domingo, 2 de julho de 2017

A fuga



A FUGA

Cinco e trinta de uma tarde laranja, um menino de sete anos se direcionava rumo ao horizonte repetindo pra si mesmo que, daquela vez, nunca mais voltaria. Enquanto apreciava o céu, lembrava que um dia lhe disseram que às vezes o céu ficava laranja e vermelho devido à poluição nas grandes cidades. Ele passou então a crer que a poluição talvez não fosse assim tão ruim, porque o céu ficava tão mais bonito colorido. Porém, a beleza das nuvens não era suficiente pra que ele se esquecesse de suas convicções, pois sua mãe, diante de mais uma das suas objeções ao banho, lhe deu alguns puxões de orelha que não lhe doeram o suficiente, de modo que ele resolveu fugir de casa pra nunca mais voltar. Sentir raiva da mãe ele não conseguia, então a única solução era mesmo fugir pra puni-la com sua eterna ausência.

Caminhando, ele alternava o olhar entre o céu e os pés sujos; sentia-se grudento, mas calculava que as vantagens do banho não se equivalia ao sacrifício de se molhar. Chegando ao pé de murici, local onde era o "pra sempre" das suas fugas, ele subiu e se dispôs no galho que mais parecia que tinha sido criado pra sua silhueta, pois encaixava perfeitamente seu corpo franzino deitado. Aquele galho e o chilrear dos grilos ao fim de tarde eram danado pra pô-lo pra refletir: passou a pensar que ele podia encontrar a lâmpada do Aladim e o gênio lhe concedesse o seu maior desejo que era ser adulto, alto e forte. A reação da sua mãe quando o visse adulto seria incrível: "talvez ela nem me reconhecesse". Queria também que os unicórnios existissem, ele montaria em um e ia pra uma grande cidade cheia de poluição, talvez o céu de lá fosse um arco-íris de tão colorido, ele "venceria na vida" então retornaria anos depois rico, assim poderia ajudar sua mãe a realizar alguns sonhos que, embora pequenos, pra ela era tudo; como um piso de cerâmica e uma casa rodeada de muros. Definitivamente ele não conseguia alimentar sentimentos ruins por sua mãe, mas daquela vez, ele estava convicto que realmente não voltaria.

O sol se ia e a escuridão lhe conferia um pouco de realidade, fato que fazia com que os seus sonhos fossem sendo substituídos pelo medo, mas ainda pensava em ficar pra sempre ali, até que o último raio de sol se foi e ele se viu inteiramente sozinho. Já estava demorando demais até que sua mãe gritasse por ele como das outras vezes. Até já sentia fome e suas convicções se desvaneciam com a noite, então se lembrou que no dia anterior ele tinha quatro balas que certamente enganariam a fome naquele momento de adversidade; pôs a mão no bolso e sentiu apenas uma embalagem que certamente era de uma das balas de outrora, então resolveu que iria retirá-la do bolso vagarosamente, pois enquanto ele não concluísse que era só uma embalagem, ele teria no bolso um doce delicioso. Passou a pensar também que talvez se desejasse profundamente, aquela embalagem pudesse voltar no tempo e novamente tornar a ter uma bala dentro: ele fechou os olhos com força retirou a embalagem do bolso, mas ao abrir os olhos lhe foi inevitável à decepção ao se deparar com a embalagem vazia, porém ainda cheio de esperança, pensou que talvez aquele plástico resguardasse um pouco do doce do passado, mas ao colocar na boca, constatou decepcionado que só tinha mesmo gosto de plástico. Triste, ele concluiu que definitivamente a vida não era um conto de fadas. Nisto, ele ouviu a voz da mãe lhe chamando pra jantar, fato que o fez experimentar o que poderia se chamar de a mágica felicidade de ter pra onde voltar. 

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