar livre, ele sentia que os monstros, as raposas, os lobisomens o devorariam ainda vivo, e sozinho, ele não poderia fazer nada em defesa de si mesmo. Se ao menos o seu pai lhe acompanhasse na caçada. Porque ele tinha medo de tudo, mas enquanto estava com o seu pai era como se nada pudesse atingi-lo. Se ele via os troncos que outrora lhe provocava tremeliques nas pernas, ele dizia pra si mesmo a plenos pulmões: "venham agora seus desgraçados, agora eu estou com o meu Pai, vocês não podem me devorar."

Trajando a velha bermuda azul marinho que sua mãe confeccionara de uma calça da Adidas, presente dos parentes de São Paulo, ele corria feliz e sujo, ignorando totalmente a vida dos adultos. Ele não entendia porque os adultos brigavam o tempo todo, porque se preocupavam com o almoço de amanhã ou onde dormiriam quando as redes de algodão se rasgassem completamente. A vida pra ele era uma grande manga madura que ele mordia com gosto todos os dias como se jamais fosse ver outra igual. 

Sempre com um olho na copa dos cajueiros e outro na mãe que lavava a louça enquanto reclamava da vida árdua que vivia como sempre fazia, ele se sentia o maior caçador do mundo, mesmo nunca tendo matado nada além de formigas. A mãe alternava entre instruções pra que ele não se afastasse e reclamações do cotidiano: “a noite não teria isto ou aquilo, amanhã também não, os próximos dias seriam mais difíceis ainda - e assim por diante”. Ele já estava acostumado com as brigas da mãe com o pai devido questões financeiras; era só mais um dia comum. O pai, este ouvia tudo calado enquanto concertava na calçada um relógio Oriente sem valor calórico algum, logo, sua mãe odiava os relógios e os rádios que o pai vivia a concertar uma vez que tal atividade não provia alimento para os filhos. Até que, seu pai chega ao seu limite; irritado com os gritos, ele toma uma foice, destas que se usa em atividades agrícolas e corre atrás da sua mãe na intenção de feri-la, ou de assustá-la, não se sabe. O garotinho loiro de seis anos, solta o estilingue e fica parado observando sua mãe correr em desespero em direção contrária a ele. Nada ele podia fazer em defesa de sua mãe, a não ser gritar. Até que seu pai desiste, ou porque não tinha intenção mesmo de feri-la ou devido os gritos do garotinho desesperado - e retorna pra casa ainda munido da foice. O garotinho corre até a mãe, mas aos seis anos de idade não lhe ocorria palavras de consolo, nem podia lhe dá um abraço de segurança ou qualquer coisa que o valha, somente se juntou a sua condição e chorou com ela. 

Aquele dia, aquele garotinho magricelo foi teletransportado por vias tortuosas para o mundo dos adultos. Ele passou a entender a preocupação com o amanhã, pois agora ele compreendia o medo que os adultos tinham oriundo da certeza que por qualquer razão o sol talvez não nascesse no dia seguinte. 
A segurança que antes o pai lhe proporcionava, que é o papel principal da figura masculina no desenvolvimento de um filho, já não existia mais. Se antes as paredes e o seu lençol lhe protegiam do ataque do lobisomem durante a noite, agora que o lobisomem estava no quarto ao lado, já não tinham esse poder. Inúmeras e inúmeras noites aquele garotinho passou acordado pensando que a qualquer momento seria devorado pelo lobisomem. E se ele agora via, ouvia, sentia como um adulto, aquela criança de seis anos permaneceria pra sempre em algum recôndito dentro dele e o impediria de amadurecer por completo pra sempre. 

Naquele dia, aquele garotinho loiro foi forçado a abandonar a caça aos pássaros pra caçar algo maior que era os demônios que lhe rodeava.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo I

Para minhas irmãs Darlene e Charlene, fontes de inspiração dessa história. 
Charlene faleceu em 2012 vítima de um aneurisma. 
Eterna saudades!  




Eu tinha doze anos, gostava de short-saia, chocolate do Fofão e da minha coleção de gibis da turma da Mônica, embora por vergonha não lesse mais. Eu sonhava em ser Paquita da Xuxa e era apaixonada pelo Fábio Júnior; não pelas músicas dele, era aquele jeito dele de mexer nos cabelos que me encantava. Eu tinha duas amigas de verdade; minha irmã, um ano mais velha que eu, e minha vizinha Tati de catorze anos. Passávamos tanto tempo juntas que a imagem de uma já estava atrelada a da outra. Aos fins de tarde, nos sentávamos na calçada de frente pra rua e imaginávamos que todos que vinham da esquerda eram namorados de Tati e os que vinham da direita eram namorados de minha irmã. Se fosse uma encruzilhada, talvez me sobrasse uns namorados também, mas eu não me importava. Quando surgia alguém feio, ríamos e caçoávamos uma da outra como se realmente o casamento com aqueles passantes fosse pra dali duas semanas. Era muito divertido! Se bem que se tinha uma coisa que fazíamos era gritar e rir por qualquer coisa. Menos quando uma das três amargava uma paixão platônica por um professor ou por um ator da novela das seis, aí chorávamos as três juntas. 

Dezessete de fevereiro de 1993, Tati tinha arranjado um paquera e precisava de ajuda pra um esquema que tinha marcado para às oito e meia da noite na discoteca da minha rua. Então usamos a desculpa máster, a desculpa infalível: Tati iria dormir na nossa casa pra fazermos juntas o dever de casa. Duvido que alguém tenha inventado, ou melhor, duvido que alguém invente algo mais divertido do que a melhor amiga dormir na casa da gente. A gente conversa a noite toda sobre amores eternos, garotos e..., é só sobre isso mesmo. Até que alguém cochila, e a outra pergunta, “já dormiu” e se ouve a resposta, “claro que não, pensando o quê". Viram o Jerfeson hoje? Tava um gato” e assim a noite se vai sem que a gente perceba. É experimentar o paraíso.  

Naquela noite jantamos juntas, nos maquiamos juntas, tiramos a maquiagem juntas, pois não podíamos sair na rua todas pintadas que nossos pais desconfiariam de qualquer coisa. Deixamos somente um batom vermelho nada discreto e saímos à surdina pra rua. Meus pais confiavam muito na gente, pois sabiam que nunca íamos longe e sabia que nunca, jamais, entraríamos na discoteca. Não tínhamos intenção mesmo de entrar, o esquema seria do lado de fora. Mas deu oito e meia e nada do paquera de Tati aparecer, nove horas, nove e meia, quase dez horas e nada dele chegar. Estávamos há poucos metros de casa e há poucos metros da discoteca; três magricelas de batom vermelho decepcionadas com o bolo que Tati tinha levado. Então um carro brilhante se aproximou e quatro jovens bonitos desceram e nos convidaram pra dá uma volta. Eu logo disse que não ia, minha irmã também relutou, mas Tati, com o coração partido, não pensou duas vezes e entrou no carro - e pra não deixá-la sozinha, também entramos. 

O carro saiu em disparada e Tati gritava feito uma louca, enquanto eu me mantinha apreensiva e pensando na surra que levaríamos quando voltássemos pra casa. Depois de um tempo, um rapaz muito alegre e de respiração ofegante, coloca uma cerveja gelada entre minhas pernas e começa fazer movimentos estranhos e repetitivos, até que me beija. Eu não tive reação, estava com estranhos e não podia sequer me mexer. O carro parou depois de mais ou menos meia hora, me levando a crer que aquele pesadelo tinha acabado. Mas ali não era a nossa rua; era um terreno baldio estranhamente distante de tudo que eu conhecia. Fiquei no carro com um dos jovens e minha irmã e Tati foram arrancadas a força e colocadas no capô pelos outros três. Não conseguíamos gritar nem se quiséssemos, embora eles dissessem a todo o momento que se gritássemos nos matariam.  

Depois de uma hora, duas, não sei bem, eu acordei talvez naquele mesmo terreno com os meus próprios cabelos na boca. Quando consegui abrir os olhos, notei Tati desfalecida sobre minhas pernas. Naquele momento meu mundo desabou pela décima vez aquela noite. Eu mexi em seus ombros, mas ela não reagia. Eu empurrei seu corpo com a força que me restava e consegui virá-la, então vi seu rosto desfigurado e seus olhos sem vida. Eu tentei chorar, mas já não tinha lágrimas. Eu tentei gritar, mas não tinha voz. Eu tentei ressuscitá-la, mas foi inútil. Olhei pro lado a fim de averiguar onde se encontrava minha irmã, então a vi; estava sem roupa sentada um pouco distante com a cabeça entre as pernas. Ela parecia chorar segurando o prendedor de cabelo da Tati na mão esquerda.


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