segunda-feira, 3 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XXII



Quando dei por mim, eu me encontrava em os mesmos aposentos de um ano atrás. Era os mesmos lençóis, o mesmo cheiro, as mesmas cores. A enfermeira era a mesma. Notei que se tratando do ofício da loucura, pouca coisa muda ao longo do tempo. Novamente naquele local, eu não podia demonstrar o menor gesto que representasse insanidade. Mantive-me serena a partir do momento que o efeito dos calmantes amenizou. Dadas às experiências passadas no manicômio, o que não me sobraria era tempo livre pra pôr minhas ideias em ordem e continuar com os meus planos. 

Passados uns dias, eu recebi visita de meus pais, não esbocei reação estranha, não podia demonstrar que ainda tinha resquícios daquele surto na escola em mim. Se bem que, depois daquilo, seria muito difícil alguém acreditar que eu me recuperasse, uma vez que a minha reincidência demonstrava que eu talvez não tivesse chances mesmo de levar uma vida normal. 
Os dias se passaram e eu usei o tempo ocioso pra investigar os novos e antigos pacientes. Como eu não era uma paciente perigosa, ao menos em parte, eu tinha certa liberdade dentro das paredes do local. Eu também conhecia os túneis antigos, as passagens secretas que davam pra circular sem ser vista pelas dependências. Eu tinha acesso até mesmo a sala do diretor e toda e a ala dos criminosos perigosos. Eu não estava sozinha ali, nunca estive leitor. 

Às oito horas de uma sombria noite de sexta feira, entoada pelos assovios de um paciente que achava que chamaria atenção da lua, eu me levantei, coloquei meus jeans velho e resistente, calcei minhas congas, fiz um rabo de cavalo no cabelo, me maquiei, peguei minha mochila com a boneca de Tati, com a pulseira do Palmeiras, o meu toca fitas e sai pelos túneis úmidos do lugar em direção a ala dos criminosos perigosos. No quarto 47, eu entrei pela entrada de ar que poucos conheciam. Tive cautela somente pra não fazer algum barulho que chamasse a atenção dos vigias lá fora, pois o paciente mesmo, propositadamente, estava sobre efeitos de relaxantes musculares fortíssimos. Joguei o paciente do quarto na maca que já estava naqueles túneis há muito tempo. O levei pra um lugar secreto que somente eu e outra pessoa conhecíamos bem. Colocamos Carlos Salgado numa cadeira giratória e lá pedi que me deixasse sozinha com ele. A mesma pessoa que me dera abrigo com um guarda chuva numa manhã no passado até em casa, me ajudava naquele último ato. A mesma que tantas vezes encobriu com destreza meus deslizes, que me ajudou na medida do possível chegar até aquele ponto, até aquele cheque mate. Somente ela me entendia. Somente ela compreendeu que eu precisava fazer alguma coisa em relação àquela barbárie que sofremos no verão de 1993. 

Eu me dispus em frente ao corpo inerte de Carlos Salgado e todos os meus pensamentos, todos os meus planos, me vieram à mente como um tsunami. Mas não eram mais uma tortura; era uma convicção de que tinha feito o que eu achava certo. Há questões de julgamentos distintas, mas pra mim, diante do ódio que eu sentia daquele desgraçado, diante de tudo que ele havia feito, pra mim, não existia alternativa senão aquela.  

Cabo Carlos Salgado foi aos poucos acordando. Ao ver os seus olhos verdes e grandes, me veio uma sensação parecida com aquela vivenciada na noite de 1993. Eu ainda tinha muito medo dele, mesmo tendo a mais plena certeza que ele se encontrava suficientemente imobilizado. Não gostei de vê-lo totalmente sem chances, desamarrei sua mão esquerda enquanto ele recuperava os movimentos. Esperei ele recuperar a consciência, mas ainda não tinha coragem de olhar diretamente nos seus olhos, até que ele segura no meu braço. Ao sentir a textura das suas mãos que eu conhecia bem, eu revivi tudo daquela noite. Os gostos, os toques, os cheiros, os sentimentos, as dores. Então pensei nas noites que passei sem dormir pensando no que faria com Carlos Salgado se me encontrasse em um local sozinha com ele, no que faria com ele, então me enchi de ódio, do ódio que alimentei por quase três anos. Bati no seu rosto de leve e disse:

- Lembra de mim? Lembra da noite de 17 de fevereiro de 1993? Daquela noite que você prometeu deixar três garotinhas em casa com toda segurança? Hein? Porém, em vez disso, você surtou, achou que podia se aproveitar brutalmente das três. Deu-nos bebidas com drogas que nos fez esquecer de muita coisa. Mas apesar de estar alterada aquela noite por conta dos entorpecentes, eu ainda me lembro de muita coisa: lembro-me da tua saliva espessa, do cheiro do capim daquele terreno baldio; do gosto do sangue, lembro-me do frio, das cores da noite quando eu acordei. 
Olha em volta Senhor dono do mundo! 
Olha esse lugar: essa cadeira gira em todas as direções pra que decore todos os detalhes desse lugar que foi construído exclusivamente pra você. Olha essa terra úmida na minha mão, sinta o gosto dela, sinta o gosto desse lugar fétido. Tem gosto bom? Responde desgraçado. Eu quero que guarde na memória cada detalhe. Eu sabia que lá fora eu não teria como me aproximar de você sem correr riscos. Lá fora o sistema e o teu pai o protegia, mas aqui dentro, nos somos iguais. Aqui há somente eu e você. Durante os dois anos que passei aqui, eu não fiz outra coisa senão preparar esse lugar especialmente pra você. Não sabia se conseguiria realmente vê-lo aqui exatamente onde se encontra agora, mas eu precisava tentar. Não me restava nada. Eu só continuei graças ao desejo de vingança. E como você mesmo pode constatar: eis nos aqui, exatamente como imaginei. Óbvio que muitas vezes pensei em largar tudo e levar uma vida comum, mas o mundo ao meu redor jamais me permitiu. Agora ouça essa voz nesse toca fitas. Reconhece essa voz, não é mesmo? Você ficava com ela, e mesmo assim a matou. E essa roupinha, você lembra dela?
Naquele momento eu não contive as lágrimas. Não sabia se chorava por conta do ódio, ou da saudade, por conta do tempo, ou por me sentir exatamente igual a Carlos Salgado. 
Carlos salgado recobra a consciência e diz: 

- O que você quer de mim? O que quer de mim? Já faz tanto tempo. Eu já confessei tudo que fiz. Vou pagar por tudo. Não é justo. Solte-me. 

- Não! Não importa se nunca mais sair daqui, nunca vai pagar as vidas que você destruiu. Não foi só Tati que você matou aquela noite. Você também me tirou a vida, somente me permitiu continuar respirando. Você me tirou a capacidade de amar incondicionalmente. Tirou-me a capacidade de me aproximar das pessoas sem querer algo em troca. Você entende o que é isso?! Agora eu só busco amar pra me sentir amada. Já não sei quem eu sou. Você me tirou a capacidade de levar uma vida comum de adolescente, com paqueras, com chicletes, com músicas. Desgraçado! Depois de ver minha amiga morta, eu só conseguia pensar naquela cena. Sem contar na culpa por me sentir uma psicopata. Todos os meus pensamentos pareciam ser de alguém sem sentimento algum, a não ser ódio. Você tirou tudo que havia de bom em mim Carlos Salgado. Agora veja você mesmo onde nos encontramos? Acha mesmo que um plano como esse pode surgir na cabeça de alguma adolescente normal? Responde-me miserável. Não ver que você me tornou em quem você era. Mas não importa. Tudo isso acaba hoje. 

Minha cúmplice tinha deixado ali uma tesoura de jardineiro de tamanho médio para que eu executasse o meu último ato. 

- Vê essa tesoura Carlos Salgado? Ela irá arrancar de você o que lhe levou a cometer as suas atrocidades. Ela irá arrancar a sua dor. Irá expurgar os seus demônios e também os meus. Somente assim, me sentirei vingada.

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