quarta-feira, 28 de junho de 2017

Das vantagens de ser um sonhador



DAS VANTAGENS DE SER UM SONHADOR

Existem dois tipos de pessoas: os práticos e os sonhadores. Os práticos são realistas, só almejam algo ao se depararem com a possibilidade real do objeto desejado; já os sonhadores, sentem como se possuíssem o objeto do sonho mesmo há anos luz da possibilidade de alcançá-lo. Enquanto um luta pra alcançar, o outro batalha pra que o mundo reflita o que ele sempre foi.
Ambos têm a possibilidade de chegar muito longe, mas os práticos jamais experimentarão a sensação de ter chegado tão longe quanto jamais alguém imaginou que eles chegariam, mas também não se depararão com a possibilidade de não alcançarem aquilo que aprenderam a desejar. Já o sonhador, no entanto, uma vez ou outra se depara com um muro de concreto que o impediria de seguir em frente, porém, ele precisa de muito pouco pra continuar lutando; basta uma fagulha pra que ele transforme o seu muro de concreto em grãos de areia que em vez de obstruírem o caminho, amortecem os seus passos - e sempre, sempre, essa pequena centelha parte de si mesmo.

Um se deleita com palestras motivacionais, pois lhe dá foco e proporciona o que ele não é capaz de fazê-lo sozinho que é mirar nas estrelas sem antes se deparar com o brilho do sol. O sonhador, no entanto, mira tão alto que os práticos olham e logo concluem que é impossível ir tão longe, pois não conseguem imaginar um caminho palpável até a luz no fim do túnel, logo, o sonhador é sempre desacreditado, sempre tarjado de louco, fato que torna a sua caminhada tão árdua que a todo o momento um ou outro sonhador fraco está se convertendo em prático, pois o mundo é um moinho de sonhadores parciais.
O prático, a partir da luta é que passa a acreditar, entretanto, se eventualmente durante a caminhada ele nota um atalho, ainda que este o desvie daquilo que desejou, ainda que este seja somente um disfarce pra sua derrota, ele segue sem remorso algum e passa o resto da vida fingido pra si mesmo não ter desistido.
Já o sonhador, jamais abandona a guerra independente das derrotas, afinal, ele tem dentro de si uma certeza baseada na coragem que utopias são irrealizáveis até o momento que alguém vá lá e torne possível. Somente os sonhadores são capazes de realizar o impossível.

domingo, 25 de junho de 2017

Destino


Um jovem comum, de pele comum, seguindo a ordem que a vida o destinou, encontraria em um dia comum, uma moça linda de 14 anos com quem iniciaria um namoro sem rédeas. 
Depois de dois meses, impulsionados pelos hormônios típicos da adolescência, a moça engravidaria. Então, ele, sem opções, seria obrigado a largar os estudos pra trabalhar fosse no que fosse pra ao menos fingir que poderia sustentar o filho e a garota. Depois de um tempo, conseguiria levantar o que poderia se chamar de moradia de dois cômodos nos fundos do terreno dos pais da companheira, e lá viveram até que, os 16 anos, a natureza os agraciaria com mais um filho. 

Mais tarde, ele perceberia a grande bosta que a vida havia se tornado. O quanto tudo aquilo não fazia sentido. O quanto ainda era jovem e poderia está aproveitando mais a vida.   Então, munido destas convicções, vendo que não era justo que a única diversão da sua vida fosse dez minutos de fornicamento diários com uma garota com os couros do bucho mole devido os dois filhos que tivera, entrega-se ao álcool em demasia como uma forma de fazer justiça em relação à vida. 

Aos sábados, invariavelmente, como que numa promessa, depois de trabalhar a semana inteira na lavoura e de ter economizado, a duras penas, todo o dinheiro da semana, ele sai com a desculpa que iria comprar o jantar no intuito  de passar naquele bar ridículo onde trabalha uma puta aposentada por tempo de contribuição mas que não conseguiu largar completamente o ramo. Mais de sessenta anos e ela ainda tinha cheiro de puta e ainda ostentava aquele trejeito natural pra arrancar até o último centavo dos poucos que ainda cometiam o erro de parar lá. Pensava ele que talvez pudesse ir ao um cabaré de qualidade, porém, sabia que o dinheiro era pouco. Poderia ir algum lugar que não tivesse putas e, sim, ninfetinhas da sua idade, no entanto, sempre que ele se olhava no espelho, via o quanto às longas jornadas de trabalho diário haviam o tornado ridículo; magro, com a pela massacrada pelo sol, olhos fundos; ele era o perfeito retrato de um caboclo de quarenta anos. Então via que o único local que poderia ser tratado como gente era naquele bar ridículo.  Como ele era o único cliente da puta aposentada, ao menos lá,   o álcool e as carícias das mãos ásperas da velha dama da noite o  faziam se sentir importante.       
E em um desses sábados, não diferente de tantos outros, depois de gastar todo o dinheiro, e não mais receber  o mesmo tratamento naquele digno estabelecimento, ele se dirige pra casa sem conseguir nada além de torrar todo o suado fruto do seu trabalho. Alcoolizado, sente que tudo aquilo fora um grande erro, que deveria mesmo era ter comprado o jantar, pois também sentia fome. Ao chegar a sua casa, ver a garota que pensou que ia ter sempre a pele lisa, os couros firmes, sentada na velha cadeira com os peitos caído tentando amamentar o filho mais jovem enquanto o mais velho pergunta pelo jantar.  Ele ver aquela cena e sente um profundo ódio de si mesmo. A sua pobre e calejada esposa, cansada daquela rotina toda semana, apenas o fita com um olhar de desprezo. Ele então, não aceita aquele olhar. Ele queria que ela gritasse com ele, que o colocasse no seu devido lugar porque ele era um merda. Ele tinha consciência que merecia sim, uma surra, mas quem seria capaz de dar essa surra nele? 

Irritado com toda aquela falta de ação da pobre moça, ele, sem dizer uma palavra, chega até as poucas panelas sobre o velho banco improvisado como uma prateleira para os poucos alumínios que tinham e o vira contra a parede provocando um estouro enorme, desencadeando o choro dos dois filhos e da sua companheira. A pobre moça, sem opções, apenas pede pelo o amor de Deus que ele se acalme.  O jovem então, enojado mais ainda com sua atitude sem sentido e vendo o quanto estava fazendo sofrer sua companheira e seus filhos, sente que merece morrer. Mesmo assim, sua companheira, pobre coitada,  pra proteger sua vida e  sua prole, enquanto chora, diz que o ama e que não se importa com as suas bebedeiras. O jovem, cada vez mais se sentindo um lixo por aquelas palavras que não merecia, dispara uma bofetada contra o rosto da esposa.  E sentindo-se indigno de viver, percebendo que aquilo não acabaria bem, sai de casa com a certeza que se ficasse, mataria alguém pelo simples fato de que ele, era quem merecia morrer.

Ele dorme ao relento, como de fato merecia - e retorna na manhã seguinte como se nada tivesse acontecido. O velho banco já se encontrava no lugar de sempre, o olho da sua companheira se encontrava roxo, mas demonstrando querer esquecer, ela sorria enquanto preparava o café preto para ser bebido em mais um dia como qualquer outro. Ele toma o café churro, sente-se fraco, mas para não demonstrar sai novamente pra mais um dia comum de domingo em que retornaria bêbado pra casa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Mil versões de mim







Já imaginei milhões de versões de mim, milhões de disfarces, roupagens, novas personalidades que eu posso adquirir permanentemente ou por fases, porém, nenhuma delas me agrada tanto quanto quem eu sou hoje.
Já sou a minha melhor versão de mim.
Ora, já me imaginei com um milhão e não seria uma pessoa melhor do que sou hoje.
Já me imaginei famoso e acho que seria arrogante, chato, incompreensível.
Me imaginei uma árvore, mas conclui que não serviria de sombra pra um viajante solitário; minhas folhas não curariam a dor de um coração angustiado; meus galhos finos nem mesmo serviriam de lenha pra lareira de uma senhora e seu gato em um dia de inverno.
Já me imaginei namorando, casado, mas penso que esqueceria datas importantes; até levaria flores no início, mas depois sentiria a necessidade de um novo desafio, uma nova conquista, então fugiria com a ruiva do caixa três da farmácia.
Já me imaginei em idade senil - e descobri que antes disto me mataria.
Já me imaginei com coragem - e descobri que findaria numa caixa de papelão numa rua fétida sem entender a razão da minha existência.
Já me imaginei um herói e talvez até salvasse a mocinha de algum mal feitor, mas quem a salvaria de mim?
Já me imaginei bandido e conclui que seria baleado no peito enquanto ainda planejava o crime.
Já me imaginei um deus, fiquei aterrorizado com a possibilidade, pois era certo que a maioria acreditaria.
Já me imaginei um demônio e descobri que não passaria da desculpa pra selvageria humana que todos carregam.
Já me imaginei uma rosa, mas seria aquela flor posta no buquê na falta de outra mais frondosa.
Eu poderia escrever milhões de páginas sobre todas as versões que imaginei de mim, mas em nenhuma delas eu seria melhor do que quem sou hoje.
Sou a minha melhor versão de mim simplesmente porque tenho milhões de possibilidades de ser quem me der na telha.
Deus me livre do castigo de ser só um.

sábado, 10 de junho de 2017

Delírio






Um homem magricelo, cabelos negros, de pele tão branca que se vê as artérias e veias pulsando em azul anil sob a pele frágil devido a falta de melanina, caminha numa rua estreita rumo ao carvalho gigante no centro da cidade.

Febril, ele não percebe a vida ao seu redor.
Uma sacola plástica de supermercado voa livremente um pouco a frente de sua insignificante existência e ele não se dá conta que, assim como aquela sacola, ele também era levado ao sabor dos ventos daquele dia quente. Os seus passos não pareciam ser influência da sua vontade; pelo menos não daquela vontade que se sente com a certeza que se caminha em direção ao correto.
Toda a sua vida era um erro maldito. Nem mesmo se lhe perguntassem as horas, ele não podia responder com precisão, pois o ponteiro dos segundos do seu relógio de má qualidade se desprendera e agora girava de acordo com o movimento do seu braço. 

Em transe, ele via o mundo de uma ótica mística, como se ele se encontrasse em um aquário sob o sol do meio dia e os reflexos na água e no vidro fossem o véu pelo qual ele via o seu mundo. Nada era o que era. Ele existia, mas apenas em planos surreais da sua própria mente perturbada.

Por vezes, ele batia ombro a ombro com os passantes, mas era como se ele atravessasse a existência pequena daquelas pessoas reais; naquele instante ele era quase um Deus, existindo aqui e ali por frações de segundos de acordo com as crenças de homens comuns.

E se o mundo era um espelho d'água, seus pensamentos se dissolviam sem nexo, sem coerência: "o sol brilha há milhões de quilômetros de mim, mesmo assim, posso sentir na pele o seu calor como se ele fosse uma cabeça gigante que me sopra ar quente a fim de de que eu não esqueça que ele sempre esteve lá. No entanto, sua empreitada é inútil até que chegue ao extremo de queimar a plantação de alguém.

Como cheguei nesta ideia? "O universo é imenso, eu sou pequeno demais: um átomo que existe e não existe. Então por que vou me preocupar em procriar se há muitas outras pessoas que existem o tempo todo e podem fazê-lo com maiores chances de obterem êxito? Eu sou um pensamento, uma ideia, uma miragem de deserto, não posso passar minha existência pela metade para as futuras gerações. Machado de Assis tinha toda razão." 

Arrastando-se pelas paredes e calçadas, o homem chega até o carvalho gigante bem no centro da cidade, então sob a sombra da árvore real, ele retira seu violino da mochila - e ainda olhando pra si mesmo inicia a tocar as notas celestiais, não para os homens ali, mas para os anjos do seu mundo cor de água e céu. 
Se lhe jogam moedas, ele entende que são elas recompensas pelo fato de, embora por pouco tempo, ele existir plenamente.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Abismo


Sabe no que eu estou pensando? Eu lhe digo, afinal nunca fui de guardar sentimentos: eu estou pensando na minha existência fatalista. Estou refletindo sobre o fato de que eu sou tão intenso que seria capaz de trocar anos por segundos, se estes me proporcionarem qualquer coisa além do comum. Parece que viver pra mim é escorregar em um abismo cujo no final me esperam lanças afiadas e ávidas por meu sangue. E eu sinto, com toda sinceridade, que nesta jornada, existem inúmeros pontos que eu posso me agarrar, diversas escolhas que eu posso tomar pra deixar de cair tão rápido, mas é como se fosse o meu destino esse escorregar intenso.
Talvez eu opte por continuar caindo porque sei que é melhor poucos segundos sentindo o vento da descida e vivenciando a emoção da queda, do que uma vida morna e estagnada em um ponto neutro. Não, eu prefiro ir, sabe, talvez assim eu chegue mais longe do que imaginei.
Se eu opto por me agarrar, por evitar a queda, viverei muito, é certo, mas serei só mais um agarrado as coisas vazias da vida, que eu sei que valem muito mais do que toda metafísica, mas a questão é que eu sou assim. Portanto, deixem-me cair, talvez uma hora ou outra o abismo vire e, por uma questão simples de percepção, eu passe então a ser erguido aos mais altos patamares onde me esperam flores e tapetes vermelhos.
Então você que antes assistia contente a minha queda, vislumbrará lá de baixo os meus pés ornados em ouro e pedras cintilantes, ainda que estes estejam cheios de cicatrizes deixadas pelas lanças que eu mesmo coloquei no final do meu abismo.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A caça







Com os pés descalços, aquele garotinho loiro, de pernas finas e abdômen sinuoso, corria pelo quintal de cajueiros com a certeza que uma hora ou outra aprenderia a usar o estilingue que sua mãe lhe comprara aos custos dos olhos e balearia um pássaro qualquer, cujo este lhe serviria de janta ou coisa parecida, mas apesar das tentativas, parecia que ele não tinha nascido com o dom pra caça, não de pássaros. Talvez se ele fosse mais longe obtivesse mais êxito, pois os pássaros não se aproximavam da casa, salvo os pequenos que não serviam de alimento e, por conseguinte, também era mais difícil acertá-los, porém ele tinha medo de tudo; de troncos de árvores secas, de carros pretos, de gringos que roubavam criancinhas pra fazer sabão e mais um infinidade de coisas... Se ele tomava certa distância de modo que não visse mais a mãe a lavar a louça do almoço na pia ao ar livre, ele sentia que os monstros, as raposas, os lobisomens o devorariam ainda vivo, e sozinho, ele não poderia fazer nada em defesa de si mesmo. Se ao menos o seu pai lhe acompanhasse na caçada. Porque ele tinha medo de tudo, mas enquanto estava com o seu pai era como se nada pudesse atingi-lo. Se ele via os troncos que outrora lhe provocava tremeliques nas pernas, ele dizia pra si mesmo a plenos pulmões: "venham agora seus desgraçados, agora eu estou com o meu Pai, vocês não podem me devorar."

Trajando a velha bermuda azul marinho que sua mãe confeccionara de uma calça da Adidas, presente dos parentes de São Paulo, ele corria feliz e sujo, ignorando totalmente a vida dos adultos. Ele não entendia porque os adultos brigavam o tempo todo, porque se preocupavam com o almoço de amanhã ou onde dormiriam quando as redes de algodão se rasgassem completamente. A vida pra ele era uma grande manga madura que ele mordia com gosto todos os dias como se jamais fosse ver outra igual. 

Sempre com um olho na copa dos cajueiros e outro na mãe que lavava a louça enquanto reclamava da vida árdua que vivia como sempre fazia, ele se sentia o maior caçador do mundo, mesmo nunca tendo matado nada além de formigas. A mãe alternava entre instruções pra que ele não se afastasse e reclamações do cotidiano: “a noite não teria isto ou aquilo, amanhã também não, os próximos dias seriam mais difíceis ainda - e assim por diante”. Ele já estava acostumado com as brigas da mãe com o pai devido questões financeiras; era só mais um dia comum. O pai, este ouvia tudo calado enquanto concertava na calçada um relógio Oriente sem valor calórico algum, logo, sua mãe odiava os relógios e os rádios que o pai vivia a concertar uma vez que tal atividade não provia alimento para os filhos. Até que, seu pai chega ao seu limite; irritado com os gritos, ele toma uma foice, destas que se usa em atividades agrícolas e corre atrás da sua mãe na intenção de feri-la, ou de assustá-la, não se sabe. O garotinho loiro de seis anos, solta o estilingue e fica parado observando sua mãe correr em desespero em direção contrária a ele. Nada ele podia fazer em defesa de sua mãe, a não ser gritar. Até que seu pai desiste, ou porque não tinha intenção mesmo de feri-la ou devido os gritos do garotinho desesperado - e retorna pra casa ainda munido da foice. O garotinho corre até a mãe, mas aos seis anos de idade não lhe ocorria palavras de consolo, nem podia lhe dá um abraço de segurança ou qualquer coisa que o valha, somente se juntou a sua condição e chorou com ela. 

Aquele dia, aquele garotinho magricelo foi teletransportado por vias tortuosas para o mundo dos adultos. Ele passou a entender a preocupação com o amanhã, pois agora ele compreendia o medo que os adultos tinham oriundo da certeza que por qualquer razão o sol talvez não nascesse no dia seguinte. 
A segurança que antes o pai lhe proporcionava, que é o papel principal da figura masculina no desenvolvimento de um filho, já não existia mais. Se antes as paredes e o seu lençol lhe protegiam do ataque do lobisomem durante a noite, agora que o lobisomem estava no quarto ao lado, já não tinham esse poder. Inúmeras e inúmeras noites aquele garotinho passou acordado pensando que a qualquer momento seria devorado pelo lobisomem. E se ele agora via, ouvia, sentia como um adulto, aquela criança de seis anos permaneceria pra sempre em algum recôndito dentro dele e o impediria de amadurecer por completo pra sempre. 

Naquele dia, aquele garotinho loiro foi forçado a abandonar a caça aos pássaros pra caçar algo maior que era os demônios que lhe rodeava.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Tão doce e suave




Se o mundo fosse da maneira que imaginei, todos os desejos seriam realizáveis, para que ninguém sofresse com a impossibilidade. Existiria, assim como existe, a necessidade de estar perto, de olhar, de tocar, o tempo todo as pessoas que amamos, mas tudo seria perfeitamente possível. Assim, a saudade seria, não um tormento, mas um alento, devido a espera como uma certeza, e não, como um desejo tolo.
Se o mundo fosse como imaginei, seríamos eternamente como crianças; não acumularíamos mágoas, e se escolhêssemos, poderíamos viver só de imaginar, cada um no seu mundo interno, surreal e particular. Assim, todo mundo seria agradável a primeira vista, pois não haveria a necessidade da hipocrisia para agradar um ou outro, já que seríamos auto-suficientes. E se fosse como imaginei, todos teríamos plumas coloridas, assim como pavões, e as guerras seriam apenas para decidir quem exibiria a plumagem mais exuberante. E o vencedor tinha o direito de arrancar todas as penas do derrotado, e ele morreria resfriado pouco tempo depois. Foda-se!

Ás vezes escrevo cada besteira que não condiz com minhas ideias humanas. São tolos aqueles que tentam fugir da humanidade que há em si. Eu poderia escrever milhões de textos utópicos, cheio de belas palavras que agradam aos olhos, mas de que adiantaria? O mundo se encontra ai, competitivo, selecionando os fortes e descartando os fracos. E eu, como o mais fraco e tolo de todos, ficando pra trás.
A vida é uma corrida em que a lebre nunca dorme.
Porém, existem aqueles sonhadores, coitados, que passam a vida esperando que a lebre caia no sono, mas ela nunca adormece, é fato.
O que a gente pode fazer é tentar não disputar a corrida alheia, identificar em qual terreno nos daríamos melhor, quais adversários teríamos chance de vencer, e só entrar numa corrida que poderíamos ser, ao menos um coelho, que se não é tão veloz das pernas, ao menos se reproduz exageradamente.