quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo IV





Eu tinha passado dois anos longe de todos que eu conhecia e se tinha uma coisa que eu gostaria era de explorar, rever tudo daquela minha cidade, embora odiasse. Eu precisava ver o mundo; era jovem e tinha ânsia por viver. Porém tinha “o meu problema”, minha mãe não permitia que eu me afastasse dos seus olhos. A verdade que ficar presa em casa não me ajudava em nada, pois tinha dias que, inevitavelmente as lembranças me surgiam e transcorria pelo meu corpo um desejo incontrolável em conjunto com pensamentos impuros, segundo minha concepção, - e aquilo não me fazia bem; não era como quando via um garoto bonito na escola e sentia qualquer coisa no estômago, era diferente. Quando essa sensação passava, era como se eu tivesse sido violentada há poucos minutos e por mim mesma. Então aquele maldito embrulho no estômago voltava e eu sentia vontade de arrancar a minha pele e correr em carne viva até onde não conseguisse mais, pra que o vento e o suor arrancassem aquelas depravações dos meus pensamentos e do meu corpo de uma vez. 

Um dia, aproveitando que minha mãe tirava a cesta da tarde, eu consegui fugir pra rua e vendo-me livre eu corri e corri; eu vi o dia, vi pessoas, vi o vendedor de algodão doce, vislumbrei três garotas que caminhavam aparentemente sem destino, somente caminhavam e aquilo me fez um bem danado. Eu precisava de mais daquela sensação, então corri o mais rápido que conseguia. Eu queria me desmanchar completamente em suor, simplesmente me diluir, pois não merecia o mundo com aqueles pensamentos povoando minha mente cristã. Eu corri tanto que chegou a noite e eu não percebi. Mas não corri o suficiente pra não saber onde tava, de modo que encontrar o caminho de volta foi fácil. Quando me aproximei da minha casa me deparei com o carro da polícia na porta. Eu não procurei me esconder, simplesmente entrei como se eu tivesse saído pra uma corrida normal. Minha mãe, no entanto, chorava inconsolada e me abraçou quando me viu, mas ficou embaraçada ao ver que tinha incomodado a polícia à toa.  

O policial que havia atendido o chamado desesperado de minha mãe, por razões que conhecemos bem, não tinha parte da orelha esquerda. Quando ele me viu me olhou com um olhar de espanto, mas não tive certeza se me reconheceu, pois em dois anos eu tinha mudado bastante. Mas depois pensei que qualquer mulher que arrancasse um pedaço de um homem como eu havia feito, ainda que ela tivesse oitenta anos, seria reconhecida por ele. Ele ficou um tempo sem falar nada, olhando pra minha barriga suada devido à corrida. Minha mãe estranhou, eu, no entanto, não estranhei nada. Mas eu também o olhava, mas não para os seus olhos lindos, nem praquela pose de superioridade dele, eu olhava para o nome bordado na sua farda: C. Salgado, A+. Na noite de 93 eu não tinha conseguido ver o rosto de nenhum dos rapazes, não ao ponto de formar uma imagem nítida, mas aquela pulseira e a minha ira incompreensível na delegacia, talvez não fosse completamente loucura. Sem contar que era tudo que eu tinha. Eu precisava me apegar a todas as possibilidades, isso se eu quisesse encontrar os desgraçados que fizeram aquela barbárie com a gente, já que a polícia não iria fazer nada. Ele até se encontrava irritado antes de eu chegar, ouvi-o dizendo que não incomodassem a polícia com bobagens, mas depois de me ver e aparentemente apreciar o quanto eu tava crescida, ele tornou-se simpático e prestativo, deixando seu número pessoal pra que ligássemos em caso de emergência. Eu confesso que estranhei qual era as intenções daquele rapaz, minha mãe, porém, instintiva como era, percebeu logo que ele tava flertando comigo, mas talvez ela tenha se enganado. Depois que o policial se foi, nem meu pai nem minha mãe brigaram comigo, nem mesmo citaram o meu problema. Eu juro que queria que eles tomassem um cinto e me desse umas boas chibatadas, mas minha mãe só me preparou um chá.  

O chá eu tomei só pra agradar minha mãe, sabendo que não surtiria efeito algum, mas aquela corrida tinha realmente me feito muito bem. Eu me sentia leve, livre, como se pudesse abraçar o mundo novamente, como qualquer adolescente. Depois de um banho me deitei, coloquei Bryan Adams, mas o som da fita cassete não me agradou, porém era Bryan Adams e pouco me importei. Com a tranquilidade que a música e a corrida me propiciava, as ideias começaram fluir e tudo começou fazer sentindo:  Pensei que se os rapazes da noite de 93 fossem policiais, e mesmo que não fossem e o filho do delegado fosse um dos quatro, o fato do crime nunca ter sido investigado estava completamente explicado. O pai daquele jovem que não podia mais usar brincos devia ser o poderoso chefão da polícia Civil e não iria deixar mesmo que o nome da sua família fosse manchado com um crime tão bárbaro. Ter lido bastante romances policiais no manicômio fomentou muito essas ideias, bem como alimentou o meu desejo de vingança que a cada dia crescia mais.       

O problema de todas aquelas ideias que surgiam na minha cabeça era exatamente “o meu problema”. Eu tinha sido convencida que era louca, logo, me surgiam às dúvidas: e se eu tivesse inventado toda aquela história? Se aquela pulseira não fosse de nenhum dos bandidos e sim de algum idiota qualquer? Mas as inicias não poderiam ser provas maiores. Sem bem que o C na farda poderia ser de Cabo Salgado e não Carlos Salgado como eu pensava. Talvez eu realmente estivesse me tornando paranoica e toda aquela trama tinha sido meu cérebro que havia criado pra que eu não sofresse tanto com a impunidade dos marginais. Aquelas ideias me torturavam em demasia e se eu fosse mais fraca, talvez elas houvessem realmente me levado à loucura total, se é que eu já não era. Sendo loucura ou não, eu precisava  investigar a fundo pra que não me restasse dúvida.
Mas ai, envolvida por Heaven na voz de veludo de Bryan Adams, eu me esquecia de tudo e até conseguia sorrir comigo mesma e dormir tranquila.  
Apesar dos fatos expressarem que eu era uma adolescente depressiva, a verdade era que eu vivia muitos momentos felizes. Quando tinha que chorar eu chorava, mas quando tinha a oportunidade de sorrir, por menor que fosse eu agarrava com unhas e dentes e sorria com toda felicidade do mundo. A gente escolhe como viver e, às vezes, até escolhemos o que sentir, é só se conhecer.



Samuel Ivani 

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