segunda-feira, 17 de julho de 2017

Jardim dos animais


#CrônicaDeSegunda 


Era 1999, o mundo era outro, o universo era outro, logo, aquele garotinho era levado a ser outro também. Em 1999 ele se descobriu amante da música clássica, talvez influenciado pelas novelas que assistia nas casas dos vizinhos e os desenhos do Tom e Jerry. Independente de como, ele só queria saber de cantar e como cantava... Mesmo sem técnica, sem saber a letra, ele entoava a única música que conhecia, Sole mio, até à exaustão. O quintal de casa era o seu palco, Deus, o mundo e sua mãe, eram a platéia. Sua mãe ria abertamente e elogiava - meu grande tenor.

A música para aquele menino era mais que notas, sons proferidos a plenos pulmões no alto dos cajueiros. A música era a sua válvula de escape, a forma que ele encontrara pra expressar os resquícios de felicidade e de arte que conseguia manter no mais profundo recôndito de sua alma.

No entanto, uma música era pouco, ele tinha necessidade de mais, então contraiu um sonho descabido: possuir uma fita cassete dos Três tenores. Porém, sua mãe não tinha dinheiro nem pras necessidades básicas, quanto mais pra futilidades como a música. Mal sabia ela que aquele garotinho não podia viver sem música.

Não tendo como comprar e, a necessidade de ouvir Plácido Domingo sendo maior do que ele, resolveu que seria vantajoso trocar todo o seu material escolar por uma fita cassete dos três tenores.
O fanfarrão do seu colega lhe garantira que a fita era dos dois terrores, ou coisa parecida, logo, pra ele seria o negócio da sua vida. Na hora marcada, lá estava ele com seu caderno do Zé Carioca, o lápis e a borracha, material que teria, sem questionamentos, de durar o ano inteiro, mas ele só queria ouvir mais de José Carreras e Pavarotti. Efetuada a troca, ele correu como o vento à sua casa. Tremendo e em silêncio, adiando o prazer, pôs a fita no toca fitas devagar. Quão grande não foi a sua decepção quando o que ouvira sair dos alto falantes do antigo rádio não foi sole mio, e sim, a frase, "amanhece na luz da campina". Ali, seu coração anoiteceu. Sentou-se e chorou. Não teve forças pra desligar o som, então a música continuou desenrolando-se. Eis que, a maior surra de sua vida teve como trilha sonora Raimundo Fagner: "fazer amor, fazer amor, no paraíso, fazer a luz do teu sorriso é natural."

Depois desse trágico episódio ele descobriu que gostava mesmo era de música, e como a única fita que tinha era de Raimundo Fagner, não tinha escolha, senão, ouvir à exaustão. Raimundo Fagner era o Pavorotti do sertão e Jardim dos animais foi a trilha sonara da sua infância. Aquela música lhe proporcionou muitas alegrias. 

Pra que essa história continue, é preciso que imaginemos um relógio grande e dourado no alto de uma torre barroca. Juntos, eu e você, tomemos os nossos dedos magros, gordos, amarelos, de qualquer cor, e giremos o ponteiro desse relógio até alguns anos depois. Pronto?
A história daquele menino com aquela música teria um novo capítulo.

Já crescido, aquele sonhador resolveu ouvir novamente à música que lhe proporcionara tantas experiências e alegrias no passado. Buscando no youtube, ele descobriu que a música tinha um clipe, bem simples, porém, muito bonito, em que um rapaz corre, literalmente, atrás do seu amor; uma morena linda, de olhos semicerrados, cabelos soltos, boca carnuda, e sorriso que mais parece um dia de sol no inverno nordestino... Aquela garota era o ideal do que seria a mulher perfeita segundos os atributos físicos para aquele sonhador irremediável. Buscou descobrir o nome da garota, ou mesmo a cidade em que fora gravado o clipe na internet, porém, a busca se demonstrou inútil. Então, depois de ver tantas vezes o clipe, resolveu que ia em busca da garota do clipe. Tal qual o negócio da fita enquanto criança, sem refletir, ele tomou sua mochila e saiu, sem rumo, sem saber pra onde, nem onde ia parar. Ele só precisava de imaginação, não de informação, ninguém precisa. 

Tinha em mente a cidade de Óros, por alguma razão, sentia que lá encontraria pistas da garota do clipe.
Caminhando na estrada sob o sol escaldante, o vapor quente do asfalto preto lhe subia as faces, queimando, mais uma vez, os seus sonhos. Depois de caminhar alguns metros, parou, verificou o quanto já tinha caminhado, olhou o horizonte à frente calculando mentalmente o quanto teria ainda que caminhar até chegar próximo de ser quem de fato ele era. 
Então sentou-se no acostamento e chorou enquanto ouvia jardim dos animais no celular. Passou a refletir que já tinha se passado dezessete anos desde o lançamento do clipe e o mundo era outro, o universo era outro, logo, ele e aquela garota foram levados a ser outros também. Ali ele concluiu que era o homem mais mutilado do mundo, pois não era um órgão, um membro que lhe faltava, era a coragem pra ir em busca dos seus sonhos. Levantou-se e retornou pra casa o merdinha de nada de sempre. De que adiantava ele ter tantos sonhos, senão tinha capacidade pra ser louco? Peter Pan tinha toda razão. 

3 comentários:

  1. Olá, seus textos são sempre muito interessante e esse não poderia ser diferente. A melancolia presente durante a leitura só aumenta ao chegar no final do texto. Gostei bastante, parabéns.

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  2. Sonhar é realmente a parte mais fácil, difícil mesmo é ir atrás desres sonhos. Gostei do texto, apesar de achar o gui um tanto maluco.
    Bjs

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  3. É sempre muito bom ler seus textos!
    Sonhos... Não podemos sobreviver sem eles...
    Parabéns!

    Bjs
    www.livrosdabeta.blogspot.com.br

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