quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo VI

   

Ainda que tenha sido um susto e tanto aquele carro vindo em nossa direção, nos recompomos e continuamos caminhando. Meu coração estava aos pulos, não tanto pelo perrengue, mas pela possibilidade de reatar com Carina, afinal tínhamos um segredo, nada une mais duas irmãs do que os segredos. 

Quanto mais nos aproximávamos da escola, mais meu coração acelerava; enfrentar um carro "desgovernado" não era nada comparado a enfrentar os olhares de meus inquisidores e antigos conhecidos, e desconhecidos também. Juro que pensei em correr novamente, mas correr como um ato de covardia nunca foi uma opção. Correr tinha um sentindo filosófico mais profundo que eu nunca esperei que ninguém entendesse. 

Ao chegar ao portão do colégio, quando vi algumas meninas conversando alegremente enquanto se deliciavam com um pirulito, todas maquiadas e lindas, eu pensei: "o que eu tô fazendo aqui? Eu não pertenço a esse mundo"! O colégio parecia tão pequeno, diferente de quando passávamos em frente quando estudávamos no fundamental, que talvez eu nem coubesse lá. Baixei o olhar a fim de não olhar pra ninguém, assim não notaria todos os olhares me devorando como se eu fosse de outro mundo, mas pensei melhor e optei enfrentar de cabeça erguida. Carina, mal a gente se aproximou do colégio, se afastou de mim. Eu preferi não tentar entender suas razões, mas sabia que eram boas.   

Ao entrar pelo portão, pensei em ir rápido pra sala, porém, da entrada do portão até a sala parecia ter mil léguas; cada olhar nos semblantes das pessoas representava uma légua a mais que eu tinha que percorrer. De início eu pensei que aqueles olhares fulminantes eram de desprezo, de medo, repulsa, mas depois de um tempo eu decifrei: eram olhares de expectativa. Todos não queriam nada mais nada menos que eu fizesse jus a minha fama. Podia suportar o desprezo, o medo, até mesmo o ódio, mas aqueles olhares implorando pra que eu cometesse algum ato de loucura, não tinha como. Até que uma garota magricela mastigando um chiclete deixou fluir o elogio que eu esperava: "é aquela louca"! Eu me enfureci e não tive escolhas, senão, dá a eles o espetáculo que tanto queriam. Se existe uma coisa que é difícil de evitar é a vontade coletiva de uma multidão. Agarrei nos lindos cabelos lisos daquela magricela e esfreguei sua cara em um vaso disposto do lado de uma coluna no corredor principal. E como em todo bom espetáculo, houve gritos de incentivo e risos. Os olhares de todos mudaram rapidamente; passou da apreensão da espera, pra satisfação de um desejo realizado. Senão fosse Carina que salvasse aquela pobre coitada de ser destruída, pouco dela tinha restado daquela briga. Enquanto me direcionava até a diretoria, Carina só me dizia que eu precisava pensar antes de agir e que eu não podia me deixar ser levada pelas calúnias dos invejosos daquela cidade. Mas eu sequer a ouvia, só conseguia lamentar a linda bromélia que eu havia destruído esfregando o rosto da magricela. Mas quando chegamos a diretoria, longe dos olhares dos alunos, Carina desabou. Ela começou repetir: “é culpa minha, é tudo culpa minha”! Então abraçou o armário de arquivos e começou bater a testa na quina de aço abrindo um pequeno corte em sua cabeça. Eu não pensei duas vezes e tentei segurá-la e acalmá-la, embora chorasse junto com ela. Carina tinha passado dois anos tentando levar uma vida normal, como se nada tivesse acontecido, mas a minha presença não permitiu que ela triunfasse eu seus intentos. Se eu não tivesse voltado a sua vida tudo aquilo podia ter sido evitado. Então, em meu último ato, eu deslizei agarrada em suas pernas e me deixei chorar.  

Depois de um tempo, minha mãe foi chamada e tivemos que voltar pra casa, sem suspensão, ou qualquer coisa que o valha. Ao chegar a casa e presenciar aquele silêncio de sempre, como se tudo que fizéssemos fosse compreensível, eu percebi que Carina sofria mais do que eu com tudo aquilo e que eu precisava ser forte pra ajudá-la. Se antes ela não trocava mais que duas palavras comigo, depois do acontecido, ela simplesmente evitou que ocupássemos o mesmo cômodo ao mesmo tempo, talvez seguindo as leis da física que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo.

A verdade é que também colocar culpa de tudo que acontecia comigo somente na noite de 93, não ajudava em nada. Em casa e calma, eu comecei refletir que se eu resumisse toda a minha vida aquela noite traumática, eu era quase nada; eu não passava das cinzas do incêndio do verão de 93. Foi com esse pensamento que eu passei a ignorar a sádica vontade coletiva e compreender que eu existia em minha particularidade. Não vou dizer que foi fácil chegar àquela conclusão. Demorei dois anos brigando no manicômio, com uma ânsia por querer quebrar tudo, tentando descarregar meu ódio em alguma coisa ou alguém, antes de entender que eu precisava seguir os meus próprios desejos em detrimento das aspirações alheias que talvez nem existissem, eu que inventava. Conclui que eu não precisava ser o que sobrara de uma experiência traumática, eu era alguém e tinha a chance de construir uma nova realidade em que eu me encaixasse. Um único dia no mundo externo, vendo pessoas ditas normais, mudou completamente meu discernimento do que era a vida. Eu só precisava de sol e vida - e foi o que aquele dia me propiciou. Embora constatar que Carina amargava uma dor maior que a minha, tenha me forçado também a ser mais forte.  Não digo que essas convicções puderam ser sustentadas o tempo todo, mas elas me ajudaram a manter certa normalidade aceitável e pude conviver com as outras pessoas sem representar risco a suas integridades físicas. 


Só retomamos pra escola na semana seguinte, mas confesso que aqueles dias de reflexões me ajudaram muito. No entanto, depois que retornei às aulas, eu tive a maior prova do “meu problema”, quando percebi que nenhuma instrução ou advertência foram repassadas a mim, pois julgaram que eu não seria capaz de compreender; em vez disso, havia sido organizada uma reunião com todos os alunos pra que eles não me importunassem nem a Carina, pois éramos diferentes ou coisa do tipo. 

Depois de um mês, eu me sentindo horrível por ser diferente, tudo foi aos poucos mudando. Nada como enfrentar a vida. Adolescentes esquecem rápido das coisas, e como eu tinha conseguido manter minhas convicções e não tinha arranjado confusão, eu fui sendo aos poucos esquecida. Eu não baixava a cabeça diante dos meus colegas, então os olhares de pena, de medo, foram sendo substituídos por aquela ignorância normal de que, eu existia, mas a minha existência não influía na existência de ninguém, de modo que em pouco tempo eu já me camuflava na multidão, embora ainda fosse lembrada uma vez ou outra pelos meus feitos. E a verdade era que eu precisava daquela ignorância, de não existir tanto ao ponto de que todos dessem por minha falta. 

Depois de uns dias calmos, eu me encontrava em casa ouvindo e cantarolando junto com Leandro no toca fitas (“é deserto, onde atravessei ninguém me viu passar, estranho e só”), Carina entra no meu quarto aos prantos, embora disfarçando pra que nossos pais não ouvissem ou percebessem movimentação estranha, e diz: 

- Eu preciso te contar tudo sobre aquela noite. Tudo foi culpa minha!

Eu deixei a música tocando, como sempre fazíamos no passado, pra que ninguém ouvisse nossa conversa.  

Leia o capítulo sete clicando nesse link



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