quarta-feira, 12 de julho de 2017

O homem que se derretia





Em tempos de guerra, talvez ele fosse um herói, salvasse moças indefesas, construísse abrigos e assaltasse trens carregados de ouro, mas diante da normalidade do seu cotidiano, ele não passava de um pobre homem que, aos sábados, a fim de fugir de qualquer coisa que ele não sabia bem o que era se direcionava ao parque da cidade pra ver o sol. Por alguma razão, ele sentia que tinha vindo de outro mundo, pois era ele um ser demasiadamente sensível às dores alheias, no entanto, tinha como certo que toda dor do mundo lhe era justa. Não podia ver uma abelha se afogando numa poça d’água, que ele tomava para si a responsabilidade de salvá-la, ainda que esta o agradecesse deixando-lhe o ferrão preso no seu dedão. Se notasse na rua uma mãe segurando a mão de um filho maltrapilho, as lágrimas lhe vinham com a vazão de uma cachoeira. Talvez suas roupas não fossem tão melhores que a do garotinho, mas sentia que, ele sim, merecia não trajar mais que trapos, mas aquele garotinho, não havia feito nada pra merecer tão pouco. Se por ventura se deparasse com uma senhora a jogar migalhas de pães aos pombos, ele constatava que precisava, por força, se metamorfosear em um pombo, pois eles sequer agradeciam o gesto - e se pudessem ainda defecariam na cabeça da doce senhora. Em suma, ele tomava para si a dura empreitada de concertar o mundo. 

Numa tarde, se dirigindo ao parque, ele notou uma garota com o andar estranhamente lindo. Ele tinha o costume de observar o jeito de andar das pessoas, principalmente das mulheres. Segundo sua teoria, podia-se se descobrir muito pelo jeito de andar de uma mulher; se era calma, sensata, estourada, inteligente, se era prática ou teoria, se era sonhos ou realidade. Podia supor a idade, se era filha de mãe solteira, se tinha uma família estruturada ou conturbada, se namorava ou não - e tudo com uma margem de erro bem baixa. Segundo ele, as pessoas seguem padrões, logo, basta um pouco de sensibilidade pra percebê-los.

Chegando ao parque, a garota de andar estranhamente lindo sentou-se em banco próximo de qualquer coisa bela. Nosso herói acomodou-se noutro banco imediatamente em frente, tomou o livro do dia, começou ler, mas depois da terceira linha não resistiu e passou a observar a garota notando nela qualquer coisa de arte. Os raios de sol de quase cinco da tarde lhe conferia uma cor só vista por ele antes nas pinturas de Edward Hooper. Uma abelha, aproveitando a baixa temperatura, polinizava as flores do lado dela, a moça sem nome de pele clara e cabelos negros. Se ele pudesse parar o tempo só para ele e para ela, deixaria que as gramas crescessem em volta do banco juntamente com as flores de modo que a natureza rústica envolvesse a garota lhe deixando selvagemente bela. Definitivamente vemos o mundo como somos e não como ele é.

Depois de 19 minutos em que ele vivia uma pintura desenhada pelos deuses do sol, aproxima-se um jovem vistoso, beija a garota - e de mãos dadas se vão pra qualquer lugar pra longe do sol.
Aquele jovem, decepcionado, se depara com uma certeza dilacerante: suas teorias sobre tudo estavam tão certas quanto a terra era quadrada.
Irritado, ele volta-se para o seu livro e se dá conta que merecia a decepção, pois ele tinha construído um mundo só dele, justo que os outros o destruísse mesmo.
A abelha, que de nada tinha a ver com seus dramas, pousa numa pequena poça de água disposta bem a frente do jovem e enquanto se refrescava, coitada, sente o peso da bota do nosso herói, perdendo assim a capacidade de levantar voo novamente. Sem remorso algum, ele proferiu um foda-se a plenos pulmões e como já estava escurecendo, retornou pra casa não sentindo nada, só aquele vazio costumeiro que todos amargam ao se deparar com as futilidades da vida. 

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