quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo VII






- Você precisa saber que nós te usamos. - Disse Carina com um semblante irreconhecível. - O paquera de Tati não deu bolo nela àquela noite. Sempre foram eles. Na verdade, no dia vieram mais dois desconhecidos que não contávamos, mas não importa. 
Tínhamos conhecido eles há poucos dias e havíamos marcado de dá uma volta de carro. Tati tava apaixonada por um deles e me implorou pra que eu a acompanhasse, mas eu disse que eu só poderia ir se você fosse junto, pois nossos pais não permitia que eu saísse sozinha à noite. Julgamos que não teria problema, desde que não lhe contasse com antecedência os nossos planos. Nós fizemos isso diversas vezes, você como irmã mais nova, nunca soube de muita coisa. A verdade é que a maioria das lembranças que você tem daquela noite foi sua mente que criou. Eram realmente quatro rapazes, mas pouco tempo depois, o mais bonito dos quatro deixou três deles em suas casas, prometendo que ia nos trazer de volta, só que não foi isso que ele fez. O desgraçado nos drogou com uma bebida batizada e a partir dali, eu também não lembro mais de nada. Tudo foi culpa minha que concordei com aquela ideia absurda. 

Ao ouvir aquela confissão, eu compreendi que poderia ter sido eu a ter morrido aquela noite. Diante da possibilidade real da morte, não sei por que, pensei em um besouro de tamanho médio revolvendo a terra úmida abaixo da minha mão cadavérica fazendo com que meu dedo indicador reagisse como se eu tentasse voltar à vida, mas era só uma ilusão. De repente a imagem repulsiva de moscas entrando e saindo da minha boca ignorando totalmente quem um dia eu fui, não saía mais da minha cabeça. Aquela ideia me causou calafrios, mas voltei a mim e questionei:    

- Então você conhece quem é o desgraçado? E por que você não contou depois pra polícia, ou mesmo pra os outros três? Talvez eles ajudassem! 

- Eu não conhecia, tinha visto ele também a primeira vez aquela noite. Eu tinha intenção de contar tudo pra polícia naquele dia que fomos à delegacia, mas aí, não sei como, você reconheceu o desgraçado na sala de espera e arrancou um pedaço da orelha dele. Talvez ele tenha ido lá exatamente pra verificar se nós o reconhecíamos ou mesmo pra nos amedrontar. Mas diante do alvoroço eu não tive coragem de contar e também porque descobrimos que ele era filho do delegado, seria complicado demais. Mesmo assim, ainda pensava em contar tudo, mas ele passou a me ameaçar que se caso eu contasse, nos mataria como fez com Tati. Eu não suportaria ser responsável pela morte de minha irmã. Eu disse pra ele diversas vezes, mesmo depois que ele se tornou policial, que você não se lembrava de nada e que naquele dia você tinha tido um flash de memória, mas nada concreto. Ele se acamou por um tempo. Sem contar que ele sabendo que com sua estadia no manicômio, ninguém acreditaria caso você o denunciasse. Ali, ele matou dois coelhos com uma cajadada só. Mas ai, no dia que você fugiu, por azar, foi ele quem atendeu o chamado de emergência de minha mãe, então viu essa maldita pulseira que você não larga, então percebeu que você tinha provas contra ele, ou coisa parecida. Creio que ele deixou o telefone justamente pra quando você fugisse de novo, ele fosse ao seu encalço pra cometer mais um assassinato. Você entende Val, que se eu contasse toda a nossa família estaria em perigo? Sem contar que ele poderia alegar que estávamos loucas, e com certeza, o pai dele acreditaria. E mesmo que não, não iria prender o próprio filho, mal encarado como é aquele desgraçado. 

- Mas Carina, você não tem culpa de nada. Nós éramos apenas crianças, ainda somos. Vocês foram enganadas por aqueles rapazes bonitos. Você devia ter me contado, eu teria entendido. Eu senti tanto sua falta. Eu queria tanto que você conversasse comigo. A gente poderia ter enfrentado juntas, tinha sido tudo mais fácil. 

- Eu tive medo que você surtasse e fizesse alguma besteira quando descobrisse que fizemos tudo aquilo de caso pensado, sem contar que eu estava sendo constantemente ameaçada. Sabe aquele carro que tentou nos atropelar? Tenho certeza que foi o desgraçado tentado mais uma vez a queima de arquivos. Quando ele percebeu que você não iria fugir mais, ele não suportou a pressão e quis acabar com tudo. Ele queria me obrigar a tomar a pulseira de você e entregá-lo, mas você não larga ela por nada nesse mundo. No entanto, quando presenciei de perto o que todos estavam fazendo com você no colégio, a sua briga, eu não consegui suportar a dor de vê-la sofrendo tanto por conta de um erro meu. Você tem noção o quão duro tem sido pra mim a culpa pela morte de Tati. Sim, a culpa é minha, pois eu devia ter impedido. Mas a verdade é que eu também queria muito passear de carro e isso me tortura desde então. Tati era tão cheia de vida, só era inconsequente, mas nós também éramos. 

- Não se culpe tanto! – Eu tentava consolar Carina, embora chorasse mais que ela. - A culpa é toda daquele desgraçado. Mas juntas nós podemos impedir que ele nunca mais destrua a vida de ninguém. Sem contar que ele precisa pagar e você sabe disso.  

- Mas como faremos isso? O desgraçado é protegido pelo pai, pelo sistema, já que ele é que é a lei. Estamos de mãos atadas e te contar isso talvez tenha nos condenado de vez, portanto, não faça nada. 

- Não! Você está subestimando a capacidade de duas irmãs trabalhando juntas. Ele pensa que pode usar a loucura contra nós, mas nós podemos virar o jogo e usar o nosso “problema” contra ele. Assim como planejávamos fugas simples no passado, nós vamos pensar em algo pra esmagar os ovos daquele miserável. Enquanto eu dizia aquilo, Carina chorava desconsolada, mas eu sei que ela tirara um peso das costas. Eu, no entanto, não senti que tinha tirado uma tonelada das costas, senti que ela ainda descia vagarosamente usando como degrau cada vértebra, cada ponto do meu corpo a cada nova palavra que Carina proferia. Aquele peso maldito descia do meu corpo rumo às profundezas arrancando consigo a véu negro que eu amargava no olhar, nas minhas artérias e veias, na minha carne. Foi com dor, óbvio, mas eu precisava sentir aquela dor. 

O alívio daquela conversa com Carina não é possível que eu descreva com maestria, pois transcende o campo real e vai além, naquela ponte viva que se constrói entre duas pessoas que crescem juntas. Mas alivio de verdade eu senti ao perceber que aquela trama que minha cabeça havia criado era plausível. Então eu me dei conta que eu não tinha nada de doida e que eu nunca tinha agido com mais sensatez do que quando havia arrancado a orelha daquele desgraçado. Eu, que tinha me sentindo "tantas vezes reles, tantas vezes vil," senti que finalmente existia. 
Depois do acontecido, eu nunca mais tinha experimentado a sensação de ter razão, pois o mundo a minha volta não permitia, mas com as confissões de Carina, eu senti que ainda tinha chance. Compreendi que meus atos de loucura, não eram, senão, sensatos. Nem todos, claro, não posso também me justificar por tudo. Havia vezes que eu me aproveitava do "meu problema" pra esmurrar alguém que eu sempre tivera vontade, como quando eu esfreguei a cara daquela magricela no vaso estragando uma linda bromélia. Afinal, o problema era meu, logo, eu podia muito bem tirar a vantagem que bem entendesse dele.  

Nós viramos a noite conversando, colocando o papo em dia, sendo irmãs, sendo cúmplices, sendo gente. Nunca nos faltava assunto, nem antes da noite de 93, e naquela noite eu descobri que nem depois. Óbvio que ainda tinha muitas lacunas que precisavam ser preenchidas, mas optamos por conversar sobre coisas boas e normais e esquecer um pouco das coisas ruins. Carina me contou até que tinha um namorado, eu fiquei bem feliz, embora nossos pais não pudessem ficar sabendo, jamais... 




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