domingo, 23 de julho de 2017

Ninguém



Lembro-me bem da primeira vez que Ninguém bateu a nossa porta. Era uma e quinze da tarde, pediu água, lhe foi oferecido, mas o copo por ele bebido fora descartado para o lixo imediatamente ele dobrou a esquina. Ninguém poderia carregar qualquer doença contagiosa que adicionada ao nosso asco, poderia ser mortal. “ Mas, Dai de beber a quem tem sede.” 
Desde então, ele sempre que passava na estrada, pedia água e depois de beber se ia para algum lugar que certamente há tempos que já devia ter chegado. 
Passadas algumas vezes em que ele sempre repetia o mesmo gesto, ele retorna novamente a nossa porta e como previsto, pediu novamente um copo com água, mas antes que “Alguém” trouxesse, Ninguém retira do bolso seis reais em notas de dois e começa contar e ajeitar as cédulas de inúmeras maneiras sem nunca se dá por satisfeito. Até que água chega, ele pega o copo com a mesma mão que se encontrava as notas, mas depois troca o copo de mão, e finalmente recoloca as notas no bolso. Enquanto bebia, Ninguém abre os olhos e nota o copo da mesma cor das outras vezes, fica em silêncio por alguns segundos, mas nem Ninguém, nem nós admitiríamos o fato que jamais beberíamos da mesma água, ainda que tal ato fosse contrário a nossa fé pregada os quatros ventos. Depois daquela pausa, ele torna a engolir o líquido, mas via-se de longe que mais parecia que ele engolia areia em vez de água. 
Dada à frequência com que ele pedia água, já havia sido separado um copo de plástico barato com o objetivo de que ele sempre bebesse nele, de modo a não contaminar o restante dos copos da casa. 
Depois de beber, Ninguém entrega o copo um tanto cabisbaixo, como se não tivesse matado completamente a sede e sem olhar nos olhos dos supostos “Alguéns”, retira novamente as cédulas do bolso, mas logo recoloca, sem contar ou reorganizá-las como antes. Eis que, diante daquela cena, Ninguém deixa sair da sua boca as palavras mais tristes que outro Ninguém poderia ouvir: Eu nasci sem sorte, sabe? Eu nasci sem sorte. 

Ninguém quis lhe passar uma lição com esse texto.

sábado, 22 de julho de 2017

O vendedor de abraços


#CrônicaDeDomigo 

Um homem se dispôs na esquina mais movimentada da cidade pra onde se mudara a pouco tempo no intuito de vender abraços. 
Vestido "fofamente" de cão de pelúcia, ele tinha como certo que ganharia a "vida" desenvolvendo tal atividade, pois todo mundo precisa de abraços e de carinho. Porém, ele tinha aprendido desde muito cedo que carinho não se oferta gratuitamente; o outro precisa conquistar a muito custo, e muito além, se manter sempre cativante de modo sempre merecer gestos de carinhos futuros, então vendê-los era a decisão mais acertada que ele já tomara na vida.  E também ele concluiu que abraços sinceros estavam cada vez mais raros, ou seja, a demanda era maior que a oferta e o sucesso do seu negócio estava garantido.
De antemão, escreveu uma placa com os seguintes dizeres:
"Vendo abraços! Pergunte-me o preço!"
Nas primeiras três horas em que ele dançava e fazia piruetas de modo atrair clientes para o seu negócio, os transeuntes simplesmente desviavam dele como se ele fosse um hidrante comum de tão vermelho, o levando a crer, por vezes, que ele era invisível, apesar da roupa, da placa e tudo mais.
Há certa altura, já descontente com toda a humanidade, ele se deu conta que talvez as pessoas não estivessem dispostas a pagar por algo que poderiam receber gratuitamente das pessoas que amavam - e que certamente dispensavam todos os dias. E mesmo, os abraços nunca dados só são percebidos depois que já não são possíveis de serem apertados. 
Triste, ele sentou no caixote que trouxera previamente pensado no caso de precisar de suporte pra abraçar algum cliente bem mais alto que ele, sustentou o queixo com as próprias mãos, respirou fundo, desesperançado e convicto que, diante do fracasso, não retornaria no domingo seguinte. 
Eis que, assim como a borboleta toca a flor, ele sente uma mão no seu ombro fofo. Ele vira-se, nota uma moça linda, de sorriso largo e olhos brilhantes trazendo consigo uns livros e duas rosas. Ela pergunta o preço do abraço - ele sorrindo, responde: "é outro abraço! Nada mais triste do que abraçar o outro sozinho, não é?"
Ela achou o preço muito justo. Largou os livros no caixote e se abraçaram por 30 segundos. Ao se afastarem, ela sentiu que talvez precisasse de mais, e resolveu que iria gastar mais um abraço dos seus. O homem, como bom empresário que era, nunca recusava cliente, então vendeu mais um abraço apertado.
Aquele era de fato um negócio promissor, pois os índices de inadimplência eram zero, uma vez que ao comprar um abraço, o serviço já era pago no ato do recebimento do produto, sem opções de parcelamento nem prazos, de modo que era perfeito. E se, tivesse um único cliente por dia, já era mais que suficiente pra mantê-lo por uma semana ou mais sem se sentir tão sozinho longe das pessoas que ele deixara em sua cidade natal. 
Aquela moça linda, como forma de agradecimento por aquele empreendedor tão ousado ofertar um negócio tão útil à cidade, lhe entrega uma das rosas que trazia consigo.
Diante daquele ato, ele simplesmente fica em silêncio e desconcertado, pois ela estava pagando mais do que o justo.
Ela percebendo o seu desconcerto, diz com aqueles olhos de quem via o mundo de uma ótica única: "Sempre que você oferta carinho verdadeiro, as recompensas são sempre em dobro."
Com aquele gesto, ele concluiu que aquele negócio era mais promissor do que ele jamais supusera. Ele só não entendia, porém, era o fato de o mundo ainda não ter se dado conta de uma verdade tão óbvia.

O JARDINEIRO



Planando o último metro quadrado de areia branca por entre as rosas, aquele jardineiro magricelo de cabelos lisos iria passar duas horas apreciando o trabalho que desenvolvera com maestria no intuito de atingir a certeza que não era um fracassado total.
Após concluir e começar vislumbrar o fruto do seu labor, ele constata que a  areia branca trazida diretamente da Grécia por seus senhores para preencher os espaços entre as roseiras e os arbustos, em prática, lhe pareceu uma ideia mais acertada do que ele jamais supusera, pois o verde escuro das folhas, as rosas vermelhas, em contraste com a areia cintilante sob o sol das nove da manhã, era de uma beleza magnânima.

A jardinagem era o que ainda lhe proporcionava um pouco de prazer uma vez que a pintura, a sua verdadeira paixão, a sua vida, era uma atividade  em que ele ainda não se julgava suficientemente bom pra que fosse ovacionado como ele sempre desejou.
Ele tinha como certo que um dia, quando ele finalmente pintasse o seu primeiro e único quadro até o fim, o mundo se curvaria aos seus pés. Embora ele não fizesse ideia do que iria preencher aquela tela, tinha como certo que não iria encontrar inspiração na racionalidade, ou no mundo que os homens criaram no intuito de enganarem a si mesmos que estão no controle dos seus destinos. Desde os onze anos, ele adquirira a obsessão pela busca da perfeição; o único quadro que ele concluiria, seria pintado tal qual Deus pintou o Jardim do Éden e, se assim não fosse, ele morreria tentando. E naquela jornada pra atingir a divindade, aquele exímio jardineiro jamais manteve vivo por mais de cinco minutos nenhum dos muitos quadros que pintara ao longo da vida, pois sempre que se aproximava de concluir uma obra, julgava humana e racional demais, logo, não era o que ele almejava. Ele sabia que era preciso ser menos gente pra atingir a divindade e, por conseguinte, pintar o quadro perfeito; o quadro que proporcionasse a quem tivesse a honra de apreciá-lo o mais puro terror em conjunto com o contentamento proporcionado pela beleza da dor selvagem e instintiva.  

Uma vez que ele ansiava pela sincronia com a mão de Deus, qualquer coisa que ele julgasse humano não era de seu interesse. Não mantinha relação alguma com seus semelhantes; nunca proferia uma palavra sequer ou olhava diretamente nos olhos de quem quer que fosse.  Os patrões somente lhe direcionavam a palavra para alguma ordem sem graça, que ele nunca seguia a risca, pois tinha o seu jeito próprio de dar vida aquele jardim, que era se privando da sua própria. 
Desde que assumira o jardim, tudo ali era de uma beleza nunca vista em outro lugar no mundo, de modo que os patrões, mesmo notando a excentricidade daquele jardineiro, jamais o demitiriam, pois se habituaram aos elogios de seus conhecidos com relação ao seu jardim cheio de vida: mesmo que a figura daquele homem magricelo chocasse os poucos que o viam, embora raramente alguém se deparasse com ele, e se acontecesse, ele fugia como o diabo da cruz. Nem mesmo seus hábitos pouco ortodoxos cujos assustavam até mesmo a mente mais perturbada, não lhe eram motivo pra que dispensassem seus serviços, embora suas verdadeiras loucuras, ele tomasse precauções pra que ninguém visse.    

Certa vez, no auge do frio do inverno, aquele fantasma do jardim, resolveu cavar um buraco na terra úmida de mais ou menos sessenta centímetros por detrás de uns arbustos na parte dos fundos da mansão. Ao concluir, se despiu, deitou seu corpo flácido e trêmulo de frio naquele que ele julgava não um buraco, uma cova, mas um portal para uni-lo em definitivo com a natureza instintiva, se enterrou com as próprias mãos deixando somente a boca e as narinas para captação de ar - e lá ficou por dois dias inteiros sem que ninguém o encontrasse, somente bebendo o orvalho que lhe caia a boca.  
Há que se lembrar de que tal empreitada quase o matou. Aquele ato era mais uma de suas tentativas pra atingir a inspiração pra “esculpir” o seu quadro divino. Ele tinha como certo que sob a terra úmida, vivendo junto, e, como um verme, ele se uniria a natureza selvagem e se desvencilharia de todo e qualquer sentimento humano, logo, ele poderia pincelar o seu quadro da mais pura beleza selvagem, como o seu Deus Pollack.  
Depois de chegar ao seu limite, de ouvir o pulsar da terra, de sentir que sua carne e a terra haviam se tornado somente uma, ele reuniu o que lhe restava de forças, levantou-se evitando ao máximo que a terra que lhe pregara no corpo voltasse ao seu lugar justo e se direcionou até seu minúsculo quarto nos fundos do jardim e lá, começou pintar o que seria o seu quadro destituído de qualquer humanidade. Mas depois de duas horas pintando, ele retorna a si, olha para a tela e se  depara com a figura de um homem com uma corda no pescoço se equilibrando nas pontas dos pés numa maçã pobre para evitar a morte. Os olhos daquele homem extramente assustados devido o medo da morte,  provocaram pena ao jardineiro, sentimento humano menos nobre que ele já conhecera,  então irritado, ele simplesmente se joga em cima do cavalete e rasga no dente aquele quadro mixuruca.  

Até aquela manhã, aquele homem sem vida já havia desenvolvido as mais excêntricas estratégias de modo a inspirar-se para seu único quadro, mas todas haviam se demonstrado inúteis. Certa vez, ele chegou a cortar os pelos dos cílios a fim de não mais dormir no intuito de despertar pelo sofrimento o seus instintos mais selvagens. Mas depois de seis dias, ele somente conseguiu pintar uma moça espanhola pastoreando ratos no alto de uma colina. Não era a pintura sublime que ele buscava, nem era pintada com a arte que ele almejava alcançar, então,  mais uma vez se desfez do quadro. 
Mas naquela manhã, havia qualquer coisa de diferente, embora ele não soubesse o que era. Apreciando a areia branca, ele refletia sobre o fato que talvez jamais conseguisse atingir seus objetivos. Tais ideias começaram reverberar no que ainda lhe restava de humano e sentindo-se um fracassado de merda, ele profere um grito tão alto e diferente que arrepiaria até os mais indiferentes corações- e em um ato intuitivo, descalça suas botas que já ostentavam quatorze anos, e gritando tudo que ele havia guardado para si a vida toda, começa correr sobre a areia branca deixando suas pegadas como evidência do seu descontentamento com tudo. 
Ele corria feito um lobo faminto em direção a uma presa que sabia que jamais alcançaria. Até que, em meio às roseiras, bem no centro do jardim, um espinho lhe perfura o braço deixando um corte profundo fazendo com que o sangue caísse na areia branca. Sem se dá conta da dor, aquele homem corria deixando uma trilha vermelha por onde passava. Quando ele finalmente sente o líquido quente deslizando por seu braço, ele para, ignora o ferimento, olha para trás e se depara com os rastros de sangue. Ali ele entendeu que tudo que ele passara durante a vida,  toda dor, resignação, conspiravam pra que ele chegasse aquele momento. Finalmente tudo fazia sentindo. Sem pensar, ele se despe e torna a correr totalmente nu, mas agora em direção as roseiras.   Ele se lança aos espinhos como um touro feroz aos chifres de um rival. Sua pele frágil, jamais exposta ao sol, é dilacerada pelos espinhos derramando a sua vida por onde passava. Ele corria e a trilha deixada formava linhas instintivas totalmente destituídas de vontade. Apreciando o seu próprio espetáculo, em euforia, ele ignorava a dor, os homens e a vida. 

Os cortes deixados pelos espinhos das rosas não eram suficientes para que ele finalmente concluísse o seu quadro magnânimo, então ele lança-se aos cactos se provocando assim cortes mais profundos mas que pouco importavam já que lhe rendiam a tinta que precisava. Ele era senhor de si mesmo, pintando o quadro da sua vida, o quadro que qualquer um que visse, apesar da dor, da aversão ao sangue, não conteria o contentamento em apreciar tão divino espetáculo. 

De repente, ele para em frente a uma gota do seu próprio sangue, acocora-se, e nota uma formiga numa tentativa infrutífera de se livrar do sangue coagulado, mas já perdia as forças, eis que, pela primeira vez na vida, aquele jardineiro excêntrico ensaia um sorriso. Após a formiga perder totalmente os movimentos, ele se levanta e continua...  Ele não podia parar! Finalmente iria concluir a pintura da sua vida, logo, sem escolhas, ele se lançou mais e mais vezes sobre os cactos. E continuava a correr sem direção.  Até que, depois de mais de uma hora, ele para, gira em torno de si mesmo bem no centro do jardim e vislumbrando finalmente a sua obra perfeita, desfalece de braços abertos na areia grega agora vermelha. Ali deitado, ofegante, ele  conclui que aquela pintura, o quadro da sua vida, só poderia ter sido pintada por alguém caminhando no vale da sombra da morte. Eis que, ele profere o último suspiro ciente de que tinha finalmente atingido seu objetivo maior. 


Alguns segundos depois, um rouxinol pousa compassadamente no ombro sem vida daquele Jardineiro embebido em seu próprio sangue - e inicia cantarolar o canto dos deuses, conferindo então som aquela pintura que já tinha cor, aroma e dor.      

Samuel Ivani   

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Paraíso



Mas que lugarzinho mais sem charme, hein!
Onde é que esconderam a poesia daqui?
Em que calabouços acorrentaram os sentimentos nobres?
Onde incineraram a arte, a honra, a embriaguez de saudade?
As pessoas aqui bebem sem sabedoria,
se amam sem vontade, casam-se por ironia,
se acorrentam fartos da liberdade,
vivem de respirar e morrem de vontade...
Mas que lugarzinho, hein!
Ninguém aprecia Strauss, nunca ouviram falar de Neruda.
Vagueiam uns enovelando-se nos outros sem se entenderem,
Embora todos carreguem a sabedoria dos frades, do Papa, e até de Buda.  
E os pecadores, onde os deixaram?
As vezes penso que já me encontro no paraíso,
Pois todos são santos "batendo com a bengala da moral na cabeça do vizinho
mas nunca em si mesmos."
Todos reconhecem as próprias chagas, mas  só apontam as feridas alheias.
E amor? Em que calabouço sujo e imundo o abandonaram?
Até parece que aqui, ninguém ama,
Tampouco confiam no amor do próximo.
São cobras engolindo cobras; lambendo-se e se mordendo
a fim de não perderam o espaço miserável  do qual estão destinados.
Hei de procurar o amor nas terras onde ele deve repousar a minha espera.
Aqui, só desprezo, incompreensão e dedos apontando os meus defeitos e
ignorando minhas qualidades, se é que possuo alguma.
Hei de encontrar o amor ao virar uma esquina charmosa
de uma rua estreita, cheia de casas no estilo colonial.
Não aqui, nesse lugar sem curvas em que todos são retos aos olhos de Deus.
Aqui não me sobra espaço.
Mas onde será que é o meu lugar?
Onde será que se esconde o meu mundo de gente?
Mas que lugarzinho foram me nascer, meu Deus!


quarta-feira, 19 de julho de 2017

O FIM



Lembrara-se do passado em que todos os dias, há primeira hora, ela apreciava o sorriso murcho do companheiro e ouvia, ainda que ela julgasse não merecer, um elogio previamente pensado  e clichê do tipo: “você  é a única mulher do universo que acorda linda!” Tal gesto tão singelo, representava uma filosofia de vida e mudava totalmente o seu dia, tanto dela quanto daquele que jurara passar a vida toda do seu lado. Toda manhã ela levantava com vontade; a vida parecia que podia ser apertada com força,  tal qual se abraça em um dia frio o urso de pelúcia gigante ganhado no aniversário de dezessete anos. Agora ela acorda, reluta em mover-se, parece que nada vale a pena. Ao ouvir o som dos anjos do inferno entoando o barulho do despertador do celular, ela se dá conta o quão triste é aquele som. O despertador do celular, antes sem utilidade, agora era programado pra despertá-la quatro vezes em intervalos de cinco minutos - e mesmo assim, depois da última, ela levantava, mas só abria os olhos na porta do banheiro,  relutando em encarar a realidade.

Naquela manhã, ela abre os olhos fitando os pés, sem vontade alguma de erguer a cabeça, então nota as pernas por depilar, as unhas por fazer.  Ela respira fundo, apoia-se na parede, começa movimentar os dedos sentindo a textura do tapete em forma de joaninha que agora achava de um tremendo mau gosto. Eis que lhe ocorre uma vontade louca de gritar, mas descobre que já não tem voz. Sem vontade, ela entra no banheiro, liga o chuveiro, mas não toma banho, deixa apenas que à água deslize por seu corpo como se ela fosse uma rocha em que o rio passa em direção ao mar ignorando totalmente sua existência.  Até mesmo o barulho do chuveiro cujo antes lhe impulsionava a cantarolar qualquer coisa de manhã, agora lhe representava qualquer coisa melancólica e só lhe ocorria a vontade de chorar. Às vezes ela chorava mesmo.  

Depois do banho, como em outros dias antes deste, ela passa trinta segundos em frente ao closet, tentando ganhar forças, pois sabe que imediatamente ao abrir a porta, sem questionar, o cheiro dele iria adentrar suas narinas como um touro feroz seguindo em frente sem intenção de chegar. Sem opções, ela respira fundo, abre à porta, o aroma previsto lhe cobre de lembranças felizes: as flores, a noites de prazer, os planos para o futuro, a grama verde, o pomar... Tudo sem a presença dele era abstrato; era como tentar agarrar a neblina e sentir somente o frio lhe cortando a alma. Ela escolhe uma roupa aleatória, pois sabendo que não receberia elogios de quem era importante, pouco importava. Põe um batom sem gosto, os sapatos lhe apertam os pés e, a dor, ainda que suportável, não lhe parecia justa; era como se o custo da beleza já não tivesse sentindo. 

Já próxima do trabalho cujo ia a contra gosto, ela ouve aquele som de mensagem que mais parecia um anjo tocando sax numa carruagem de ouro; era uma mensagem de voz do marido que havia viajado a trabalho pedindo desculpas por estar sem sinal, logo, não teve como lhe enviar aquela mensagem de bom dia, assim como em todos os dias anteriores. Fatalista e trágica como ela era, já tinha imaginado que ele estava lhe traindo e nunca mais iria voltar. Mas diante da nova realidade, ela esquece o aperto nos sapatos, os seus cabelos, antes sem graça, agora lhe pareciam tão cheios de vida e poder que ela era capaz de derrubar centenas de inimigas de um giro só.     

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Jardim dos animais


#CrônicaDeSegunda 


Era 1999, o mundo era outro, o universo era outro, logo, aquele garotinho era levado a ser outro também. Em 1999 ele se descobriu amante da música clássica, talvez influenciado pelas novelas que assistia nas casas dos vizinhos e os desenhos do Tom e Jerry. Independente de como, ele só queria saber de cantar e como cantava... Mesmo sem técnica, sem saber a letra, ele entoava a única música que conhecia, Sole mio, até à exaustão. O quintal de casa era o seu palco, Deus, o mundo e sua mãe, eram a platéia. Sua mãe ria abertamente e elogiava - meu grande tenor.

A música para aquele menino era mais que notas, sons proferidos a plenos pulmões no alto dos cajueiros. A música era a sua válvula de escape, a forma que ele encontrara pra expressar os resquícios de felicidade e de arte que conseguia manter no mais profundo recôndito de sua alma.

No entanto, uma música era pouco, ele tinha necessidade de mais, então contraiu um sonho descabido: possuir uma fita cassete dos Três tenores. Porém, sua mãe não tinha dinheiro nem pras necessidades básicas, quanto mais pra futilidades como a música. Mal sabia ela que aquele garotinho não podia viver sem música.

Não tendo como comprar e, a necessidade de ouvir Plácido Domingo sendo maior do que ele, resolveu que seria vantajoso trocar todo o seu material escolar por uma fita cassete dos três tenores.
O fanfarrão do seu colega lhe garantira que a fita era dos dois terrores, ou coisa parecida, logo, pra ele seria o negócio da sua vida. Na hora marcada, lá estava ele com seu caderno do Zé Carioca, o lápis e a borracha, material que teria, sem questionamentos, de durar o ano inteiro, mas ele só queria ouvir mais de José Carreras e Pavarotti. Efetuada a troca, ele correu como o vento à sua casa. Tremendo e em silêncio, adiando o prazer, pôs a fita no toca fitas devagar. Quão grande não foi a sua decepção quando o que ouvira sair dos alto falantes do antigo rádio não foi sole mio, e sim, a frase, "amanhece na luz da campina". Ali, seu coração anoiteceu. Sentou-se e chorou. Não teve forças pra desligar o som, então a música continuou desenrolando-se. Eis que, a maior surra de sua vida teve como trilha sonora Raimundo Fagner: "fazer amor, fazer amor, no paraíso, fazer a luz do teu sorriso é natural."

Depois desse trágico episódio ele descobriu que gostava mesmo era de música, e como a única fita que tinha era de Raimundo Fagner, não tinha escolha, senão, ouvir à exaustão. Raimundo Fagner era o Pavorotti do sertão e Jardim dos animais foi a trilha sonara da sua infância. Aquela música lhe proporcionou muitas alegrias. 

Pra que essa história continue, é preciso que imaginemos um relógio grande e dourado no alto de uma torre barroca. Juntos, eu e você, tomemos os nossos dedos magros, gordos, amarelos, de qualquer cor, e giremos o ponteiro desse relógio até alguns anos depois. Pronto?
A história daquele menino com aquela música teria um novo capítulo.

Já crescido, aquele sonhador resolveu ouvir novamente à música que lhe proporcionara tantas experiências e alegrias no passado. Buscando no youtube, ele descobriu que a música tinha um clipe, bem simples, porém, muito bonito, em que um rapaz corre, literalmente, atrás do seu amor; uma morena linda, de olhos semicerrados, cabelos soltos, boca carnuda, e sorriso que mais parece um dia de sol no inverno nordestino... Aquela garota era o ideal do que seria a mulher perfeita segundos os atributos físicos para aquele sonhador irremediável. Buscou descobrir o nome da garota, ou mesmo a cidade em que fora gravado o clipe na internet, porém, a busca se demonstrou inútil. Então, depois de ver tantas vezes o clipe, resolveu que ia em busca da garota do clipe. Tal qual o negócio da fita enquanto criança, sem refletir, ele tomou sua mochila e saiu, sem rumo, sem saber pra onde, nem onde ia parar. Ele só precisava de imaginação, não de informação, ninguém precisa. 

Tinha em mente a cidade de Óros, por alguma razão, sentia que lá encontraria pistas da garota do clipe.
Caminhando na estrada sob o sol escaldante, o vapor quente do asfalto preto lhe subia as faces, queimando, mais uma vez, os seus sonhos. Depois de caminhar alguns metros, parou, verificou o quanto já tinha caminhado, olhou o horizonte à frente calculando mentalmente o quanto teria ainda que caminhar até chegar próximo de ser quem de fato ele era. 
Então sentou-se no acostamento e chorou enquanto ouvia jardim dos animais no celular. Passou a refletir que já tinha se passado dezessete anos desde o lançamento do clipe e o mundo era outro, o universo era outro, logo, ele e aquela garota foram levados a ser outros também. Ali ele concluiu que era o homem mais mutilado do mundo, pois não era um órgão, um membro que lhe faltava, era a coragem pra ir em busca dos seus sonhos. Levantou-se e retornou pra casa o merdinha de nada de sempre. De que adiantava ele ter tantos sonhos, senão tinha capacidade pra ser louco? Peter Pan tinha toda razão. 

domingo, 16 de julho de 2017

O amor é ridículo


Sem amor se vê a vida com mais arte.  Ao amar tu deixas de sentir as coisas com sensibilidade pelo que elas são e passa a ver beleza apenas naquelas coisas que consegue relacionar a pessoa amada e, enquanto se ama, tudo tem a ver com a pessoa amada. O amor apequena as coisas: o universo se torna um sorriso especifico ou "um bom dia" as onze da manhã. Uma simples conversa sem razões de como foi o dia de cada um, é motivo da felicidade de um dia inteiro, de um mês inteiro, de uma vida toda. O amor transforma o cotiano banal numa novela extraordinária, pois te arranca alegria no simples fato de ouvir que quem tu amas acordou cedo pra andar de bicicleta. Vê que triste?! Coitados dos apaixonados! Sem amor se consegue apreciar a letra de uma música sem pensar em momentos vividos, ou que sonha em vivê-los com alguém. O amor é besteira! De que outra forma se conseguiria apreciar a harmonia das notas de uma música sem pensar nos olhos de alguém, ou nas maçãs do rosto avermelhadas enquanto sorrir de uma linda moça ali?
Que lindo sorriso! Esqueçamos isto.

O amor é uma grande bobagem! Sem amor tu consegues ler um livro friamente, vendo a profundidade dos escritos, consegues analisar a técnica do autor, o seu estilo; se é parnasianista ou expressionista, e não fica imaginando como se cada cena do romance fosse sendo vivida entre tu e quem tu amas. O amor é de fato uma perca de tempo. Enquanto não se ama, pode-se olhar o pôr do sol como se aprecia um quadro de Edward Hooper, analisando a harmonia das cores, a  técnica das pinceladas, a nitidez das figuras, e não fica perdendo tempo suspirando pensando o quanto seria bom se a pessoa amada estivesse apreciando aquele lindo espetáculo contigo. Vê o quanto mesquinho seria?

Sem amor, por exemplo, tu podes passar em frente uma floricultura e observar as rosas vermelhas e analisar friamente apenas o esforço das plantas para formar aquela linda rosa, isto, com o intuito de apenas atrair um inseto que, enganado, iria polinizar outra rosa para que a vida de ambos pudesse continuar, e não ficar perdendo tempo imaginando na  alegria de alguém ao receber, de surpresa, um buquê daquelas rosas!  Notas o quanto o amor tira a beleza das coisas?!   Esse texto mesmo, escrito cheio de amor, ficou uma merda! Grande bosta é o amor! 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O homem que se derretia





Em tempos de guerra, talvez ele fosse um herói, salvasse moças indefesas, construísse abrigos e assaltasse trens carregados de ouro, mas diante da normalidade do seu cotidiano, ele não passava de um pobre homem que, aos sábados, a fim de fugir de qualquer coisa que ele não sabia bem o que era se direcionava ao parque da cidade pra ver o sol. Por alguma razão, ele sentia que tinha vindo de outro mundo, pois era ele um ser demasiadamente sensível às dores alheias, no entanto, tinha como certo que toda dor do mundo lhe era justa. Não podia ver uma abelha se afogando numa poça d’água, que ele tomava para si a responsabilidade de salvá-la, ainda que esta o agradecesse deixando-lhe o ferrão preso no seu dedão. Se notasse na rua uma mãe segurando a mão de um filho maltrapilho, as lágrimas lhe vinham com a vazão de uma cachoeira. Talvez suas roupas não fossem tão melhores que a do garotinho, mas sentia que, ele sim, merecia não trajar mais que trapos, mas aquele garotinho, não havia feito nada pra merecer tão pouco. Se por ventura se deparasse com uma senhora a jogar migalhas de pães aos pombos, ele constatava que precisava, por força, se metamorfosear em um pombo, pois eles sequer agradeciam o gesto - e se pudessem ainda defecariam na cabeça da doce senhora. Em suma, ele tomava para si a dura empreitada de concertar o mundo. 

Numa tarde, se dirigindo ao parque, ele notou uma garota com o andar estranhamente lindo. Ele tinha o costume de observar o jeito de andar das pessoas, principalmente das mulheres. Segundo sua teoria, podia-se se descobrir muito pelo jeito de andar de uma mulher; se era calma, sensata, estourada, inteligente, se era prática ou teoria, se era sonhos ou realidade. Podia supor a idade, se era filha de mãe solteira, se tinha uma família estruturada ou conturbada, se namorava ou não - e tudo com uma margem de erro bem baixa. Segundo ele, as pessoas seguem padrões, logo, basta um pouco de sensibilidade pra percebê-los.

Chegando ao parque, a garota de andar estranhamente lindo sentou-se em banco próximo de qualquer coisa bela. Nosso herói acomodou-se noutro banco imediatamente em frente, tomou o livro do dia, começou ler, mas depois da terceira linha não resistiu e passou a observar a garota notando nela qualquer coisa de arte. Os raios de sol de quase cinco da tarde lhe conferia uma cor só vista por ele antes nas pinturas de Edward Hooper. Uma abelha, aproveitando a baixa temperatura, polinizava as flores do lado dela, a moça sem nome de pele clara e cabelos negros. Se ele pudesse parar o tempo só para ele e para ela, deixaria que as gramas crescessem em volta do banco juntamente com as flores de modo que a natureza rústica envolvesse a garota lhe deixando selvagemente bela. Definitivamente vemos o mundo como somos e não como ele é.

Depois de 19 minutos em que ele vivia uma pintura desenhada pelos deuses do sol, aproxima-se um jovem vistoso, beija a garota - e de mãos dadas se vão pra qualquer lugar pra longe do sol.
Aquele jovem, decepcionado, se depara com uma certeza dilacerante: suas teorias sobre tudo estavam tão certas quanto a terra era quadrada.
Irritado, ele volta-se para o seu livro e se dá conta que merecia a decepção, pois ele tinha construído um mundo só dele, justo que os outros o destruísse mesmo.
A abelha, que de nada tinha a ver com seus dramas, pousa numa pequena poça de água disposta bem a frente do jovem e enquanto se refrescava, coitada, sente o peso da bota do nosso herói, perdendo assim a capacidade de levantar voo novamente. Sem remorso algum, ele proferiu um foda-se a plenos pulmões e como já estava escurecendo, retornou pra casa não sentindo nada, só aquele vazio costumeiro que todos amargam ao se deparar com as futilidades da vida. 

Surdez




Ah! Se eu pudesse, como Florbela Espanca, condensar o mundo em um só grito.
Se ao menos eu pudesse expressar com palavras
o grito em mim guardado por um sentinela morto de fome.
Se eu pudesse voar num pescoço de um Cisne até Pasárgada.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Grite seu merdinha!
- Estou cansado de tudo isto!
Nada de interessante acontece nesta merda.
Aqui, agora mesmo,
uma formiga, coitada, desconhecendo sua própria força, tenta carregar um pedaço de pizza centenas de vezes maior que ela.
Sendo eu, comeria até encher minha pança, voltaria feliz o e o restante do formigueiro que se explodisse.
Falta nos homens a honra das formigas.
Minha mãe, conhecendo a vida bem mais que eu,
fofoca com meu irmão sobre os relacionamentos dos vizinhos e o dinheiro que eles dão as mocinhas pra conseguir sexo fácil.
"Umas rapariguinhas daquelas! A Madalena, obrigou a filha deixar um homem rico, que lhe dava tudo - e agora namora o próprio tio. Pobre coitada!" 
Juro que essas palavras saem da boca dela enquanto escrevo isto. Eu não quero ouvir, mas sou obrigado!
Se eu pudesse proferir um grito que me tornasse surdo,
Se eu pudesse condensar o universo em um só urro.
Ah, seu eu fosse um leão na África eu deixaria as hienas comer metade dos alces do mundo.
Se eu fosse um tigre, eu correria até a Sibéria só pra morrer de frio.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Se eu pudesse morar num poço sujo e imundo e ninguém me chamasse de louco, juro que iria.
Estou cansado desta merda toda!
Vão tomar no cu, eu não tô ouvindo não! 
Perdi os ouvidos. Diga homi, diga?

terça-feira, 11 de julho de 2017

A morte






Ontem, como em tantas outras noites semelhantes, a morte me apareceu. Diferente do que se apresenta no imaginário das pessoas, ela não é uma dama charmosa com um vestido preto e uma ceifadeira brilhante. Também não ostenta um olhar dissimulado e uma voz sensual que te sussurra poesias ao pé da orelha. Tão pouco é um monstro com mãos gigantes e um olhar penetrante. Não. Ela não é nada disso. A morte é uma mulher gorda trajando unicamente um lençol de cetim. E em vez de uma ceifadeira, ela carrega uma pena de ouro e uma placa de marfim onde esculpe sem destreza as agonias dos últimos suspiros daqueles que têm que ir – e sem entender joças de literatura, julga serem estes relatos a mais fina poesia. 
Ela não tem classe alguma; muito pelo contrário, é estabanada, não consegue chegar de mansinho; já chega fazendo um alvoroço, quebrando os móveis, os vasos de flores, os espelhos. E come o tempo inteiro; seu principal pecado é o da gula. Enquanto ela permanece na poltrona que você batalhou a duras penas pra comprar, se vangloriando da dor que te proporciona; ela se lambuza com os seus sonhos não realizados, com os seus amores não vividos, com os seus sentimentos guardados somente para si, com suas palavras não ditas e tudo o mais que você possa se arrepender. Ela é tão descarada que ainda rir de tudo. E se por acaso, durante este banquete dos deuses, cai uma migalha no assoalho, fato que ocorre sempre, ela, sem o mínimo de compaixão te oferece de volta, tal qual uma criança matreira que oferece um doce ao amigo sem intenção nenhuma de dar. Ela então rir e pergunta: olha esse amor que guardou a vida toda só para si? É uma delícia, mas como você pode saber se nunca lutou por ele. Quer outra oportunidade de vivê-lo, quer? – Então com a gargalhada de um palhaço sem talento, ela responde a própria pergunta. - Não meu querido, já não te resta tempo. Cá estou eu me alimentando da vida que você desperdiçou, e sabe o que eu acho de tudo isso: nada, só estou fazendo o meu trabalho. Então ela levanta-se e deixa que você sinta o cheiro dos abraços nunca dados, dos beijos nunca beijados – e diz como o carrasco que é, que nada nos pertence mais. 
Nos raros momentos que ela não está se alimentando, ela assovia as músicas que ouvíamos na infância somente pra que desenhemos na memória as cores do passado irremediável. 

Talvez sua aparência comum, seu jeito simples sem charme e requinte seja mais uma de suas estratégias pra que se intensifiquem nossas dores ao constatarmos que, apesar do sentimento de eternidade que sempre carregamos, ela seja o que de fato temos em comum uns com os outros. Talvez se eu fosse capaz de decifrar seus enigmas, ela já não tivesse necessidade de voltar quase toda noite. Mas prefiro assim, que ela sempre volte pra eu entender que preciso demais vida. Eu conclui, depois de tantas visitas, que ela se diverte comigo. Talvez já até tenhamos construído certa intimidade uma vez que somos muito parecidos. 

- Ah! Lá está ela de novo usando a minha poltrona do tempo. 

domingo, 2 de julho de 2017

A fuga



A FUGA

Cinco e trinta de uma tarde laranja, um menino de sete anos se direcionava rumo ao horizonte repetindo pra si mesmo que, daquela vez, nunca mais voltaria. Enquanto apreciava o céu, lembrava que um dia lhe disseram que às vezes o céu ficava laranja e vermelho devido à poluição nas grandes cidades. Ele passou então a crer que a poluição talvez não fosse assim tão ruim, porque o céu ficava tão mais bonito colorido. Porém, a beleza das nuvens não era suficiente pra que ele se esquecesse de suas convicções, pois sua mãe, diante de mais uma das suas objeções ao banho, lhe deu alguns puxões de orelha que não lhe doeram o suficiente, de modo que ele resolveu fugir de casa pra nunca mais voltar. Sentir raiva da mãe ele não conseguia, então a única solução era mesmo fugir pra puni-la com sua eterna ausência.

Caminhando, ele alternava o olhar entre o céu e os pés sujos; sentia-se grudento, mas calculava que as vantagens do banho não se equivalia ao sacrifício de se molhar. Chegando ao pé de murici, local onde era o "pra sempre" das suas fugas, ele subiu e se dispôs no galho que mais parecia que tinha sido criado pra sua silhueta, pois encaixava perfeitamente seu corpo franzino deitado. Aquele galho e o chilrear dos grilos ao fim de tarde eram danado pra pô-lo pra refletir: passou a pensar que ele podia encontrar a lâmpada do Aladim e o gênio lhe concedesse o seu maior desejo que era ser adulto, alto e forte. A reação da sua mãe quando o visse adulto seria incrível: "talvez ela nem me reconhecesse". Queria também que os unicórnios existissem, ele montaria em um e ia pra uma grande cidade cheia de poluição, talvez o céu de lá fosse um arco-íris de tão colorido, ele "venceria na vida" então retornaria anos depois rico, assim poderia ajudar sua mãe a realizar alguns sonhos que, embora pequenos, pra ela era tudo; como um piso de cerâmica e uma casa rodeada de muros. Definitivamente ele não conseguia alimentar sentimentos ruins por sua mãe, mas daquela vez, ele estava convicto que realmente não voltaria.

O sol se ia e a escuridão lhe conferia um pouco de realidade, fato que fazia com que os seus sonhos fossem sendo substituídos pelo medo, mas ainda pensava em ficar pra sempre ali, até que o último raio de sol se foi e ele se viu inteiramente sozinho. Já estava demorando demais até que sua mãe gritasse por ele como das outras vezes. Até já sentia fome e suas convicções se desvaneciam com a noite, então se lembrou que no dia anterior ele tinha quatro balas que certamente enganariam a fome naquele momento de adversidade; pôs a mão no bolso e sentiu apenas uma embalagem que certamente era de uma das balas de outrora, então resolveu que iria retirá-la do bolso vagarosamente, pois enquanto ele não concluísse que era só uma embalagem, ele teria no bolso um doce delicioso. Passou a pensar também que talvez se desejasse profundamente, aquela embalagem pudesse voltar no tempo e novamente tornar a ter uma bala dentro: ele fechou os olhos com força retirou a embalagem do bolso, mas ao abrir os olhos lhe foi inevitável à decepção ao se deparar com a embalagem vazia, porém ainda cheio de esperança, pensou que talvez aquele plástico resguardasse um pouco do doce do passado, mas ao colocar na boca, constatou decepcionado que só tinha mesmo gosto de plástico. Triste, ele concluiu que definitivamente a vida não era um conto de fadas. Nisto, ele ouviu a voz da mãe lhe chamando pra jantar, fato que o fez experimentar o que poderia se chamar de a mágica felicidade de ter pra onde voltar.