segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Solomon



Nietzsche findou louco e incapaz de livrar-se
dos próprios dejetos aos sessenta e seis anos.
Casimiro de Abreu, como tantos outros, morreu tuberculoso aos vinte e um.
John Kennedy Toole tirou a própria vida aos trinta e dois,
Florbela Espanca aos trinta e seis.
Ernest Hemingway, sentindo que já tinha vivido tudo, conquistado tudo,
deu um tiro naquele que já não era.
Dostoiévski, findou como tinha que findar.
Tolstoi morreu idolatrado, mas sozinho.
Caio Fernando Abreu, como tantos outros de sua geração,
morreu aos quarenta e oito vítima de si mesmo.
Neruda de um câncer de próstata.
Quintana ainda não foi. 
Lucien de Rumbepré, autor de as margaridas, eu não sei. 
Raskolnikov provavelmente teve o mesmo fim de Dostoiévski. 
João da Bodega morreu no sábado como se fosse um príncipe. 
Solomon Grundy nasceu na segunda, 
batizou-se na terça, casou-se na quarta,
adoeceu na quinta, piorou na sexta,
morreu no sábado, enterrou-se no domingo,
E este foi o fim de Solomon Grundy.
Eu, não me comparando, provavelmente morrerei de saudade, 
Logo, haverá justiça neste mundo.   




sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Dom Quixote



Não tenho nada, nunca tive,
 e por essa razão, tenho tudo.
Nada me limita, Senhorita! 
Agora mesmo posso ser quem me der na telha.
Posso ser um tirano e amar-te como as borboletas amam as rosas.
Posso nascer entre os lobos e me tornar cordeiro,   
Crescer na selva e me tornar nobre, 
Ser um louco, um ébrio - e ao mesmo tempo, sóbrio.   

Eu nunca fui nada, Senhorita. 
Não me pintaram em telas por minha bravura, 
não esculpiram meu rosto no mármore, 
não cantaram epopeias de minhas aventuras.   
Mas digo-te que, por não ser nada, ainda me resta tudo. 
Empunho a espada dos honrosos cavaleiros, 
dos reis mais nobres e dos mais bravos soldados,
Com ela, ainda posso salvar princesas de tigres selvagens, 
Matar dez leões de Nemeia e fazer dragões cantarem ilari lariê da Xuxa.   
Sem contar que nenhum outro vai fazer-te rir com essas loucuras.     

Não, não tenho nada.
Não tenho ouro, prata, Francos, Rublos,
só franqueza, imaginação - e esse coração que é teu súdito.  
Também não tenho gado, terras a perder de vista 
nem ovelhas do mais perfeito lã ou cavalos  puro sangue.  
Tenho apenas imaginação e, não tenho dúvida, que ela me levará à loucura. 
Mas também me elevará as alturas - e quando esse dia chegar, quero que estejas lá e me segure.  
Não, Senhorita, não tenho nada, só tenho esse amor por ti que pra mim é tudo.  








terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Velho Oeste

               James Bama 






Verão, noite de lua, estrada estreita. Na mão esquerda um regalo, na direita, as rédeas do cavalo que já lhe acompanhava há sete anos. Era ele o último Cowboy do oeste, do sul, nordeste, talvez até da galáxia.  Por anos ele fora o homem mais destemido e o mais temido das redondezas. Ostentava a fama do gatilho mais rápido e era o caçador de recompensas com mais mortes na conta. Insensível, bruto, ele jamais se envergara ao sentimento humano que fosse. Amava as moças quentes das tavernas por meia hora, por quinze minutos, mas partia sem deixar rastros ou o coração pra trás. Ludibriava as donzelas de família, lhe prometendo aventuras, amores eternos e essas coisas que se diz quando se deseja  noites desenfreadas de amor com moças virgens e ávidas por sangue, mas sempre fugia junto com suas promessas ao amanhecer. Mas isso eram coisas do passado. As rugas no rosto daquele homem de semblante firme evidenciavam uma vida quase toda já gasta; ele agora se comovia com o brilho da lua, com as corujas nas árvores, com o som dos grilos. Não se dava nem mesmo o direito de desfazer as trilhas que as formigas faziam naquela estrada que o levava ao seu destino. 

Aquele Cowboy aposentado descobrira muito tarde que uma de suas aventuras do passado lhe deixara uma filha; uma filha que nunca tivera o colo do pai, que não tivera a honra que o pai a acompanhasse no casamento ou que testemunhasse o nascimento da neta. Mas ainda lhe restava o balançar calmo dos passos do seu velho cavalo, a solidão da noite e um pouco de tempo pra tentar remediar os erros do passado. 

O último Cowboy do oeste movia-se rumo a casa da neta que nunca vira carregando uma caixinha de música  e um coração outrora de pedra e que agora mais parecia do mais fino veludo. Contente, ele previa a voz fina e suave da neta cheia de vida. Imaginava ela sentada na varanda abrindo seu presente e agradecendo com um sorriso tão largo que lhe enchia a alma. Imaginou os olhinhos negros e esbugalhados dela ao abrir o embrulho e se deparar com uma caixinha de música com uma linda bailarina a rodopiar no centro. De repente, aquele valente Cowboy do passado se deparou com umas lágrimas bestas deslizando por suas bochechas rosadas de avô Coruja. - Pensou ele - O tempo muda tudo!   

Ao se aproximar do endereço lhe passado, ele não viu nada do que imaginara. Constatou que se tratava de  uma casa toda destruída; já não tinha portas, telhado, e o fogo terminava de consumir as poucas vigas que restava. Apressou o passo, guardou o embrulho com o presente nas algibeiras e empunhou o seu velho revólver que jamais pensara que usaria novamente.

 Ao chegar a casa, gritou, e concluiu que ninguém mais se encontrava ali. Ao dar a volta, se deparou com um brilho reluzindo por entre os escombros. Se apeou, agachou, tomou o objeto na mão e se surpreendeu ao verificar que se tratava do punhal do seu velho inimigo dos tempos dourados de caçador de recompensas.
Aquele velho Cowboy levantou-se expelindo lágrimas de sangue e concluiu que o tempo passa, as pessoas mudam, mas o passado é irremediável.      

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Como os nossos pais




Se eu pudesse voltar no tempo e tivesse a oportunidade de fazer diferente, ao menos no que me compete, eu faria tudo igual novamente. Eu repetiria cada escolha, mesmo as que me levaram a perdas de coisas que eu pensava querer. Eu sentiria cada dor, talvez até com mais ardor, sem receio algum de está sendo injusto comigo mesmo. Foram os meus erros, minhas perdas e minhas dores que me tornaram quem eu sou e eu amo quem sou.
Eu percebo hoje que, todas as vezes que pensei está certo numa escolha, ou que me fizeram pensar que eu estava certo, aquela escolha me levaria pra onde eu nunca quis estar ou me tornaria alguém que eu não suportaria ser e, confesso que eu não tenho vocação pra ser menos do que eu. 

Por sorte eu resolvi escolher o que parecia ser os erros, mesmo sendo recriminado por todos e até por mim mesmo, então cheguei até aqui. Nunca confiei em meu discernimento racional pra fazer qualquer escolha, deixei tudo a cargo da loucura, pois acredito que a única pessoa que pode tirá-lo do seu caminho é você mesmo se deixar que essa sociedade que parece ter o manual universal da felicidade e do sucesso guie suas escolhas, ou melhor, o guie, escolhas não seria uma opção.  

Ah! Se eu ouço os conselhos, se eu tivesse seguido o caminho pré-determinado do sucesso, talvez até fosse rico ou sentisse que estava no caminho certo pra ser rico, mas tenho certeza absoluta que, no fim, quando eu olhasse pra trás, eu perceberia que tinha vivido a vida de outro e não a minha e nem mesmo eu suportaria a dor de não poder voltar no tempo pra só então, viver quem eu sempre fui. Por isso, me chamem de louco, desvairado, vagabundo sem chances de vencer na vida, eu quero que se foda, ninguém irá tirar essa vitória que carrego no peito de ser quem de fato eu sou. 

E Você?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O teu sorriso me dá onda



Sinto um vazio, um oco, uma falta de pessoas pra amar, de pessoas que me ame, uma falta de razões. Maldito inferno esse de não amar alguém loucamente! Eu vou sair por ai e a primeira garota que me aparecer na rua vou amá-la perdidamente. Vou proferir juras de amor, fazer planos até que tenhamos oitenta anos. Vou comprar flores e levar bombons e dizer que o bom da vida é viver do lado dela. Vou morrer de ciúmes, de saudade, de insegurança e viver de um coração verde enviado junto com um "bom dia" às duas da tarde. E eu, feliz e exagerado como sempre, vou responder com vinte "eu te amo" seguidos de novecentos corações vermelhos e pulsantes, porque senão for pra ser assim eu nem quero.

Vou aprender a gostar de funk proibidão, de pagode romântico e Wesley Safadão, só porque ela gosta, afinal, a gente aprende a amar tudo que a pessoa amada ama. Vou comprar uma corrente e um boné aba reta e tirar fotos mostrando um abdômen sarado que não tenho, mas se eu tirar a foto sem respirar e com uma boa edição, até consigo. Vou curtir todas as fotos dela e comentar "linda e minha" que é pros marmanjos ficarem ligados nos paranauê.

Vou sair ao fim de tarde com ela pra tomar um sorvete de baunilha e tirar uma Self pra postar no Instagram, porque receber comentários falsos como "lindo casal" agrada demais e ser invejado é muito Phoda! De madrugada, apesar de ter passado o dia inteiro falando com ela, na falta de assunto, a gente pergunta a velha máxima "como foi seu dia" e tudo começa de novo, porque o assunto pouco importa o interlocutor é que a graça da coisa. Ah! Amar é bom demais e dá uma onda daquelas.   


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O tempo dos amantes




Pra quem ama, o tempo é sempre uma desordem;
Tem aquela soma do tempo do reencontro com a despedida
antes mesmo de confirmada a chegada.
Tem aquela saudade do futuro,
antes mesmo de confirmada a partida.
E tem aquela divisão do tempo, relativamente,
quando a distância de passos se torna infinita
e quando horas de abraços não se equivalem á segundos.

Ah! O tempo dos amantes!
Haveria alguém capaz de contá-lo?
Se posto em números ao mesmo tempo em que é infinito, é nulo. 
Ao mesmo tempo em que sobra, nunca é o suficiente,
e ao passo que é gratificante também é uma tortura.
E ainda há aqueles momentos em que vivemos
uma vida inteira em um dia, apenas sonhando.

Haveria alguém capaz de contar o tempo de quem ama?
Sendo que enquanto se ama,  há sempre aquele desejo que o tempo pare,
Ou não, talvez queremos mesmo que passe exageradamente,
e que simplesmente se mantenha os mesmos sentimentos eternamente 
Ah! E ainda há aquele tempo quando há o medo de perder. 
Este, passa, não passa, eterniza, tortura,
sangra cicatrizes, busca tempo onde não há.
O pior tempo é aquele em que buscamos qualquer coisa
onde não há mais tempo.
Haveria alguém capaz de contar o tempo dos amantes,
Se este é sempre relativo a distância de quem se ama?
          

sábado, 14 de janeiro de 2017

Vida

Pollock


Viva!
Não se mantenha
Mude
Não descanse
Estrebuche
Senão de realidade
Que se iluda.
Mas viva!
Se não de flores vivas
Que sejam murchas
Se não de muitas cores
Que sejam turvas
Mas viva!
Se não de canto, que uive
Se não de gritos, que escute
Se não de sanidade
Que seja de distúrbios.
Mas viva! 
Se não de esquerda
Que seja de direita...
Se não de coisas feitas
Que inventemos a receita. 
Se não de amores
Que seja de sabores
Se não devagar
Que seja de estouro 
Só não pare! 

Coágulo






Dissolveu um comprimido de morfina e tomou de um só gole. Julgou que um comprimido não seria suficiente e tomou outro. Molhou uma camisa cinza escolhida aleatoriamente dentre tantas que possuía; sentou-se no seu banquinho revestido com couro sintético e respirou fundo. Passou mais uma vez a vista ao redor do seu quartinho minúsculo; verificou seu kit de primeiros socorros, averiguou a água quente, as toalhas e refletiu sobre atos de coragem. Passou mais uma olhadela na faca em processo de flambagem no seu fogão duas bocas. Torceu a camisa molhada, colocou-a entre os dentes - e munido de uma tesoura de jardineiro de médio porte, respirou fundo e fez a primeira tentativa, porém, não teve coragem. "Precisa ser feito" - pensou ele. Na segunda tentativa, a imagem dos tristes olhos azuis de Melinda em conjunto com a morfina não permitiu que ele percebesse a dor, então, decepou seu dedo mindinho. Feito isso, lacrimejando, estancou o sangramento como pôde e repetiu o mesmo ato com mais três dedos do pé esquerdo, lhe restando assim, apenas o dedão. Enfaixou o pé e guardou os dedos decepados em um pote no congelador.


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- Dezesseis anos, magricelo e estranho. Ninguém conseguia dizer nada além a respeito daquele rapaz branquicelo, cabelos sempre com gel, olhos penetrantes, coluna curvada e nariz minúsculo. Ele era muito peculiar; sempre caminhava em linha reta e o mais próximo das paredes que conseguia. Mantinha uma das mãos sempre fechada onde segurava um isqueiro Continental que ganhara de seu pai. Trajava sempre a mesma combinação de cores; cinza com branco, ou preto com cinza, nunca mudava a ordem. Mas apesar de suas excentricidades ele passava quase despercebido naquela cidade tão grande. 


Morava ele no centro da maior cidade do país em um quarto minúsculo que dividia com Gregório, um furão insensível. Todos os dias, às quinze e quarenta da tarde, ele vestia-se e saia em direção à uma viela por detrás de um prédio nem longe nem perto de onde residia. Lá, se dispunha entre caixas e barris de lixo e observava o apartamento de Melinda: moça de quatorze anos e olhos tristes. Sentado ali, ele presenciava a mesma cena todos os dias: uma mulher gorda trajando sempre vestidos coloridos penteava os longos e lisos cabelos de Melinda em frente a penteadeira do seu quarto; então às dezesseis e trinta em ponto, as duas saiam de braços dados pra um passeio no parque e retornavam sempre às dezessete e dez. Às dezessete e vinte, um senhor gordo, cabelos grisalhos e rosto redondo, estacionava seu Cadillac preto há duas quadras a frente e retornava a pé ao apartamento de Melinda. Depois de meia hora, com o casaco na mão e expelindo fumaça de um cigarro quase no fim, aquele homem asqueroso retornava pro seu Cadillac preto preocupado com qualquer coisa - e assim a vida seguia. 


Hoje, nada se alterara. Aquele jovem com um pé mutilado saíra mancando do seu apartamento na hora de sempre, se dispôs entre as latas de lixo e esperou que Melinda e sua companheira saíssem para o seu passeio diário. "Esta tarde, elas não retornarão!" - Pensou ele com convicção. Aguardou que as duas tomassem distância e com cautela de um garoto de dezesseis anos, subiu até o apartamento pela escada de emergência, pulou a janela, observou com repugnância os lençóis de cetim envolvendo o colchão de Melinda e direcionou-se a cozinha. Aquele dia, em vez de seu isqueiro, ele trazia na mão esquerda um pote de picles hermeticamente fechado. Sem titubear, pôs o pote na geladeira e saiu. Então, refez o seu caminho às pressas até seu apartamento. Ao chegar, ainda ofegante, tomou o telefone e ligou pra polícia. Em seguida, deitou-se em sua cama dura com uma sensação de dever cumprido e não pregou os olhos durante a noite toda.


Nos dias seguintes, sempre à primeira hora, ainda muito eufórico, ele corria até e banca e comprava o jornal do dia e retornava mancando pra casa. Folheava as páginas policiais e como não encontrava a noticia que esperava, a notícia que iria deixar todo o bairro, a cidade, talvez o país em choque, folheava os outros cadernos, duas, três, quatro vezes, mas nada que mencionasse o que ele esperava. Quatro dias passados, já em desespero, com o jornal amassado nas mãos, aquele jovem peculiar se depara horrorizado com a seguinte notícia no caderno de celebridades: 


"17 de Março de 1973”
“Ontem, em uma festa de Gala, o Juiz de direito Dr. Alvarenga Cortez, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal.” 


Nisto, ele ouve batidas fortes na porta do seu apartamento e antes que fosse abrir, procurou, sem pressa, seu isqueiro no bolso direito, mas não encontrara...







No dia seguinte, Gregório, o furão insensível, anunciava nos classificados uma vaga pra colega de quarto no apartamento.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Separando os grandes escritores dos medíocres



No Brasil, os poucos que cultivam o hábito da leitura, com raríssimas exceções, acreditam piamente que são escritores, poetas, jornalistas ou qualquer outra profissão relacionada - e talvez sejam mesmo. Minha mãe sempre diz que pra ser um escritor pode se seguir qualquer profissão. Talvez ela tenha razão, afinal, as palavras, as letras, estão ai e, qualquer alfabetizado pode agrupá-las e dar algum sentido a elas.  Então, o que separa o joio do trigo? Como disse Nietzsche, o que separa os altos voos das aves de rapina dos voos rasantes das aves domésticas?   

Na adolescência todos somos poetas, afinal, na idade das paixões, tudo faz sentido. No entanto, o que separa os poetas e escritores dos demais é o tempo. Paulo Leminski  dizia que depois dos vinte, vinte e cinco, é muito difícil continuar acreditando na poesia, logo, quem passa dos vinte e continua escrevendo,  acreditando na arte de ser inútil, como disse Manoel de Barros,  são aqueles que realmente possuem vocação, ou são esquizofrênicos.  

Porém, só acreditar não basta, é preciso ter talento.  A fé entra nessa conta no aperfeiçoamento do talento inato. Eis que aqui, ocorre outra separação; aqueles que escrevem porque leem, ou seja, imitam os livros que leem,  e aqueles que realmente têm talento, que têm a capacidade de agrupar as palavras de um modo diferenciado. E diferentemente do que se pensa, um bom escritor, um escritor universal e atemporal, não é aquele que tem ideias mirabolantes ou que enxerga o que mais ninguém ver;  um escritor de oficio é aquele que consegue captar o que é nítido pra qualquer criança - o que todos pensam o tempo todo só que não conseguem expressar com palavras. Então o escritor toma para si a tarefa de colocar palavras nos anseios humanos, ainda que seja inconscientemente, e quando o leitor se depara com aquela ideia que ele pensara a vida inteira expressada de forma concisa no trecho de um livro, ocorre aquele momento mágico da leitura que é quando o leitor se identifica com o autor.
Aqui se separa os escritores meramente descritivos e aqueles com percepção e talento suficientes pra colocar a mente humana, a alma humana no texto - que é o que torna o livro atemporal, afinal, estórias passam, porém a mente humana sempre será a mesma.

Outro fator importante que separa os aves de rapina das aves domésticas é o tempo que se gasta aperfeiçoando e desenvolvendo seu talento. Porque somente um escritor de oficio, aquele que nasceu pra ser escritor, terá paciência de gastar todo o seu tempo com sua arte. O oficio de um escritor, diferentemente do que se pensa, não é escrever, é ler. Sem ler, não se aprende a escrever, essa é uma máxima que vai perdurar eternamente. - Aprendi com o Marquês de Sade que é um tipico erro de iniciante escrever mais do que ler.  Logo, o trabalho do escritor é ler, escrever  é atividade recreativa.

Certa vez, enviei um e-mail pra um escritor  relativamente conhecido, a fim de que ele, com sua experiência, pudesse me dizer algo novo pra aperfeiçoar minha arte. Esperava que ele me dissesse algo pessoal, no entanto, ele me respondeu com as velhas máximas: "a arte é um mundo cruel e muitas vezes o escritor só é reconhecido após a morte." Você pode esperar se despir de suas vestes orgânica pra acontecer? Pode?!

Ainda nessa tecla, outro fator que separa os pequenos dos grandes é a coragem, ousadia, tanto na sua escrita como na coragem pra divulgar o seu trabalho. Um escritor que teme repostas negativas das editoras, que teme reprovações, que não torna a descrença daqueles ao seu redor em motivação, não é um escritor de ofício. Agora se a cada não recebido, se a cada vez que sua mãe lhe aporrinha pra arranjar um emprego você encontrar mais forças pra continuar se aperfeiçoando, você é um escritor. Assista o filme lançado em 1966 intitulado Fome, ele te fará compreender isso melhor.

Lendo um artigo sobre o que não se deve fazer para publicar um livro, a autora dizia que não se pode divulgar, ou melhor,  incomodar as pessoas com seu trabalho. Baboseira,  pois se você nunca mostrar, nunca vai receber um não, então, nunca vai poder aperfeiçoar sua escrita, logo as negativas fazem parte da carreira do escritor. Negativas sempre me fizeram acreditar mais e mais, afinal, o sofrimento é o tempero da arte. Então, incomode, seja chato e que se foda o resto.

Há algum tempo, mandei uma mensagem pra um grande escritor mundialmente famoso apresentando o meu trabalho - pois sou insistente e incomodo mesmo - ele me mandou um link com os seus conselhos pra aspirantes a escritores. Era tudo baboseira! Não ouça conselhos. Irônico, não?
Esse texto não se trata de conselhos, apenas apresento elementos que podem ajudar você a se encontrar como escritor. Então, você  desteta ou gosta dessas ideias?





terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Cerâmica





Quarenta e quatros anos e não tinha sido nada fácil chegar até ali. Não mesmo. Criou cinco filhos, sofreu as maiores privações e quase sempre lhe faltou o essencial. Só nunca lhe faltou sonhos, afinal uma vida difícil não é pré-requisito pra que não se tenha sonhos. Certo que poucos e pequenos, tão pequenos que certa vez ela até tentara alimentar dois ou três sonhos de uma vez, mas sua realidade não lhe permitia.   

Desde que se casara aos dezessete anos, vivendo na mais profunda miséria, ela se conformou com a lama do presente se baseando nos louros do futuro que viria com sua aposentadoria por idade como trabalhadora rural. Na idade que se encontrava, fazendo as contas, ainda faltava onze anos. Ela dividia esses onze anos o máximo que podia no intuito de diminuir a  longa jornada.
- Calculava mentalmente: "Onze anos é quase a mesma coisa que dez, que dividido por dois são cinco, e como o tempo tá passando mais rápido que antigamente, sem que eu perceba, já estou aposentada. O tempo passa como o vento! Ora, a copa do mundo mal acabou e próximo ano já tem de novo." E só assim aquela mãe batalhadora conseguia sorrir uma vez ou outra.     

Seu sonho não era se aposentar, ela queria mesmo era possuir uma casa com piso de cerâmica e descansar sossegada ao fim de tarde sabendo que no dia seguinte teria com o quê alimentar sua família. Até então, ela não tivera uma só noite tranquila de sono, pois sempre tinha que matutar a noite inteira como conseguir alimento para o dia seguinte. Aquela mulher não tinha sequer o privilégio de pensar mais que um dia por vez, pois seria presunção demais. Ela também mantinha desejos menores, como manter um pote de vidro cheio de bolachas mais que um dia em cima de um balcão que construiria com o dinheiro da aposentadoria. Quando observava a vizinha comprando peixe do vendedor que passava gritando à porta - vizinha esta que já tinha alcançado a graça da aposentadoria - seus olhos brilhavam e ela sonhava: "um dia poderei guardar um pouco de dinheiro pra comprar um quilo de garajuba na minha porta também”.     

Ela tinha tudo planejado, nos seus mínimos detalhes: nos primeiros cinco anos de aposentadoria, ela iria ajudar os filhos, pois sentia que tinha uma dívida com cada um deles já que não pudera lhes proporcionar uma vida digna, tão pouco pôde construir um legado pra deixá-los de herança, então, todos tinham que vencer na vida sozinhos e, longe de sua casa, uma vez que seu interior não oferecia as oportunidades. Ela teve que suportar a dor de ver todos os filhos, antes mesmo de completarem a maioridade, saírem de casa em busca de melhores condições de vida. Dor esta que não conseguia esquecer. Sentia que falhara com os filhos, então dedicaria os primeiros cinco anos pra tentar ajudá-los na maneira do impossível. Feito isso, ela então poderia pensar em si, embora já encontrasse em idade avançada, porém, com sorte, talvez lhe restasse um pouco de vitalidade pra realizar os seus sonhos.  

Em uma tarde, ela liga a televisão no intuito de esquecer ao menos por uns instantes os dissabores da vida vendo suas novelas mexicanas, e por infortúnio lhe é imposta uma notícia que lhe tira o chão, o céu e todo o resto, em que o governo propõe alterações na aposentadoria - uma tal de reforma da previdência - e dentre as mudanças propostas, havia a alteração do tempo da aposentadoria por idade dos agricultores. Ela ficou horrorizada, pois com a reforma, tanto homens como mulheres só poderiam se aposentar com 65 anos. Nos seus sonhos, talvez até mesmo na vida, não cabia somar mais dez anos de espera. Ali, seu mundo desmoronou.   

Talvez na cidade grande aposentadoria signifique o fim de um ciclo, mas em regiões rurais significa tranquilidade, realização de um sonho que muitos esperam uma vida inteira pra conseguir. É quando pela primeira vez na vida, aqueles pobres coitados experimentam a tranquilidade da certeza de um dinheiro certo todo final de mês. Então tirem suas conclusões a respeito dessa reforma que eu entendo pouco, mas entendo da minha gente e sei as consequências de uma mudança como esta nos couros do povo sofrido de quem faço parte.  



domingo, 8 de janeiro de 2017

Amor de bar



A sua vida era mais ou menos. Ninguém o amava, mas também não odiava. Ele não incomodava, mas também não fazia a diferença.  Não era velho pra que aceitassem sua opinião, nem tão jovem pra que se justificasse sua inconsequência.  Ele não era bonito, mas também não era feio, de modo que ele não era bem afeiçoado pra ficar com mulheres formosas, e nem suficientemente feio pra não poder escolher, logo, estava condenado a solidão.  Ele não era uma coisa nem outra. Aquele homem se encontrava naquela maldita idade meio termo - vinte sete anos, e já não suportava mais aquela falta de vida que amargava. Eis que, numa tarde morna, tomando seu café morno, ele resolveu sair daquela vida morna.  

Marcando dezessete e cinquenta no seu relógio que não lhe custara muito nem pouco, decidiu sair do seu apartamento no intuito de arranjar uma briga de bar. Saiu convicto de  só voltar quando tivesse perdido pelo menos dois dentes e quebrado a clavícula, assim, ele não morreria, mas ficava suficientemente ferido pra ir parar no hospital, aonde lá, com uma certeza quase profética, ele seria atendido por uma auxiliar de enfermagem chamada Nágila ou Érica - e esta moça seria incumbida de o tirar daquela vida morna que levava.

Chegando ao bar, se dispôs no balcão entre dois homens corpulentos e pediu um Whisky duplo.
 - Com gelo?  - perguntou a garçonete. - Não, não! Cowboy! - respondeu ele com convicção.
A fim de demonstrar uma hombridade que não tinha, tomou a bebida de um só gole e se conteve pra que não notassem que seus olhos lacrimejavam devido o desconforto que lhe provocara aquele Whisky doze anos.  Aproveitando o fogo que o álcool lhe propiciara, com ou sem coragem, ele escarrou, coçou involuntariamente os testículos e cuspiu a bota do cara do lado. O homem barbudo, de aparência intolerante, fitou a bota suja e disse: - Tudo bem, sei que foi sem querer!

Nosso herói indignou-se, porém, relevou e  pediu outro whisky. A segunda dose já descera por sua garganta como uma criança no escorregador. Naquele momento, já cheio de coragem, escarrou novamente, coçou os testículos que nem sabia se conseguiria mantê-los até o final da noite e cuspiu a bota do outro cara do lado. A fim de não ser ignorado, fixou aquele olhar de faroeste sob sua vítima, como quem dizia, vem desgraçado. O rapaz, aparentemente um frequentador assíduo de academia, apenas olhou com uma serenidade de dá raiva e sequer proferiu palavra alguma, saiu e foi sentar-se ao conforto de uma mesa.  
Ele pensou desconsolado: "Ah! Não se consegue mais uma boa briga de bar como antigamente. Aonde fomos parar meu Deus? Será que todos os homens evoluiram pra esse estado deplorável e apático e a vida resume-se esse meio termo sem graça? Se for Deus, me leve daqui."

A Garçonete, morena de cabelos cor de noite, presenciando toda aquela cena enquanto lavava uns copos, de repente, desfarelou uma taça na parede do balcão e proferiu um grito que levaria um pelotão inteiro a loucura e, sem nenhuma razão, voou como uma gata no pescoço do nosso herói; embolaram-se no chão, quebraram duas mesas, arrancaram a saia de uma cliente, que imediatamente entrou na briga, o marido pra defendê-la pulou no meio do fuzuê, arrancou nosso caçador de briga do meio da bagunça e proferiu dois socos bem no meio dos seus olhos. Ele então, enfurecido, voou na garganta do marido indignado e levou mais dois socos, inconformado, levantou-se, levou mais dois socos e no chão ficou.

Em pouco tempo, a briga já se generalizava. Todos que se encontravam no bar,  mesmo sem entender nada, esbofeteava, chutava, mordia, gritava, virava mesas, quebrava copos, rasgava toalhas, jogava coxinhas nos curiosos que se aproximavam. O dono do bar veio da cozinha com um taco de beisebol e saiu distribuindo pancadas a esmo. Mal acabara de se levantar, nosso brigão levou duas tacadas no meio das pernas e gentilmente retornou ao seu sono...   Acordou no paredão da Beira mar, sabe Deus quantas horas depois...

 Ainda cheio de dor, abriu os olhos inebriado com o cheiro de fumaça de cigarro de má qualidade que saia da boca de uma morena linda sentada ao seu lado.  Sem entender joças do que estava acontecendo, sentou-se, e com as mãos trêmulas pediu uma tragada que prontamente lhe foi concedida.  A nicotina lhe clareara a mente e  fez com que ele notasse que aquela morena linda do seu lado trajava um uniforme de garçonete aos farrapos. Olharam-se e vislumbrando um ao outro aos pedaços, riram abertamente. Com aquele gesto, ele notou naquela mulher uma beleza que jamais vira, nem mesmo em Nágila ou Erica, auxiliar de enfermagem que cuidaria dos seus ferimentos se saísse vivo da sua briga de bar. Ali mesmo, envoltos por maresia, cheiro de cigarro e paixão, amaram-se como se o mundo nunca mais fosse girar.  

#cronica #literatura #critica





segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

E se...



E se eu soubesse que ia cair nas primeiras vezes que tentasse andar de bicicleta? Se eu soubesse que subir naquela árvore grande me renderia uma fratura no braço? Se eu soubesse que o primeiro beijo sempre bate os dentes e nunca é como imaginamos e, nem de longe é como os beijos de novela?
E se eu soubesse que a garota que eu amei perdidamente no ensino médio, não me diria não, nem ficaria assustada, tampouco cuspiria na minha cara, mesmo com razão, depois que eu me declarasse dizendo que a amava mais que tudo e pra sempre? Se eu soubesse que em vez disso, ela apenas desviaria o olhar enquanto sorria lindamente com o canto da boca, me dizendo com aquele gesto que ela também me amava.  
Se eu soubesse que aquele curso que me era menos provável, que nem de longe era o que eu sonhava, na verdade, era tudo que eu queria fazer? E se eu soubesse que aquele trabalho, que julguei ser um tédio total, em contra partida, me renderia bons amigos eternos?
Se eu soubesse que largar tudo, pegar uma mochila e correr atrás do meu grande sonho, fosse à única coisa que pudesse me proporcionar à felicidade plena? Se eu soubesse que comprar um barco a vela, embora não tivesse onde velejar, só para deixá-lo no quintal, seria a melhor escolha, pois lá, no improvável, seria onde eu viveria os momentos com a pessoa que seria crucial pra minha vida, hein? Se eu soubesse que tentar aquele relacionamento sério, não seria tão sério assim, que seria, na verdade, até leve, e que eu não necessariamente teria que ter uma velhice chata do lado daquela pessoa, embora envelhecesse do lado dela? 
Se eu não tivesse pensado tudo isto de antemão, talvez eu tivesse vivido a maioria dessas coisas.

Refletir sobre nossas ações, na maioria das vezes, destitui-nos da vida. A melhor escolha é enfrentar sem pensar tanto, pois todo pensamento positivo gera um pensamento contrário que impede a vida de acontecer.