terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capitulo XI




Durante aquela tarde, com o meu mundo colorido aos pedaços, me restava à escuridão. Se era um monstro que eles queriam, era um monstro que eles teriam. O amor, maquiagem, tiaras, aparência, eram coisas banais demais que não cabia no meu mundo extenso. Eu era maior que aquilo, o meu universo era maior que aquilo. 

Antes que terminasse a aula, fugi do colégio, voltei pra casa, no caminho, roubei uma lata de espray de pichação numa loja chinfrim, fui pega, mas antes que me apanhassem de verdade, consegui escapar. Passei na farmácia, vi aquela loira linda no balcão com aquele barrigão que já devia tá de uns cinco meses e aquele sorriso constante que eu não entendia de onde ela tirava tanta alegria pra sorrir o tempo todo daquele jeito. Li compassadamente o nome no seu jaleco: "Amanda Afrânio", mesmo sobrenome que compunha o letreiro grande na entrada da farmácia. Chegando ao meu doce lar, não me importei com os questionamentos de minha mãe sobre o porquê que eu tinha fugido da escola; aparentemente alguém já tinha ligado avisando do meu sumiço, fui direto pro quarto e me tranquei com uma raiva daquelas que te põe as mais absurdas certezas no coração. Tinha a mais plena convicção que nunca mais me engraçaria por idiota nenhum, nem jamais me envergaria ao sentimento humano que fosse a não ser o ódio. Daquele momento em diante, só meus planos, só eu e mais ninguém importaria. 

Tirei todas aquelas cores da personagem que eu havia sido aquele dia e voltei a mim. Munida de uma caixa de papelão e uma tesoura eu comecei cortar aquela caixa como se estivesse ferindo a pele de um inimigo; o momento exigia que eu a destroçasse enquanto gritava os impropérios mais absurdos pra ordem que rege a vida, mas não, eu cortei com destreza e fiz quatro letras grandes de  papelão e as observei ciente de que tava fazendo a coisa certa. O momento exigia que eu pintasse aquelas letras de preto, cor da minha alma, mas optei pintar de quatros cores diferentes e alegres e as enfeitei com corações e estrelas brilhantes. Minha mãe batia na porta do quarto, mas eu não ouvia, não tinha tempo pra conversas banais. Procurei uma fita que tínhamos gravado uns dias antes de Tati morrer cuja continha a voz dela nítida e pouco suave falando besteiras: "Como eu amo ele! Carlos é o amor da minha vida." Eu nunca tinha buscado ouvir aquela fita, talvez porque não tivesse preparada praquela nova descoberta. Se Carlos era o paquera de Tati, muita coisa se explicava. Eu poderia ali, ter me abalado, mas eu era uma rocha, nada me tiraria dos meus objetivos, aquela nova informação só me deixara com mais raiva e com mais coragem. Eu podia ter ido perguntar a Carina porque ela escondeu aquela informação de mim, mas eu tava cansada de tentar entendê-la. Eu editei a fita, coloquei uma música de ninar como plano de fundo; deu-me um trabalho monstruoso, mas utilizando dois gravadores eu consegui, afinal motivação eu tinha.  

A noite se ia sem que eu percebesse, porém, o tempo era uma grandeza que pra mim naquele momento era indiferente, como todo o restante do mundo. Ainda tinha muito por fazer. A mochila de Tati ainda se encontrava no meu quarto, lá, no mesmo canto embaixo de umas coisas que eu não usava mais. Eu tinha escondido aquela mochila por alguma razão que desconhecia e o propósito me foi revelado àquela noite por qualquer entidade mágica do universo. Quando abri a mochila, vi aquelas roupinhas que Tati sempre usava já muito surradas pelo tempo, mas não tinha espaço no meu novo mundo pra comoções. Com o próprio tecido das roupas de Tati, eu confeccionei uma réplica; uma roupinha de boneca e vesti na minha boneca preferida.

Com tudo pronto, sai do quarto, avisei a todos que eu me encontrava muito bem. Jantei, porque minha mãe exigia que eu o fizesse, tomei banho, porque o mundo exigia que eu o fizesse, fiz todas as coisas normais porque o universo exigia que eu o fizesse, mas não que fosse de minha boa vontade. Então, retornei pro quarto. O restante da noite eu passei penteando os cabelos da minha boneca preferida enquanto cantarolava a cantiga de ninar que eu tinha colocado na fita em conjunto com a voz de Tati. Nenhuma lágrima caiu dos meus olhos e se caíssem, seriam de sangue. Ah, se mente vazia era a oficina do diabo, a minha era o inferno e queimava como um vulcão. Se o pecado me assolava e o amor sadio não me era possível, alguém, quiçá o mundo, com o devido merecimento, iria conhecer quem era Valquíria Deodato de Sousa. 

 Vi, por entre as frestas do telhado o dia amanhecendo, senti com honra a última brisa da madrugada e apreciei cada raio de sol que entrava no meu quarto como se fosse combustível pra minha alma sombria. Mal clareou totalmente o dia, eu tomei minha mochila, coloquei meu pequeno toca fitas dentro junto com as letras coloridas e a boneca que era uma réplica da minha querida Tati e sai antes que todos acordassem. Na rua, eu não olhava pra qualquer direção a não ser pra frente, e cada passo que eu dava batia os pés com tanta força e convicção no chão, que mesmo no asfalto, parecia que minhas pegadas ficavam ali, evidenciando as minhas ações naquele dia claro e sombrio. 

Meu primeiro destino era a farmácia onde trabalhava aquela loira linda, por sorte, a drogaria Afrânio ainda se encontrava fechada. Com auxílios de barbantes,  eu escrevi com as quatro letras coloridas de baixo pra cima o nome TATI no poste do outro lado da rua, cujo ficava bem em frente ao portão. Após concluir, corri em direção ao meu próximo destino, a casa de Carlos Salgado. Chegando lá, pichei no muro do terreno baldio em frente a sua casa o seguinte: 17 FB 1993. Depois, pichei o mesmo mais umas três vezes nos muros na estrada que dava pra farmácia. O céu estava escuro parecia que ia chover no meu jardim, então decidi que de início era suficiente e retornei pelo mesmo caminho. Daquele dia em diante eu passei acreditar que tudo que acontecia, qualquer imprevisto, privações, convergiam pra um objetivo maior na minha vida, logo, eu não estava no controle de nada, então passei a deixar o destino me guiar em tudo. Tal filosofia de vida me poupava energia e frustrações desnecessárias.   

Enquanto voltava me sentia mais leve, como se tivesse tirado mais um peso das minhas costas. Uma tempestade se formou e caiu sobre os meus ombros aquela manhã; chovia tanto que eu mal conseguia ver o caminho à frente, por sorte eu conhecia aquele caminho assim como um doente crônico conhece os tratamentos e sintomas de sua mazela. Carlos salgado era a minha moléstia e eu precisava me curar, a primeira dose eu tinha tomado aquela manhã, no entanto, era preciso esperar uns dois ou três dias até a próxima dose. 

Enfrentado aquela chuva, do nada, um guarda chuva surgiu sob minha cabeça. Eu não quis saber quem segurava o guarda chuva, pois não importava. Ele me acompanhou até em casa e depois desapareceu. Talvez, nunca saberemos de quem eram as mãos bondosas que seguravam aquele objeto que amenizou minha tempestade aquela manhã. Talvez a leitora saiba e me diga, porque eu mesmo não sei. Ao chegar a minha casa, minha mãe ainda não tinha dado por minha falta; saltei o muro, pulei a janela do meu quarto, troquei de roupa e, quente e segura eu dormi o sono dos justos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo VIII




O mais estranho de tudo que Carina me dissera, era o fato dos outros três rapazes não terem desconfiado do bendito filho do delegado sobre o que aconteceu com a gente. Qualquer idiota juntaria os fatos e concluía que ele era o culpado, já que aquele crime foi por muito tempo assunto principal na cidade. Ou eles estavam protegendo o amigo, ou também estavam sendo enganados, mas não era possível que eles não ficassem curiosos a respeito. Aquela história estava mal contada, ainda tinha muita coisa que eu não sabia, mas Carina talvez não tivesse pensado nesses por menores, ou, ela ainda estava me escondendo muita coisa, sei que pra me proteger, mas se tivesse eu precisava saber. O problema é que ela sendo a mais velha, eu tinha pouca autoridade sobre ela e não tinha coragem de perguntar; e também, depois daquela nossa conversa esclarecedora no quarto, ela simplesmente nunca mais tocou no assunto e eu relevei, pois estava vivendo um momento tão feliz que até meu desejo de vingança tinha desaparecido, embora não pra sempre.  

Os dias se passaram, a vida escolar estava bem normal, a caminhada até a escola, no entanto, tinha muito mais graça, pois eu e Carina conversávamos o percurso inteiro. Ela me falava do seu namorado incrível, embora eu não pudesse conhecer, por questões de logística ou coisa parecida. Eu tava crente que ia conseguir levar uma vida perfeitamente normal, sem surtos de raiva, sem desejos de vingança, até os sonhos horríveis tinham se esvaído pra qualquer lugar que eu prefiro não comentar. Parecia que minha vida estava finalmente entrando nos eixos, mas uma vez ferida, a cicatriz sempre estará lá pra doer nos dias frios e foi o que aconteceu.   

No meu aniversário de quinze anos, eu acordei diferente, como se eu carregasse no meu corpo bem mais demônios do que o normal. Eu me sentia cheia, estressada, não suportando sequer a voz da minha mãe. Parecia que tudo tinha voltado. Eu passei a manhã inquieta, como se algo me incomodasse, porém, apesar de eu saber o que era, esse algo não tomava forma; era um demônio sem forma e sem nome. E o pior de tudo é que os meus afazeres do cotidiano é que era o inferno. Não tive paciência pra tomar banho, colocar meu uniforme, ir à escola, mesmo assim, fiz tudo isso. Na estrada pra escola, a cada passo que eu dava, eu sentia que minha inquietude se intensificava e os pensamentos mais sombrios alimentavam aquele demônio o tornando mais forte.  

Na sala de aula, nem mesmo a cadeira parecia que me cabia e também a ideia de ficar sentada não me agradava. Já na primeira aula, pedi licença pra ir ao banheiro, pois eu sentia que toda energia do meu corpo convergia pra um único ponto e eu ia explodir. Em vez de entrar no banheiro feminino, algo mais forte do que eu me direcionou pra o banheiro masculino. Lá, um menino magricelo, com um uniforme pouco higiênico e o rosto cheio de espinhas fazia xixi. Ele me olhou assustado, mas ficou parado. Sem controle dos meus atos, eu agarrei no seu membro e comecei esfregar nas minhas partes intimas, como se aquilo fosse exorcizar o demônio em mim. Aquele menino pouco belo parecia que carregava o mesmo demônio em si e arrancou minha calça, levantou minha blusa e começou me lamber como um animal feroz. Eu, mesmo provocando aquilo, não buscava entender, não havia espaço em mim pra reflexão alguma. Então ali, em cima do vazo, fizemos sexo de forma brutal e rápida. Depois, eu simplesmente saí do banheiro arrependida como nunca, com nojo de mim, com nojo daquele garoto idiota, com nojo daquela escola, da minha cadeira, de todo mundo. Eu não ia suportar voltar pra sala e olhar praquelas pessoas com mais aquele pecado nos ombros. Na verdade, se eu pudesse simplesmente nunca mais ver ou retornar em qualquer lugar que eu estive naquele dia que antecedera aquela loucura, eu faria de bom grado. Eu tinha nojo de homens, de sexo, de tudo, mas havia dias que aqueles demônios se apoderavam de mim e me controlavam. 

Mas eu tive que voltar pra sala e era tudo diferente; o erro estava escrito nos meus olhos de arrependida. Quando me acalmei, a preocupação de que aquele moleque que certamente nunca tinha visto uma mulher na vida contasse pra alguém e a escola inteira ficasse sabendo me parecia mais perturbadora do que o ato em si. Pronto, o restante daquela tarde foi uma tortura, pois além do receio, eu sentia uma necessidade enorme de correr pra casa e tomar um banho de sal, de água quente, de qualquer coisa pra tirar todos os vestígios de mim daquele dia horrível. Ao refletir sobre tudo, eu me dei conta que havia perdido, talvez pra sempre, a beleza e a inocência das paixões da infância, dos amores do inicio da adolescência. Eu tinha perdido toda a poesia do amor, só me restava aquele desejo visceral, animal, que não me fazia bem. Se ao menos eu soubesse que sexo era natural, talvez tivesse sofrido menos.   

Quando finalmente o sinal tocou pra sairmos, eu tentei correr pra fora o mais rápido que pude de modo a não encontrar aquele garoto horroroso na saída, mas foi inevitável; ele tava no portão com um sorriso que eu juro que eu se eu tivesse com uma lâmina bem afiada nas mãos, eu tinha simplesmente arrancado aquele sorriso da cara dele sem remorso algum. Se fosse fácil matar as pessoas, ele seria minha segunda opção. Eu baixei a cabeça envergonhada e passei por ele, mas ele ainda teve a audácia de pegar na minha barriga. Que filho da puta! Logo me enchi de ódio e pensei que todos os homens são realmente idiotas execráveis. Se antes eu já amargava um ódio pela raça, ali, se completou a minha aversão profunda. Quando tive consciência daquelas ideias absurdas que pairava meus pensamentos, eu compreendi que se eu tinha alguma dúvida quanto ao fato de que era uma psicopata, já não tinha mais.  

Justo no dia dos meus quinze anos, em que eu devia comprar um vestido de princesa, dançar com um príncipe galante e receber presentes de pessoas que me amam, eu fiz a maior besteira da minha vida. Também não ia ter festa, e mesmo que tivesse, eu certamente não iria conseguir comemorar, já que carregava o maior pecado dos homens me corroendo por dentro. Eu me sentia a pior vadia do planeta e minha ida para o inferno era tão certa quanto o amanhã que se levanta. Mas a tarde passou, demorou um século, mas passou. 

Quando cheguei a casa eu corri para o banheiro e lá tomei banho por mais de uma hora. Minha mãe já estava acostumada com meus banhos demorados, e quando eu sai, se encontrava meu pai, minha irmã, minha mãe, com um bolo bonito com o meu nome como se fosse o ordem em progresso da bandeira nacional. Quando presenciei o sorriso de minha mãe e seus olhinhos lacrimejando de felicidade, eu simplesmente desandei a chorar. Apesar de tudo, minha mãe tinha o poder de fazer me sentir melhor. Então, como toda debutante, Carina tinha conseguido um vestido rosa bonito, eu odiava a cor, mas naquela noite abri uma exceção. Eu usei aquele vestido e senti que ele até tinha me caído bem. E também não podia negar um pedido de Carina, já que eu tinha perdido os quinze anos dela. Naquela noite, eu soprei velas, fiz pedidos, como qualquer sonhadora faria. Vivi momentos de intensa felicidade no meu baile de debutantes; me senti amada e nada como o amor pra acalentar um coração que arde em desespero. Só me faltava um príncipe, mas em nossa época eles já não existiam mais.

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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo IX






Após meus quinze anos e de viver momentos tristes e felizes, era preciso continuar a vida. Eu tinha tanta coisa pra fazer, eu tinha sonhos pra realizar, vingança pra praticar. Mas o que eu mais queria mesmo era conhecer o namorado de Carina, já que ela falava tanto dele. Por sorte, nenhum boato que me difamasse correu nos dias que se seguiram. Talvez tivesse alguma honra naquele jovem de beleza bem duvidosa, mas talvez fosse só uma questão de tempo. 

No intervalo de aula de um dia comum, eu procurei Carina, mas não a encontrei em todo o colégio, então julguei que ela tinha matado aula pra encontrar o namorado. Eu precisava conhecê-lo, então, resolvi matar aula também e me direcionar até a praça, que era o point onde todas as alunas se encontravam com os namorados. Não digo que era simples fugir do colégio, mas também não era difícil; havia uma falha no portão dos fundos cuja uma pessoa relativamente magra passava tranquilamente e todos os alunos conhecia, inclusive o vigia, mas ele era um tarado que acobertava as indisciplinas dos alunos, principalmente das meninas.  

Provavelmente alguém daria por minha falta na sala, mas eu tava pouco me lixando. Tem dias que a gente não tá nem ai, que estamos tão seguros de nós mesmos que parece que os obstáculos não existem e que todos os erros são passíveis de serem cometidos. Mas também tem dias que a gente cai em calabouços com as feras do dia a dia e parece que tudo que a gente faz são bobagens e nada se justifica. Mas aquela tarde em especifico eu me sentia capaz de seduzir o mundo, então coloquei a mochila nas costas e resolvi ir de encontro à liberdade. Sentia-me tão segura que abracei uma desconhecida no corredor da escola e continuei andando sem esperar pra ver a reação dela. Quem dera a vida fosse repleta de dias assim. Usei a saída secreta e fui até a praça. Quando cheguei, comprei um sorvete de um vendedor engraçado que fazia piada dos defeitos alheios e sai procurando Carina, que certamente estaria em algum banco da praça trocando beijos e carícias. Olhei por toda parte e nada dela, então resolvi sentar e esperar, certamente uma hora ela apareceria. Quando me deparei naquela praça sozinha, compreendi que era preferível que eu tivesse ficado na escola, pois matar aula sem um esquema, ou uma amiga pra fumar ou cometer qualquer erro de adolescente, não tinha graça nenhuma. 

O sorvete se foi e eu fiquei feito uma boba olhando para o horizonte embaraçada com as pessoas que passavam, pois aparentemente eu não tinha objetivos ali e não sabia nem mesmo onde colocar as mãos, então dispus minha mochila ridícula no colo e fiquei mexendo no chaveiro dos ursinhos carinhosos que eu tinha mesmo sem querer. Sem nada pra fazer, resolvi observar as pessoas que iam à padaria e imaginar as profissões delas. Notei que aquela cidade era em sua maioria de funcionários públicos e comerciantes sem grandes aspirações na vida. Ali sentada, como eu não tinha um relógio o tempo não passava, o sol não baixava, cada vez menos pessoas passavam por ali e de feliz e segura de mim, eu passei a uma idiota na praça totalmente sem rumo, mas como não podia voltar pra escola, lá fiquei.  
- “Sai que é tua Taffarel!” De repente senti uma bola bater no meu peito com uma força razoável ao ponto de me faltar o fôlego. 
- Desculpa, achei que você tinha reflexo como os de Taffarel. Foi burrice minha. 
Um garoto, aparentemente da minha idade, trajando um uniforme de time de futebol tomou a bola que eu segurava com uma raiva de matar, deitou-se no banco da praça e, sem razão nenhuma, deixou sua cabeça cair no meu colo. Eu não tava entendendo nada. Ele era um idiota, com certeza, pensar que eu ia agarrar aquela bola jogada com aquela força, mas ele era bonito e engraçado, não podia negar esse fato. 
- Um dia vou ser tão famoso quanto Taffarel, treino todo dia e ainda vou conseguir um teste em um time grande da capital. - Dizia ele pouco se importando com minha presença. Eu odiava futebol, aquela conversa não tinha sentindo nenhum pra mim, sequer sabia quem cargas d’água era Taffarel, mas ele era encantador. 
- Você fica bem bonita desse ângulo, sabia? 
Eu quis rir, mas me contive a fim de não demonstrar insegurança. De repente ele nota alguma coisa e levanta-se, faz três flexões e pula com destreza o banco da praça, mesmo sendo óbvio que dá a volta seria muito mais fácil. Eis que, quando eu noto, ele tá subindo no pé de Juá com um pequeno pássaro na mão indo devolver a criatura ao seu ninho. Eu tava ali há algum tempo e não tinha notado o passarinho no chão e ele, totalmente inquieto, aparentemente incapaz de prestar atenção em qualquer coisa, notou a dor do pássaro e salvou sua vida. Aquilo pode não ter sido muito, mas não saiu mais da minha cabeça. Aquele garoto tinha realmente seus encantos. 
Após o ato de heroísmo, ele tomou novamente sua bola e, assim, do nada, deu uma pequena mordida no meu ombro, fez mais três flexões e se foi. Depois que ele desapareceu no horizonte, eu consegui falar: “Seu idiota!”, mas ele já tinha ido embora. Eu fiquei por uns bons minutos repetindo mentalmente o que ele havia me dito: “Você fica bonita desse ângulo, sabia?” Eu nunca tinha ouvido algo daquele tipo. Eu nunca, jamais, tinha me sentindo atraente ou qualquer coisa que o valha. Enfim, aquele menino tinha deixado sua marca em mim. Sem contar que juízo ele não tinha muito não, logo, tínhamos muito em comum.  

Depois de horas esperando, eu ouço a voz de Carina no outro lado da praça, quando olhei, feliz porque iria conhecer o seu namorado, a vi saindo de um carro cinza com uma amiga, em seguida dois rapazes desceram, todos contentes até demais e se abraçando. Assim como naquele dia na delegacia eu reconheci inconscientemente o filho bandido do delegado, eu reconheci aqueles dois rapazes, embora não tivesse certeza, mas se pareciam muito com os amigos de Tati que tinha nos levado pra dá uma volta. Com aquela visão, tudo se explicava; Carina estava apaixonada por um dos rapazes na época e continua com ele mesmo depois de tanto tempo, logo, ele com certeza havia pedido pra ela não contar nada pra ninguém. Carina, mesmo sem perceber era uma peça de xadrez naquela história e eles estavam manipulando-a pra que ela não denunciasse o amigo deles, logo, todos aqueles rapazes eram cúmplices, não pelo crime, mas por acobertar aquela barbárie. Carina me parecia tão feliz e apaixonada que eu sei que qualquer coisa que aquele rapaz pedisse ela faria de bom grado. Eis que me veio à dúvida sobre aquela história que ela tinha me contado de ameaças. Mas logo depois, me sentindo mal por pensar uma coisa horrível da minha irmã, eu me recompus e me convenci que ela era só um bispo manipulado pra proteger o rei, talvez até inconscientemente. Sem contar que tinha o carro que tentou nos atropelar. Naquela hora eu tentava controlar meus pensamentos, por conta que milhões de coisas passavam pela minha mente loroteira. Sentia que tava vivendo trapaças, jogos de mentiras, assim como acontecia na novela das oito. E se tudo tivesse sido armado pra eu acreditar que Carina estava sendo ameaçada e não tivesse coragem de mexer naquela história, já enterrada pela justiça? Implorei pra que Deus tirasse de mim aquelas ideias absurdas, então me concentrei, foquei no objetivo, senão tinha corrido e deixado mais um pobre jovem sem poder usar brincos. Se bem que eu me sentia tão bem aquele dia que provavelmente não teria feito isso.  

Esperei que os rapazes se fossem e corri em direção a Carina, que quando me viu tomou aquele susto que teve que sentar no banco pra se recompor, provavelmente porque ela jamais imaginara que eu tinha coragem de matar aula ou que a seguisse. Eu não esperei que ela me dessa aquela bronca de irmã mais velha quando descobre que está sendo seguida e mandei logo na lata: 

- Pode começar logo tentar me explicar o que está acontecendo, pois eu estou muito confusa, e isso não tá fazendo bem pra minha cabeça.

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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo X

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- Não há nada pra ser explicado. Agora você sim, tem que me explicar o que está fazendo aqui, matando aula. 

- Na verdade estamos no mesmo barco. O que eu quero que me explique é porque que esses caras com quem você chegou se parecem muito com os mesmos que nos levaram pra dá uma volta de carro naquela noite. Se forem eles, nós temos muito que conversar. 

- Você tá certa, são eles mesmo. 

- Então, como você continua se encontrando com eles depois de tanto tempo e simplesmente não fez nada pra que a morte de Tati não ficasse impune. Isso é o que eu não compreendo. 

- É muito simples! Eles também não querem se envolver e criar desavenças com o filho do delegado, pois segundo me contaram o delegado não costuma brincar em serviço; ele simplesmente acaba com qualquer um que se meta no seu caminho. Se a gente for investigar, ou mesmo tramar qualquer coisa pra pôr o desgraçado na cadeia, nós é que somos mortos. 

- Mas eles continuam amigos do filho do delegado? Refiro-me a eles, porque não consigo cogitar a possibilidade de você continuar vendo aquele monstro sem lhe arrancar um braço, uma perna ou outro membro mais útil. 

- Claro que não. Depois do acontecido, simplesmente nós nos afastamos, embora sejamos constantemente ameaçados, mas fora isso nós não tivemos mais contato. 

- Bem que o desgraçado podia mandar bilhetes, assim, teríamos mais uma prova contra ele, não é mesmo? 

- É, mas ele é esperto, só me contata pessoalmente quando me encontra, ou por bilhetes confeccionados com recortes de letras de revista. É um tanto infantil, mas funciona. 

Bem, minha irmãzinha, eu não tenho mais dúvidas. Vamos pra casa que hoje estou me sentindo leve como uma pluma. 

Vejo que tá mais feliz mesmo. Pode me contar o que você realmente veio fazer na praça em horário de aula? Hum! Será que arranjou alguém?! Conte-me tudo, não me esconda nada. 

- Ora, não seja maliciosa, eu não conheci ninguém. – Disse seriamente, ciente que realmente não tinha realmente conhecido ninguém de especial. Dirigimo-nos pra casa sem pressa, pois ainda tínhamos um pouco de tempo. Apesar de eu ter dito que não me restava dúvidas, eu ainda fiquei com uma pulga atrás da orelha. Não era possível que eles aceitassem aquilo de braços cruzados, a não ser que não se importassem com Tati, ou realmente temiam a morte. E quem não teme? 

Quando cheguei a casa, eu não pensava mais no filho do delegado, não pensava em nada, só naquele singelo elogio daquele garoto na praça. Será que eu realmente possuía algum encanto? Depois de mais de dois anos, eu resolvi me olhar no espelho, até então eu não tinha motivos. Quando me deparei com minha imagem de frente o espelho, vi uma garota de quinze anos com aparência um pouco surrada; meus grandes olhos grandes pareciam assustados, meus lábios sem brilho, minhas bochechas pareciam sem vida, as sobrancelhas por fazer, mas aquele furinho no queixo ainda se encontrava lá, deixando meu rosto todo proporcional. Do nada, me olhando, eu resolvi sorrir, fazia mais de dois anos que eu não via o meu próprio sorriso e que sorriso lindo eu tinha! Mexi no cabelo, sorri novamente, virei o rosto e me olhei de soslaio e notei que, sim, eu tinha meus encantos. Depois de meia hora em frente o espelho, experimentado batons, sombras, brilhos, blush, feliz como nunca, eu deitei, abracei o travesseiro e sorri ainda que não encontrasse motivos aparentes. Por sorte, minha mãe apesar de eu não usar maquiagem alguma, tinha fé que um dia eu mudaria de ideia e sempre me comprava um coisa ou outra. 

No dia seguinte, acordei cheia de vida, tomei banho meia hora antes do horário costumeiro, sentei em frente à penteadeira, me maquiei, penteei os cabelos, coloquei uma tiara rosa, uma blusa que delineava meu corpo e guardei a do uniforme na mochila; olhei meu bumbum, era um bumbum razoável, e segura como nunca, sai do quarto outra pessoa. Minha mãe ao ver minha nova figura, simplesmente me abraçou e chorou; certamente ela pensou que me tinha de volta. Carina, esta estranhou e me beliscou, fazendo um escândalo, gritando: 

- Quem é ele? Pode me contar! Val tá namorando! Val tá namorando! Deu-me vontade de voltar pro quarto e tirar tudo, mas me contive. 

 Repetindo a caminhada de sempre até a escola, as pessoas quase não me reconheciam e me olhavam diferente, senão, era eu que me sentia diferente, então o mundo era diferente também. Já na escola, no intervalo, direcionando-me para o refeitório já com a merenda, eu ouço novamente: “Sai que é tua Taffarel!” Minha memória logo entrou em ação, então ciente de que outra bola viria em minha direção, joguei a merenda para o alto no intuito de dessa vez agarrar a bola e evitar um desmaio, mas era só a voz, a bola não veio, no entanto, toda aquela comida quente já estava em direção o sol e iria se espalhar na cabeça de alguém, pois o corredor estava lotado. Por ironia do destino, a agraciada com aquele prato na cabeça fora a mesma magricela de outrora. Ela, ainda com ressentimentos passados, adicionados os novos, com razão voou pra cima de mim com uma ira justa e nos bolamos pelo pátio sem controle. Fazia tempo que eu não brigava e aquilo me fez um bem danado. Depois de um tempo, com os mesmos aplausos e gritos de incentivos, eu fui arrancada do fuzuê por aquele mesmo garoto da praça. Depois que me recompus, ele pediu desculpas, pois sabia que tudo tinha sido culpa dele e foi acudir a pobre garota magricela e então, foi quando eu levei a verdadeira pancada, ele a beijou na boca - e pronto, aquele silêncio quando se constata um fato novo e indesejável tomou conta de mim. Fui pra diretoria mais sequer ouvi o que me diziam, sei que o garoto assumiu a culpa e acabou que levei uma advertência, mas foi só...

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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XXIII





A verdade é que a criatura pode escolher ir por caminhos diferentes do criador. Eu não precisava me tornar a figura deprimente e destruidora de vidas como Carlos Salgado. Sem contar que não teria coragem de encarar a minha imagem no espelho novamente depois de cometida aquela loucura. Minha vingança estava concluída. Carlos Salgado, naquelas condições, não tinha como manter um convívio sadio em sociedade, de modo que a justiça não teria como liberá-lo. Não se existisse realmente justiça. Quando me vi com aquela tesoura enorme em contraste com minhas mãos pequenas e frágeis, eu descobri que muitas de minhas ações não condiziam com a minha aparência. Eu era uma moça bonita, jovem, com grandes chances ainda de tomar novos rumos pra minha existência, não podia me condenar a me tornar um monstro como Cabo Carlos Salgado. Ao observar novamente aquele lugar escuro, me deu asco. A boca cheia de areia de meu algoz me provocou uma sensação estranha no estômago. Vomitei enquanto chorava, porém não permiti que ele percebesse minha fragilidade. Coloquei a tesoura na mão esquerda livre do miserável e deixei em suas mãos a escolha de arrancar a razão de sua desgraça:

- Você escolhe: arranca as amarras e se liberta e retorna para o seu quarto, se encontrar o caminho. Bem, ou..., faça bom proveito desse instrumento que te ofereço. Se você acha que diante de tudo que fez, merece ainda continuar vivendo, a escolha é sua. Eu me isento da responsabilidade, porém, com a consciência de que fiz tudo que podia.  

Deixei Carlos Salgado eu seu calabouço, sem pestanejar, em choque profundo, com trajes de louco, os olhos grandes e verdes esbugalhados e uma grande tesoura de jardineiro na mão esquerda, embora com os pés e a mão direita atados. Até ele sair daquele transe, daria pra eu ir até meu triste quarto naquele lugar de loucos e me manter segura. Não existiam chances de ele me seguir, ou mesmo de me encontrar no manicômio. Mas o mais importante: eu pude ver nos seus olhos que ele não teria mais coragem de pôr as mãos em mim, não depois de tudo que eu havia feito. Se for só uma ilusão, não tinha como eu saber, mas optei por acreditar. E realmente nunca mais o vi, nem ouvi falar dele. Menos mal... 
Depois de mais seis meses naquele local, sem que eu tivesse arranjado brigas desnecessárias, nem surtado, já que não precisava mais, eu recebi alta - e daquela vez - com a plena certeza que nunca mais retornaria pra um lugar como aquele. 

Cabo Carlos Salgado, eu nunca mais soube de seu paradeiro. Não sei que uso ele fez da tesoura; se si livrou das amarras e achou o caminho de volta, ou se tirou a própria vida, ou mesmo se optou por não deixar aqueles túneis. Jamais saberemos o fim do desgraçado.  A pulseira do Palmeiras eu deixei lá, de modo a me livrar de vez das lembranças daquela noite. Bem como a fita e a boneca. Sai de lá livre, como se finalmente tivesse tirado realmente uma tonelada das costas.

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Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo último




Eu tinha dezesseis anos, era bela, fora dos padrões ridículos, mas tinha meus encantos. Tinha cabelos longos e lisos e um sorriso de dá inveja a qualquer uma. Eu gostava da Malhação, do Zezé de Camargo, Mamonas assassinas e das Patricinhas de Bervely Hills, como tantas da minha idade. Eu passeava aos fins de tarde com minha irmã Carina nas ruas de uma nova cidade, de um novo mundo, de um novo começo e conversávamos sobre as mais insanas banalidades e sorríamos como nunca. Lá, cada dia realmente era o novo dia, sem remoer o passado dolorido. O bom da vida é que quase sempre existem chances de recomeçar. O passado pra gente era passado, sequer tocávamos mais no assunto. E como a vida real se difere de contos de fadas, as pessoas da nossa antiga cidade se mantiveram nas lembranças por um tempo, mas depois desapareceram. As pessoas se vão, é natural. A gente se afasta, ainda que sem querer, e vai aos poucos se esquecendo das pessoas que surgem, marcam ou não a nossa história - e naturalmente se vão. Mas novas pessoas surgem e o ciclo recomeça. Isso nunca vai mudar. Pessoas eternas só permanecem nos corações de tolas que amam demasiadamente como eu. Mas quem disse que eu preciso revelar que ainda me lembro; que tenho saudade, que queria mais um abraço, ouvir a voz mais uma vez, que queria apreciar os olhos, sentir o “cheiro de gente” dessas pessoas. Quem disse que a gente precisa dizer que queríamos só mais uma vez assistir o clipe November Rain coladinha com certas pessoas. Quem disse? Mas essa parte da minha história só cabe felicidade e a saudade sem a possibilidade de que vamos nos ver amanhã machuca demais, então é melhor não pensar nisso. E mesmo, há ainda muita água pra correr. Minha família mudou de cidade, pois queríamos e precisávamos de um novo começo longe daqueles que conheciam a trágica noite de 93 e os acontecimentos posteriores, mas a cidade ainda estava lá, eu poderia voltar em outra época. 

A verdade é que eu era bem feliz naquele novo mundo. Eu corria sem ser tarjada de louca. Eu gritava aos quatros ventos próximo do lago e o que as pessoas enxergavam era somente felicidade - e era só o que eu sentia. O mundo exigia de mim somente que eu levasse uma vida normal, com preocupações realmente difíceis como que batom combina melhor que o top rosa e os enfeites de cabelo violetas. Naquela nova cidade eu respirava o sol com tanta intensidade sem me preocupar com os demônios psicológicos do passado. Os selvagens com seus tambores ainda surgiam em meus sonhos de vez e sempre, mas eles apenas dançavam “Girls Just wanna have fun” comigo, e eles eram tão coloridos por fora como minha alma por dentro. Tinha dias que a saudade batia, que eu lembrava de Tati, mas tinha dias que eu queria só viver as cores da realidade, amando intensamente a Deus e o mundo. A única coisa que eu mantinha do passado era o gosto pelo Bryan Adams. É que o timbre doce da voz dele me proporcionava uma calmaria que só vivenciando pra entender. Please forgive-me! 

NOTA FINAL 

Nunca saberemos o que eu inventei e o que de fato fora real nessa história que contei nessas poucas páginas... Quem sabe eu contei essa história do meu jeito apenas no intuito de superar o verão de 1993 de forma mais artística. Quem vai saber? E também quem precisa de realidade quando se tem uma imaginação fértil. Viver de realidade é muito chato. O mundo é um lugar escuro e o coração é uma caixa de fósforo com palitos finitos, não podemos desperdiçá-los, nem podemos economizá-los, pois resfriam com o tempo.  

VALQUÍRIA DEODATO DE SOUSA 



Lista de pequenas coisas importantes que ainda não fiz




Nunca fui ao cinema, apesar de amar em demasia a sétima arte. Mas já assisti a hora do lobisomem em pé na janela da vizinha sob o sol do meio dia.
Nunca assisti uma peça de teatro, mas já apreciei diversos reisados encenados por atores graduados pelas tradições.
Nunca apreciei uma exposição de artes plásticas, mas já assisti vislumbrado diversas vezes o pôr do sol nas dunas de jericoacoara.
Nunca viajei de avião e tenho certeza que morro de medo, mas já balancei numa rede toda feita de retalhos pela minha mãe.
Nunca pilotei um carro, mas já guiei uma carroça governada por um burro de vontade própria.
Nunca sai do nordeste, mas já li mais de duzentos livros.
Nunca proseei com um de meus ídolos como tanto sonho - e choro quando se vão sem que eu tivesse a oportunidade de dizer o quanto os admirava. Mas já tentei furtar Os demônios de Petersburgo, único livro de Dostoiévski que ainda não li, da pequena biblioteca de Rachel de Queiroz na fazenda Não me deixes. E tenho certeza que ela entenderia; era uma edição de José Olympio capa dura, irresistível. O livro tá lá trancado, até porque senão tivesse, estaria aqui comigo.
Nunca vivi nenhum de meus amores no plano real, mas amei, como amei.
Não houve alguém no mundo que carregasse consigo mais paixões - e as poucas coisas que odiei, amei o fato de odiá-las.
Nunca fiz tantas coisas, mas já vivi demais...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Coiote



Eu era uma gota e desaguei em um sopro.
Agora ao inspirar sinto que o ar passa pelos meus pulmões
e simplesmente ecoa no meu vazio,
na minha falta de emoções,
e retorna poluído pelos poucos demônios que
ainda albergam meu intestino.
Eu era muito pequeno e me achava um oceano,
até que a bigorna da realidade me bateu as fuças
e me limitou ao meu tamanho real.
Nada mais resta, nada mais sobra em mim.
Sinto-me como um tronco oco no meio do deserto;
um tronco tão ridículo que as corujas se aproximam,
notam que nem mesmo sirvo pra camuflá-las
Então batem asas a procura de um galho mais seguro.
Se algum dia tive flores, se algum dia exalei algum perfume,
já não sinto que tenho - e os morcegos não polinizam flores murchas.
Os corvos que insistem em povoar meu deserto violeta,
sequer temem o espantalho que sou; eles pisam, dançam,
chamam o bando, e à meia noite, no rufar dos tambores,
me oferendam aos demônios do oitavo círculo do inferno,
mas sou prontamente expelido de volta,
pois não há papel que um homem vazio possa desempenhar no submundo.
Até mesmo o último coiote do deserto,
depois de longos dias de caçada inútil,
já no limite de sua resistência, captura um roedor raquítico,
- e a fim de saborear seu alimento longe de olhares inimigos
se aproxima do tronco cinza que eu sou,
deita a presa nas poucas raízes que me restam
e logo percebe que o vazio em seu estômago
não se equivale ao vazio em mim.
Então, se utilizando de seus últimos movimentos,
ele arrasta sua valiosa presa até aquele vazio em mim e, ali mesmo,
sobre minhas raízes, ele profere o último suspiro
ciente de que tinha feito tudo que podia.

Torto



Amar a mim? Não aconselho!
Sou inconstante, temperamental,
Desvairado, volúvel, 
Eu posso amar-te em segundos
Sem razão nenhuma,  
E posso odiá-la horas, 
Mesmo que me dê todas as razões para amá-la. 
E sou daqueles egoístas cujo 
se importa apenas com as próprias razões.  

Amar a mim? Não, não devia. 
Eu não sigo a ordem dos demais no espaço, 
Tão pouco no tempo;
Posso entregar-te flores em datas comuns
E esquecer de propósito dias importantes.
Posso viver de futuro, de esperanças,
E morrer de presente, por mais belo que seja.

Não! Amar a mim, terrível ideia. 
Não compreenderia;
Posso acordar para ouvir as cores dos pássaros
Nas noites de lua. 
Vê que loucura? 
Posso querer correr na chuva, 
Posso querer passar horas a vislumbrar
Joaninhas em um tronco qualquer 
Pois elas me trazem lembranças 
de momentos que não vivi.  
Vê que loucura?  

Amar a mim? Não, não devia.
Eu sou fraco, medroso, 
Precisaria que tivesse coragem por dois; 
E vivo de sonhos, sou um sonhador.
Sem contar que carrego a pior das moléstias:  
Sou um romântico demasiadamente racional.
E ainda há o mais grave: EU PENSO

A arte da escrita

Pintura de Remédios Varo 

O entrave da absorção e venda da produção literária brasileira não se encontra na falta de produção, e sim, na falta de qualidade da ficção nacional, em que a maioria dos autores buscam apenas imitar os Best Sellers estrangeiros, o que tira a credibilidade e também diminui a confiança do leitor nos escritores nacionais, em vez  de buscar construir uma identidade própria. Há assim, uma larga produção de imitações e não temos um autor vivo que reflita uma identidade nacional, que seja original, que confie no bordão de Leon Tolstoi: “fale de sua aldeia e estará falando do mundo”.

Há também um grande problema, não só na literatura, na arte em geral, que é a falta de confiança na inteligência do leitor ou consumidor de cultura brasileira. Podemos comprovar isso nos seriados brasileiros de comédia em que uma piada, mesmo sendo chula e clichê, além de ser contada, precisa ser explicada duas três vezes. Isso ocorre porque os produtores desdenham da inteligência dos telespectadores e por receio explicam ou alongam a piada até que ela se torne sem graça. Balzac dizia: "até a mais celebre ideia, se repetida muitas vezes se torna ridícula." O mesmo não ocorre em seriados americanos, em que não há a mesma preocupação, então usam e abusam do sarcasmo e metáforas, ou seja, confiam na bagagem cultural de quem assiste e deixam a cargo do consumidor a compreensão.

Eu sonho um dia em que esse país e os demais da América latina ostentem novamente uma leva de escritores como nos anos setenta no chamado "bum latino americano". Isso só depende de escritores com coragem, ousadia e confiança. Em vez de ficarmos lamentando por sermos um país que não lê ou que só lê autores estrangeiros, tentemos produzir uma literatura que seja suficientemente boa pra cativar novos leitores. Pode ser que essa luta seja como a de Dom Quixote, mas precisamos acreditar que estamos no "melhor dos mundos" de Voltaire.
 Assim como um time de futebol ganha um grande número de torcedores em uma fase campeã, novos leitores surgem fascinados com grandes obras produzidas por escritores de qualidade. E leia os clássicos até o final, como diz Leandro Karnal


[...] Escrever é como um vício, impossível de ser superado, impossível de ser saciado. Quando escrevo, me alimento por um dia, no máximo dois das sensações daquele texto, mas logo depois me bate a abstinência que me vem travestida de descrença no meu talento, e se não escrevo sinto como se eu não existisse por completo; como se eu fosse uma folha seca e qualquer brisa fosse capaz de me carregar pra onde bem entendesse.
Não é uma questão de vaidade, não é para os outros, embora meu objetivo seja ser lido; eu escrevo pra mim - e porque preciso. Somente quando escrevo eu sinto que consigo transcender a dura realidade de que eu não passo de um pedaço de carne intragável aos abutres e demônios que me rodeiam. Sem contar que também escrevo pra expurgar os demônios, ou melhor, pra justificá-los.
E não é todo dia que me sinto apto pra escrever, pois não é só apertar teclas, eu preciso ter razões, sentimentos, objetivos, senão o ato de escrever se assemelha ao hábito de comer sem ter fome. "A arte é sangue, é carne." Graciliano Ramos.

Dia da criança em mim




"Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida"

Até meus oito anos eu vivia numa casa sem energia elétrica e ia dormir assim que a noite trazia consigo a escuridão, mas acordava às cinco da manhã tão feliz por ser dia e com uma ânsia de viver, pois não pudia perder nenhum segundo da luz do sol. 
Eu levantava cheio de energia, apesar, de muitas vezes ter apenas o café “churro” para tomar, como diz minha mãe. Eu adorava o cheiro da manhã, o ar frio em contraste com o sol forte das primeiras horas do dia, o barulho da colher no bule que evidenciava que tinha de fato o café. E não sinto que perdi nada com isso, pois sem luz e um mundo externo visível, só me restava imaginar - e como eu imaginei...

Também enquanto criança, lembro de ouvir boquiaberto um conto de fadas intitulado "a gata borralheira" na voz doce de uma vizinha que tinha uma habilidade louvável de contar a mesma estória de forma diferente inúmeras vezes. E como só vim a ler o primeiro livro com vinte e três anos, talvez tenha sido ela que me instigara o gosto pela literatura. 

Minha infância tornou-me quem eu sou: todos os medos, todas as fantasias, a capacidade de criar, tudo fora desenvolvido enquanto criança. Eu não tinha livros, televisão, vídeo game, tinha apenas minha mente e mundo real a minha volta pra fugir da realidade.  
Recordo-me de passar horas sentado próximo as plantinhas que cresciam no inverno a beira da estrada, sonhando acordado que eu tinha a habilidade de encolher, então os arbustos se tornavam florestas, as poças de água transformavam-se em rios, e eu era um soldado de guerra com a missão de salvar prisioneiros, como no filme do Chuck Norris que eu via na casa do vizinho.   
Desde criança, sempre fui um apaixonado galante, todo ano, invariavelmente, eu desenvolvia um amor daqueles dos cavaleiros da Távola redonda por alguma garota da escola. Eu sonhava sendo um cavaleiro, que salvava as princesas de maus feitores tão comuns quanto eu. Somente eu via a nobreza das princesas, pra todas as outras pessoas elas não passavam de umas plebeias que faziam cocô como todo mundo. Eu escolhia não acreditar e tudo era tão real e palpável.   

Quando criança eu tinha medo de carro preto, de estrela cadente, de chupa cabra, do "assubiador", de ficar de vovó em brincadeiras de roda e muitos outros medos, mas hoje sou muito grato à cada um deles, pois me proporcionaram uma imaginação fértil cuja é a principal ferramenta do meu ofício. 
Eu não cresci na era da tecnologia, da informação, da Pepa Pig, mas não me sinto superior por isso, nem inferior, me sinto apenas um privilegiado por talvez ter sido um dos últimos que teve a oportunidade de vivenciar experiências tão ricas.

 "Que saudade que eu tenho da aurora da minha vida." 






Samuel Ivani

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A mulher perfeita


Mulher perfeita 

Quem dera fosse uma mulher de classe
Dessas que até os movimentos das mãos são premeditados;
Todos leves, como se estivesse numa dança própria dos deuses,
Mas, em vez disso, chega até ser bruta.
Tem os gestos impensados, puros,
 graciosos, mais que perfeitos.  

Quem dera tivesse uma pele de pêssego
Daquelas tratadas com cremes franceses,
irreais, como verão no oriente,
Porém, em vez disso, tem uma pele morena, 
linda, cor de gente.  

Quem dera fosse fina,
preparasse chás da tarde;
desse jantares beneficentes só
para exibir seus talheres de prata,
No entanto, prefere pão de ló, 
idas resolvidas de repente ao brechó
enquanto corre feito louca pela calçada.

Quem dera fosse linda,
Dessas belezas típicas das damas da corte,
Com seus rostos largos, sempre cheios de maquiagem,
Tão vazias de vida e colos fartos,
Porém, em vez disso, é livre, única; 
canta, dança, sorrir como quer, ama como quer;
é feliz, diferente, imperfeita, e mesmo assim, 
não há perfeição que supere essa mulher.






quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Um sonhador de araque



Saiu às quatro da manhã rumo à praça central da cidade. Munido de uma vitrola, um cachecol vermelho, umas botas velhas, uma rosa, um sonho e alguns poemas, ele resolveu que ia existir em 2017. Ele carregava consigo sonhos maiores que os céus e não podia permitir que o mundo continuasse ignorando sua existência. Tinha certeza que havia nascido pra grandes coisas e precisava mudar o curso da sua vida.

Ciente de sua insignificância,  tão logo chegou a praça, resolveu que sentiria primeiro a brisa fria da madrugada adentrando as narinas, pois era a única coisa que o acalmava. Sentou-se no velho banco, dispôs a vitrola entre as pernas e acendeu um cigarro. Passou a vista ao redor da praça, imaginando quantas pessoas daquela pequena cidade não se encontravam dormindo sem entender as possibilidades ou mesmo sonhando em ser além do que eram. Imaginou que, talvez todos que ali viviam já tinham esgotado todas as possibilidades do que tinham de ser em suas pacatas existências. Mas ele não, ele tinha sonhos e lutaria por eles, até o fim, contra tudo e contra todos.

O dia já dava sinal de vida por sobre as nuvens e, mal clareasse todo o horizonte, ele iria dar curso a sua empreitada pra existir no novo ano. De manhã, ele acionaria tchaikovsky em sua vitrola, exibiria sua rosa no bolso esquerdo, e gritaria poemas de própria autoria para os transeuntes nas ruas. Com aquele ato, ele começaria a ser o poeta que sempre foi e o mundo teria que se envergar aos seus intentos, querendo ou não.

Enquanto esperava,  refletiu sobre as falácias dos habitantes da sua cidade. Pensou em cada fala que sairia da boca dos seus conterrâneos, um por um, pois conhecia todos.  Lucélia, filha do quitandeiro da esquina, com seus celulares e pele macia jamais exposta ao sol, sequer se prestaria o trabalho de proferir uma palavra que fosse sobre seu ato pra existir, pois estava cheia demais de si e distante demais da realidade de um poeta miserável como ele. Pensou no seu tio, trabalhador que jamais saíra do século passado, esbravejando pra sua esposa - aquele filho de Maria é um vagabundo sem eira nem beira, enlouquecera de vez. Eu sabia que ele jamais chegaria a lugar algum. Está destinado a miséria pro resto da vida, ele e toda a família.
Pensou nos seus amigos cujos se afastariam, pois não poderiam conviver com um louco sonhador. Pensou em Eliane, o amor da sua vida, que se também o amava, aguardava com poucas esperanças que ele se tornasse alguém para que pudesse cogitar a possibilidade de ficarem juntos. E  agora, por aquele caminho que ele escolhera, as chances iam-se por água a baixo, uma vez que os pais de Eliane, até mesmo ela, não suportaria as faláceas dos mexeriqueiros da cidade, de modo que, o casamento com o filho do dono da auto peças seria algo inevitável. Ele, coitado, estava destinado a perder os amores da sua vida, sabe lá Deus até quando.

Vivendo naquela minúscula cidade de interior em que ainda se deixava o leite nos alpendres, aquele pobre homem já havia perdido o amor da sua vida dezenove vezes. Não que isso fosse grande coisa, todos perdem o amor da sua vida tão cedo quanto as madrugadas e nem por isso lhes são esgotadas todas as esperanças de felicidade, é que dezenove vezes era uma soma e tanto pra alguém tão jovem. E também, Eliane era uma ilusão diferente. E mesmo,  lhe custaria muito conquistar o vigésimo amor da sua vida, não tinha certeza se ainda lhe restava forças para tanto.

A medida que o dia se tornava mais evidente, a sua vergonha também.  O  receio dos vexames alheios e do que aconteceria com a sua já surrada imagem lhe clareava a mente e escurecia seus sonhos. E se ele não passasse de um zé ninguém que tinha como lenda pessoal catar conchas na praia pra produzir calcário, assim como seu pai?  Parece que as madrugadas alimentam nossos sonhos com coragem, mas o dia, os enfraquecem.

 Chegou o dia e com ele os primeiros viventes à praça. A claridade evidenciara a rosa no seu bolso esquerdo e antes que alguém visse, ele a escondeu sorrateiramente. Suas botas, como eram as que sempre usava, não precisou tirá-las. Enrolou a vitrola no cachecol e foi-se pra casa como o merdinha de nada de sempre.  Santo de casa não obra milagre - pensou ele - um dia parto dessa cidade em que sou incompreendido e torno-me quem eu sou.
Na madrugada seguinte, ele retornara a praça com os mesmos apetrechos e a mesma coragem de todo dia.
Uma hora ele toma coragem de enfrentar o dia e o céu será o limite. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

DE MÃOS BEIJADAS


Trouxeram-me em uma bandeja de cipó uma vida já pronta.
Não que fosse uma boa vida,
mas de toda maneira já se encontrava feita.
Era uma vida que seguia aquela ordem,
em que eu viveria pouco, e se muito,
levaria uma vida resumida apenas, a dia após dia,
lutar pelo meu próprio oxigênio.
Qualquer coisa além seria egoísmo,
seria loucura aos olhos dos outros.


Trouxeram-me, diante da dor, uma vida já sabida,
E não me foi dado escolhas de ser diferente;
Tinha que seguir aquela ordem que todos julgavam como certa,
caso não a seguisse, tinha também destino certo.
Não que já fosse a vida atribuída a mim grande coisa,
Mas se não a aceitasse, certamente, viveria pouco.
Se muito, viveria como um louco,
Daqueles que todos julgam a escória do mundo.
Um mísero nada! É! Um mísero nada!


Atribuíram a mim, uma vida já certa,
E não foram as pessoas que a trouxeram
Foi à vida árdua antes delas que destinaram a mim
Uma vida simples, em que trabalharia, casaria, talvez,
caso trabalhasse o suficiente, seguiria determinada crença,
Mesmo que ela não me trouxesse vantagem nenhuma,
Mas haveria eu de segui-la, caso do contrário,
o inferno me aguardaria.
Moraria numa casa de quatro cômodos,
Esta, de barro amassado por meus próprios pés.
Teria muitos filhos, e entregaria a eles, mesmo sem querer,
Inúmeras vidas já prontas em uma bandeja de plástico barato.
E depois de um tempo, eu morreria bestamente.
Sabe, de todas essas coisas, morrer seria a mais simples.


Mas depois de tanto tempo passado,
Julgo que esta vida que me trouxeram em uma bandeja de cipó,
 era a certa a ser seguida.
Lutei contra, não a aceitei,
Julgava-me melhor que ela,
Que havia nascido pra grandes coisas
E vejam, estavam todos certos,
sou um mísero nada!

Vida de inseto



No canto esquerdo, sob o assoalho, uma tarântula enovela um grilo com sua teia no intuito
de levá-lo pra sua prole faminta. Na parede, atrás de um quadro mixuruca de cinco reais,
uma vespa trabalha incansavelmente pra construir um lar pra seus filhotes que estão por vir.
Sobre uma cadeira velha, um besouro descansa com os apêndices para o alto, pois na última hora da noite anterior, ele atropelara a única lâmpada do quarto indo cair na cadeira e lá ficou.
Do lado da pia, formigas, em um esforço conjunto, carregam o que restara de dois salgados de frango com catupiri do jantar de ontem.
No lado esquerdo da cabeceira da cama, cupins devoram vorazmente o carvalho cortado a mais de quarenta anos.
Do lado direito, um adolescente de trinta e sete anos acorda às nove e quarenta e quatro da manhã incomodado com algo na sua bermuda.  Ele então constata que não tem forças pra verificar o que poderia ser aquilo que coçava, mastigava, ou fumigava entre sua perna e seu jeans rasgado que ele não tivera coragem de tirar quando chegara bêbado na noite anterior.
Dezenove minutos depois de perceber que algo não estava correto, ele criou coragem de abrir os olhos e refletir sobre aquele problema que se apresentava. Pensou que não valeria a pena retirar o inseto que até lhe proporcionava um incômodo razoável, mas não suficiente pra que ele enfiasse a mão nas calças correndo o risco de ser picado, envenenado, morto por aquela formiga, aranha, besouro, ou qualquer  outra coisa.
Ele pensou que na exata posição que o bicho se encontrava, se ele possuísse ferrão, garras, peçonha, ele não conseguia picá-lo e, se conseguisse, então o inseto julgou que ele não era ameaça suficiente que valesse o esforço de uma picada. Certo que ele era mesmo inofensivo.
Amargando uma enorme dor de cabeça, ele refletiu um pouco mais e concluiu que, o melhor a si fazer era esquecer o caso, pois senão tinha remédio, remediado estava.  Porém, o incômodo daquele inseto cutucando sua pele ainda um pouco anestesiada pelo álcool,  não permitiu que ele voltasse a dormir.
Irritado e julgando a vida injusta ele levanta-se e tenta pular, crente que inseto se envergaria as leis da física e cairia no piso do quarto, mas descobriu ao pular que seu cérebro parecia que se encontrava solto dentro do crânio e qualquer movimento doía infernalmente, e concluiu que o incômodo do inseto era menor.
Não obtendo êxito, resolve sacudir a bermuda com as mãos com a força que lhe restava e, feito isto, um rola-bosta de tamanho comum cai no assoalho. Feliz e aliviado, ele deixa-se cair na cama novamente, mas logo depois descobre que ainda sentia como se o inseto tivesse lá, coçando sua perna.
Ele pensa: o que eu fiz pra merecer tamanho castigo meu Deus?!     

O último de nós



O último de nós talvez perceba que o que conquistamos de nada vale a pena senão tivermos ainda o que conquistar pela frente. E se dará conta, talvez, que a felicidade está mais na caminhada do que propriamente no objeto almejado. É possível que último de nós compreenda que ele esteve muito pouco no controle; que o que ele desejou, as pessoas que ele amou durante a vida, foram apenas formas que a natureza encontrou para garantir a sobrevivência egoísta da espécie. Amar não passa de uma artimanha graciosa e deliciosa da natureza para que transpassemos os nossos limites físicos, transpassemos a nossa existência, pois o amor ainda é a herança passada de geração pra geração que sempre se manteve e sempre se manterá sem alterações nos corpos e corações dos homens. 

O último de nós talvez perceba que todas as crenças no sobrenatural que a humanidade sustentou ao longo da história, de nada foram úteis, pois todo ser vivo possui a força necessária para continuar vivendo dentro de si mesmo. Independe de tudo, o que o homem sempre teve foi apenas a força instintiva de sua natureza selvagem; todas as outras filosofias são inteiramente dispensáveis. 

O último de nós perceberá que, no intimo, somos aquela pessoa que esconde sua verdadeira personalidade, que é falso, que demonstra ser amável quando interessa, e que no fundo, coloca sua existência acima de tudo, tudo isso só para manter-se em um convívio pacífico com os demais. É natural do homem se conhecer individualmente como selvagem e egoísta, porém, é natural também não aceitar as características egoístas do próximo, pois sabemos que sozinhos não iríamos longe. Compreenderá, portanto, que não deveria se culpar por isso, pois essas regras são necessárias e o mantém vivo. 
Quem nós somos intimamente não nos tem muita utilidade. 

Talvez o último de nós compreenda que, deveríamos sim, ter dado valor as pessoas que nos demonstraram algum apreço, que desejaram o nosso bem, embora tenha sido um ato egoísta para que estas também se sentissem bem, pois sozinhos, simplesmente não existimos. O homem sempre buscou “ser”, existir, e não percebe que para existirmos basta que tenhamos alguém que precise de nós para “ser” também, assim, vamos sendo um dos outros e existindo automaticamente; não necessariamente precisamos pensar para existirmos, como diz o filósofo. 

Certamente o último de nós também compreenderá que só se pode compreender a vida e a existência a poucos segundos da morte, e aqueles que chegaram perto dessa compreensão viviam se equilibrando na linha tênue entre a vida e a morte. Se bem que, talvez ele perceba que muitos, ao longo da história, já compreenderam a existência, o que ocorrera fora que nunca nos contentamos com nada e sempre buscamos novas compreensões. Somos insaciáveis e essa insatisfação é o combustível da vida. 

O último de nós compreenderá, também, que ter consciência de todas essas coisas não muda nada, pois o que percebemos com os olhos, com a consciência, de nada têm valia diante do que sentimos. Sempre foi o que sentimos. 

O último de nós, em sua horrível existência, talvez compreenda que o que mais impede a vida de ser vivida é o ato de tentar compreendê-la. E então vivenciará a melhor e pior sensação de todas: á de não precisar compreender mais nada.

O último de nós não precisará compreender o amor, tão pouco amar, já que o amor necessariamente necessita da existência, e ele não mais existirá, pois estará sozinho. Com isso, o último de nós, compreenderá, com dor, que será o homem mais triste e mais feliz do mundo.

Mas depois do último de nós, nascerá um novo homem que não carregará o castigo de pensar.


Samuel Ivani

Teus olhos

Maxim Grunin 


Era preciso seguir em frente, arrancar as correntes,
Matar dez leões a cada dia,
Era preciso descarrilar a ordem.
Mas como, se a vida é tão mesquinha?
Ora! Não se encontra hoje em dia princesas indefesas,
para que eu as salve de tigres ferozes.
Não se encontra crianças felizes, a saltitar em cogumelos.
Não sou condenado à morte uma vez ou outra por reis irritados.
Nem sou pisoteado por pés gigantes de codornas minúsculas.
Eu também não posso encolher tampouco esticar.
Não posso ficar invisível, ou voar.
Não posso me aliar á uma quadrilha de saltimbancos,
Dirá sequestrar a filha do Xerife.
Não posso ser eu. Nem isso? Isso é tão pouco!
Não posso catar flores nas madrugadas geladas do deserto.
Não posso construir uma máquina voadora pra fugir com a filha do coronel.
Quão insignificante é essa vida, meu Deus.
Não posso ser um vigarista sem escrúpulos e passar a perna em um Sudão africano.
É preciso apenas catar castanhas nos dias quentes perto do mar.
Que belo, ao menos isso é belo!
Mas o amor à gente encontra
E ai, tudo isso a gente vive em nossa mente.
Quão belo é o amor, meu Deus!
Pois encontramos tudo que desejamos 
naqueles olhos grandes que a gente ama. 
É preciso amar sempre mais. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Liberdade pra quê? Eu quero mais é me prender!


Se todos soubessem que a liberdade pela qual lutamos ardentemente é exatamente o que nos levaria a completa destruição. Eu entendo porque temos que rotular e segregar cada seguimento da sociedade; feminismo, "geração Mimimi", direita, esquerda, outras quinhentas derivações do termo, todos lutando por espaço, liberdade e etc. Porém, eu bem sei que quando chegarmos no limite, vamos compreender que nunca quisemos realmente sermos livres. Pois nessa ilusória busca pela liberdade, sem percebemos, estamos querendo mais é nos prender; seja ao estado, a igrejas, a ideologias que ditem de certa forma o caminho a ser seguido, pois individualmente nunca soubemos pra onde ir, nem nunca saberemos.
Quando você escolhe um lado, uma ideologia, é porque esta já tem um manual pronto, poupando-lhe assim o trabalho de escolher o próprio caminho - sem contar que escapamos também do martírio da sina humana que é não saber pra onde ir, nem qual o propósito da vida. A busca pela liberdade dividida em ideologias é só uma denominação eufêmica pro instinto de "Maria vai com as outras" que temos, cujo é o que mantém a espécie humana viva e atuante. Se quiséssemos realmente sermos livres, cada um escolheria um caminho que não fosse pré-determinado por nenhum seguimento ou ideologia, mas aí, se instauraria o caos, uma vez que somos indivíduos com instinto de bando, logo, precisamos de ordem, de organização... Só que isso nunca ocorreria, porque é instinto de bando, não consciência de bando, logo, a ordem e a organização é inconsciente. Contar-lhes hei um segredo: nunca estivemos conscientemente no controle de nada, sempre foi a natureza instintiva que nos trouxe até aqui. Você é que se iludiu do contrário. Pare de si iludir e vai viver.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O bilhete


Ela deixou um bilhete sobre a camisa do dia passada do lado dela na cama antes de sair. Eram poucas palavras, sem letras trêmulas ou marcas de lágrimas. O bilhete dizia apenas que já não suportava a monotonia de sonhar aos pedaços com alguém que não sabia o valor dos sonhos. 

Ele abre os olhos às 6:45, nota o bilhete, mas julga ser aquele papel mais uma das bobagens românticas da sua mulher que ele julgava uma eterna adolescente. "Quinze anos depois e ela ainda sonhava com contos de fadas." Ele levanta-se, e ignorando o romantismo aparente, prefere tomar banho antes de ler, afinal, só leria mesmo por obrigação - e como das outras vezes - era só seguir o protocolo: pentearia os cabelos, poria os pés brancos nos sapatos novos, vestiria a camisa passada com cheiro de amaciante, se direcionaria pra cozinha, encontraria a esposa servindo o café na sua xícara de estimação com o mesmo sorriso de quinze anos atrás, como se ela fosse uma imagem congelada no tempo. Então ele diria umas palavras decoradas como: "adorei o bilhete", depois faria promessas que jamais cogitaria a possibilidade de cumpri-las e sairia pra rua com a sensação que tinha se libertado de qualquer coisa incômoda. 

Ao sair do banheiro, pensara nos papéis que teria que organizar no trabalho, na voz doce da secretária do chefe, no Happy hour do final da tarde que ele estenderia até a meia noite, então pensara nos cinco minutos de sexo sem desejo que teria com a esposa ao chegar bêbado em casa - e nada lhe ocorreu. Era como se a vida fosse um trilho e ele um trem que fazia sempre a mesma rota. Pôs o bilhete de lado, vestiu a camisa, os sapatos, sentou-se no lado dela da cama e abriu com desinteresse o bilhete que dizia: "Eu já não suportava a monotonia de sonhar aos pedaços com alguém que não sabe o valor dos sonhos. Não me procure mais. Adeus!" 

Ao se deparar com aquelas palavras, ele imaginara que ela se escondera no armário a fim de lhe pregar uma peça somente pra que ele fingisse sorrir pela manhã como sempre, mas ao abrir o closet, não havia mais vestígios dela ali, nem o sorriso, nem as bolsas, os vestidos, nada. Ele correu pra cozinha com o coração apertado pensando que se aquilo era uma brincadeira ela tinha ido longe demais. Porém, ao chegar, mais uma vez não encontra aquele sorriso que pra ele sempre fora o mesmo. Senta-se a mesa no lugar de sempre, nota a xícara disposta na posição de sempre, mas sem café. Ele serve o próprio café pela primeira vez em anos e o barulho do líquido na cerâmica da xícara o faz perceber o silêncio proporcionado pela falta do sorriso da esposa. O aperto no peito aumenta, seus olhos ensaiam umas lágrimas, mas ele se dá conta que homens não choram. Ele inspira o ar da manhã, mas sente que o ar frio lhe corta os pulmões. Nesse pequeno intervalo do respirar fundo, lhe ocorre a possibilidade de nunca mais ver a mulher do sorriso mais lindo e cativante do mundo. Ali ele percebe que sem aquele sorriso a sua vida era um trem silencioso e sem cor fazendo a mesma rota todos os dias. 

Ela só queria sair dos trilhos de vez em quando. Só então ele se dá conta que o sorriso dela era um convite e ele nunca percebeu que era sempre pra uma festa diferente.




Apoteose



Eu vim de algum lugar onde as flores nascem, 

onde sol brilha na direção dos olhos de quem ama. 

Eu vim da árvore que foi desenhada um coração com 

as iniciais dos nomes de um casal apaixonado,

do travesseiro que amortece as lágrimas de uma adolescente inconsolada. 

Eu surgi da saudade de um pai que viu o filho partir. 

Eu sou a ardente chama dos olhos loucos de amor de

uma dama da esquina. 

Eu vim do aperto de mão com vontade que fosse abraço. 

Eu ressurgi da verdade no olhar de uma mãe vislumbrando o filho. 

Eu vim da distância superada com uma mensagem de voz,

Da vontade de voar, de se teletransportar pra estar aí. 

Eu sou a corrida pra um último beijo antes de partir, 

a solidão antes de se decidir. 

Eu sou o espaço entre a coragem de se declarar e o medo de se decepcionar. 

A última chama de um jantar a luz de velas 

o lençol de cetim que envolve o corpo nu de uma donzela. 

Eu vim de um sonho de guerra de um soldado ferido, 

de uma bala atirada contra o peito de um sentinela. 

Eu sou a rosa nos olhos dela. 

Eu sou a saudade de um cartão postal chegado de surpresa,

o primeiro encontro depois de janeiro. 

Eu vim do início, do primeiro toque da certeza que vai ser pra sempre. 

Do sorriso bobo de quem sabe que não tem mais volta.

Eu vim da estrada que leva um andarilho pra encontrar a si mesmo, 

dos passos descalços de uma criança que nada deseja. 

Eu só não sei ainda pra onde ir, nem o que serei.

Afinal, eu sou o mistério por trás do propósito em ser gente

e nada sei. 













quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Esse sou eu de verdade


Cansei dessa hipocrisia das redes sociais e resolvi mostrar quem de fato eu sou. 

Eu não sou esse cara arrumadinho com ares sérios que aparece numa foto de perfil, nem sou aqueles sorrisos largos em fotos de viagens que fiz uma vez na vida aos custos dos meus olhos. 
Eu sou esse cara que passa o dia tentando existir em frente ao computador sentado numa cadeira de balanço que já existe na minha família a mais tempo do que eu, logo, ela possui mais sabedoria e experiência do que eu e não tenta ser nada além de uma cadeira de balanço cuja movimenta as bundas sujas e sem graça que nela senta. Eu sou esse cara sozinho que adora a companhia de Belinha - uma cadela preta e cega de um olho de apenas dois anos, mas que entende a vida mais do que eu, que não passo de "um verme tentando ser astro, uma estátua truncada de alabastro, uma chaga sangrenta do senhor". 
Aquela senhora do lado é minha mãe, que janta enquanto vê suas novelas. Ela não entende os meus sonhos; acha que preciso de um emprego medíocre pra ganhar um salário medíocre e levar uma vida condicionada a capacidade que ela julga que eu tenho. Mesmo assim, ela me suporta e mesmo sem entender vai encarar minhas escolhas e tentar apoiar no que puder. Sou muito grato a ela por isso e se um dia chegar a ser quem eu luto pra ser, que é me tornar um escritor reconhecido, ela terá grande responsabilidade nisso, mesmo quando seus gritos me aporrinham pra que eu me entregue a vida que todos seguem na pequena cidade que vivo, são esses gritos que me dão força e coragem pra lutar por aquilo que desejo. Se ela soubesse que eu larguei a faculdade, emprego, tudo, pra viver os meus sonhos pra quando eu chegar à velhice não ter a sensação que vivi a vida de outro e não a minha.